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Cláudia Trevisan

Shigeo Sasaki com o neto e os bisnetos em abrigo na cidade de Morioka

A casa de Shigeo Sasaki, 84, ficava 15 metros acima do nível do mar, o que dava ao ex-pescador a crença de que estaria livre de tsunamis. Quando o alerta de evacuação foi dado depois do terremoto que atingiu o Japão na sexta-feira, Sasaki observou o mar de sua janela por longos minutos, até se convencer de que a ameaça era real.

Antes de fugir, decidiu mover o carro para um lugar mais alto e disse para sua mulher subir a montanha por uma trilha que começava ao lado da casa _ambos se encontrariam no topo. Cinco minutos depois, Sasaki escutou o estrondo das ondas e voltou correndo, mas foi barrado pelo avanço da água.

“Quando subi de novo a montanha, olhei para trás e não vi mais minha casa. Olhei por todos os ângulos, mas ela não estava mais lá.” Sasaki também não viu sua mulher, Setsuo, 82, com quem estava casado havia 65 anos.

Durante três dias, o ex-pescador ficou sem saber se seus filhos, netos e bisnetos continuavam vivos. Resgatado por helicóptero da montanha onde se refugiou com outras 50 pessoas, ele foi levado para um abrigo, no qual o neto Masanori Nukamori o encontrou.

A família vivia em Kamaichi, uma das inúmeras cidades da costa da região de Iwate que se dedicam à pesca. Sasaki nasceu lá e já havia visto dois tsunamis, mas nada comparável ao que enfrentou há uma semana.

Nukamori e a mulher, Sayaka, têm quatro filhos, de 1, 4, 6 e 7 anos. Quando o terremoto ocorreu, o casal e os dois filhos mais novos foram para o refúgio construído em uma das montanhas de Kamaichi. Sayaka se preparava para buscar os outros filhos na escola quando as ondas gigantescas se aproximaram e todos correram para o alto da colina.

“Eu vi muita gente na água, mas não podia fazer nada. As pessoas estavam misturadas com entulho, carros, pedaços de casas”, lembrou Nukamori em um dos abrigos de Morioka, capital de Iwate, uma das regiões mais duramente atingidas pelo tsunami.

O casal e os dois filhos passaram a noite no refúgio, com aproximadamente 1.000 pessoas. Fazia frio, não havia eletricidade e as crianças choravam. Todos estavam em choque.

No dia seguinte, foram para um abrigo de refugiados e, no outro, Nukamori encontrou os outros dois filhos. Até então, casal não sabia se eles haviam sobrevivido ao tsunami.

A casa da família foi varrida do mapa. “Todas as nossas memórias, as fotos, os desenhos que as crianças fizeram, as recordações dos aniversários, tudo deixou de existir”, lamentou Nukamori.

O menino Shonosuke Yoshida, 10, estava na escola no momento do terremoto e foi levado com os demais estudantes para o alto de uma montanha. De lá, ele viu a água arrastar tudo o que estava pela frente, inclusive a casa onde vivia com seus pais, Kazuya e Kanako Yoshida. O menino tinha certeza de que eles estavam mortos.

No fim da tarde do dia seguinte, Kanako finalmente conseguiu chegar ao abrigo e encontrou o filho. “Quando ele me viu, arregalou os olhos”, conta a mãe. “A maioria das crianças viu suas casas serem destruídas. Alguns pais apareceram depois para buscá-las, mas outros, não”, disse Kazuya.

Hino Yoshiki, 52, estava na empresa de refrigeração de peixe em que trabalhava em Kesennuma quando o tsunami chegou. Outras pessoas que não tiveram tempo de chegar às montanhas se refugiaram no local, onde passaram a noite.

No dia seguinte, Yoshiki foi resgatado de helicóptero e levado a um abrigo em Morioka, onde está até hoje. Casado e pai de três filhos, ele ainda não falou com ninguém de sua família, mas disse ter recebido a notícia de que estão bem, instalados em algum abrigo de Kesennuma. Só não sabe se sua casa ainda existe.

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Kumagi Hiro, 83, vivia em Kesennuma

Kumagi Hiro, 83, é uma ótima contadora de histórias e a descrição do que ela viveu nas 24 horas que se seguiram ao tsunami no Japão parece o roteiro de um filme catástrofe hollywoodiano, com explosões, fuga e resgate espetacular.

