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Cláudia Trevisan

O Partido Comunista da China se prepara para a transição de poder a uma nova geração de líderes incerto sobre o rumo a seguir e envolto em uma feroz disputa interna, que ficou evidenciada pela queda na semana passada do ex-chefe de Chongqing, Bo Xilai, que era o mais ostensivo candidato ao órgão máximo de comando do país. As divisões provocam paralisia das reformas pró-mercado que integraram a China à globalização e estagnação ou retrocesso nas mudanças políticas, depois de três anos de endurecimento da repressão aos críticos do governo.

A dramática defesa de reformas políticas feita pelo primeiro-ministro Wen Jiabao em entrevista coletiva na quarta-feira reflete a dificuldade de promoção da agenda dentro de um Partido cindido internamente. Menos de um ano antes de terminar seu mandato, o premiê afirmou que a inação pode levar a China a reviver “tragédias” semelhantes à Revolução Cultural (1966-1976), o movimento comandado por Mao Tsé-tung que provocou milhões de mortes, levou ao fechamento de escolas e universidades, promoveu a perseguição de líderes do Partido Comunista e intelectuais e deixou a sociedade chinesa à beira da ruptura.

O afastamento de Bo Xilai representa um duro golpe para ala à esquerda do Partido, que estava cada vez mais unida em torno do “modelo de Chongqing”, a receita que privilegia o papel do Estado na economia, busca redução das desigualdades e resgata as canções vermelhas maoístas que estiveram em voga na Revolução Cultural.

“Eu acredito que a queda de Bo Xilai vai fazer com que o processo de reformas avance e a direção será ‘à direita’”, opinou o professor do Departamento de Política da Universidade do Povo, Zhang Ming. Segundo ele, a etapa inicial da abertura chinesa foi inspirada pelo ocidente, com regras pró-mercado e integração ao comércio global. Em anos recentes, o país começou a retroceder aos princípios maoístas, movimento que teria sido estancado com a queda de Bo Xilai. “O ‘modelo de Chongqing’ era um erro”, afirmou Zhang.

Mas outros acreditam que a queda do líder da “nova esquerda” não significa a remoção das resistências às reformas liberalizantes no mercado e na política. “O apelo do sistema que privilegia a presença do Estado na economia vai além de Bo Xilai e do modelo de Chongqing”, observou o economista norte-americano Patrick Chovanec, professor da Universidade Tsinghua, para o qual a última grande reforma realizada pela China foi a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001. “Não está claro qual caminho a China seguirá no futuro”, ressaltou.

“As reformas morreram”, afirma o analista político independente Chen Zemin. O ímpeto mudancista perdeu fôlego em meados da década passada e sofreu um revés com a crise financeira de 2008, da qual a China saiu relativamente ilesa graças a um pacote de estímulo que ampliou o poder do Estado na economia e fortaleceu as empresas controladas pelo governo.

Parte dos líderes comunistas se convenceu de que o modelo de capitalismo de Estado chinês é superior ao falido capitalismo ocidental, que até então era a fonte inspiradora das reformas que pregavam abertura e desregulamentação da economia.

A expectativa de mudanças na área política se reduziu a partir de 2008 e 2009, quando conflitos étnicos chacoalharam o Tibete e Xinjiang, respectivamente. O cenário piorou ainda mais em 2011, depois de convocação anônima de protestos semelhantes aos ocorridos na Revolução do Jasmim dos países árabes. O Partido Comunista reagiu com uma onda repressiva que levou à detenção de dezenas de ativistas políticos e a condenação de alguns deles a penas de até dez anos de prisão sob acusação de subversão.

A resposta da China à crise global fortaleceu ainda mais as gigantescas empresas estatais, que empregam milhões de pessoas, atuam nas mais diversas áreas, recebem a maior parte do crédito bancário barato e realizaram os investimentos que garantiram o crescimento do país enquanto o mundo desenvolvido agonizava.

