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Cláudia Trevisan

Os norte-coreanos são desplugados do mundo: não têm internet nem TV a cabo e seus celulares não podem fazer ligações para o exterior. A informação é rigorosamente controlada e a propaganda oficial apresenta a dinastia estalinista fundada por Kim Il-sung como a responsável por tudo de bom que acontece no país. Segundo a versão oficial dos fatos, a fome que matou estimadas 2 milhões de pessoas nos anos 90 e pode matar mais agora é consequência de desastres naturais e não da má-gestão e isolamento do país.

No lugar da rede mundial de computadores, os cidadãos comuns usam uma intranet, na qual só podem acessar sites norte-coreanos. A internet é reservada a alguns privilegiados, a diplomatas estrangeiros e jornalistas em visita ao país autorizadas pelo governo. Para viabilizar o trabalho do grupo de repórteres que está em Pyongyang, o governo montou uma sala de imprensa com internet no hotel onde estamos hospedados. Não temos internet no quarto. Como todos os estrangeiros que entram no país, fomos obrigados a deixar nossos celulares no aeroporto.

Os jovens norte-coreanos não sabem o que é facebook ou twitter, não escutam rock, não vão a danceterias nem jogam videogames. Como todos no país, levam na roupa botoms com a imagem de Kim Il-sung, que é venerado como um semi-deus pela propaganda oficial. Quando visitamos a universidade Kim Il-sung na quarta-feira, muitos dos estudantes que estavam diante de computadores na biblioteca liam na tela obras de Kim Il-sung. Essa é a universidade de elite do país, para onde são enviados os melhores estudantes. Kim Il-guang, 30, disse que um de seus websites preferidos na intranet é o dedicado à ideologia Juche concebida, claro, por Kim Il-sung. Ela é o extremo oposto da globalização e prega a auto-suficiência da Coreia do Norte em todos os campos.

Mas o país está longe de andar com as próprias pernas. Durante o período soviético, a Coreia do Norte recebeu generosa ajuda da ex-União Soviética e fazia parte do bloco comunista que se opôs aos americanos na Guerra Fria. Com o desmantelamento da URSS, a economia da Coreia do Norte começou a se desestruturar e um misto de má-gestão, isolamento e desastres naturais levaram à grande fome dos anos 90.

Agora, eles enfrentam uma nova onde de falta de alimentos, que tentam amenizar atraindo doações internacionais _o Brasil vai enviar 5.000 toneladas de feijão ao país. O World Food Program estima que 6 milhões dos 24 milhões de norte-coreanos receberão menos comida do que necessitam em 2001, em parte como consequência do inverno severo. Isso significa que um quarto da população de 24 milhões de pessoas corre o risco de inanição.

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O governo chinês prendeu seis pessoas, fechou 16 sites e suspendeu os comentários nos dois grandes serviços de microblogs do país, cada um dos quais com cerca de 300 milhões de usuários, na maior ofensiva de controle das versões locais do twitter desde que eles ganharam popularidades, nos últimos dois anos.

As medidas são uma resposta aos rumores que circularam na internet na semana retrasada, segundo os quais Pequim havia sido palco de uma tentativa de golpe de Estado, com tanques nas ruas e troca de tiros em Zhongnanhai, o complexo onde vivem e trabalham os líderes máximos chineses.

Os boatos estão relacionados à queda do ex-chefe do Partido Comunista na megacidade de Chongqing, Bo Xilai, e à disputa de poder dentro da organização nos meses que antecedem à troca de comando que ocorrerá no fim deste ano. Bo era um dos principais candidatos ao Comitê Permanente do Politburo, formado pelos nove homens que de fato mandam no país, mas foi afastado no dia 15 de março. Não há nenhuma informação oficial sobre seu paradeiro, as causas de sua queda e seu futuro.

De acordo com os comentários que circularam online, a tentativa de golpe teria sido orquestrada por Zhou Yongkang, o principal aliado de Bo entre os atuais nove integrantes do Comitê Permanente do Politburo. Zhou é responsável pelas forças de segurança e esteve ausente de uma reunião da comissão que preside no dia 22 de março, uma semana depois do afastamento de Bo Xilai, o que estimulou as especulações sobre choques sísmicos na cúpula do Partido Comunista.