Dona de uma pequena pousada para pescadores à beira mar, Kumagi tinha acabado de almoçar quando sentiu o mais forte terremoto de sua vida. Ela e a filha, Sachiro, correram para o carro na esperança de chegar a um lugar alto antes que as ondas do esperado tsunami inundassem a cidade.

As ruas estavam tomadas por outros carros também em fuga e as duas perceberam que não conseguiriam escapar a tempo. Como muitos outros moradores de Kesennuma, elas abandonaram o carro na rua e correram.

Mãe e filha conseguiram entrar em um dos poucos edifícios altos da cidade _uma fábrica de refrigeração de peixe_ onde outras 19 pessoas buscaram abrigo. Quando o tsunami acabou, o prédio foi envolto por um cenário apocalíptico, com incêndios no combustível que vazou dos navios e se misturou com o mar. “Eu vi uma mulher na água, gritando por ajuda, mas não pude fazer nada.”

Logo começaram as explosões dos botijões de gás que provocaram novas labaredas. “Estávamos cercados de água e fogo e as explosões pareciam fogos de artifício. Eu achei que estivesse morrendo”, contou Kumagi ao Estado ontem.

O frio dentro do lugar era insuportável e não havia banheiro, comida ou água. O primeiro problema foi resolvido com o uso de baldes que estavam no local. Mas os outros dois não tiveram solução. Kumagi e os demais ficaram sem comer nem beber.

Quando amanheceu, eles puderam ver a devastação provocada pelo tsunami e o incêndio, que ainda continuava em vários locais. Grande parte da cidade simplesmente deixou de existir, transformada em uma interminável pilha de entulho e carros.

Não havia como sair do prédio e Kumagi e os companheiros começaram a acenar toalhas para os helicópteros que sobrevoavam a cidade. Só às 17h30 um deles parou sobre o local e começou a içar os sobreviventes, quando já estava totalmente escuro.

Kumagi e a filha foram levadas a um abrigo perto do aeroporto de Iwate, onde à noite viram na TV as cenas que haviam protagonizado, como se estivessem assistindo a um filme de ficção. “Ficamos felizes por estarmos vivas.”

Desde segunda-feira, mãe e filha estão em um abrigo de Morioka, capital de Iwate, uma das províncias mais devastadas pelo tsunami. Matsugo Kuramoto, que administra o local, diz que as condições são em geral melhores que as dos locais para refugiados nas áreas afetadas, na costa.

Em Morioka há energia, aquecimento e água, o que falta em muitos outros lugares. O abrigo também pode servir três refeições por dia, o que também não é a regra nas regiões mais castigadas pelo tsunami.

A vida de Kumagi e Sachiro está em suspenso, assim como a dos quase 500 mil japoneses espalhados por abrigos na costa leste do país. O tsunami destruiu a casa e a pousada que Kumagi tinha havia 44 anos. As duas perderam tudo o que tinham e não têm ideia de quanto tempo viverão em refúgios provisórios.

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Olhando da janela do que restou de sua casa, Kaiokoyo Tanaka, 66, traça um mapa da destruição humana que a cerca. Trezentos metros rua acima, sua irmã mais velha foi arrastada pelas ondas. A mais nova pereceu em um bairro vizinho. Do outro lado da rua, uma jovem de 27 anos morreu e, na casa ao lado, uma mulher de 87 anos sucumbiu ao tsunami que arrasou a costa nordeste do Japão há dez dias.

Só nas redondezas de onde ela vivia, na cidade de Otsuchi, 50 pessoas morreram e 100 estão desaparecidas. Enquanto ela fala com a reportagem do Estado, seu sobrinho, filho da irmã mais velha, chega ao local. Além da mãe, Haga Toshioki também perdeu a mulher.

Os três estavam em casa no momento que em o tsunami atingiu Otsuchi. Não fugiram por imaginar que viviam longe o bastante da praia para serem ameaçados pelas ondas gigantes. Haga só lembra de submergir na água e acordar quando a tempestade havia passado, levando a mãe e a mulher.

“Eu vivo como se estivesse na escuridão. Só posso pensar em comer e dormir. Não tenho a menor ideia do que vou fazer a partir de agora”, diz.

Mais da metade da cidade de Otsuchi desapareceu sob a violência do tsunami. De seus 15.000 habitantes, 6.200 estão em abrigos montados nas escolas e templos da cidade. O número de mortos ainda é desconhecido. Ontem, foi encontrado o corpo do prefeito, Koki Kako, arrastado pelas ondas quando realizava uma reunião de emergência logo depois do terremoto de 9,0 graus na escala Richter, o mais forte da história do Japão.

