A China vai desacelerar no segundo semestre, em razão do menor ritmo de crescimento do crédito e do investimento, previu ontem o instituto de pesquisa norte-americano Conference Board, que espera um “pouso suave” do país. A entidade tem uma projeção menos rósea para o médio prazo _dois a três anos_, quando aposta em uma redução “significativa” na velocidade de expansão da segunda maior economia do mundo. Na avaliação da instituição, a freada será provocada por medidas “drásticas” que Pequim terá de adotar para mudar seu modelo de crescimento baseado em investimentos e exportações.
Paradoxalmente, o Conference Board divulgou ontem seu indicador econômico para a China, que mostra aumento da atividade econômica em junho, na comparação com os meses anteriores. Mas dados relativos a julho indicam que o aperto monetário promovido pelo banco central desde o início de 2010 teve efeito sobre a expansão do país. No mês passado, o volume de novos empréstimos ficou em 492,6 bilhões de yuans (R$ 122,9 bilhões), menos que os 633,9 bilhões de yuans (R$ 158,2 bilhões) de junho e abaixo dos cerca de 550 bilhões de yuans (R$ 137,2 bilhões) esperados por analistas.
O crédito é a principal fonte de recursos dos investimentos e ambos os indicadores foram responsáveis pelo alto índice de crescimento da economia chinesa nos últimos dois anos, lembra Jing Sima, economista do Conference Board. Dados divulgados na semana passada pelo Escritório Nacional de Estatísticas revelaram que o investimento em ativos fixos nos primeiros sete meses do ano aumentou 25,4% _uma ligeira desaceleração de 0,2 ponto percentual em relação ao patamar registrado nos primeiros seis meses.
A expansão na produção industrial passou de 15,1% em junho para 14% no mês seguinte, enquanto o Índice de Compras de Gerentes calculado pelo HSBC ficou em 49,3, na primeira vez em um ano em que o indicador caiu abaixo da marca de 50 que separa expansão de contração da atividade. Mas economistas do HSBC ressaltaram que, na China, esse nível é compatível com uma produção industrial na casa de 11% a 13%, o que sustentaria um crescimento do PIB de 9% no ano. A venda de carros caiu 11,1% entre junho e julho, apesar de ter aumentado 2,2% em relação a igual período do ano passado. A desaceleração levou a Associação de Fabricantes de Veículos da China a revisar para baixo a previsão de expansão do asetor em 2011.
Segundo o economista do Conference Board, a melhoria do indicador de atividade de junho calculado pela entidade foi puxada pelo aumento da expectativa positiva dos consumidores. Na avaliação da instituição, o movimento se deveu principalmente à ampla divulgação na mídia oficial da afirmação do governo de que a inflação havia atingido um pico e começaria a cair. Mas o Índice de Preços ao Consumidor continuou a se acelerar e atingiu em julho 6,5%, o maior patamar em dois anos.
A pressão inflacionária reduz a margem de manobra do Banco do Povo da China de afrouxar a política monetária para estimular a economia. Desde outubro, a instituição elevou em nove vezes o percentual de depósitos que os bancos devem manter imobilizados, sem emprestar a seus clientes _o índice está no patamar recorde de 21,5%. A medida reduziu a quantidade de dinheiro disponível para o crédito e foi acompanhada da elevação da taxa de juros. A maioria dos analistas acredita que a autoridade monetária abandonará a política de aperto em razão do agravamento da crise nos países ricos. Mas não há consenso em relação à possibilidade de afrouxamento, com alguns apostando na redução do depósito compulsório dos bancos, outros prevendo um cenário de estabilidade, em resposta às pressões inflacionárias, e uma minoria acreditando em uma alta de 0,25 ponto percentual dos juros.
Os governos locais chineses encerraram 2010 com uma dívida de US$ 1,65 trilhão e alguns deles podem não conseguir pagar o que devem, de acordo com relatório do Escritório Nacional de Auditoria divulgado na segunda-feira. Para alguns analistas, a situação é mais grave que a revelada nos dados oficiais, que coloca o débito em um patamar equivalente a 25% do PIB do país _percentual que não inclui o endividamento em âmbito nacional.