Os comentários circularam amplamente online, mas nada nas ruas de Pequim indicava que algo de anormal estivesse ocorrendo. O policiamento continuava o mesmo, não havia nenhum sinal de tanques e analistas afirmaram que os boatos eram fabricados. Nenhuma autoridade desmentiu os rumores, mas eles perderam força depois que Zhou Yongkang participou de atividades públicas no dia 26 de março.

Os usuários podem publicar posts nos microblogs, mas comentários sobre informações veiculadas por outros internautas estão suspensos até terça-feira. Os usuários que tentam realizar comentários são informados de que os serviços estavam contaminados com “muitos rumores e informação destrutiva e ilegal” e que a interrupção é necessária para realização de uma “limpeza”.

A decisão foi anunciada tarde da noite de sexta-feira. A agência de notícias Xinhua afirmou ontem que o Departamento Estatal de Informação na Internet concluiu que os 16 sites fechados haviam espalhado rumores de que “veículos militares haviam entrado em Pequim” e que algo de errado estava ocorrendo na cidade.

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O bloqueio do Twitter pela censura chinesa não impediu o surgimento de um efervescente universo de microblogs, que reúne algo entre 300 milhões e 400 milhões de usuários e se tornou a principal plataforma de disseminação de informação e de discussão de temas tabus em um país que emprega milhares de censores para definir o que sua população pode ou não saber. Agora esse território semi-livre enfrenta a mais nova ofensiva das autoridades de Pequim para tentar controlar o que é divulgado online: a exigência de que todos os usuários de microblogs _ou weibo em chinês_ se registrem com seus nomes e números de identidade verdadeiros, o que têm o claro objetivo de restringir sua liberdade de comentar assuntos considerados “sensíveis” aos olhos dos censores.

O governo determinou em dezembro que todos os novos usuários de microblogs devem se registrar com seus nomes verdadeiros e deu às empresas prazo até 16 de março para converter as atuais contas anônimas em contas com nome e identidade. O executivo-chefe do portal Sina, Charles Chao, disse que as regras poderão ter efeito “negativo” sobre o weibo da empresa, o mais popular do país, com 300 milhões de usuários.

Segundo ele, mais de 40% dos novos adeptos do serviços não forneceram sua identidade, o que impede que publiquem posts, mas permitem que leiam o que está online. Chao avalia que será “difícil” cumprir o deadline de 16 de março para acabar com o anonimato dos usuários e não descartou a adoção de novas medidas restritivas no futuro.

A maioria dos que já estão registrados parece estar aguardando para ver se a regra é mesmo para valer. Na China, como no Brasil, há leis que não pegam e muitos acreditam que essa é uma delas, pelo grande número de pessoas que afeta. Mas a determinação é um termômetro do nervosismo das autoridades chinesas com uma plataforma de informação que foge ao total controle dos censores, ainda que esteja sujeita a seu escrutínio. Várias palavra e temas são bloqueados e mensagens consideradas ofensivas são deletadas.

O weibo é uma plataforma de crítica a uma série de problemas crônicos da sociedade chinesa, como a corrupção e o abuso de poder, e uma fonte de informação vista como mais confiável que a desacreditada mídia oficial. A grande dúvida agora é por quanto tempo poderá sobreviver em seu formato atual.

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A China tem a maior população de internautas do mundo _470 milhões_ e uma reserva de mercado levantada pela barreira da censura, em razão da qual sites como Facebook, Twitter e Youtube são inacessíveis no país. Nesse vácuo, empreendedores chineses criaram “clones” locais, muitos dos quais cresceram a ponto de entrar para o ranking das maiores empresas de internet do mundo. Apesar de todas serem companhias privadas, seus donos juram fidelidade ao Partido Comunista e compareceram em massa a um evento realizado dia 8 de junho para celebrar os 90 anos da organização.

Entre os 80 executivos do setor que participaram da “Gloriosa Excursão Vermelha” estava Li Yanghong, 42, o homem mais rico da China e fundador do site de buscas Baidu, a versão chinesa do Google. O Baidu está em sexto lugar no ranking dos sites mais visitados do mundo da consultoria Alexa, atrás de Google, Facebook, Youtube, Yahoo! e Live. Com uma fortuna de US$ 9,4 bilhões, Li é o que está de roupa caqui, sorridente e agitando uma bandeira vermelha na foto abaixo.