Moradores caminham pelo que antes eram suas ruas, contemplam os escombros de suas antigas casas e tentam resgatar objetos que carreguem parte da memória do que viveram antes da tragédia, como fotos ou altares nos quais prestavam homenagem a seus ancestrais.

Kawasaki Nao, 18, busca a avó de 72 anos, que desapareceu com o tsunami. Já esteve em todos os abrigos e necrotérios de Otsuchi, mas não a encontrou _viva ou morta. Ontem, ela remexia nos escombros da casa, da qual havia conseguido resgatar algumas fotografias e uma caixa na qual estava a aliança de casamento dos avós.

O pescador Kamaishi Susumu olhava com incredulidade para o entulho em que se transformou a casa de 80 anos de história que havia pertencido a seu pai. Além de não ter onde morar, Kamaishi acredita que nunca mais voltará a pescar. “O barco se foi e a associação de pescadores foi destruída. Tudo acabou.”

A casa de Ishihiro, que se identificou apenas pelo sobrenome, ficava do outro lado da rua, a cerca de 100 metros de onde ele encontrou seus escombros, ainda reconhecíveis. Sua mulher foi arrastada pelo tsunami e ontem ele resgatava roupas e objetos pessoais da casa onde eles viveram juntos por décadas.

Koko Matsuhashi, 70, vai todos os dias ao lugar onde antes existia sua casa, na esperança de encontrar algo que contenha parte da memória do que viveu. Já localizou o altar dos ancestrais e agora busca fotos de família. “Eu não tenho nada. Não sei ainda o que vou fazer e penso apenas no presente.”

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A rota da destruição na costa japonesa é impressionante. O cenário de devastação se repete em todas as cidades da costa de Iwate, uma das três províncias mais afetadas pelo tsunami. Milhares de pessoas perderam parentes, amigos, casas e os registros do que havia sido suas vidas até então _fotos, cartas e objetos de valor sentimental.

Hoje estive em Otsuchi, que teve metade de suas construções varridas pelas ondas. De sua população de 15.000 habitantes, 6.200 estão desabrigados e um número desconhecido, mortos, incluindo o prefeito, cujo corpor foi localizado há poucas horas.

Aí vão algumas imagens:

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Ontem estive em Miyako, uma das cidades da costa japonesa devastadas pelo tsunami que atingiu o país há oito dias. Quase um quinto da população local de 55 mil pessoas perdeu suas casas e está em abrigos provisórios montados em escolas. Em muitos deles, não há aquecimento, eletricidade nem água e o suprimento de comida é limitado. A maioria dos refugiados ainda não tomou banho e continua com a mesma roupa que usava quando o desastre ocorreu.

Os que não perderam casas e negócios tentavam retomar suas vidas, retirando a lama e limpando o que podiam. Aí vão algumas das fotos: 

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Antes de ver a água, Setsuko Otomo ouviu o som aterrorizante das ondas gigantescas que se aproximavam. Quando levantou o olhar, postes e casas se moviam no horizonte e ela soube que tinha que correr o mais rápido possível. O tsunami estava em seu encalço, a uma distância de aproximadamente 20 metros, e engoliu muitos dos que também tentavam se salvar da avalanche de água que devastou Rikuzentakata.

Pouco sobrou da cidade que tinha 24 mil habitantes antes do desastre de sexta-feira, transformada em um mar de lama e entulho que se estende por quase dez quilômetros.

Vestígios do que antes eram casas aparecem soterrados nos pedaços de madeira, ferro e concreto, em meio do qual há centenas de carros. O prefeito Futoshi Toba parecia em estado de choque quando visitou ontem um dos abrigos para refugiados, no qual estão 1.000 pessoas. Ele disse que não saber ainda o número de mortos em sua cidade, entre os quais está sua mulher.

Rikuzentakata já havia sido vítima das ondas gigantes há 50 anos, no que ficou conhecido como o Tsunami do Chile, porque foi provocado por terremoto no país latino-americano. Seus moradores sabiam que o desastre voltaria a ocorrer e levantaram um muro de cinco metros de altura na praia para barrar seu avanço.

