O governo chinês condenou ontem um ativista pró-democracia a 10 anos de prisão sob acusação de “subversão do poder do Estado”, no terceiro caso semelhante em menos de um mês. O cerco de Pequim aos dissidentes se intensificou a partir de fevereiro de 2011, em resposta a tentativas fracassadas de realização de protestos inspirados na Revolução do Jasmim que derrubou ditadores no mundo árabe.
“As autoridades estão usando essas penas severas para mandar uma mensagem aos ativistas de que eles serão punidos se defenderem reformas democráticas”, disse Wang Songliang, do Chinese Human Rights Defenders (CHRD), entidade com sede em Hong Kong.
A decisão de ontem foi proferida pela Corte Popular Intermediária de Wuhan, capital da província central de Hubei, e atingiu o escritor Li Tie. Segundo informações dadas por sua família ao CHRD, as evidências apresentadas no julgamento foram artigos críticos ao governo, a participação em discussões promovidas na internet por sites “reacionários”, comentários “reacionários” em encontros com amigos e a filiação ao Partido Democrático Social da China.
No dia 23 de dezembro, o dissidente Chen Wei foi condenado a 9 anos de prisão sob acusação de “incitamento à subversão” na província de Sichuan, no centro-oeste do país, em razão de quatro artigos em defesa de reformas democráticas que divulgou na internet. Três dias mais tarde, uma corte na província de Guizhou, no sudoeste, sentenciou o ativista Chen Xi a 10 anos de prisão, sob a mesma acusação.
Ambos os Chen _que não têm relação de parentesco_ participaram dos protestos na praça Tiananmen em 1989 e foram signatários da Carta 08, o documento em defesa de reformas democráticas divulgado em dezembro de 2008.
O principal mentor da Carta 08, Liu Xiaobo, venceu o Prêmio Nobel da Paz de 2010 e cumpre desde dezembro de 2009 pena de 11 anos de prisão.
Os três dissidentes condenados nas últimas semanas se declararam inocentes e ressaltaram que a Constituição chinesa garante a liberdade de expressão. “Não é um bom momento para ser um ativista na China”, lamentou Wang, do CHRD.
Na quarta-feira, o escritor chinês Yu Jie afirmou em entrevista coletiva em Washington que foi torturado sob custódia policial no período de entrega do Prêmio Nobel da Paz a seu amigo Liu Xiaobo, em dezembro de 2010.
Autor de “O Melhor Ator da China: Wen Jiabao”, no qual ataca o primeiro-ministro do país, Yu Jie se autoexilou nos Estados Unidos no dia 11 de janeiro, depois de uma longa negociação com as autoridades de Pequim para ter autorização de deixar o país.
A onda de protestos contra regimes autoritários no mundo árabe e a tentativa anônima e fracassada de replicá-los na China levou o governo de Pequim a promover a maior onda de repressão a ativistas políticos e críticos do governo de anos recentes.
Desde o mês passado, pelo menos oito pessoas foram presas e acusadas de subversão ou incitamento à subversão, um dos mais graves crimes políticos do país, segundo levantamento realizado pelo Chinese Human Rights Defenders, entidade com sede em Hong Kong. Outras duas estão detidas à espera de apresentação de denúncia contra elas.
Além desse grupo, três advogados que atuam na área de direitos humanos estão desaparecidos, depois de terem sido levados de suas casas pela polícia pouco antes do dia 20 fevereiro, data escolhida pela convocação anônima para a primeira tentativa de protesto contra o governo.
Não se sabe qual a origem da mensagem em defesa da manifestação, que começou a circular em um site mantido por dissidentes nos Estados Unidos e propõe demonstrações todas as tardes de domingo em 35 cidades chinesas.
Nos últimos três domingos, a polícia ocupou os locais apontados nas convocações e nenhuma demonstração significativa ocorreu.
“Esse é o mais sério movimento de repressão a ativistas políticos na China desde que começamos a fazer levantamentos dos casos de violação dos direitos humanos, há cinco anos”, disse ao Estado Wang Songlian, diretora do Chinese Human Rights Defenders.
Com militância de mais de uma década como advogado especializado em direitos humanos, Xu Zhiyong afirmou que nunca viu uma onda de repressão tão severa contra ativistas como a atual. A mesma opinião é compartilhada por Liang Xiaojun, defensor de um dos advogados que estão desaparecidos, Jiang Tianyong, que atuou em vários casos de perseguição religiosa. Os outros dois advogados são Tang Jitian e Teng Biao, que frequentemente lança mão da própria legislação chinesa para defender suas posições, quase sempre sem sucesso.
