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Cláudia Trevisan

 O governo chinês deu mais um passo para aumentar seu controle sobre a internet, com o anúncio da criação de um site de buscas que será operado pelas megaestatais China Mobile e Xinhua. A primeira é a maior empresa de telefonia celular do mundo, com 550 milhões de clientes. A Xinhua é a agência de notícias controlada por Pequim, que tem a função de refletir estritamente o que pensam e querem os dirigentes do Partido Comunista.

O anúncio foi realizado na quinta-feira, quase cinco meses depois de o Google ter transferido seu site de buscas em chinês de Pequim para Hong Kong, em protesto contra o aumento da censura e a atuação de hackers. Com a decisão, a empresa norte-americana deixou de praticar a autocensura imposta pela China a todos os sites que operam a partir do país. Mas as buscas continuam a passar pelo filtro da censura e as páginas relacionadas a temas “sensíveis” são bloqueadas.

As autoridades chinesas intensificaram nos últimos dois anos a censura na rede e não escondem sua intenção de ampliar ainda mais os controles sobre os 420 milhões de internautas, a maior população online do mundo. Site como Youtube, Facebook e Twitter são bloqueados no país, assim como informações relacionadas ao dalai lama e tibetanos exilados, independência de Xinjiang, defesa de reformas democráticas, falun gong e uma long lista atualizada constantemente pelos censores de Pequim.    

O Partido Comunista vê o controle da opinião pública como uma das principais ferramentas para garantir sua sobrevivência no poder. Todos os meios de comunicação do país são submetidos à censura e grande parte deles é de propriedade do Estado ou do Partido Comunista.

No anúncio do novo site de buscas o vice-presidente da Xinhua, Zhou Xisheng, disse que a iniciativa faz parte dos esforços do governo de “preservar a segurança da informação e promover o desenvolvimento robusto, saudável e ordenado de uma nova indústria de mídia na China”.

Ao contrário do que muitos esperavam, a internet não parece ameaçar a dominação do Partido Comunista, diz Rebecca MacKinnon, do centro sobre políticas para a tecnologia da informação da Universidade Princeton. “Os americanos têm essa suposição de que regimes não-democráticos não podem sobreviver à internet e eu acredito que isso é ingênuo. O Partido Comunista da China pretende sobreviver à era da internet e tem uma estratégia para isso. Por enquanto, está funcionando.”

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25.março.2010 05:02:51

As razões do Google

Desde a Olimpíada de Pequim, em agosto de 2008, o Google enfrentou dificuldades crescentes para atuar na China, em razão do aumento da pressão das autoridades para que o site ampliasse cada vez mais a autocensura do conteúdo buscado por seus usuários no país. A avaliação foi feita por um dos principais executivos da empresa, David Drummond, em entrevista a James Fallows, da revista The Atlantic, veiculada no blog do jornalista.

“Apesar de nós estarmos ampliando nossa fatia de mercado, se tornou cada vez mais difícil para nós operarmos lá [na China]. Particularmente em relação à censura. Nós tínhamos que censurar cada vez mais. A situação ficou sensivelmente pior, não apenas para nós, mas para outras companhias de internet também”, disse Drummond, autor do comunicado postado no blog oficial da companhia que anunciou a decisão de transferir o site chinês para Hong Kong.

O executivo afirmou que a decisão do Google de não mais praticar a autocensura na China está relacionada aos ataques de hackers contra seu sistema mencionados no dia 12 de janeiro, quando a companhia divulgou pela primeira vez a possibilidade de sair do país asiático. Segundo ele, o alvo eram quase exclusivamente contas do Gmail utilizadas por ativistas de direitos humanos dentro e fora da China. “Havia um aspecto político nesses ataques de hackers que era bastante inusual”, observou.

A empresa avaliou que a incoporação das regras da censura a seu mecanismo de buscas a transformava em uma espécie de cúmplice do regime chinês. “Para nós, pareceu que isso tudo era parte de um amplo sistema voltado a suprirmir a [liberdade de] expressão, seja pelo controle das buscas na internet ou pela tentativa de vigiar ativistas. Tudo era parte do mesmo programa repressivo, do nosso ponto de vista. Nós sentimos que estávamos sendo parte disso.”

O governo chinês se esforça para neutralizar o caráter político da decisão do Google. Todos os jornais do país repetiram a posição de que a transferência do google.cn para Hong Kong teve motivações puramente comerciais, ligadas às dificuldades da companhia em ampliar sua fatia no mercado local.

A China é um dos poucos países do mundo em que o Google não é o líder do mercado de buscas. Essa posição é ocupada pelo Baidu, que detém uma fatia de 63% desse segmento e que será o maior beneficiado pela saída do site norte-americano da China.

A entrevista de Drummond a Fallows pode ser lida aqui.