O que ninguém esperava é que o tsunami fosse tão violento e veloz. As ondas de até 10 metros ultrapassaram facilmente a barreira e arrastaram tudo pelo caminho. “Quando falamos em tsunami pensamos em água, mas o que veio foram os destroços das casas destruídas”, recordou Isitsu Katsuo.

Junto com a mulher, Yamamoto, e suas duas filhas, Isitsu também escapou correndo da avalanche. “Eu vi pessoas atrás de mim sendo arrastadas pela água. É um milagre que nós estejamos vivos”, disse ela, chorando. 

Sato Hidomi morava a 15 minutos de carro da costa de Rikuzentakata e acreditava que sua família estava a salvo da ameaça de um tsunami. Quando viu a espuma levantada pelo avanço da água, pensou que se tratava de fumaça gerada por incêndios. Ela só percebeu o que estava acontecendo quando as pessoas começaram a abandonar os carros nos quais tentavam sair da cidade e correr.

A única pessoa que estava na casa além dela era sua mãe, de 72 anos. As duas se juntaram aos outros na fuga desesperada, mas Sato chegou sozinha à montanha que fica nas proximidades de sua casa. Sua mãe desapareceu, provavelmente levada pelas ondas. Ontem ela continuava a busca por seu corpo no necrotério da cidade. “Nós perdemos tudo, mas não fomos apenas nós. Todos os que estão aqui perderam tudo”, disse Sato.

Funcionário de uma empresa que fabrica molho de soja, Yamaguchi Ko se abrigou em um lugar alto da cidade logo depois do terremoto de 9,0 graus na escala Richter, o mais violento já sofrido pelo Japão.

De lá, assistiu ao avanço das ondas, que arrastaram o edifício onde ele trabalhava e os carros que estavam estacionados ao redor. Logo depois, viu a água chegar à sua casa, que desapareceu sob a violência do tsunami. “O som da água era estrondoso e vinha de 360 graus. Parecia que eu estava em filme”, lembrou ontem no abrigo, no qual está com a mulher, os pais e a filha.

O refúgio foi instalado no ginásio de esportes de uma escola secundária, onde no momento do terremoto os estudantes ensaiavam sua cerimônia de graduação.

Mao Kanno, de 14 anos, é uma das alunas do local e jogava cartas com quatro amigas na tarde de ontem. Nada sobrou do lugar onde elas viviam. Os pais de Mao estão bem, mas seus avós desapareceram sob as águas.

Um desabrigado que se identificou apenas pelo sobrenome, Abe, sobreviveu porque se refugiou no prédio da prefeitura, um dos únicos a resistir à violência do tsunami. Os que estavam lá tiveram foram para o teto do edifício de quatro andares, para escapar da água que subia rapidamente.

Há 50 anos, quando houve o Tsunami do Chile, Abe tinha 4 anos. Ele não se lembra de nada, mas sabe que a água quase na porta da prefeitura. Na sexta-feira, ela avançou quilômetros além da construção. Como quase todos os moradores de Rikuzentakata, Abe perdeu tudo o que tinha e sua mãe está desaparecida.

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O fogo ardeu por cinco dias na cidade portuária de Kesennuma e só foi extinto na noite de quarta-feira, deixando um cenário parecido a um imenso ferro-velho de metal retorcido e carros incendiados, que ganha tons surrealistas pela presença de um imenso navio estacionado no meio do entulho.

Marinheiros de barcos que se dedicam à pesca de atum, os homens de Kesennuma estão acostumados às tempestades no mar, mas jamais imaginaram que pudessem ver algo da proporção do tsunami que os atingiu na sexta-feira.

“Esperávamos que um dia algo grande fosse chegar, mas nunca pensamos que fosse ser tão devastador e tão extenso”, disse Hiroshi Sukuzi, um homem na casa dos 60 anos que agora vive com alguns vizinhos em um dos 93 abrigos provisórios criados para receber as 20 mil pessoas que perderam suas casas _o equivalente a mais de um terço da população de 73 mil habitantes.

Os moradores de Kesennuma enfrentaram o terremoto, o tsunami e o incêndio, que se sucederam em uma espaço de pouco mais de uma hora. O fogo começou logo depois de água avançar pela cidade, criando o cenário paradoxal de chamas em meio ao alagamento.

A origem foram os botijões de gás das casas, que foram explodindo um depois do outro. O combustível que vazou dos navios também alimentou o fogo, gerando um incêndio de proporções gigantescas, que os bombeiros não conseguiam extinguir: quando eles tinham sucesso em debelar um foco, um novo surgia em outro lugar.