O slogan que passou a identificar esse movimento é guo jin, min tui, ou o Estado avança e o setor privado recua. “Há um sentimento entre investidores estrangeiros e empresários locais de que as regras do jogo estão cada vez mais favoráveis às empresas estatais, às custas de todos os demais”, avalia Chovanec.

Apesar do sucesso no combate aos efeitos da crise, o próprio governo reconhece que o modelo de desenvolvimento têm que mudar para ser sustentável. Mas as propostas de reformas enfrentam oposição feroz em segmentos importantes do Partido Comunista e das estatais que se fortaleceram nos últimos anos e ainda não está claro quem vencerá a disputa.

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Poucas vezes os chineses puderem ver as entranhas da disputa de poder na cúpula comunista como no episódio que levou à queda de Bo Xilai, o ex-todo-poderoso chefe do Partido Comunista na megacidade de Chongqing. Afastado na manhã de hoje, Bo estava em campanha aberta para assumir no fim do ano uma das nove cadeiras do Comitê Permanente do Politburo, o grupo que de fato manda na China.

Apesar de não estar claro se ele está sob investigação, tudo indica que a ex-estrela em ascensão é a mais nova vítima do caráter seletivo das acusações de corrupção no país, usadas pelos momentaneamente mais poderosos para atingir seus adversários políticos. Ambicioso ao extremo e dono de um estilo personalista que destoa do caráter coletivo de liderança que prevalece hoje em Pequim, Bo provocava desconforto em muitos caciques, entre os quais o primeiro-ministro Wen Jiabao, que usou entrevista coletiva que concedeu ontem para criticá-lo.

Além do estilo, o ex-chefe de Chongqing incomodava por promover uma campanha de resgate do maoísmo e das canções vermelhas que estiveram em voga na Revolução Cultural (1966-1976), período que o premiê classificou ontem de “tragédia” e que muitos chineses gostariam de esquecer. Filho de um herói revolucionário, Bo integra o poderoso grupo de “pequenos príncipes”, do qual também faz parte o provável futuro presidente da China, Xi Jinping.

A queda de Bo começou a ser desenhada como um roteiro de filme de espionagem da Guerra Fria, no qual a China ocuparia o lugar da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. No dia 6 de fevereiro, seu ex-braço direito Wang Lijun se refugiou no Consulado dos Estados Unidos em Chengdu, capital da província de Sichuan que fica a quatro horas de carro de Chongqing. Não se sabe se ele pediu asilo político ou se usou o local para buscar proteção contra Bo e negociar uma rendição diretamente às autoridades de Pequim.

Wang havia sido colocado sob investigação sob acusação de corrupção e acredita-se que tinha (e tem) informações que comprometeriam seu ex-chefe. Depois de passar a noite no consulado, Wang finalmente saiu escoltado por autoridades enviadas por Pequim e voou direto para a capital, onde está em um “tratamento ao estilo de férias”, nas palavras da imprensa oficial.

O resultado mais imediato da queda de Bo é seu afastamento da disputa para escolha dos integrantes do Comitê Permanente do Politburo, durante congresso do Partido Comunista em outubro ou novembro. Dois nomes já estão definidos _Xi Jinping, que deverá assumir o lugar de Hu Jinato, e Li Keqiang, provável sucessor de Wen Jiabao. A disputa para as sete vagas restantes está em ebulição. Outra vítima é o “modelo de Chongqing”, com sua ênfase no papel do Estado na economia, busca de redução das desigualdades sociais e nostalgia maoísta, além da campanha contra o crime organizado que era liderada justamente por Wang Lijun, o que se refugiou no Consulado dos EUA.

O grande vitorioso é Wang Yang, o chefe do Partido Comunista que é o patrono do “modelo de Guangdong”, mais liberal tanto do ponto de vista econômico quanto político. Wang Yang defende a retração do Estado e o avanço do setor privado e governa a província que tem a imprensa mais independente da China _ainda que sujeita à censura. A grande dúvida, que só o tempo responderá, é se a queda de Bo fortalecerá a facção do Partido favoráveis à retomada do processo de reformas, incluindo as políticas, à qual pertence o primeiro-ministro Wen Jiabao.