Outro que participou da celebração foi Cao Guowei, CEO da Sina, o principal portal de notícias e entretenimento, que abriga o clone chinês do Twitter, conhecido por Weibo (que significa microblog). Com 95% de seus usuários dentro da China, o Weibo deverá lançar um serviço em inglês para concorrer com o Twitter. Resta saber se usuários fora da China serão atraídos por um site tão intimamente relacionado ao Partido Comunista, cujo desprezo pela liberdade de expressão é notório.

O destino da peregrinação era o lugar onde em 1921 ocorreu o primeiro congresso da organização, em Xangai. Hoje, a antiga casa faz parte de um complexo de bares, restaurantes e lojas que estão entre os mais caros da cidade e são frequentados principalmente por estrangeiros e os emergentes chineses, em um dos inúmeros paradoxos do modelo comunista local.

Donos de empresas que estão sujeitas à estrita censura de Pequim, os milionários da internet chinesa não só aceitam as regras do jogo como reverenciam _pelo menos em público_ o Partido Comunista. Eles sabem que suas companhias podem ser fechadas sem aviso prévio, caso os mandarins comunistas considerem que elas ultrapassaram os limites oficiais do que pode ou não ser divulgado online _a demarcação desse território é fluida e é definida diariamente por orientações do Ministério da Propaganda para toda a mídia do país.

O evento também deixa claro que nenhum setor da economia da China está imune à influência e aos vínculos com o Partido Comunista. Abaixo estão algumas fotos da celebração divulgadas pela revista Caixin, uma das mais independentes da China. A seguir eu reproduzo reportagem que escrevi para o Estado sobre as gigantes da internet chinesa, pouco conhecidas no exterior, mas cujos nomes serão cada vez mais familiares.

O dono do Baidu, Li Yanghong (de caqui), e o CEO da Sina, Cao Guowei (à sua esquerda), na frente da casa onde ocorreu o primeiro congresso do Partido Comunista chinês

