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Cláudia Trevisan

Uma monja tibetana morreu na segunda-feira depois de atear fogo ao próprio corpo em defesa da independência do Tibete e da volta do dalai lama à região, no nono caso semelhante registrado desde março, segundo entidade ligada aos tibetanos no exílio.
 De acordo com o mesmo grupo, no domingo a polícia feriu a tiros dois homens que participavam de manifestação contra a política chinesa em relação aos tibetanos. Todos os casos ocorreram na província de Sichuan, fora da área delimitada como Região Autônoma do Tibete pelas autoridades de Pequim. O centro do descontentamento é a cidade de Aba, onde está localizado o mosteiro Kirti, de onde saiu a maioria dos monges ou ex-monges que atearam fogo a seus corpos desde março. Dos nove, cinco morreram.

Tenzin Wangmo, 20, foi a primeira mulher tibetana a imolar-se, prática que começou a ser utilizada pelo grupo na China em 2009, quando um caso foi registrado. Em 2011, o primeiro episódio foi protagonizado pelo monge Phuntsog, 21, que morreu em consequência das queimaduras.
O gesto levou o governo de Pequim a prender e enviar a sessões de “reeducação patriótica” 300 religiosos do mosteiro de Kirti, muitos dos quais não retornaram, segundo a entidade de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch.

“Os protestos no Tibete estão aumentando e se espalhando”, escreveu em nota divulgada na segunda-feira Stephanie Brigden, diretora do grupo Free Tibet, com sede em Londres. “Os atos de imolação não estão ocorrendo de maneira isolada, protestos foram registrados em regiões vizinhas e convocações para protestos mais amplos estão aumentando”, acrescentou.

Em briefing regular com a imprensa ontem, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Liu Weimin, disse não ter informações sobre os casos recentes, mas ressaltou considerar “imoral” a “promoção e encorajamento” de danos à vida. A presença militar no Tibete e o controle governamental em áreas tibetanas na província vizinha de Sichuan aumentaram desde os protestos contra a China que chacoalharam a região em março de 2008 e provocaram a morte de 18 pessoas, além de deixar dezenas feridas.

Líder espiritual dos tibetanos, o dalai lama fugiu da região em 1959, depois de um levante fracassado contra o domínio chinês. Desde então, está proibido de voltar ao país. As autoridades de Pequim o classificam de separatista e reprimem qualquer manifestação pública de veneração a sua imagem, o que agrava o ressentimento dos tibetanos contra os chineses.

De acordo com o novo líder político dos tibetanos no exílio, Lbsang Sangay, os incidentes indicam o grau de desespero em relação à atual situação do Tibete. A Human Rights Watch sustenta que a cidade de Aba tem sido alvo de ações de segurança “brutais”, com prisão arbitrária de monges, presença policial constante dentro dos mosteiros e monitoramento das atividades religiosas, o que estaria exacerbando a tensão na região.

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A paranoia que tomou conta das autoridades de Pequim depois que mensagens anônimas na internet convocaram manifestações contra o governo levou a polícia a intimar nos últimos dias quase 30 correspondentes estrangeiros para interrogatórios que pareciam sessões de intimidação. 

Ontem à noite foi a minha vez. Todos os encontros ocorrem no departamento responsável pela concessão de vistos aos jornalistas, a maioria dos quais foi alertada de que poderão ter sua autorização de trabalho revogada caso não respeitem as regras do país. No meu caso, a advertência foi feita logo no começo da conversa.

O que provocou as ameaças foi a presença dos correspondentes no domingo na Wangfujing, uma das principais ruas comerciais de Pequim, apontada pela convocação anônima como local do protesto _que não chegou a ocorrer. No domingo anterior, praticamente todos que escreveram sobre o assunto disseram que havia mais policiais e jornalistas no lugar do que manifestantes. Provavelmente o tom seria o mesmo na cobertura da segunda tentativa de mobilização e logo o assunto seria esquecido.

Mas a ocupação da área por um imenso aparato de segurança e a agressão a jornalistas que tentavam realizar seu trabalho acabaram se transformando na principal notícia no domingo. O policial com quem me “reuni” ontem afirmou no meio da conversa que algo semelhante à Revolução do Jasmim que varre o mundo árabe jamais acontecerá na China, onde o povo ama o Partido Comunista e está extremamente satisfeito. A questão é: se o governo está tão seguro disso, por que reprimir de maneira tão violenta algo que nem chegou a ocorrer?

No fim do encontro, o policial pediu que eu assinasse um documento dizendo que nunca mais escreveria sobre a Revolução do Jasmim chinesa (que até agora não aconteceu…). Eu me recusei. Ele pediu então que eu prometesse verbalmente não escrever mais sobre o assunto, o que também recusei. Depois disso o encontro foi encerrado, com o policial dizendo que havia dado o seu recado: se eu voltar a descumprir as regras, meu visto será cancelado.