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O governo chinês decidiu usar a velha propaganda maoísta para tentar combater a crise moral que assolada o país, cujo maior símbolo é o caso da menina de 2 anos ignorada por mais de uma dezena de pessoas em outubro quando agonizava na rua depois de ter sido atropelada na cidade de Foshan, na sulista província de Guangdong. Finalmente socorrida por uma catadora de lixo, Wang Yue morreu no hospital e desencadeou um movimento nacional de questionamento dos valores que sustentam a sociedade chinesa depois de três décadas de crescimento tórrido sob o slogan “enriquecer é glorioso”.

Para combater a aparente crise moral do país, o governo ressuscitou Lei Feng, um soldado morto em 1962 e transformado pela máquina de propaganda de Mao Tsé-tung em símbolo de altruísmo e sacrifício desinteressado. Cinquenta anos depois de sua morte, o Partido Comunista tenta resgatar a figura do soldado de biografia impecável, mas a ofensiva propagandística tem efeitos limitados, em uma sociedade cada vez mais informada, como mostra reportagem do The New York Times. A ofensiva também é recebida com cinismo por muitos desiludidos pelo grau de corrupção que envolve integrantes do Partido, para os quais uma dose do espírito de Lei Feng seria apreciada.

O texto do NYT cita um internauta que reflete a reação de parte da população à campanha oficial, que elegeu 5 de março como “O Dia de Aprender com Lei Feng”: “Seus filhos migraram para fora do país, mas você me pede para aprender com Lei Feng na China. Eu tenho câncer por causa do leite venenoso que eu bebi, mas você me pede para aprender com Lei Feng”, escreveu o chinês que assina online como “Notebook”.

Os filhos de vários dirigentes comunistas estudam no exterior e toda a família de alguns deles vive fora da China. Dentro do país, a população enfrenta inúmeros casos de alimentos contaminados, como o leite misturado com melamina que matou seis crianças e deixou outras 300 mil doentes em 2008.

A mesmo tempo em que tenta corrigir a crise moral com propaganda maoísta, o governo aperta o cerco às versões chinesas do Twitter, que se transformaram em um dos principais instrumentos de crítica aos desmandos, corrupção e abuso de poder e se mostram muito mais efetivos na construção de uma sociedade melhor do que Lei Feng.

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A chamada por reformas radicais na China feita pelo Banco Mundial em conjunto com pesquisadores ligados ao governo de Pequim evidencia a percepção de que o ímpeto reformista que marcou os primeiros 25 anos da abertura do país foi gradualmente abandonado pela geração de líderes que chegou ao poder em 2003. Na opinião de muitos analistas, Hu Jintao e Wen Jiabao colheram os frutos de mudanças realizadas em décadas anteriores, entre as quais a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, que pavimentou o caminho para o país se tornar o maior exportador do mundo em 2010.

O grande salto da China rumo à globalização foi dado no período de Jiang Zemin e Zhu Rongji, o reformista que foi primeiro-ministro de 1998 a 2003. Além do ingresso na OMC, Zhu comandou o radical processo de reestruturação das estatais no fim da década de 90, que levou ao fechamento de milhares de grupos deficitários e levou à demissão de milhões de trabalhadores. Também deu início ao saneamento do sistema financeiro, que levou à abertura de capital das grandes instituições e à injeção de US$ 600 bilhões nos bancos estatais para livrá-los de uma montanha de créditos podres.

A crise que chacoalhou o mundo em 2008 fortaleceu a posição dos que resistem a mudanças adicionais, na medida em que colocou em xeque a receita de liberalização e desregulamentação prescrita pelo Ocidente. Os setores chineses que defendem o status quo acreditam que o Estado e o Partido Comunista devem sua posição proeminente na economia, que foi ampliada a partir de 2008 com o megapacote de estímulo que Pequim lançou para combater os efeitos da crise global.