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A decisão do Google de fechar seu site na China e deixar de censurar os resultados de suas buscas não aumentou o acesso dos internautas chineses a informações proibidas pelas autoridades de Pequim. O Google deixou de praticar a censura, mas o governo chinês, não. A diferença é que antes o site tinha a obrigação de incorporar a seu sistema de buscas os filtros impostos pela autoridades locais _ou seja, a censura era “terceirizada” para a empresa.

Agora, o bloqueio é realizado pelo mecanismo oficial que impossibilita a abertura dos milhares de sites que trazem informações “sensíveis”, o que inclui independência do Tibete ou a defesa do pluripartidarismo. A prática da censura foi uma das condições aceitas pela companhia norte-americana para entrar na China, em 2006, e criar o google.cn, específico para o público do país.

Ontem, esse site deixou de existir e seus usuários passaram a ser redirecionados para o google.cm.hk, com sede em Hong Kong. Apesar da nova roupagem, as restrições de acesso às informações continuaram a ser as mesmas, em razão da “grande muralha de fogo” erguida pelos censores chineses em torno da internet. Essas restrições se aplicam a outros sites de busca, como o Yahoo!, que não possui uma versão específica para a China, e o google.com em inglês, que continua a ser acessado no país.

Os limites da censura não são claros e páginas que podem ser abertas em um período deixam de ser acessíveis em outros, especialmente durante encontros importantes do Partido Comunista. Ontem, a muralha parecia estar mais alta que o usual. A pesquisa com o nome o nome da seita “falun gong”, banida pelo governo chinês nos anos 90, trazia como resposta uma página em branco e a mensagem “O Internet Explorer não pode exibir a página da Web”.

Nos lugares onde não há censura, esse é o texto que aparece quando há problemas na conexão. Falun gong é um tema sempre sensível, mas há períodos em que pelo menos os resultados da busca aparecem _só que os links exibidos não podem ser abertos. No google.cn, a mensagem que era exibida como resultado de buscas bloqueadas era “de acordo com leis, regulamentos e políticas locais, parte da pesquisa não pode ser mostrada”.

Em 2006, o Google concordou em aceitar a censura porque estava tendo dificuldades em expandir sua presença na China. Muitos usuários acreditavam que o site tinha problemas de conexão quando buscavam algo bloqueado pelo governo. Ao se submeter às regras, a companhia passou a atuar em igualdade de condições com seu principal concorrente, o Baidu, que lidera o mercado, com uma fatia de 63%.

O governo de Pequim tentou ontem amenizar o impacto da decisão do Google de fechar seu site chinês e caracterizou o movimento como algo puramente comercial. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Qin Gang, afirmou que o fato não deve abalar as relações entre a China e os Estados Unidos, a menos que “alguém politize a questão”. Na sexta-feira, quando o fechamento do google.cn parecia iminente, o jornal oficial “China Daily” publicou reportagem segundo a qual os Estados Unidos estão utilizando a decisão da empresa para endurecer sua posição em relação à China. “O caso Google deu aos Estados Unidos a oportunidade de readotar sua posição linha-dura e distanciar-se da diplomacia ‘smart’ que vinha sendo adotada em relação à China”, dizia a abertura do texto, citando termo criado pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton.

Para a China, o fato de uma das maiores empresas do mundo deixar o país sob o argumento de não ter um ambiente propício ao desenvolvimento de seus negócios é um desastre de relações públicas. O dano é ainda maior por tratar-se de uma das companhias mais inovadoras do planeta _qualidade que as autoridades de Pequim querem atrair cada vez mais para o país. O Google enfrentará um período de incerteza em relação a seu futuro na China, onde há quase 400 milhões de internautas, a maior população online do mundo.

“Não se sabe qual será a consistência do serviço que será prestado a partir de Hong Kong e ninguém sabe se o Google será bloqueado ou não na China continental”, afirmou Cao Junbo, analista-chefe da consultoria iResearch. O governo chinês pode simplesmente impedir o acesso a todos os serviços prestados pelo Google a partir do exterior, mas é pouco provável que isso ocorra, pelo menos no curto prazo.

A decisão seria extremamente prejudicial para pesquisadores e professores universitários que buscam informações científicas por meio do site norte-americano. Também afetaria as empresas que utilizam os serviços do Google em seus negócios, incluindo o Gmail. Levantamento realizado pela revista Nature junto a 784 cientistas chineses indicou que 80% deles se valem do Google regularmente para busca de estudos acadêmicos. Divulgada no início do mês, a pesquisa mostrou ainda que 48% acreditam que seus esforços de pesquisa serão “significativamente” prejudicados se eles perderem acesso ao Google, enquanto outros 36% disseram que seriam “parcialmente” afetados.

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