Na avaliação de Wang Songlian, a situação atual é bem mais grave que a da Olimpíada de 2008, quando a paranóia das autoridades chinesas em relação à segurança estava no auge. Também supera a perseguição que ocorreu em dezembro daquele ano, quando 303 intelectuais e ativistas chineses assinaram a Carta 08, documento em defesa de reformas democráticas e do fim do regime de partido único.
O idealizador do manifesto foi Liu Xiaobo, o vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2010. Preso em 2008, ele foi condenado no ano seguinte a 11 anos de prisão sob acusação de subversão. A onda atual ultrapassa ainda a registrada entre outubro e dezembro do ano passado, período de anúncio da escolha do ativista chinês para o Nobel da Paz e da entrega do prêmio. Naquela época, houve detenções temporárias de ativistas, mas não se registrou nenhum caso de acusação de subversão, observou Wang Songlian.
O porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Philip Crowley, declarou na terça-feira que o governo de Washington manifestou às autoridades de Pequim “apreensão” em relação ao desaparecimento de ativistas e advogados de direitos humanos.
Segundo ele, a administração de Barack Obama está preocupada com a utilização de “punições extralegais” na China, eufemismo para prisões realizadas sem base na lei ou com origem em medidas judiciais.
O governo de Pequim também intensificou o controle sobre os correspondentes estrangeiros que atuam no país. Dezenas de jornalistas foram convocados para interrogatórios nas últimas duas semanas e receberam ameaças de cancelamento de seus vistos caso escrevessem sobre a tentativa de promover uma Revolução do Jasmim na China _entre eles, estava a correspondente do Estado em Pequim.
Regras mais liberais para atuação de correspondentes aprovadas na época da Olimpíada de 2008 foram suspensas. Entre as restrições restabelecidas está a exigência de autorização prévia das autoridades para a realização de entrevistas em locais públicos.
A polícia lançou mão de medidas mais concretas de intimidação, com o espancamento de um jornalista da Bloomberg no domingo retrasado e detenções provisórias de vários outros, muitas vezes com o uso de violência.
A paranoia que tomou conta das autoridades de Pequim depois que mensagens anônimas na internet convocaram manifestações contra o governo levou a polícia a intimar nos últimos dias quase 30 correspondentes estrangeiros para interrogatórios que pareciam sessões de intimidação.
Ontem à noite foi a minha vez. Todos os encontros ocorrem no departamento responsável pela concessão de vistos aos jornalistas, a maioria dos quais foi alertada de que poderão ter sua autorização de trabalho revogada caso não respeitem as regras do país. No meu caso, a advertência foi feita logo no começo da conversa.
O que provocou as ameaças foi a presença dos correspondentes no domingo na Wangfujing, uma das principais ruas comerciais de Pequim, apontada pela convocação anônima como local do protesto _que não chegou a ocorrer. No domingo anterior, praticamente todos que escreveram sobre o assunto disseram que havia mais policiais e jornalistas no lugar do que manifestantes. Provavelmente o tom seria o mesmo na cobertura da segunda tentativa de mobilização e logo o assunto seria esquecido.
Mas a ocupação da área por um imenso aparato de segurança e a agressão a jornalistas que tentavam realizar seu trabalho acabaram se transformando na principal notícia no domingo. O policial com quem me “reuni” ontem afirmou no meio da conversa que algo semelhante à Revolução do Jasmim que varre o mundo árabe jamais acontecerá na China, onde o povo ama o Partido Comunista e está extremamente satisfeito. A questão é: se o governo está tão seguro disso, por que reprimir de maneira tão violenta algo que nem chegou a ocorrer?
No fim do encontro, o policial pediu que eu assinasse um documento dizendo que nunca mais escreveria sobre a Revolução do Jasmim chinesa (que até agora não aconteceu…). Eu me recusei. Ele pediu então que eu prometesse verbalmente não escrever mais sobre o assunto, o que também recusei. Depois disso o encontro foi encerrado, com o policial dizendo que havia dado o seu recado: se eu voltar a descumprir as regras, meu visto será cancelado.
