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Cláudia Trevisan

O governo de Pequim afirmou ontem que a eventual aprovação de lei pelo Senado norte-americano contra o valor depreciado do yuan poderá criar uma guerra comercial e cambial e abalar o relacionamento entre os dois países. Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Ma Zhaoxu, a cotação da moeda chinesa não é a razão do desequilíbrio no comércio bilateral.

No ano passado, o déficit dos Estados Unidos com a China atingiu o recorde de US$ 273,1 bilhões, o maior valor já registrado nas trocas dos norte-americanos com qualquer outro país. Nos sete primeiros meses de 2011, o resultado negativo somou US$ 160,4 bilhões, 10% a mais que em igual período de 2010.

Para os senadores Sherrod Brown e Charles Schumer, o deficit é provocado pelo patamar depreciado do yuan, mantido graças a pesadas intervenções do Banco do Povo da China (o banco central do país). Na segunda-feira, eles conseguiram o aval de 79 senadores para dar prosseguimento à votação de projeto de lei que permite a imposição de barreiras contra produtos chineses em razão do que classificam de “manipulação da moeda”. Apenas 19 congressistas votaram contra. A proposta irá agora à decisão do plenário, que deve se manifestar até o fim desta semana.

Não é a primeira vez que parlamentares norte-americanos tentam aprovar projeto sobre a depreciação do yuan, proposta que enfrenta resistência entre os republicanos, que hoje são maioria na Câmara dos Representantes, mas o clima é mais receptivo a medidas protecionistas contra a China. O desemprego na casa dos 9% será um dos temas centrais das eleições do próximo ano e mesmo republicanos se mostram sensíveis ao discurso contra o “Made in China”. Dos 79 votos a favor da votação do projeto, 36 vieram do partido de oposição. Isso não significa que eles dirão “sim” à proposta quando ela for ao plenário, mas dá uma medida do poder catalisador do tema.

O yuan se apreciou 7% em relação ao dólar desde junho de 2010, depois de dois anos de “congelamento” no mesmo patamar. Ontem, o governo chinês observou que continuará a flexibilizar seu sistema de câmbio, o que tem sido feito de maneira gradual desde 2005. A projeto teve apoio do economista Paul Krugman, que defendeu sua aprovação em coluna publicada no The New York Times anteontem. Segundo ele, os Estados Unidos não conseguem criar empregos pelo fato de que importam muito mais produtos do que exportam.

Para reduzir esse déficit, o dólar deveria se desvalorizar em relação à moeda dos principais parceiros comerciais do país, mas isso é impossível em razão da determinação chinesa de manter o valor de sua própria moeda depreciado. A evidência de que a China manipula a cotação do yuan é o enorme volume de reservas internacionais do país, de US$ 3,2 trilhões, sustenta Krugman. “Responsabilizar a China não vai resolver por si só nossos problemas econômicos, mas pode contribuir para uma solução _e é uma ação há muito tempo adiada.”

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Envoltos em uma disputa de âmbito global por influência econômica, política e militar, Estados Unidos e China embarcaram involuntariamente em uma nova corrida: qual das duas culturas produz as melhores mães do mundo? A polêmica começou na semana passada nas páginas do Wall Street Journal, que publicou artigo da americana de origem chinesa Amy Chua, no qual ela critica a indulgência de pais ocidentais e defende um estilo militar de educação, no qual os filhos são sujeitos a uma férrea disciplina e privados de qualquer possibilidade de escolha.

Professora de Direito da Universidade de Yale, Amy cita sua própria experiência na educação de duas filhas para sustentar que as chinesas são as melhores mães do mundo. No texto publicado pelo WSJ, ela apresenta uma lista do que suas adolescentes são terminantemente proibidas de fazer, o que inclui: assistir TV e jogar no computador, tirar notas inferiores a A, não ser a primeira aluna em qualquer disciplina além de teatro e ginástica, tocar outro instrumento que não violino e piano, não tocar piano e violino, namorar e participar de peças teatrais na escola.

O estilo chinês apresentado por Amy é implacável e provocou imediata reação de mães “ocidentais”. A receita completa está no seu livro Battle Hymn of the Tiger Mother (Hino de Batalha da Mãe Tigre), no qual afirma que os pais chineses fazem coisas que seriam inimagináveis e até legalmente questionável para os ocidentais. “As mães chinesas podem dizer para suas filhas, ‘ei gorda, emagreça’”, exemplifica.