As gigantescas empresas estatais dominam os setores considerados estratégicos pelo governo_ como petróleo, telecomunicações, eletricidade e aviação civil_ e seus dirigentes não aceitarão facilmente perder a posição privilegiada que ocupam hoje. Além disso, muitos dirigentes estão convencidos de que a debacle dos países ocidentais explicitou a superioridade do modelo chinês de capitalismo de Estado e são contra reformas que o transformem de maneira significativa.

O processo de tomada de decisões na China também deve dificultar qualquer tentativa de transformação pelos próximos dois anos e possivelmente em um período ainda mais longo. Apesar de serem a face visível do governo, o presidente e o primeiro-ministro não tomam decisões de maneira isolada e dependem do apoio de distintos grupos dentro do Partido Comunista, em uma árdua tarefa de construção de consensos.

O maior símbolo das limitações impostas aos líderes máximos do país é Wen Jiabao, o primeiro-ministro que é visto como um reformista, mas que conseguiu implementar muito pouco de sua agenda de mudanças nos nove anos desde que assumiu o cargo. Agora, é pouco provável que consiga qualquer avanço no ano que lhe resta como primeiro-ministro.
As recomendações do Banco Mundial e de pesquisadores do governo chinês pode ser vista em inglês aqui. E aqui está minha reportagem sobre o assunto publicada hoje no Estado.

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O Partido Comunista da China tem pânico de sociedade organizada, o que inclui sindicatos de trabalhadores, ONGs e até religião. Em tese, os operários teriam posição de destaque no comando no país comunista, mas na prática sua atuação e organização é totalmente controlada. Não existem sindicatos independentes na China. Todos são oficiais e ligados ao Partido.

O temor que o tema provoca ficou mais uma vez evidenciado nesta semana, quando o governo de Pequim pressionou o Clube de Correspondentes Estrangeiros da China para que cancelasse uma palestra/entrevista com Geoffrey Crothall, do China Labout Bulletin, uma organização sediada em Hong Kong que se dedica ao estudo de questões trabalhistas na China.

O argumento foi o de que a entidade defende “sindicatos independentes” e representa uma “ameaça ao desenvolvimento econômico estável” do país. O Clube decidiu manter o evento, mas ele acabou cancelado por decisão de Crothall, em razão da oposição do governo chinês.

O assunto me veio à mente na quarta-feira, quando eu acompanhava em Pequim um “seminário teórico” entre o Partido Comunista da China e o Partido dos Trabalhadores do Brasil, que surgiu a partir do movimento organizado e independente de operários da região do ABC paulista. Se fosse tratado pelo mesmo critério aplicado a Crothall, o presidente do PT, Rui Falcão, também deveria ser considerado uma “ameaça”. Ai vai trecho do texto que apresentou durante o encontro: “O governo Lula fez cessar a perseguição aos movimentos sociais, reconheceu formalmente as centrais sindicais de trabalhadores e promoveu um diálogo permanente com as organizações do movimento sindical e popular, tornando-os protagonistas das políticas públicas”.

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Ao contrário do que ocorreu em todas as recentes celebrações oficiais na China, o céu de Pequim não amanheceu azul para a festa de 90 anos do Partido Comunista. Em meio a um denso fog, 30 mil pessoas se reuniram na praça Tiananmen para participar de cerimônia de hasteamento da bandeira chinesa às 4h48 de hoje _horário em que amanhece no verão de Pequim. A reunião não foi espontânea e os 30 mil participantes vieram de diferentes partes do país em caravanas organizadas pelo Partido. No paranoico ambiente político chinês, há pouco espaço para espontaneidade, mesmo para celebrar o governo.

Por volta das 8h, o fog deu lugar a uma forte chuva, justamente no momento em que os jornalistas chegavam na praça Tiananmen, que já estava totalmente vazia, sem vestígio da multidão que havia assistido ao hasteamento da bandeira. A cerimônia oficial de celebração do aniversário ocorreu no Grande Palácio do Povo, local onde o Partido realiza seus congressos, onde se reúne o Congresso Nacional do Povo e no qual Hu Jintao recebe visitantes estrangeiros, como o caso da presidente Dilma Rousseff em abril.