Essa foi a primeira auditoria que as autoridades de Pequim realizaram nos débitos dos governos locais, que se transformaram em um problema com a febre de investimentos que tomou conta do país depois do pacote de estímulo de US$ 586 bilhões adotado em novembro de 2008 em resposta à crise internacional.
Para financiar os milhares de projetos que pipocaram ao redor da China, muitas províncias e cidades escaparam das restrições oficiais de endividamento com a criação de “veículos especiais” _entidades que contraíram empréstimos junto aos bancos públicos e os aplicaram na construção de obras que nem sempre tinham viabilidade econômica.
“A administração de algumas das plataformas de financiamento dos governos locais é irregular e sua lucratividade e capacidade de pagar seus débitos é bastante frágil”, declarou o auditor nacional, Liu Jiayi, ao apresentar o relatório ao Congresso Nacional do Povo.
A cifra de US$ 1,65 trilhão é inferior à estimativa dos débitos locais feita pelo Banco do Povo da China _o banco central do país_ no início deste mês, que colocou a cifra em US$ 2,2 trilhões, o equivalente a 30% do estoque de empréstimos em yuans concedidos pelo sistema financeiro.
O eventual calote pelos governos locais terá impacto direto sobre a saúde dos grandes bancos públicos chineses, que foram a principal fonte de recursos para sustentar o boom de investimentos experimentado pelo país nos últimos dois anos. Em 2009, o sistema financeiro chinês concedeu empréstimos no valor de US$ 1,4 trilhão, o dobro do registrado no ano anterior e o equivalente a 30% do PIB naquele período. A cifra diminuiu para US$ 1,2 trilhão em 2010, mas ainda ficou bem acima do patamar de 2008.
Proibidos de emprestar diretamente dos bancos, os governo locais criaram cerca de 10 mil veículos especiais até o fim do ano passado, segundo relatório do banco central. Essas instituições contornaram as restrições e abocanharam parte da montanha de crédito que inundou a economia chinesa e garantiu taxas de crescimento próximas de 10% ao ano.
No livro “Capitalismo Vermelho – O frágil alicerce financeiro da extraordinária ascensão da China” (tradução livre), os economistas Carl Walter e Fraser Howie sustentam que a explosão de empréstimos para estimular o crescimento da economia chinesa em 2009 e 2010 vai inevitavelmente levar ao surgimento de créditos podres, que exigirão uma nova onda de capitalização dos bancos dentro de dois a três anos.
O risco de que os bancos não consigam recuperar parcela significativa do que emprestaram levou a agência de classificação de risco Fitch a rebaixar de “estável” para “negativo” a perspectiva da nota AA- que dá às dívidas de longo prazo em moeda local. Anunciada em abril, a decisão poderá levar ao primeiro rebaixamento do rating chinês em 12 anos. Na avaliação da Fitch, existe “grande possibilidade de significativa deterioração” no balanço dos bancos nos próximos três anos.
Victor Shih, professor da Universidade Northwestern de Chicago, sustenta que a situação das finanças públicas na China é bem mais grave que a apresentada no relatório dos auditores. Se forem somados as dívidas dos governos nacionais e locais, das estatais e de outras agências controladas pelo Estado, o valor se aproxima de 70% do PIB.
O economista-chefe do HSBC para a China, Qu Hongbin, acredita que a situação tende a se agravar em razão do descompasso entre o vencimento das dívidas e a geração de caixa pelas obras construídas nos últimos dois anos. Em sua opinião, se não houver uma reestruturação desses passivos, os bancos enfrentarão o aumento do calote nos próximos anos, com a consequente elevação do volume de créditos irrecuperáveis em seus balanços.
Enquanto o Brasil pena para construir o trem rápido de 518 km que deve ligar Rio, São Paulo e Campinas, a China anuncia que vai adicionar 6.000 km de linhas do tipio à sua rede até 2012. Com isso, vai quase dobrar a malha de alta velocidade, para 13.000 km, cifra que vai superar a soma do que existirá em todos os demais países juntos.