O problema é que na China não há clareza sobre o que é proibido ou permitido e a fronteira muda constantemente, de acordo com os interesses do governo. Isso não se aplica só aos correspondentes estrangeiros, mas também aos cidadãos do país. Em tese, os jornalistas podem desde 2008 visitar qualquer lugar _com exceção do Tibete_ e entrevistar qualquer pessoa que concorde em dar declarações. Não é necessário pedir autorização prévia de ninguém, segundo norma aprovada pelo Conselho de Estado da China alguns meses antes da Olimpíada de Pequim.
Com o interesse em torno da Wangfujing, o governo lançou mão de uma regulamentação da administração da região, segundo a qual atividades jornalísticas só podem ser realizadas no local mediante autorização. Nenhum correspondente havia sido informado previamente da exigência, que tem data de 1º de janeiro de 2011. Além disso, é absurdo imaginar que a orientação de administradores regionais de Pequim se sobreponha a uma determinação do Conselho de Estado…Mas o governo tem um instrumento na mão para dar um tosco verniz de legalidade à sua exigência de que os jornalistas não pisem na Wangfujing nos domingos _a mensagem anônima convoca demonstrações semanais por tempo indeterminado.
Xie Qingdong, do Departamento de Administração e Construção da Wangfujing, disse à agência de notícias Reuters que a restrição existe desde 2000, mas só foi escrita há dois meses. “As regras não eram muito específicas, por isso nós as atualizamos. Nós sempre pedimos que as pessoas pedissem permissão antes de realizar reportagens. Isso não estava escrito de maneira tão específica antes.”
A desproporcional reação do governo chinês contra protestos que nem chegaram a ocorrer explicita o nervosismo do governo autoritário de Pequim com a possibilidade de enfrentar manifestações semelhantes às que derrubam regimes no mundo árabe, ainda que não haja nenhuma indicação de que isso possa ocorrer no país.
A tática de repressão preventiva também deixa claro que o Partido Comunista não permitirá o surgimento de nenhum movimento ou organização que questione seus métodos ou exerça qualquer tipo de crítica a seu monopólio do poder. Pluraridade partidária e alternância no poder são conceitos inexistentes no vocabulário de Pequim.
A convocação anônima de protestos em várias cidades chinesas em todas as tardes de domingo a partir de 20 de fevereiro serviu como pretexto para o regime fechar o cerco aos que ousam defender publicamente reformas políticas, liberdade de expressão e o Estado de Direito.
Pelo menos cinco intelectuais e advogados que atuam na área de direitos humanos foram presos há cerca de dez dias e alguns deles já foram acusados de subversão, o que invariavelmente termina com a condenação à prisão. Outras três pessoas sem históricos de ativismo político foram presas e acusadas do mesmo crime por terem “retwittado” a mensagem que convocava para os protestos dominicais.
O irônico é que muitas das demandas dos defensores do protesto coincidem com o que o próprio partido promete. Os líderes chineses sustentam que sua intenção é construir um Estado de Direito, no qual governantes estejam tão sujeitos ao império da lei quanto os cidadãos comuns. Mas o fato é que o Partido Comunista está acima da lei e é difícil imaginar uma mudança nesse cenário sem o poder fiscalizador exercido pela oposição ou por um regime de pesos e contrapesos decorrente da separação de Poderes, algo abominado pelos dirigentes chineses.
As autoridades chinesas lançaram mão de artilharia pesada para bloquear a segunda tentativa de organização de protesto contra o governo convocada anonimamente pela internet. Centenas de policiais uniformizados e à paisana ocuparam hoje a área ao redor do ponto de encontro da manifestação em Pequim, onde no fim da semana surgiu um inesperado canteiro de obras.
Até limpadores de rua armados de vassouras foram mobilizados para literalmente “varrer” os que conversavam em pequenos grupos, com o objetivo de evitar aglomerações. Em alguns momentos, a violência imperou: jornalistas foram presos e um correspondente da Bloomberg foi espancado por quatro policiais à paisana.
O primeiro-ministro Wen Jiabao também entrou em campo para sufocar o protesto antes que ele nascesse e realizou um chat de duas horas com internautas do país, no qual prometeu combater a inflação e a alta do preço dos imóveis, dois dos principais focos de insatisfação no país.
O local escolhido pelos autores da convocação era o mesmo do protesto fracassado do domingo anterior: o calçadão em frente à loja do McDonald´s da Wangfujing, uma das mais movimentadas ruas de comércio de Pequim, localizada a pouco mais de um quilômetro da Praça Tiananmen.
Vários policiais à paisana estavam dentro e na frente do McDonald´s no início da tarde, fotografando e filmando os que passavam pelo lugar. Às 14h, horário marcado para a manifestação, a porta principal da loja foi fechada e varredores e policiais entraram em ação para impedir aglomerações do lado de fora.