Eu já cobri cinco reuniões anuais do Congresso Nacional do Povo e um Congresso do Partido, que ocorre a cada cinco anos. E, ontem, vi a celebração dos 90 anos da organização. Em nenhuma delas houve espaço para espontaneidade ou improvisação. Tudo é milimetricamente coreografado, incluindo a ordem com que as lideranças entram no plenário e a performance das moças que servem o chá. Os aplausos vêm na hora certa e não há arroubos da plateia como “longa vida ao Partido” ou “iao iao iao, Hu Jintao, Hu Jintao”.

A única surpresa foi a ausência na mesa de autoridades do ex-presidente e ex-secretário-geral do Partido Jiang Zemin, que transferiu o poder a Hu Jintao em 2002. Com a típica falta de transparência que cerca a cúpula do Partido, nenhuma explicação foi apresentada _pelo menos não até o fim da tarde desta sexta-feira. E claro que isso deu margem a uma série de especulações. Mas segundo reportagem veiculada no sábado pela Phoenix TV, de Hong Kong, Jiang Zemin, 84, está doente desde o início do ano.

No mais, a cerimônia seguiu o script clássico, com um longo discurso de Hu Jintao (1h15), no qual ele usou superlativos como “brilhante”, “heroico”, “triunfante” e “glorioso” para se referir à trajetória do Partido Comunista nos últimos 90 anos. E antes de irem para casa, os camaradas tiveram um momento de nostalgia com execução da Internacional Socialista pela banda do Exército de Libertação Popular.

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Criado sob a égide do igualitarismo, o Partido Comunista da China chega hoje aos 90 anos no comando de uma sociedade na qual a distância entre ricos e pobres é cada vez maior e os antigos inimigos da classe operária _os empresários_ estão entre os principais beneficiários do espetacular crescimento dos últimos 30 anos.

Enriquecer é a nova ideologia dos chineses, que mostram pouco entusiasmo pela onda propagandística que inundou o país de filmes, músicas e livros inspirados na Revolução de 1949. A maioria da população está mais preocupada com a inflação e o exorbitante preço dos imóveis do que com as campanhas inspiradas na herança maoísta.

“Muitos se importam com o Partido, seja porque não há outra alternativa, seja porque ele serviu bem à China, mas poucos amam o Partido”, disse ao Estado a escritora Lijia Zhang, autora de “A Garota da Fábrica de Mísseis”, no qual relata sua experiência de dez anos como operária em um estatal chinesa nos anos 80.

A China comunista tem o maior número de bilionários do mundo depois dos Estados Unidos e seus endinheirados transformaram o país no segundo maior mercado para produtos de luxo do planeta, atrás apenas do Japão.
Com 80 milhões de filiados, o Partido também deu origem a uma elite que controla as gigantescas estatais chinesas e dirige negócios lucrativos. “Os filhos da maioria dos líderes comunistas são empresários extremamente bem sucedidos. O Partido se transformou na nova aristocracia do país”, afirmou o analista político Willy Lam, que há anos acompanha de perto a situação política da China.

Mais do que uma opção ideológica, o ingresso no Partido é visto como o passaporte para bons empregos e conexões com o poder que podem resultar em benefício econômico. Mas a organização não está aberta a todos. “Os membros do Partido são a vanguarda da consciência comunista”, declarou na semana passada o vice-diretor de Organização Wang Qinfeng, fiel à inspiração leninista da instituição.

Segundo ele, 21 milhões de chineses apresentaram requerimento para entrar no Partido no ano passado, mas apenas 3 milhões foram aceitos, depois de um período de avaliação. A prosperidade da “aristocracia vermelha” associada à corrupção generalizada e ao abuso de poder alimenta o ressentimento dos “excluídos”, que se manifesta em um crescente número de protestos em todo o país.