Foto coletiva dos executivos de internet no mesmo local

Clones chineses estão entre as maiores empresas da internet do mundo
Cláudia Trevisan
Correspondente
Pequim
O mapa luminoso da presença global do Facebook mostra uma mancha negra sobre a China, onde a mais célebre rede social da internet é bloqueada, assim como Youtube e Twitter. Mas isso não significa que a maior população online do planeta está fora do universo dos microblogs, games e redes virtuais de amigos.
Dentro da invisível Grande Muralha de Fogo levantada pela censura chinesa surgiram algumas das maiores empresas de internet do mundo, que começam a rivalizar com os originais que clonaram, tanto em valor de mercado quanto em número de usuários.
O serviço de mensagens instantâneas QQ tem apenas 5% de seus clientes fora da China, mas a audiência doméstica é suficiente para colocá-lo em 10˚ lugar no ranking dos sites mais visitados do mundo elaborado pela empresa de consultoria Alexa, uma posição acima do MSN da Microsoft.
Na origem do sucesso do QQ estão os 477 milhões de usuários da internet na China, quase o dobro dos 250 milhões existentes nos Estados Unidos. Em poucos anos, a população online do país asiático será o triplo da norte-americana, estima Duncan Clark, da empresa de consultoria BDA China. “O centro de gravidade da internet está mudando”, observa.
QQ é a face mais popular da Tencent, a maior companhia de internet da China e a terceira do mundo em valor de mercado, com US$ 52 bilhões, abaixo apenas do Google (US$171,2 bilhões) e Amazon (US$ 89,9 bilhões) _se o Facebook tivesse ações em Bolsa quase certamente estaria à frente da empresa chinesa.
O consultor Bill Bishop, editor do site Digichina, acredita que a internet representa o maior segmento da economia chinesa que não está nas mãos do Estado. Todas as líderes são empresas de capital privado com ações nas Bolsas de Valores de Nova York ou Hong Kong _nenhuma tem papeis negociados na China.
Entre as 12 representantes chinesas que apareceram na lista BrandZ das 100 marcas mais valiosas do mundo divulgada no início de maio, só duas não eram estatais: Baidu e Tencent, ambas do setor de internet.
Elaborado pela agência Millward Brown Group, o ranking estimou o valor da marca Baidu em US$ 22,56 bilhões, alta de 141% em relação ao ano anterior, o que elevou a grife chinesa ao segundo lugar entre as de mais rápido crescimento do planeta, atrás apenas do Facebook.
O vigor da internet também se reflete na lista dos chineses mais ricos elaborada pela Forbes. O primeiro lugar de 2011 é ocupado por Li Yanghong, 42, o fundador do Baidu. Também conhecido como Robin Li, ele é dono de uma fortuna de US$ 9,4 bilhões _o que o colocou em 95˚ lugar no ranking global da Forbes. O criador da Tencent, Ma Huateng, 39, aparece na 10ª posição entre os chineses endinheirados, com US$ 5 bilhões.
Idealizada para controlar a informação e barrar o que é considerado contrário aos interesses do Partido Comunista, a censura acabou funcionando como uma reserva de mercado, que permitiu o desenvolvimento dos sites chineses sem a ameaça de concorrência externa.
Mas a proteção não é o único fator que explica o sucesso de alguns deles. O Baidu já era o líder do mercado de buscas online antes de o Google decidir transferir para Hong Kong o seu site chinês, em março de 2010, em razão da intensificação da censura.
De qualquer maneira, a saída de campo de seu principal competir elevou a fatia de mercado do Baidu de pouco mais de 60% para cerca de 80%. Nesse mesmo período, o preço de suas ações na NASDAQ teve alta de quase 150%, o que jogou o valor de mercado da empresa para US$ 47,4 bilhões, mais que o dobro dos US$ 21,3 bilhões do Yahoo!.
O Baidu está em sexto lugar no ranking dos sites mais visitados do mundo da Alexa, atrás de Google, Facebook, Youtube, Yahoo! e Live.
Os campeões da internet chinesa só conseguiram prosperar porque se sujeitaram aos estritos limites estabelecidos pelo Partido Comunista, que os transformam em agentes executores da censura.
Os sites são responsáveis por impedir que cheguem a seus portais todas as informações vetadas pelas autoridades de Pequim. A lista do que é proibido tem temas permanentes, como independência do Tibete, e outros que mudam de acordo com as circunstâncias.
Diariamente, a relação do que está vetado é distribuída pelos censores de Pequim. Jasmim, nome do chá mais popular da China, foi banido desde que foi vinculado à Revolução do Jasmim que derrubou o governo da Tunísia em janeiro.
O agravamento da censura, a crescente dificuldade para atuar no país e o ataque de seu site por hackers foram os argumentos utilizados pelo Google para justificar a transferência de sua operação em chinês do continente para Hong Kong. Na China, o Google era obrigado a praticar a autocensura, como todos os demais sites registrados no país.
Diante da barreira à entrada de empresas estrangeiras no país, a compra de ações em Bolsa ou a aquisição de participação direta no capital das empresas chinesas se transformaram nos únicos caminhos pelos quais os investidores podem apostar no boom da internet na China. E muitos estão se jogando nesse mercado sem saber se serão salvos por uma rede de proteção.
O site de relacionamento Renren, a versão chinesa do Facebook, conseguiu levantar US$ US$ 743,4 milhões na Bolsa de Nova York no início deste mês, dez vezes mais o seu faturamento de 2010. As ações perderam 24% desde então, mas estão em patamar suficiente para dar à companhia um valor de mercado de US$ 5,4 bilhões. “O Renren é pequeno e isso certamente é uma bolha”, afirma Clark, da BDA.

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Huang Yikai, 29, publicou 1.400 posts nos últimos cinco meses no Weibo, o serviço de microblog do portal Sina que é a mais popular versão chinesa do Twitter, com 140 milhões de usuários registrados. “Todos os dias eu estou conectado ao Renren e ao Weibo, que são parte da minha vida cotidiana”, disse Huang, que há nove anos também é usuário ativo do serviço de mensagens instantâneas QQ.