Vários jornalistas estrangeiros tiveram que apresentar identificação em barreiras policiais nas ruas de acesso à Wangfujing. No sábado, os correspondentes receberam telefonemas de funcionários do governo alertando-os de que deveriam obedecer à regulamentação sobre a atuação de jornalistas estrangeiros no país, apesar de não haver nela nada que impeça a cobertura de eventos em locais públicos e a realização de entrevistas com o consentimento do entrevistado.
Era impossível saber quem estava na Wangfujing com a intenção de participar da manifestação e quem apenas passeava no domingo de inverno. Pouco depois das 14h30, a polícia bloqueou várias ruas de acesso ao local, evacuou a rua e determinou o fechamento dos shoppings centers e lojas, onde turistas e visitantes ficaram presos enquanto a tropa de choque marchava do lado de fora. O movimento voltou ao normal logo em seguida.
A polícia também ocupou a região de Xangai apontada como local de manifestação pela convocação anônima, que começou a circular em um site mantido por dissidentes chineses nos Estados Unidos. Segundo agências de notícias internacionais, pelo menos sete pessoas foram presas na cidade que é a mais rica da China.
As revoltas que derrubaram regimes autoritários no mundo árabe deixaram os líderes comunistas chineses em alerta contra qualquer movimento de contestação dentro do país.
As notícias sobre os movimentos na Tunísia, Egito e Líbia são controladas pelo governo e há censura sobre fóruns e microblogs que tentam discutir o assunto. Várias palavras relacionadas às rebeliões estão bloqueadas na internet, entre elas “jasmim”, nome de um dos mais populares chás da China. No sábado, a censura bloqueou o uso da palavra “amanhã” e hoje, a da palavra “hoje”.
Antes da primeira tentativa de protestos no domingo retrasado, o governo prendeu ou colocou sob vigilância policial cerca de 100 ativistas. Pelo menos cinco deles continuam detidos. Na semana passada, três pessoas foram acusadas de subversão por terem retransmitido a mensagem de convocação para a manifestação.
O nome em chinês do embaixador dos Estados Unidos na China, Jon Huntsman, foi bloqueado ontem na internet pelos censores do país, depois que um vídeo veiculado online mostrou o representante norte-americano no ponto de encontro de uma fracassada manifestação contra o governo convocada para o último domingo.
O governo também bloqueou ontem o Linkedin, que passou a ser inacessível como Facebook, Twitter e Youtube. Apreensivas com o que ocorre no mundo árabe, as autoridades de Pequim não quer dar nenhum espaço para os críticos do governo se organizarem.
No vídeo, Huntsman aparece de óculos escuros observando o grupo de pessoas que estava em frente à loja do McDonald´s na Wangfujing, uma das principais e mais movimentadas ruas comerciais da capital. A embaixada norte-americana afirmou que sua presença no local no horário convocado para o protesto foi uma coincidência e que Huntsman estava com sua família quando parou para ver o que estava acontecendo.
O governo chinês acusou de subversão pelo menos três pessoas que retransmitiram na internet a convocação para o fracassado protesto, segundo o Centro para Direitos Humanos e Democracia, com sede em Hong Kong.
O movimento é anônimo e a primeira mensagem foi colocada no site Boxun.com, baseado nos Estados Unidos, que reúne dissidentes e críticos do Partido Comunista. Os responsáveis pelo chamado gostariam de criar uma versão chinesa da “Revolução do Jasmim” que derruba regimes autoritários no mundo árabe.
Subversão é o crime do qual os dissidentes chineses costumam ser acusados e foi o que levou o vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2010, Liu Xiaobo, a receber uma pena de 11 anos de prisão.
Na terça-feira, o mesmo grupo anônimo divulgou um novo manifesto, no qual convoca demonstrações para todos os domingos, às 14h, em 18 grandes cidades do país, incluindo Pequim e Xangai. O texto conclama os chineses a protestar contra corrupção, desigualdade, falta de seguridade social, má utilização do dinheiro público, inflação e ausência de supervisão popular sobre o Estado.
O vídeo que mostra Huntsman no local da manifestação foi colocado no Youtube _bloqueado na China_ e no site nacionalista M4.cn. O embaixador é abordado por um chinês, que questiona sua presença no local e pergunta se ele quer ver a China mergulhada no caos. Huntsman, que fala mandarim fluentemente, responde que não e deixa o local escoltado por dois seguranças quando o chinês começa a dizer para os que estão ao redor que aquele homem é o embaixador dos Estados Unidos na China.