Além disso, há uma quantidade crescente de intelectuais, artistas e advogados que pressionam pela aprovação de reformas democráticas que coloquem fim ao regime de partido único ou ao menos criem mecanismos eficazes de participação popular e fiscalização do poder. O primeiro-ministro Wen Jiabao está longe de defender qualquer mudança que coloque em risco a posição do Partido, mas é visto como um dos mais “progressistas” na cúpula dirigente.

Nesta semana, Wen repetiu sua defesa de reformas políticas em discurso que realizou na Royal Society em Londres. Depois de reconhecer que a China enfrenta corrupção, má-distribuição de renda e violações dos direitos de seus cidadãos, ele declarou que a solução para esses problemas é “avançar firmemente” na reformas políticas e na “construção da democracia socialista sob o império da lei”.

Mas Wen parece ser uma voz isolada no Comitê Permanente do Politburo, o grupo de nove pessoas que manda na China. O Partido não só parece ter abandonado experimentos democráticos como iniciou em fevereiro a maior onda repressiva a seus críticos desde 1989, em resposta à tentativa anônima e frustrada de reproduzir no país movimentos semelhantes aos que derrubaram regimes autoritários no mundo árabe.

Ao mesmo tempo, desencadeou uma avalanche propagandística que nas vésperas do aniversário do Partido inundou os cinemas, TVs e rádios com programação revolucionária. A principal estrela da ofensiva é a superprodução cinematográfica “A Fundação de um Partido”, na qual aparecem todos os atores e atrizes célebres da China e de Hong Kong.

O filme estreou no dia 15 de junho e as autoridades se encarregaram de reduzir a concorrência de filmes que teriam mais apelo junto aos chineses de hoje: os lançamentos de “Transformers 3” , “Cars 2” e “Harry Poter” foram adiados para o fim de julho. E para afastar o risco de um fracasso de público, milhares de ingressos foram comprados por estatais e organismos do governo e distribuídos a seus funcionários.

Mesmo com toda a propaganda, a crítica foi implacável. No website dedicado a cinema verycd.com, o filme ganhou nota 2,3 _a mais baixa desde 2009_ e dos 2.600 internautas que deixaram comentários, 2.500 o classificaram de “lixo”. No site douban.com, popular entre intelectuais, a nota era um pouco melhor, 4,8. Mas isso não foi suficiente para evitar que os censores entrassem em ação e desativassem a função que permitia os usuários do site avaliarem o filme oficial.

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A China inaugura na sexta-feira o trem de alta velocidade que ligará a capital do país, Pequim, a seu centro financeiro, Xangai, a mais cara obra realizada desde a chegada do Partido Comunista ao poder, em 1949. Com 1.318 km de extensão e custo de US$ 33 bilhões, a linha foi construída em 39 meses e concluída um ano antes da previsão inicial.

Não por acaso, sua abertura ao público coincidirá com o aniversário de 90 anos do Partido Comunista, celebrado em um ofensiva propagandística que envolve filmes, séries de TV, espetáculos de canções revolucionárias e publicação de livros “vermelhos”. O trecho Pequim e Xangai é o mais extenso para trens rápidos construído de uma só vez em todo o mundo e é o principal símbolo da ambição chinesa nesse setor. Até o próximo ano, o país terá 13.000 km de linhas de alta velocidade, o que vai superar a soma das existentes no restante do planeta _no Brasil, a planejada ligação entre Campinas, São Paulo e Rio teria 518 km.

“Foram necessários apenas 39 meses para construir um trem de alta velocidade de alto padrão e reconhecido mundialmente, o que é um presente para o 90˚ aniversário do Partido”, disse o ontem engenheiro-chefe do Ministério das Ferrovias, He Huawu. “Isso [o trem] é o orgulho da China e do povo chinês”, ressaltou.

Como todas as composições de alta velocidade, as que farão o trecho Pequim-Xangai estampam os caracteres chineses para a palavra “harmonia”, que o presidente Hu Jintao transformou na marca de seu governo com a proposta de criação de uma “sociedade harmônica”.
A intenção original era que o trem andasse a 350 km/h, mas o limite foi reduzido em abril para 300 km/h por razões econômicas, ambientais e de segurança. Também haverá trens com velocidade máxima de 250 km/h, para os quais as passagens serão mais baratas.