Como alguns dos jovens urbanos chineses, Huang possui ainda contas no Facebook e no Twitter, as quais acessa graças ao uso de VPN (Virtual Private Network), ferramenta que permite aos internautas burlarem a censura e abrirem sites bloqueados. Mas a maior parte de seus contatos online se dá por meio dos sites chineses, onde seus amigos estão e que “falam” o seu idioma.

Segundo Huang, a grande desvantagem dos portais locais é a censura imposta pelo governo. “Saber que todo o conteúdo que eu publico está sujeito a controles prévios me faz sentir mal”, afirma. “A única vantagem é que os sites refletem minha rede social, já que muitos de meus amigos também os utilizam.”

A censura chinesa se intensificou nos últimos dois anos, mas isso não impediu a explosão dos microblogs, que se transformaram em um amplo espaço de troca de informações, do qual não estão ausentes críticas ao governo e denúncias de abusos de poder.

A linha que não pode ser ultrapassada é a que separa a manifestação de opiniões do uso da internet como uma ferramenta de organização, à exemplo do que ocorreu com as mídias sociais nos protestos que desafiam regimes autoritários no mundo islâmico desde o início deste ano.

O governo reagiu com violência à tentativa de reprodução de manifestações semelhantes na China, convocadas por mensagens anônimas que circularam em sites bloqueados no país. Dezenas de pessoas foram presas, algumas das quais acusadas de subversão por retransmitirem a chamada para os protestos.

Mesmo dentro desses limites, há espaço para debates, potencializado pelo fato de que é possível colocar muito mais informação nos 140 “toques” do microblog em mandarim do que no alfabeto romano _cada caractere equivale a cerca de quatro a cinco letras.

“O Weibo surpreende mais pelo que é publicado do que pelo que é proibido. Há muito mais discussões e críticas do que se supõe”, ressalta Bill Bishop, editor do site Digichina.

Para quem quiser saber mais sobre o mundo da internet na China, aí vai o link para minha reportagem sobre o assunto publicada no Estado de hoje:
 http://digital.estadao.com.br/download/p…

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A desproporcional reação do governo chinês contra protestos que nem chegaram a ocorrer explicita o nervosismo do governo autoritário de Pequim com a possibilidade de enfrentar manifestações semelhantes às que derrubam regimes no mundo árabe, ainda que não haja nenhuma indicação de que isso possa ocorrer no país.

A tática de repressão preventiva também deixa claro que o Partido Comunista não permitirá o surgimento de nenhum movimento ou organização que questione seus métodos ou exerça qualquer tipo de crítica a seu monopólio do poder. Pluraridade partidária e alternância no poder são conceitos inexistentes no vocabulário de Pequim.

A convocação anônima de protestos em várias cidades chinesas em todas as tardes de domingo a partir de 20 de fevereiro serviu como pretexto para o regime fechar o cerco aos que ousam defender publicamente reformas políticas, liberdade de expressão e o Estado de Direito.

Pelo menos cinco intelectuais e advogados que atuam na área de direitos humanos foram presos há cerca de dez dias e alguns deles já foram acusados de subversão, o que invariavelmente termina com a condenação à prisão. Outras três pessoas sem históricos de ativismo político foram presas e acusadas do mesmo crime por terem “retwittado” a mensagem que convocava para os protestos dominicais.

O irônico é que muitas das demandas dos defensores do protesto coincidem com o que o próprio partido promete. Os líderes chineses sustentam que sua intenção é construir um Estado de Direito, no qual governantes estejam tão sujeitos ao império da lei quanto os cidadãos comuns. Mas o fato é que o Partido Comunista está acima da lei e é difícil imaginar uma mudança nesse cenário sem o poder fiscalizador exercido pela oposição ou por um regime de pesos e contrapesos decorrente da separação de Poderes, algo abominado pelos dirigentes chineses.

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As autoridades chinesas lançaram mão de artilharia pesada para bloquear a segunda tentativa de organização de protesto contra o governo convocada anonimamente pela internet. Centenas de policiais uniformizados e à paisana ocuparam hoje a área ao redor do ponto de encontro da manifestação em Pequim, onde no fim da semana surgiu um inesperado canteiro de obras.

Até limpadores de rua armados de vassouras foram mobilizados para literalmente “varrer” os que conversavam em pequenos grupos, com o objetivo de evitar aglomerações. Em alguns momentos, a violência imperou: jornalistas foram presos e um correspondente da Bloomberg foi espancado por quatro policiais à paisana.

