Ao contrário do que ocorreu em todas as recentes celebrações oficiais na China, o céu de Pequim não amanheceu azul para a festa de 90 anos do Partido Comunista. Em meio a um denso fog, 30 mil pessoas se reuniram na praça Tiananmen para participar de cerimônia de hasteamento da bandeira chinesa às 4h48 de hoje _horário em que amanhece no verão de Pequim. A reunião não foi espontânea e os 30 mil participantes vieram de diferentes partes do país em caravanas organizadas pelo Partido. No paranoico ambiente político chinês, há pouco espaço para espontaneidade, mesmo para celebrar o governo.
Por volta das 8h, o fog deu lugar a uma forte chuva, justamente no momento em que os jornalistas chegavam na praça Tiananmen, que já estava totalmente vazia, sem vestígio da multidão que havia assistido ao hasteamento da bandeira. A cerimônia oficial de celebração do aniversário ocorreu no Grande Palácio do Povo, local onde o Partido realiza seus congressos, onde se reúne o Congresso Nacional do Povo e no qual Hu Jintao recebe visitantes estrangeiros, como o caso da presidente Dilma Rousseff em abril.
Eu já cobri cinco reuniões anuais do Congresso Nacional do Povo e um Congresso do Partido, que ocorre a cada cinco anos. E, ontem, vi a celebração dos 90 anos da organização. Em nenhuma delas houve espaço para espontaneidade ou improvisação. Tudo é milimetricamente coreografado, incluindo a ordem com que as lideranças entram no plenário e a performance das moças que servem o chá. Os aplausos vêm na hora certa e não há arroubos da plateia como “longa vida ao Partido” ou “iao iao iao, Hu Jintao, Hu Jintao”.
A única surpresa foi a ausência na mesa de autoridades do ex-presidente e ex-secretário-geral do Partido Jiang Zemin, que transferiu o poder a Hu Jintao em 2002. Com a típica falta de transparência que cerca a cúpula do Partido, nenhuma explicação foi apresentada _pelo menos não até o fim da tarde desta sexta-feira. E claro que isso deu margem a uma série de especulações. Mas segundo reportagem veiculada no sábado pela Phoenix TV, de Hong Kong, Jiang Zemin, 84, está doente desde o início do ano.
No mais, a cerimônia seguiu o script clássico, com um longo discurso de Hu Jintao (1h15), no qual ele usou superlativos como “brilhante”, “heroico”, “triunfante” e “glorioso” para se referir à trajetória do Partido Comunista nos últimos 90 anos. E antes de irem para casa, os camaradas tiveram um momento de nostalgia com execução da Internacional Socialista pela banda do Exército de Libertação Popular.
O governo chinês se dispôs pela primeira vez a pagar indenização à família de uma pessoa morta na repressão aos protestos pró-democracia da praça Tiananmen, que completará 22 anos no dia 4 de junho, segundo carta assinada por 127 mães de vítimas do massacre. Segundo o grupo, a oferta foi rejeitada por ter sido realizada de maneira secreta _durante visita à família de representantes do departamento de segurança pública_ e por ignorar reivindicações de esclarecimento das circunstâncias em que as mortes ocorreram.
“Os visitantes não falaram sobre divulgar a verdade, realizar investigações judiciais ou dar explicações sobre o caso de cada vítima. Em vez disso, eles apenas levantaram a questão de quanto pagar, enfatizando que isso se aplicava àquele caso individual e não ao grupo de famílias como um todo”, escrevem as mãe no documento.
A carta observa que as repetidas tentativas de diálogo dos últimos anos foram ignoradas pelas autoridades. “Neste ano, o silêncio finalmente foi quebrado. Isso deveria ser celebrado. Mas o que essa tardia resposta significa? Se as autoridades querem simplesmente resolver a questão do Quatro de Junho com dinheiro e por baixo da mesa, que tipo de resultados isso pode produzir?”, perguntam.
Os protestos de 1989 na praça Tiananmen representaram o maior desafio ao Partido Comunista desde sua chegada ao poder, em 1949. O catalisador do movimento foi a morte de Hu Yaobang, um líder reformista que havia caído em desgraça pela suspeita de apoiar movimentos pró-democracia três anos antes.