Na versão mais rápida, o percurso será feito em quatro horas e 48 minutos, metade do tempo atual _o mesmo trajeto de avião é feito em cerca de duas horas. Dependendo da classe e da velocidade do trem, a passagem custará de 410 yuans (R$ 101,20) a 1.750 yuans (R$ 431,90). A redução da velocidade foi anunciada dois meses depois do afastamento por suspeita de corrupção do ex-ministro das Ferrovias, Liu Zhijun, que ocupou o cargo de 2003 a fevereiro de 2011 e foi o principal responsável pelo projeto de trens-bala.

A rapidez na construção das linhas foi acompanhada da explosão do débito do Ministério da Ferrovias e a suspeita de que a preocupação com a segurança foi negligenciada pela gestão de Liu. Dados oficiais mostram que a dívida do ministério está atualmente em de US$ 300 bilhões, patamar considerado insustentável por muitos especialistas, mesmo no caso de um governo com excesso de recursos sob sua administração, como o chinês.

A queda de Liu deu origem à especulação de que o Ministério das Ferrovias reduziria o ritmo de expansão dos trens rápidos, mas as autoridades de Pequim sustentam que nada mudou em seus planos, pelos quais a malha de alta velocidade alcançará 16.000 km em 2020. O Plano Quinquenal para o período 2011-2015 prevê investimento de US$ 432 bilhões em todo o setor ferroviário chinês, com a construção de 30 mil quilômetros de novas linhas, extensão 87,5% superior à que foi concluída entre 2006 e 2010.

Se o planejamento for integralmente executado, o país asiáticos chegará a 2015 com 120 mil quilômetros de trilhos, quatro vezes mais os 30 mil quilômetros existentes do Brasil. A China desenvolveu grande parte de sua tecnologia de trens rápidos com a ajuda de empresas estrangeiras, que aceitaram realizar joint-ventures com estatais controladas por Pequim na esperança de ter acesso ao imenso mercado local.

As autoridades chinesas refutam a acusação de que se apropriaram de know-how externo de maneira indevida, mas reconhecem que a experiência estrangeira teve papel relevante para o desenvolvimento do país no setor. Em documento distribuído a jornalistas no ano passado, o Ministério das Ferrovias afirmou que a China desenvolveu inovações originais, mas também fez “re-inovações”, depois de “importar, digerir e absorver” a tecnologia estrangeira.

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“Esta é uma eleição do Partido Comunista e não uma eleição americana”. A frase foi dita por um policial na semana passada no momento em que ele comandava a prisão de Liu Ping, desempregada e candidata independente ao Conselho de Representantes de sua cidade, na província de Jiangxi. Seu crime foi fazer campanha durante a eleição, algo absolutamente banal em vários lugares do mundo, mas inconcebível na “democracia com características chinesas”. Liu foi carregada pelos policiais e teve sua casa vasculhada.

Advogados chineses ressaltaram que não há nada na legislação do país que proíba candidatos de divulgarem seus nomes e propostas, mas o que menos conta quando os interesses do Partido Comunista estão em xeque é o que diz a lei.

A infeliz frase do policial se transformou de maneira instantânea em um hit da versão chinesa do Twitter, que é bloqueado no país. Chamada de Weibo (microblog), a ferramenta do site Sina tem 140 milhões de usuários registrados e, apesar da censura, se transformou em um importante canal de denúncia contra abusos de poder por autoridades desde que foi criado, em 2009.

É claro que o Weibo também está sujeito aos limites oficiais, o que se reflete no fato de que a frase “Esta é uma eleição do Partido Comunista e não uma eleição americana” foi deletada pelos censores e não podia mais ser encontrada ontem. Mas o nome “Liu Ping” continuava popular e havia se transformado em um símbolo da defesa dos direitos de voto dos cidadãos.