O primeiro-ministro Wen Jiabao também entrou em campo para sufocar o protesto antes que ele nascesse e realizou um chat de duas horas com internautas do país, no qual prometeu combater a inflação e a alta do preço dos imóveis, dois dos principais focos de insatisfação no país.

O local escolhido pelos autores da convocação era o mesmo do protesto fracassado do domingo anterior: o calçadão em frente à loja do McDonald´s da Wangfujing, uma das mais movimentadas ruas de comércio de Pequim, localizada a pouco mais de um quilômetro da Praça Tiananmen.

Vários policiais à paisana estavam dentro e na frente do McDonald´s no início da tarde, fotografando e filmando os que passavam pelo lugar. Às 14h, horário marcado para a manifestação, a porta principal da loja foi fechada e varredores e policiais entraram em ação para impedir aglomerações do lado de fora.

Vários jornalistas estrangeiros tiveram que apresentar identificação em barreiras policiais nas ruas de acesso à Wangfujing. No sábado, os correspondentes receberam telefonemas de funcionários do governo alertando-os de que deveriam obedecer à regulamentação sobre a atuação de jornalistas estrangeiros no país, apesar de não haver nela nada que impeça a cobertura de eventos em locais públicos e a realização de entrevistas com o consentimento do entrevistado.

Era impossível saber quem estava na Wangfujing com a intenção de participar da manifestação e quem apenas passeava no domingo de inverno. Pouco depois das 14h30, a polícia bloqueou várias ruas de acesso ao local, evacuou a rua e determinou o fechamento dos shoppings centers e lojas, onde turistas e visitantes ficaram presos enquanto a tropa de choque marchava do lado de fora. O movimento voltou ao normal logo em seguida.

A polícia também ocupou a região de Xangai apontada como local de manifestação pela convocação anônima, que começou a circular em um site mantido por dissidentes chineses nos Estados Unidos. Segundo agências de notícias internacionais, pelo menos sete pessoas foram presas na cidade que é a mais rica da China.

As revoltas que derrubaram regimes autoritários no mundo árabe deixaram os líderes comunistas chineses em alerta contra qualquer movimento de contestação dentro do país.

As notícias sobre os movimentos na Tunísia, Egito e Líbia são controladas pelo governo e há censura sobre fóruns e microblogs que tentam discutir o assunto. Várias palavras relacionadas às rebeliões estão bloqueadas na internet, entre elas “jasmim”, nome de um dos mais populares chás da China. No sábado, a censura bloqueou o uso da palavra “amanhã” e hoje, a da palavra “hoje”.

Antes da primeira tentativa de protestos no domingo retrasado, o governo prendeu ou colocou sob vigilância policial cerca de 100 ativistas. Pelo menos cinco deles continuam detidos. Na semana passada, três pessoas foram acusadas de subversão por terem retransmitido a mensagem de convocação para a manifestação.

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O governo chinês aumentou a repressão a críticos do Partido Comunista, ao mesmo tempo em que mensagem anônima divulgada na internet convocou protestos semanais em grandes cidades do país, em uma tentativa de promover uma versão local da “Revolução do Jasmim” que varre o mundo árabe.

Pelo menos cinco ativistas detidos no fim de semana continuavam desaparecidos ontem, sem apresentação formal de qualquer acusação pela polícia. A família de outro crítico do governo preso no domingo, Chen Wei, foi comunicada na terça-feira de que ele responderá pela suspeita de “incitamento à subversão”, segundo a agência de notícias Reuters.

O manifesto anônimo que começou a circular na terça-feira convoca manifestações para todos os domingos, às 14h, em 13 grandes cidades do país, incluindo Pequim e Xangai. Os autores conclamam os chineses a protestar contra corrupção, desigualdade, falta de seguridade social, má utilização do dinheiro público, inflação e ausência de supervisão popular sobre o Estado.

Quase todas essas questões encontram eco entre os chineses, que estão insatisfeitos com o aumento de preços, o alto custo dos serviços médicos e os inúmeros casos de corrupção no país.