Essa febre de construção vai exigir o equivalente a R$ 202 bilhões de investimentos nos próximos dois anos, cifra quase quatro vezes maior que os R$ 55,7 bilhões que o Brasil destinará a todo o setor ferroviário.
Em pouco tempo, a China se transformou em um dos líderes globais na construção de trens rápidos e começa a colocar em prática a estratégia de exportar tecnologia e equipamentos ferroviários para outros países. Entre eles, está o Brasil, onde os chineses devem disputar o contrato do Trem de Alta Velocidade (TAV) com japoneses, sul-coreanos, franceses, espanhois e alemães.
A ofensiva do país asiático para internacionalizar sua indústria ferroviária foi lançada no ano passado e levou as gigantescas estatais do setor a buscarem negócios em todas as regiões do planeta.
Por enquanto, um dos maiores acordos é com a Argentina, que receberá US$ 12,5 bilhões em financiamentos e investimentos para expandir sua rede e recuperar as linhas de Buenos Aires. A condição é que os recursos sejam utilizados na compra de tecnologia e equipamentos da China.
Pequim começou sua incursão no setor ferroviário latino-americano em 2009, com um acordo para a construção 470 km de linhas entre as cidades venezuelanas de Tinaco e Anaco.
Atualmente, os chineses também tentam obter contratos nos Estados Unidos, Rússia, Arábia Saudita, Mianmar, Polônia, Índia, Quirguistão e Uzbequistão, segundo o Ministério das Ferrovias.
A eventual vitória chinesa na disputa pelo TAV entre Rio, São Paulo e Campinas transformará o Brasil em uma espécie de vitrine para venda de produtos e serviços de um setor visto como estratégico pelo governo de Pequim, mas cujo crescimento não é isento de controvérsia.
Os interessados na obra, avaliada em R$ 33 bilhões, devem entregar suas propostas em novembro. A escolha do vencedor está prevista para o mês seguinte.
A China desenvolveu grande parte de sua tecnologia de trens rápidos com a ajuda de empresas estrangeiras, que aceitaram realizar joint-ventures com estatais controladas por Pequim na esperança de ter acesso ao imenso mercado local.
As autoridades chinesas refutam a acusação de que se apropriaram de know-how externo de maneira indevida, mas reconhecem que a experiência estrangeira teve papel relevante para o desenvolvimento do país no setor.
Em documento distribuído a jornalistas ontem, o Ministério das Ferrovias afirmou que a China desenvolveu inovações originais, mas também fez “re-inovações”, depois de “importar, digerir e absorver” a tecnologia estrangeira.
“A China aplicou os frutos da civilização de trens de alta velocidade”, declarou em entrevista coletiva o engenheiro-chefe do ministério, He Huawu. Segundo ele, o país está disposto a compartilhar suas “conquistas” com o restante do mundo.
O Banco Mundial avalia que a transferência de tecnologia, aliada à experiência chinesa na operação de milhares de quilômetros de linhas, transformará a indústria ferroviária local em uma das mais avançadas do mundo. “Isso deve posicionar o país para competir internacionalmente quando outros países adotarem trens de alta velocidade”, destaca estudo da entidade também divulgado ontem.
O Ministério das Ferrovias vai mais longe e sustenta que o desenvolvimento da China nesse setor pode levar ao “renascimento” e à “revitalização” das ferrovias em todo o mundo.
A entrada da China na disputa internacional nesse setor terá um marco simbólico em dezembro, quando o país sediará o 7º Congresso Mundial de Alta Velocidade (Highspeed 2010), na primeira vez em que o evento ocorrerá fora da Europa.
Os investimentos ferroviários tiveram uma das maiores fatias no pacote de estímulo de US$ 586 bilhões anunciado pela China em novembro de 2008 para combater os efeitos da crise econômica global.