O problema é que na China não há clareza sobre o que é proibido ou permitido e a fronteira muda constantemente, de acordo com os interesses do governo. Isso não se aplica só aos correspondentes estrangeiros, mas também aos cidadãos do país. Em tese, os jornalistas podem desde 2008 visitar qualquer lugar _com exceção do Tibete_ e entrevistar qualquer pessoa que concorde em dar declarações. Não é necessário pedir autorização prévia de ninguém, segundo norma aprovada pelo Conselho de Estado da China alguns meses antes da Olimpíada de Pequim.

Com o interesse em torno da Wangfujing, o governo lançou mão de uma regulamentação da administração da região, segundo a qual atividades jornalísticas só podem ser realizadas no local mediante autorização. Nenhum correspondente havia sido informado previamente da exigência, que tem data de 1º de janeiro de 2011. Além disso, é absurdo imaginar que a orientação de administradores regionais de Pequim se sobreponha a uma determinação do Conselho de Estado…Mas o governo tem um instrumento na mão para dar um tosco verniz de legalidade à sua exigência de que os jornalistas não pisem na Wangfujing nos domingos _a mensagem anônima convoca demonstrações semanais por tempo indeterminado.

Xie Qingdong, do Departamento de Administração e Construção da Wangfujing, disse à agência de notícias Reuters que a restrição existe desde 2000, mas só foi escrita há dois meses. “As regras não eram muito específicas, por isso nós as atualizamos. Nós sempre pedimos que as pessoas pedissem permissão antes de realizar reportagens. Isso não estava escrito de maneira tão específica antes.”

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As autoridades chinesas lançaram mão de artilharia pesada para bloquear a segunda tentativa de organização de protesto contra o governo convocada anonimamente pela internet. Centenas de policiais uniformizados e à paisana ocuparam hoje a área ao redor do ponto de encontro da manifestação em Pequim, onde no fim da semana surgiu um inesperado canteiro de obras.

Até limpadores de rua armados de vassouras foram mobilizados para literalmente “varrer” os que conversavam em pequenos grupos, com o objetivo de evitar aglomerações. Em alguns momentos, a violência imperou: jornalistas foram presos e um correspondente da Bloomberg foi espancado por quatro policiais à paisana.

O primeiro-ministro Wen Jiabao também entrou em campo para sufocar o protesto antes que ele nascesse e realizou um chat de duas horas com internautas do país, no qual prometeu combater a inflação e a alta do preço dos imóveis, dois dos principais focos de insatisfação no país.

O local escolhido pelos autores da convocação era o mesmo do protesto fracassado do domingo anterior: o calçadão em frente à loja do McDonald´s da Wangfujing, uma das mais movimentadas ruas de comércio de Pequim, localizada a pouco mais de um quilômetro da Praça Tiananmen.

Vários policiais à paisana estavam dentro e na frente do McDonald´s no início da tarde, fotografando e filmando os que passavam pelo lugar. Às 14h, horário marcado para a manifestação, a porta principal da loja foi fechada e varredores e policiais entraram em ação para impedir aglomerações do lado de fora.

Vários jornalistas estrangeiros tiveram que apresentar identificação em barreiras policiais nas ruas de acesso à Wangfujing. No sábado, os correspondentes receberam telefonemas de funcionários do governo alertando-os de que deveriam obedecer à regulamentação sobre a atuação de jornalistas estrangeiros no país, apesar de não haver nela nada que impeça a cobertura de eventos em locais públicos e a realização de entrevistas com o consentimento do entrevistado.

Era impossível saber quem estava na Wangfujing com a intenção de participar da manifestação e quem apenas passeava no domingo de inverno. Pouco depois das 14h30, a polícia bloqueou várias ruas de acesso ao local, evacuou a rua e determinou o fechamento dos shoppings centers e lojas, onde turistas e visitantes ficaram presos enquanto a tropa de choque marchava do lado de fora. O movimento voltou ao normal logo em seguida.

A polícia também ocupou a região de Xangai apontada como local de manifestação pela convocação anônima, que começou a circular em um site mantido por dissidentes chineses nos Estados Unidos. Segundo agências de notícias internacionais, pelo menos sete pessoas foram presas na cidade que é a mais rica da China.

As revoltas que derrubaram regimes autoritários no mundo árabe deixaram os líderes comunistas chineses em alerta contra qualquer movimento de contestação dentro do país.

As notícias sobre os movimentos na Tunísia, Egito e Líbia são controladas pelo governo e há censura sobre fóruns e microblogs que tentam discutir o assunto. Várias palavras relacionadas às rebeliões estão bloqueadas na internet, entre elas “jasmim”, nome de um dos mais populares chás da China. No sábado, a censura bloqueou o uso da palavra “amanhã” e hoje, a da palavra “hoje”.

Antes da primeira tentativa de protestos no domingo retrasado, o governo prendeu ou colocou sob vigilância policial cerca de 100 ativistas. Pelo menos cinco deles continuam detidos. Na semana passada, três pessoas foram acusadas de subversão por terem retransmitido a mensagem de convocação para a manifestação.

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