Mas não há nenhum indício de que exista na população a disposição de contestar o regime vista no mundo árabe. Além disso, a censura chinesa bloqueia o uso de todas as ferramentas que permitiram a organização dos manifestantes no Egito: Facebook, Twitter e Youtube.

A primeira tentativa de promoção de protestos na China fracassou no domingo. Colocada em um site nos Estados Unidos, a convocação circulou no Twitter e foi vista pelos poucos dentro da China que usam ferramentas para burlar a censura imposta por Pequim.

O governo agiu preventivamente e prendeu ou colocou sob vigilância policial cerca de 100 ativistas. Entre eles, estão as cinco pessoas que continuavam desaparecidas ontem, de acordo com levantamento da entidade Chinese Human Rights Defenders.

O controle da internet aumentou nos últimos dias e palavras relacionadas às manifestações no mundo árabe estão bloqueadas. “Jasmim”, nome de um dos mais populares chás do país, não pode ser escrito em microblogs e até o nome de uma cantora que gravou uma canção com esse título estava bloqueado.

A entidade Human Rights Watch divulgou nota ontem na qual exigiu a imediata libertação dos advogados Tang Jitian, Teng Biao e Jiang Tianyong, detidos no fim de semana. A entidade também protestou contra a prisão domiciliar imposta ao ativista cego Chen Guangcheng e a Liu Xia, mulher do ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2010, Liu Xiaobo. Ambos estão há meses confinados em suas casas, sem comunicação com o mundo exterior.

Em todos esses casos, as detenções são arbitrárias e contrariam a legislação internacional e chinesa, ressalta a Human Rights Watch. “Nos termos da lei chinesa, a polícia deve noticiar os parentes de qualquer pessoa presa no prazo de dois dias. Não há nenhum estatuto legal que preveja a prisão domiciliar indefinida”, diz a nota da entidade.

Chen Guangcheng cumpriu em setembro de 2010 uma pena de quatro anos e três meses de prisão, mas desde sua libertação ele e a família estão sob estrita vigilância policial. Apesar de não ser acusada de nenhum crime, Liu Xia está confinada em seu apartamento em Pequim desde que o marido ganhou o Nobel da Paz, em outubro.

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Sob o impacto da sucessão de revoltas contra regimes autoritários no mundo árabe, um dirigente do Partido Comunista chinês afirmou ontem que o governo de Pequim enfrenta um período turbulento de instabilidade doméstica, agravado pela atuação de “forças ocidentais hostis” que tentam interferir em assuntos internos da China e dividir o país.

Desde o fim da semana passada, vários líderes comunistas alertaram para o aumento de conflitos no país, defenderam uma melhor “gestão social” para administrá-los e ressaltaram a necessidade de intensificar a censura na internet. No sábado, o presidente Hu Jintao disse em seminário que reuniu toda a cúpula do Partido Comunista que a China ainda está em um estágio de desenvolvimento no qual “muitos conflitos” devem emergir e reconheceu que a capacidade do governo de solucioná-los continua “frágil”.

No dia seguinte, o ministro responsável pela segurança pública, Zhou Yongkang, defendeu no mesmo encontro a necessidade de solução dos conflitos em seu estágio inicial e bateu novamente na tecla de “melhor gestão social”.

Ontem, a revista Outlook Weekly, editada pela agência oficial de notícias Nova China, trouxe declarações do vice-secretário-geral do comitê de assuntos políticos e legislativos do Partido Comunista, Chen Jiping, segundo o qual os conflitos que “afetam a estabilidade social” continuarão a existir no futuro previsível.

Segundo Chen, “forças ocidentais hostis” usam o pretexto de defesa de direitos para interferir em assuntos internos da China e criar novos incidentes. O dirigente também ressaltou a necessidade de resolver os conflitos em seu estágio inicial e disse que o governo passará a avaliar seus projetos e políticas não apenas sob a ótica econômica, mas levando em consideração seu impacto sobre a estabilidade social.

Nas declarações tornadas públicas pela imprensa oficial chinesa, nenhum dos dirigentes fez referência aos protestos pró-democracia no mundo árabe, que já levaram à queda dos governos da Tunísia e do Egito. Mas desde o início das manifestações, em janeiro, a apreensão dos líderes comunistas foi evidencia pela censura na internet a termos relativos às demonstrações e o estrito controle da cobertura dos eventos. No mesmo discurso de sábado, Hu Jintao disse que o governo deve aumentar o controle sobre a “sociedade virtual” com o objetivo de melhor “guiar a opinião pública” na internet _eufemismo para a censura.