Contra todas as evidências, os líderes chineses repetem com frequência que seu país é uma democracia, diferente da ocidental, mas uma democracia. Entre os argumentos que utilizam estão os de que existem outros partidos além do Comunista (dos quais ninguém nunca ouve falar) e que há eleições para todos os órgãos de base da sociedade (realizadas em circunstâncias que restringem a liberdade de escolha dos eleitores, como os fatos recentes demonstram).

A mensagem implícita em “Esta é uma eleição do Partido Comunista e não uma eleição americana” é a de que nenhum resultado que contrarie os interesses dos ocupantes do poder é admissível. Os eleitores não precisam saber em quem estão votando, não há apresentação de propostas e tudo é absolutamente controlado pelo governo, que na China se confunde com o Partido. No fim, são “eleitos” aqueles previamente escolhidos pelos comunistas, que deixam mais uma vez clara sua falta de disposição para afrouxar o controle sobre o sistema político chinês.

Quanto a Liu Ping, ela continuava presa ontem, sob a suspeita de “esconder material de propaganda perigoso”, supostamente o mesmo que ela distribuía abertamente na porta do supermercado onde foi detida. A polícia revistou sua casa, confiscou o material “perigoso” e dois celulares. A eletricidade e a conexão de internet do local foram cortados.

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Na tentativa de mudar seu padrão de crescimento, a China anunciou ontem que dará prioridade ao desenvolvimento de novas indústrias estratégicas, que o governo de Pequim acredita que estarão na vanguarda do crescimento global futuro. Também foram anunciadas medidas para ampliar a oferta de serviços públicos, diminuir a desigualdade e estimular o consumo doméstico.

O país não quer só surfar na onda das novas indústrias, mas ser um dos líderes de inovação em segmentos que incluem energia limpa, biotecnologia, a nova geração da tecnologia da informação, carros elétricos e conservação ambiental. O objetivo de Pequim é fazer com que a participação desses setores no PIB chegue a 8% em 2015 e 15% em 2020.

As metas foram anunciadas ao fim de quatro dias de reunião do Comitê Central do Partido Comunista, na qual foi discutido o esboço do Plano Quinquenal que dará as linhas do desenvolvimento do país no período de 2011 a 2015, que terá como foco a reestruturação da economia. Os dirigentes chineses acreditam que os próximos cinco anos serão cruciais para a construção dos pilares de um modelo de crescimento sustentável e de criação de uma sociedade “razoavelmente próspera” até a metade do século.

Trinta anos depois do início do processo de reforma e abertura, o Partido Comunista quer mudar o rumo do desenvolvimento do país e estimular indústrias que poluam menos, consumam menos energia e recursos naturais e criem mais e melhores empregos. A inflexão é acompanhada de maior ênfase na construção de uma rede de proteção social, vista como essencial para o aumento do consumo doméstico.

O excesso de poupança na China e de consumo nos Estados Unidos é o principal desequilíbrio da economia global que foi evidenciado pela crise iniciada em 2008. Com a retração do crescimento dos países desenvolvidos, que são seus principais clientes, a China quer reduzir a dependência das exportações e dos investimentos como motores de seu crescimento e ampliar a participação da demanda interna na composição do PIB.

Para isso, é necessário aumentar a renda da população e fornecer serviços públicos essenciais, como saúde, educação e aposentadoria, que podem estimular a redução da enorme poupança do país. Entre as razões para os chineses guardarem dinheiro em vez de utilizá-lo no consumo está a necessidade de poupar para a educação dos filhos, as emergências médicas e a velhice.

O comunicado oficial divulgado no fim da reunião dos 365 integrantes do Comitê Central afirma que a distribuição de renda, o aumento da remuneração e a construção de uma rede de serviços públicos essenciais estarão entre as prioridades do próximo Plano Quinquenal, cuja versão final será aprovada pelo Congresso Nacional do Povo em março de 2011. As informações sobre o encontro não mencionaram metas de crescimento para o período 2011-2015, mas a agência oficial de notícias Xinhua disse que o objetivo do governo é manter expansão estável e relativamente rápida.

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