Ontem, equipes de resgate vasculhavam os escombros em busca de corpos e moradores incrédulos olhavam para o que sobrou de suas casas.

Yoshida, de 74 anos, é um marinheiro aposentado que viajou o mundo em barcos de pesca e estava em Kesennuma há 50 anos, quando o Tsunami do Chile atingiu a cidade. Por isso, sabia que era preciso evacuar as casas rapidamente depois do terremoto.

Junto com outros de sua idade, Yoshida se encaminhava para o refugiou em um local alto quando decidiu voltar, apesar do enorme risco: ele não queria deixar para trás as fotos de família e os tabletes de madeira nos quais estão escritos os nomes de seus pais, utilizados em cerimônias para homenageá-los.

O ex-marinheiro só percebeu que o tsunami havia chegado quando sua casa começou a flutuar. Yoshida subiu para o segundo andar e manteve a calma enquanto a construção era levada pela água. “Eu peguei muita tempestade no mar e sabia que não iria morrer.” A casa foi parcialmente destruída, mas Yoshida sobreviveu e foi resgatado no dia seguinte.

Ontem sua mulher, Yasako Yoshida, enfrentou a parede de entulho que cobre a região onde viviam para ver o que havia sobrado no local onde antes estava sua casa. Resgatou uma pequena planta e uma bolsa com fitas coloridas, que usa para fazer artesanato.

Sentada em seu tatame no abrigo, Hume Ito conta que estava na fábrica de correias de transmissão para navios onde trabalha quando o terremoto ocorreu. Ela imediatamente saiu de carro, pegou os dois filhos na escola e se refugiou no santuário inaugurado no ano passado no alto de uma montanha.

O apartamento onde sua família vivia foi totalmente destruído pelo fogo, que teve origem em um reservatório de combustível. Localizada no porto, a empresa ainda está submersa. “A cidade está totalmente destruída”, disse seu pai, Mikio Ito, 75. “Eu nunca vi nada parecido.”

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Estive hoje em duas cidades devastadas pelo tsunami que atingiu o Japão sexta-feria. Em Rikuzentakata, 90% das casas foram arrastadas pelas ondas de até 10 metros de altura. A poucos quilômetros dali, um terço da população de Kesennema está desabrigada. O fogo que consumiu parte da cidade só foi controlado na noite de ontem. Neste momento, escrevo os textos que serão publicado no Estado de amanhã e que prometo colocar no blog.

Por enquanto, vão algumas das fotos que tirei. O impacto da destruição e das hitórias humanas é profundo:

Rikuzentakata

Lugar onde antes estavam as casas de Rikuzentakata

Casas de Kesennuma consumidas pelo fogo que só foi extinto ontem

Uma das inúmeras imagens surrealistas geradas pela tragédia (Kesennema)

Mesma imagem, sob a neve

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Apesar de ter crescido robustos 3,9% no ano passado, o Japão perdeu oficialmente para a China o posto de segunda maior economia do mundo que ocupou durante quatro décadas. Autoridades de Tóquio informaram ontem que o PIB de 2010 ficou em US$ 5,47 trilhões, abaixo dos US$ 5,88 trilhões do vizinho emergente.

A diferença de US$ 410 bilhões entre os dois países supera o tamanho da economia da Argentina, que atingiu US$ 351 bilhões em 2010, segundo estimativa do Fundo Monetário Internacional.

O resultado era impensável há uma década, quando o PIB chinês representava um terço do japonês, e reflete tanto o dinamismo da China quanto a estagnação em que o Japão mergulhou a partir dos anos 90.

Mas o 1,3 bilhão de habitantes da que agora é a segunda maior economia do mundo continua a ser bem mais pobre que os 128 milhões que passaram para a terceira posição _o PIB per capita chinês equivale a cerca de um décimo dos US$ 43 mil dos japoneses.

No ritmo atual, a China deverá superar os Estados Unidos e se tornar a maior economia do mundo até 2030. A ultrapassagem ocorrerá cerca de 15 anos antes se for considerado o valor do PIB pela Paridade de Poder de Compra (PPP, na sigla em inglês), cuja equação contempla o impacto dos preços relativos na economia de cada país. 