A China tem um dos mais sofisticados mecanismos de controle das informações online e todos os sites que tiveram papel relevante na organização de manifestantes no Egito são bloqueados no país, incluindo Facebook, Twitter e Youtube. Muitos chineses usam ferramentas tecnológicas para contornar a censura e ter acesso a endereços vetados pelo governo. Algumas dezenas de ativistas têm contas no Twitter, por exemplo, mas o número de internautas que consegue escalar a Grande Muralha de Fogo da censura é bastante reduzido.

Diante da ampliação das possibilidades de furo do bloqueio erigido pelo governo, o criador da Grande Muralha de Fogo, Fang Binxing, afirmou na sexta-feira que o mecanismo precisa ser aperfeiçoado para impedir o surgimento de brechas e fechar as já existentes. Fang admitiu em entrevista a um jornal oficial chinês que utiliza seis diferentes VPNs (Redes Virtuais Privadas, na sigla em inglês), um dos mais populares mecanismos para escapar da censura. Mas ressaltou que só lança mão da ferramenta para “testar qual lado ganha”.

A apreensão dos líderes chineses aumentou no fim de semana, com a convocação anônima para um protesto inspirado nas manifestações dos países árabes. O apelo para uma “Revolução do Jasmim” chinesa teve pouca repercussão, tanto pela censura quanto pela ausência da mesma disposição de questionar o regime vista em países como Tunísia, Egito e Líbia.

Mesmo assim, o governo agiu de maneira preventiva e colocou na prisão ou sob vigilância policial quase 100 ativistas, quase todos sem nenhuma relação com a convocação, que se originou em um site baseado nos Estados Unidos.

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 O governo chinês deu mais um passo para aumentar seu controle sobre a internet, com o anúncio da criação de um site de buscas que será operado pelas megaestatais China Mobile e Xinhua. A primeira é a maior empresa de telefonia celular do mundo, com 550 milhões de clientes. A Xinhua é a agência de notícias controlada por Pequim, que tem a função de refletir estritamente o que pensam e querem os dirigentes do Partido Comunista.

O anúncio foi realizado na quinta-feira, quase cinco meses depois de o Google ter transferido seu site de buscas em chinês de Pequim para Hong Kong, em protesto contra o aumento da censura e a atuação de hackers. Com a decisão, a empresa norte-americana deixou de praticar a autocensura imposta pela China a todos os sites que operam a partir do país. Mas as buscas continuam a passar pelo filtro da censura e as páginas relacionadas a temas “sensíveis” são bloqueadas.

As autoridades chinesas intensificaram nos últimos dois anos a censura na rede e não escondem sua intenção de ampliar ainda mais os controles sobre os 420 milhões de internautas, a maior população online do mundo. Site como Youtube, Facebook e Twitter são bloqueados no país, assim como informações relacionadas ao dalai lama e tibetanos exilados, independência de Xinjiang, defesa de reformas democráticas, falun gong e uma long lista atualizada constantemente pelos censores de Pequim.    

O Partido Comunista vê o controle da opinião pública como uma das principais ferramentas para garantir sua sobrevivência no poder. Todos os meios de comunicação do país são submetidos à censura e grande parte deles é de propriedade do Estado ou do Partido Comunista.

No anúncio do novo site de buscas o vice-presidente da Xinhua, Zhou Xisheng, disse que a iniciativa faz parte dos esforços do governo de “preservar a segurança da informação e promover o desenvolvimento robusto, saudável e ordenado de uma nova indústria de mídia na China”.

Ao contrário do que muitos esperavam, a internet não parece ameaçar a dominação do Partido Comunista, diz Rebecca MacKinnon, do centro sobre políticas para a tecnologia da informação da Universidade Princeton. “Os americanos têm essa suposição de que regimes não-democráticos não podem sobreviver à internet e eu acredito que isso é ingênuo. O Partido Comunista da China pretende sobreviver à era da internet e tem uma estratégia para isso. Por enquanto, está funcionando.”

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