Logo depois de sua morte, no dia 15 de abril de 1989, milhares de pessoas ocuparam a praça que está no coração político de Pequim para homenageá-lo. Em poucos dias, o movimento canalizou reivindicações por democracia, fim da corrupção e melhores condições de ensino.
Os estudantes assumiram o comando dos protestos e acamparam durante semanas em Tiananmen, com apoio da população da capital chinesa. Inúmeras tentativas de desocupar a praça foram fracassadas, até a noite de 3 para 4 de junho, quando tropas do Exército fieis a Deng Xiaoping entraram na cidade dispostas a esmagar qualquer barreira que encontrassem.
O assunto é tratado como um tabu pelo governo e a imprensa chinesa, que se referem ao massacre como “incidente de 4 de junho”. Não há um número oficial de mortos, mas a Anistia Internacional estima que ele é próximo de mil. As Mães da Praça Tiananmen dizem ter documentado 203 casos, mas ressaltam que há outras vítimas não identificadas.
O governo chinês considera os protestos pró-democracia de 1989 um movimento subversivo, que teria o objetivo de derrubar o regime comandado pelo Partido Comunista. Os dirigentes que de alguma forma demonstraram simpatia pelos estudantes caíram em desgraça. Entre eles, o então secretário-geral Zhao Ziyang, que foi à praça conversar com os estudantes e disse que havia chegado tarde demais. Afastado do cargo, ele passou os últimos 15 anos de sua vida em prisão domiciliar.
Os dias que antecedem os aniversários das manifestações na praça Tiananmen são sempre períodos tensos, nos quais as autoridades de Pequim aumentam a censura e colocam críticos do governo em prisão domiciliar ou sob permanente vigilância policial.
Neste ano, a data coincide com a maior onda de repressão em pelo menos uma década, que levou à prisão de dezenas de pessoas, entre o artista plástico Ai Wei Wei e advogados que atuam na defesa de direitos civis.
O estopim desta vez foram mensagens anônimas que circularam na internet propondo a realização na China de manifestações semelhantes às que derrubaram regimes autoritários em países muçulmanos desde o início do ano. Os protestos nunca chegaram a ocorrer.
Não há nenhum indício de que a China esteja prestes a experimentar algo semelhante ao que ocorre no Egito, mas os dirigentes comunistas não parecem estar tão seguros disso. A censura bloqueou o uso das palavras “Egito” e “Cairo” em posts e fóruns de discussão na internet e as notícias sobre a rebelião popular foram cuidadosamente editadas pela agência oficial Xinhua, cujos textos foram reproduzidos pela imprensa do país.
Principal tema dos jornais de quase todo o mundo, os protestos no Egito foram tratados de maneira discreta nas publicações chinesas e poucas vezes chegaram às primeiras páginas. O foco não eram as causas da insatisfação, mas o caos social e econômico provocado pela tomada das ruas pelos egípicios.
Os dirigentes chineses vivem assombrados pelo fantasma dos protestos na Praça Tiananmen, em 1989, que terminou em um sangrento massacre por tanques do Exército, no qual centenas de pessoas morreram. O paralelo se tornou especialmente constrangedor ontem, depois que o Exército egípicio anunciou que não reprimiria a marcha de um milhão na Praça Tahrir.
Depois das décadas de tumulto vividas com a Revolução Comunista (1949) e a Revolução Cultural (1967-1977) os chineses passaram a temer o caos de maneira especial e a cobertura dos protestos no Egito explora esse aspecto da psique nacional. O texto da Xinhua reproduzido ontem pela imprensa chinesa dá mais espaço para os egípicos que reclamam da desordem do que para os manifestantes que pedem a renúncia de Hosni Mubarak.
E no sábado, o jornal “Global Times”, ligado ao Partido Comunista, trouxe editorial com o título “Revoluções coloridas não trarão democracia verdadeira”. O texto fala das diferenças entre países ocidentais e grande parte da Ásia e da África para justificar a não-adoção da democracia representativa. “Em geral, a democracia tem um forte apelo em razão dos modelos bem sucedidos do ocidente. Mas se esse sistema pode ser aplicado a outros países é uma questão em aberto, na medida em que mais e mais exemplos de fracasso emergem.”
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