A presença de Huntsman no local fortaleceu o argumento de setores do Partido Comunista que acusam o Ocidente _em especial os Estados Unidos_ de interferência indevida em assuntos internos do país.
O vídeo colocado no M4.cn termina com uma declaração de princípios: “Nós não queremos ser outro Iraque! Nós não queremos ser outra Tunísia! Nem outro Egito! Se a nação mergulhar no caso, os Estados Unidos e esses “reformistas” vão colocar comida na mesa de 1,3 bilhão de chineses?”
Huntsman anunciou sua renúncia ao cargo de embaixador na China no dia 31 de janeiro. Ex-governador de Utah, ele deixará o posto em abril e deverá disputar a indicação do Partido Republicano para a candidatura à presidência contra seu atual chefe, Barack Obama.
Apesar de não haver indícios de que o país poderá viver algo semelhante às manifestações do mundo árabe, as autoridades de Pequim reagiram com mão pesada para impedir qualquer tipo de demonstração.
No fim de semana, o governo prendeu ou colocou sob vigilância policial cerca de 100 ativistas. O controle da internet se intensificou e palavras relacionadas às manifestações no mundo árabe estão bloqueadas. “Jasmim”, nome de um dos mais populares chás do país, não pode ser escrito em microblogs e até o nome de uma cantora que gravou uma canção com esse título estava bloqueado.
O governo chinês aumentou a repressão a críticos do Partido Comunista, ao mesmo tempo em que mensagem anônima divulgada na internet convocou protestos semanais em grandes cidades do país, em uma tentativa de promover uma versão local da “Revolução do Jasmim” que varre o mundo árabe.
Pelo menos cinco ativistas detidos no fim de semana continuavam desaparecidos ontem, sem apresentação formal de qualquer acusação pela polícia. A família de outro crítico do governo preso no domingo, Chen Wei, foi comunicada na terça-feira de que ele responderá pela suspeita de “incitamento à subversão”, segundo a agência de notícias Reuters.
O manifesto anônimo que começou a circular na terça-feira convoca manifestações para todos os domingos, às 14h, em 13 grandes cidades do país, incluindo Pequim e Xangai. Os autores conclamam os chineses a protestar contra corrupção, desigualdade, falta de seguridade social, má utilização do dinheiro público, inflação e ausência de supervisão popular sobre o Estado.
Quase todas essas questões encontram eco entre os chineses, que estão insatisfeitos com o aumento de preços, o alto custo dos serviços médicos e os inúmeros casos de corrupção no país.
Mas não há nenhum indício de que exista na população a disposição de contestar o regime vista no mundo árabe. Além disso, a censura chinesa bloqueia o uso de todas as ferramentas que permitiram a organização dos manifestantes no Egito: Facebook, Twitter e Youtube.
A primeira tentativa de promoção de protestos na China fracassou no domingo. Colocada em um site nos Estados Unidos, a convocação circulou no Twitter e foi vista pelos poucos dentro da China que usam ferramentas para burlar a censura imposta por Pequim.
O governo agiu preventivamente e prendeu ou colocou sob vigilância policial cerca de 100 ativistas. Entre eles, estão as cinco pessoas que continuavam desaparecidas ontem, de acordo com levantamento da entidade Chinese Human Rights Defenders.
O controle da internet aumentou nos últimos dias e palavras relacionadas às manifestações no mundo árabe estão bloqueadas. “Jasmim”, nome de um dos mais populares chás do país, não pode ser escrito em microblogs e até o nome de uma cantora que gravou uma canção com esse título estava bloqueado.
A entidade Human Rights Watch divulgou nota ontem na qual exigiu a imediata libertação dos advogados Tang Jitian, Teng Biao e Jiang Tianyong, detidos no fim de semana. A entidade também protestou contra a prisão domiciliar imposta ao ativista cego Chen Guangcheng e a Liu Xia, mulher do ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2010, Liu Xiaobo. Ambos estão há meses confinados em suas casas, sem comunicação com o mundo exterior.
Em todos esses casos, as detenções são arbitrárias e contrariam a legislação internacional e chinesa, ressalta a Human Rights Watch. “Nos termos da lei chinesa, a polícia deve noticiar os parentes de qualquer pessoa presa no prazo de dois dias. Não há nenhum estatuto legal que preveja a prisão domiciliar indefinida”, diz a nota da entidade.