De acordo com o governo, a construção de ferrovias recebeu investimentos de US$ 89 bilhões no ano passado, que levaram ao consumo de 20 milhões de toneladas de aço e de 120 milhões de toneladas de cimento, além de criar 6 milhões de empregos em toda a cadeia produtiva do setor.
O Brasil vai aproveitar a Exposição Mundial em Xangai para promover exportações, tentar atrair investimentos e divulgar destinos turísticos do país junto ao público chinês. O evento será o maior do tipo já realizado em todo o mundo e deverá atrair 70 milhões de visitantes em seus seis meses de duração.
Não por acaso, a responsabilidade pela construção e gestão do pavilhão brasileiro é da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. “Na Olimpíada de 2008, em Pequim, a China se apresentou ao mundo. Agora, é o mundo que vem se apresentar à China”, diz o embaixador Marcos Caramuru, cônsul do Brasil em Xangai. A Apex espera que sete milhões de pessoas visitem o pavilhão brasileiro, que será utilizado para realização de seminários de atração de investimentos com foco na Copa de 2014 e na Olimpíada de 2016, rodada de negócios entre empresários brasileiros e chineses e atividades de missões exportadoras dos setores de carnes, café, alimentos, bebidas, construção, máquinas e componentes para calçados e móveis.
O local servirá ainda para a divulgação dos Estados brasileiros, que terão quinzenas delimitadas durante os seis meses de duração da Expo. Com o tema “Cidades Pulsantes”, o pavilhão terá uma exposição permanente que dará um panorama da cultura, da economia, das cidades e dos destinos turísticos brasileiros. “Essa vai ser uma das mais completas participações do Brasil em eventos internacionais de grande porte”, afirma o diretor do pavilhão, Pedro Wendler.
Na sala de entrada, são projetados vídeos sobre regiões e cidades, em uma parede curva que forma uma espécie de semitúnel. O destino seguinte é a Sala da Alegria Brasileira, onde há uma parede curva 180 graus, na qual são exibidos filmes sobre as festas regionais brasileiras, o Carnaval e o futebol, nos estádios que irão sediar a Copa de 2014.
O coração do pavilhão é a Sala das Cidades Pulsantes, na qual os visitantes assistem simultaneamente a quatro filmes de oito minutos sobre o quotidiano de brasileiros, projetados nas paredes internas de um quadrado suspenso que ocupa o centro da sala. Os personagens são um engenheiro da Embraer, um trabalhador em plataforma da Petrobras, uma música e um fazendeiro. No piso, são projetadas imagens aéreas de grandes cidades brasileiras.
O tema da Expo 2010 é “Cidade Melhor, Vida Melhor”, em torno do qual se organiza a presença dos 192 países e das 50 instituições internacionais e empresas participantes. A promoção do turismo no Brasil é feita em duas telas digitais de 100 polegadas, cada uma das quais pode ser usada simultaneamente por três pessoas. Nelas, os visitantes conhecem 34 destinos turísticos voltados para o público chinês, que não gosta de praia, mas é louco por florestas e cachoeiras. “Na próxima década, o número de turistas chineses chegará a 100 milhões”, lembra Ricardo Schaefer, diretor de gestão e planejamento da Apex.
Outras duas telas no mesmo estilo apresentam a Copa de 2014 e as cidades e estádios onde serão realizados os jogos. Do lado de fora do pavilhão há uma grande tela interativa, na qual os visitantes da Expo podem “jogar” futebol, esporte que fascina os chineses. O local também servirá para exibição de jogos do Brasil na Copa do Mundo, que coincidirá com um período da Expo 2010. Cada país terá seu dia específico dentro do evento. O do Brasil será 3 de junho, quando haverá apresentações de Carlinhos Brown e Mart´nália.
Por enquanto, o único embaixador do Brasil na Expo é o escritor Paulo Coelho, que estará em Xangai no segundo semestre. Apesar de os chineses conhecerem os principais jogadores brasileiros, nenhum estará presente no evento. Também não está confirmada a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia do Brasil.
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