“Mesmo quando os pais ocidentais acreditam que estão sendo estritos, eles não chegam nem perto das mães chinesas. Meus amigos ocidentais que se consideram severos fazem seus filhos praticar com instrumentos musicais 30 minutos todos os dias. Uma hora no máximo. Para uma mãe chinesa, a primeira hora é a mais fácil. As horas dois e três são as mais difíceis”, sustenta Amy.

A boa educação é medida pelo sucesso dos filhos e este não depende de talento, aptidão ou inspiração, mas de disciplina, trabalho árduo e repetição, repetição, repetição, conseguida muitas vezes com insultos, ameaças e comportamento abusivo. “Para ser bom em qualquer coisa, você tem que trabalhar e as crianças nunca querem trabalhar por vontade própria e é por isso que é crucial passar por cima de suas preferências”, aconselha Amy. Segundo ela, a disciplina é a razão pela qual os pais chineses produzem tantos “azes da matemática e prodígios musicais”.

Apesar de controvertida, a receita encontrou aceitação entre os leitores. Em pesquisa online do WSJ, cujos resultados podem ser vistos aqui, 63% dos que votaram disseram que o estilo severo de educação oriental é melhor para os filhos, enquanto 34% optaram pela permissividade ocidental.

Em meio à disputa geopolítica que envolve os dois países, a questão do estilo de educação acabou ecoando o temor de muitos norte-americanos diante da ascensão chinesa. “A questão básica não é se nós amamos ou não os nossos filhos mesmo se eles não sejam estudantes honrados, mas se nós os amamos o bastante para dedicar tempo e esforços para encorajá-los a serem os melhores que puderem, o que fará com que sua nação seja a melhor que puder nesse mundo altamente competitivo”, escreveu o leitor Jack Alfred.

Não há dúvida de que os pais chineses gastam parcela muito maior de seu tempo do que os ocidentais para acompanhar os estudos dos filhos e supervisioná-los na realização das inúmeras tarefas de casa. Esse provavelmente foi um dos fatores que contribuíram para o fato de estudantes de Xangai terem ficado em primeiro lugar no Pisa, o exame internacional que avaliou alunos de segundo grau de 65 países em provas de leitura, ciências e matemática, cujos resultados foram divulgados em dezembro. Os chineses ficaram à frente dos países ricos, enquanto o Brasil amargou a 53ª posição.

Os que quiserem, podem ler aqui o texto de Amy publicado no WSJ. E aqui o artigo em defesa das mães ocidentais da escritora Ayelet Waldman.

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Depois de um ano marcado por uma sucessão de conflitos que foram da venda de armas a Taiwan a crises na península coreana, Estados Unidos e China tentam a partir de hoje reconstruir a confiança mútua, durante visita à capital norte-americana do presidente Hu Jintao, a primeira realizada no governo de Barack Obama.

Nos últimos dias, ambos os lados se esforçaram para minimizar as desavenças e ressaltar os laços que unem as duas maiores economias do mundo, protagonistas da que é considerada a mais importante relação bilateral do século XXI.

 “Não há como negar que há algumas diferenças e temas sensíveis entre nós”, afirmou Hu em entrevista por escrito aos jornais Washington Post e Wall Street Journal, publicada domingo. “Nós temos que abandonar a mentalidade de soma-zero da Guerra Fria”, disse o presidente chinês, ressaltando que ambos os países têm a perder com a confrontação.

A mesma expressão havia sido utilizada na sexta-feira pela secretária de Estado Hillary Clinton, em discurso sobre as relações sino-americanas. “No século XXI não faz sentido aplicar a teoria de soma-zero do século 19 sobre como os grandes potências interagem”, declarou Clinton, depois de afirmar que os Estados Unidos não vêem a emergência da China como uma ameaça.

A secretária também lembrou que as economias e o futuro de ambos os países estão interligados. “Nós estamos no mesmo barco e ou remamos na mesma direção ou vamos, infelizmente, provocar turbulência e redemoinhos que vão impactar não apenas nossos dois países, mas muitas pessoas além de nossas fronteiras.”

No ano passado, ambos os lados discordaram sobre que rumo tomar em várias ocasiões, o que levou a relação bilateral a um dos mais baixos patamares da última década. Catapultada em 2010 ao segundo lugar no ranking das maiores economias do mundo, a China interpretou seu sucesso no enfrentamento da crise financeira global como evidência da superioridade de seu modelo econômico sobre o ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos.

A autoconfiança adquirida pelos líderes chineses se refletiu na avaliação de Hu de que o sistema monetário internacional dominado pelo dólar é “algo do passado”. Ao mesmo tempo, o líder chinês reconheceu que transformar o yuan em uma moeda de reserva internacional é um processo que ainda demandará muito tempo.