A espetacular história da expansão chinesa começou a ser escrita em 1978, quando Deng Xiaoping (1904-1997) obteve apoio dentro do Partido Comunista para implantar sua política de abertura e integração gradual do país à economia mundial.

Naquela época, a China estava isolada e destroçada pela trágica experiência da Revolução Cultural (1966-1976). O PIB per capita não chegava a US$ 300 ao ano, comparados com quase US$ 9.000 dos japoneses.

As reformas iniciadas por Deng levaram a China a um crescimento médio de quase 10% ao ano nas últimas três décadas, algo inédito na história recente da humanidade. Os principais motores dessa expansão foram os investimentos e as exportações. O grande desafio dos dirigentes de Pequim agora é mudar o padrão de crescimento e aumentar o peso do consumo doméstico no PIB.

Se conseguir essa transição, a China aumentará sua relevância como uma das principais turbinas da expansão mundial. O país é o principal destino das exportações do Japão e sua demanda foi um dos fatores que levaram aos 3,9% de crescimento em 2010.

Apesar do resultado positivo, a economia japonesa encolheu 0,3% no quarto trimestre _ou 1,1% anualizados. A contração decorreu principalmente da queda no consumo interno provocada pelo fim de subsídios adotados depois da crise financeira global. Ainda assim, a contração foi menor que a média de -0,5% esperada por analistas.

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Ator central do espectro da “guerra cambial” que paira sobre o mundo, a China resistirá ao máximo ao apelo internacional para que aprecie sua moeda de maneira expressiva. A decisão do Japão de sucumbir à pressão dos Estados Unidos e aceitar a valorização de sua moeda em 1985 é uma das principais razões apresentadas por muitas das autoridades chineses para resistir ao coro global a favor da apreciação do yuan.

“A China não repetirá o erro do Japão”, avisou há duas semanas Li Daokui, economista e membro do comitê de política monetária do Banco do Povo da China. Depois de permitir a apreciação do iene, o Japão entrou em um período de especulação que levou à formação de bolhas de ativos. Quando elas estouraram, no início dos anos 90, o país mergulhou na chamada “década perdida”, da qual ainda não conseguiu se recuperar totalmente.

Ainda que muitos sustentem que a crise foi originada por outros fatores que não a mudança cambial, a China não está disposta a correr o risco de repetir a história do país vizinho, o qual acaba de deixar para trás na corrida pelo posto de segunda maior economia do mundo.

A mudança cambial do Japão ocorreu a partir do Acordo Plaza, assinado em setembro de 1985 em Nova York pelos países que integravam o G5 _Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e Inglaterra. O pacto decorreu da ação coordenada entre as maiores economias industrializadas, movimento semelhante ao defendido agora pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para enfrentar a ameaça de uma “guerra cambial”. O objetivo do Acordo Plaza era desvalorizar a moeda dos Estados Unidos, que acumulava grandes déficits comerciais, e apreciar o iene. A moeda japonesa estava cotada na época a 240 por dólar. Em 1987, já estava em 130 por dólar. Atualmente, gira em torno de 85.

A China considera seu sistema cambial uma questão de política interna, em relação à qual os demais países não devem se manifestar _mesmo que ela afete preços relativos do comércio global. O controle da taxa de câmbio é visto como elemento central da estratégia de desenvolvimento do país, na qual as exportações cumprem papel relevante. “A apreciação do yuan antes que a China seja realmente próspera vai prejudicar o desenvolvimento sustentável da indústria manufatureira”, escreveu no jornal oficial China Daily o economista Mei Xinyu, da Academia Chinesa de Comércio Internacional e Cooperação Econômica, ligada ao Ministério do Comércio.

Na opinião de Mei, a China sofreria mais que o Japão na hipótese de apreciação significativa da moeda, em razão dos diferentes estágios de suas economias. “O Japão havia entrado na fase pós-industrial e já integrava a lista dos países desenvolvidos naquela época [1985], enquanto a China ainda percorre o caminho da industrialização.”

Mas como a China de hoje, o Japão dos anos 80 tinha grandes superávits comerciais com os Estados Unidos, acumulava reservas estrangeiras e usava sua poupança para comprar títulos do Tesouro norte-americano. E como a China de hoje, o Japão também emergia como um país capaz de desafiar a posição dos Estados Unidos como grande potência mundial. Isso faz com que não poucos em Pequim tenham teorias conspiratórias, que vêem na pressão norte-americana pela valorização do yuan uma estratégia para minar a ascensão chinesa.

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