Chen Guangcheng cumpriu em setembro de 2010 uma pena de quatro anos e três meses de prisão, mas desde sua libertação ele e a família estão sob estrita vigilância policial. Apesar de não ser acusada de nenhum crime, Liu Xia está confinada em seu apartamento em Pequim desde que o marido ganhou o Nobel da Paz, em outubro.
Sob o impacto da sucessão de revoltas contra regimes autoritários no mundo árabe, um dirigente do Partido Comunista chinês afirmou ontem que o governo de Pequim enfrenta um período turbulento de instabilidade doméstica, agravado pela atuação de “forças ocidentais hostis” que tentam interferir em assuntos internos da China e dividir o país.
Desde o fim da semana passada, vários líderes comunistas alertaram para o aumento de conflitos no país, defenderam uma melhor “gestão social” para administrá-los e ressaltaram a necessidade de intensificar a censura na internet. No sábado, o presidente Hu Jintao disse em seminário que reuniu toda a cúpula do Partido Comunista que a China ainda está em um estágio de desenvolvimento no qual “muitos conflitos” devem emergir e reconheceu que a capacidade do governo de solucioná-los continua “frágil”.
No dia seguinte, o ministro responsável pela segurança pública, Zhou Yongkang, defendeu no mesmo encontro a necessidade de solução dos conflitos em seu estágio inicial e bateu novamente na tecla de “melhor gestão social”.
Ontem, a revista Outlook Weekly, editada pela agência oficial de notícias Nova China, trouxe declarações do vice-secretário-geral do comitê de assuntos políticos e legislativos do Partido Comunista, Chen Jiping, segundo o qual os conflitos que “afetam a estabilidade social” continuarão a existir no futuro previsível.
Segundo Chen, “forças ocidentais hostis” usam o pretexto de defesa de direitos para interferir em assuntos internos da China e criar novos incidentes. O dirigente também ressaltou a necessidade de resolver os conflitos em seu estágio inicial e disse que o governo passará a avaliar seus projetos e políticas não apenas sob a ótica econômica, mas levando em consideração seu impacto sobre a estabilidade social.
Nas declarações tornadas públicas pela imprensa oficial chinesa, nenhum dos dirigentes fez referência aos protestos pró-democracia no mundo árabe, que já levaram à queda dos governos da Tunísia e do Egito. Mas desde o início das manifestações, em janeiro, a apreensão dos líderes comunistas foi evidencia pela censura na internet a termos relativos às demonstrações e o estrito controle da cobertura dos eventos. No mesmo discurso de sábado, Hu Jintao disse que o governo deve aumentar o controle sobre a “sociedade virtual” com o objetivo de melhor “guiar a opinião pública” na internet _eufemismo para a censura.
A China tem um dos mais sofisticados mecanismos de controle das informações online e todos os sites que tiveram papel relevante na organização de manifestantes no Egito são bloqueados no país, incluindo Facebook, Twitter e Youtube. Muitos chineses usam ferramentas tecnológicas para contornar a censura e ter acesso a endereços vetados pelo governo. Algumas dezenas de ativistas têm contas no Twitter, por exemplo, mas o número de internautas que consegue escalar a Grande Muralha de Fogo da censura é bastante reduzido.
Diante da ampliação das possibilidades de furo do bloqueio erigido pelo governo, o criador da Grande Muralha de Fogo, Fang Binxing, afirmou na sexta-feira que o mecanismo precisa ser aperfeiçoado para impedir o surgimento de brechas e fechar as já existentes. Fang admitiu em entrevista a um jornal oficial chinês que utiliza seis diferentes VPNs (Redes Virtuais Privadas, na sigla em inglês), um dos mais populares mecanismos para escapar da censura. Mas ressaltou que só lança mão da ferramenta para “testar qual lado ganha”.
A apreensão dos líderes chineses aumentou no fim de semana, com a convocação anônima para um protesto inspirado nas manifestações dos países árabes. O apelo para uma “Revolução do Jasmim” chinesa teve pouca repercussão, tanto pela censura quanto pela ausência da mesma disposição de questionar o regime vista em países como Tunísia, Egito e Líbia.
Mesmo assim, o governo agiu de maneira preventiva e colocou na prisão ou sob vigilância policial quase 100 ativistas, quase todos sem nenhuma relação com a convocação, que se originou em um site baseado nos Estados Unidos.
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