Na mesma entrevista, o presidente deu indicações de que rejeitará a pressão norte-americana por uma apreciação mais rápida do yuan em relação do dólar, ao afirmar que a mudança no câmbio não é o mecanismo adequado para o combate da inflação enfrentada atualmente pela China.

Todos os temas que provocaram atritos entre os dois países nos últimos meses estarão presentes nas conversas entre Obama e Hu, que permanecerá três dias nos Estados Unidos.

Do lado americano, além do patamar depreciado do yuan, a lista inclui o pleito para que a China contenha as ambições nucleares da Coreia do Norte, seja mais transparente em relação a seus investimentos militares e respeite os direitos humanos que os norte-americanos consideram universais.

A China vai reiterar sua oposição à venda de armas a Taiwan pelos Estados Unidos, exigir o respeito a sua integridade territorial e defender a não-interferência em assuntos que vê como internos, entre os quais estão o Tibete e o tratamento dado aos dissidentes políticos.

A divergência entre os dois países na questão dos direitos humanos se aprofundou em novembro, com a reação furiosa da China à entrega do Prêmio Nobel da Paz ao chinês Liu Xiaobo, elogiada pelos Estados Unidos.

É pouco provável que haja qualquer avanço concreto em relação a esses tópicos e os dois líderes vão se esforçar para ressaltar os pontos de cooperação entre seus países. Estados Unidos e China possuem uma enorme dependência econômica, fruto do comércio, investimentos e financiamento da dívida externa norte-americana por Pequim.

Mas a desconfiança mútua dificilmente desaparecerá. Maior potência global, os Estados Unidos vêem como um fator desestabilizador os crescentes investimentos militares do país asiático, enquanto muitos em Pequim acreditam que Washington tentará em algum momento bloquear a emergência chinesa.

Os chineses estão desenvolvendo o que seria o primeiro sistema de mísseis capaz de atingir navios e porta-aviões. Se tiverem sucesso, eles mudarão a correlação de forças no Pacífico, já que passarão a ter a capacidade de atingir a frota norte-americana estacionada na região.

Washington também viu com preocupação o primeiro teste de um caça chinês “invisível”, que não é detectado por radares, realizado há pouco mais de uma semana, no mesmo dia em que o secretário de Defesa norte-americano, Robert Gates, iniciava visita a Pequim.

 Aí vai a lista dos principais conflitos entre os dois países desde o início de 2010:

Armas para Taiwan – Os Estados Unidos anunciam em janeiro a venda de US$ 6,4 bilhões em armas para Taiwan, a ilha que a China considera como integrante de seu território. Pequim reagiu com a suspensão da cooperação militar entre os dois países e a ameaça de imposição de sanções às empresas envolvidas na operação

Dalai lama – Apesar dos protestos de Pequim, o presidente Barack Obama recebeu o dalai lama em fevereiro na Casa Branca. O líder espiritual tibetano é considerado um separatista pelas autoridades chinesas

Google – O maior site de buscas do mundo, o norte-americano Google, anunciou em março o fechamento de seu site em chinês. A empresa afirmou que a decisão foi provocada pela intensificação da censura e pelo ataque de hackers que operam a partir da China

Coreia do Norte – Em maio, a Coreia do Sul acusou a Coreia do Norte de ter afundado dois meses antes o navio de guerra Cheonan, provocando a morte de 46 marinheiros. A China evitou condenar seu aliado e frustrou os EUA, que gostariam de uma ação mais incisiva de Pequim para controlar Pyongyang.

Coreia do Norte 2 – A China volta a frustrar os norte-americanos em novembro, ao deixar de condenar o ataque da Coreia do Norte à ilha sul-coreana de Yeonpyeong. Para os chineses, os sul-coreanos iniciaram as provocações, ao realizar exercícios militares em área disputada pelas duas nações.

Yuan – O patamar desvalorizado do yuan em relação ao dólar é um ponto de permanente atrito nas relações entre os dois países e ganhou mais proeminência no ano passado em razão do aumento do desemprego nos Estados Unidos

Expansão militar – A China investe na modernização de suas Forças Armadas e desenvolve o que seria o primeiro sistema de mísseis capaz de atingir navios e porta-aviões. Com isso, teria a capacidade de atingir a frota norte-americana estacionada na região. Há pouco mais de uma semana, o país realizou o primeiro teste de seu caça “invisível”, que não é detectado por radares

Nobel da Paz – A China reagiu com fúria à entrega do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo, em novembro, evidenciando as diferenças ideológicas que a separam dos Estados Unidos. A questão dos direitos humanos estará presente na pauta de discussões entre Hu Jintao e Barack Obama

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