China e Estados Unidos vivem uma relação de dependência econômica e desconfiança política que parece aumentar a cada dia, mas isso não impede que o mundo acadêmico dos dois países esteja cada vez mais integrado. A Universidade de Stanford acaba de se transformar na primeira instituição de ensino norte-americana a ter uma sede dentro da Universidade de Pequim, uma das mais tradicionais da China.
A Stanford investiu US$ 7 milhões na construção de um edifício de 36 mil metros quadrados, que será o quartel general para seus programas de pesquisas no país. O centro também terá missão de estimular a ida de estudantes americanos para a China. Segundo dados de Washington, o número de alunos chineses matriculados em escolas nos Estados Unidos é dez vezes maior que o de norte-americanos em instituições chinesas.
A China ultrapassou a Índia e se tornou a principal origem de alunos estrangeiros em escolas e universidades norte-americanas. No ano passado, eram 157.558 o equivalente a 22% dos estudantes internacionais. Só em Stanford há cerca de 1.000 alunos chineses atualmente e nos últimos dez anos eles lideraram o ranking do número de estrangeiros na instituição.
Em 2010, o presidente Barack Obama lançou projeto que prevê o envio de 100 mil estudantes para a China no período de quatro anos, com o objetivo de equilibrar o fluxo acadêmico entre os dois países. “A necessidade de os americanos ganharem exposição e entenderem a China é clara: talvez não exista nenhuma relação no mundo mais importante ou complexa do que a entre Estados Unidos e China em termos de garantia da paz e segurança globais”, diz texto do Departamento de Estado sobre o projeto.
A Stanford está longe de ser um caso isolado. Várias universidades norte-americanas têm programas de cooperação com instituições chinesas. A Yale atua junto com a Universidade de Pequim e a Columbia tem laços com a Tsinghua, onde se formou o atual presidente chinês, Hu Jintao. A Johns Hopkins é parceira da Universidade de Nanjing no Hopkins-Nanjing Center for Chinese and American Studies. A Missouri State University está na província de Lioning, no nordeste chinês, para citar apenas alguns exemplos.
No Brasil, há pouquíssimas instituições de pesquisa dedicadas ao estudo da China, país que é nosso maior parceiro comercial e dono do segundo maior PIB do mundo. Também há poucos estudantes de chinês e, apesar de crescente, o número de brasileiros em instituições de ensino na China é minúsculo. Está na hora de mudar.
O título do post não é meu, mas de artigo de autoria do professor chinês Yan Xuetong, publicado no The New York Times no fim de novembro. Entre os mais respeitados acadêmicos do país, Yan discorreu sobre um tema que ocupa cada vez mais a elite governante de Pequim: como vencer a disputa global por influência que inevitavelmente travarão com os Estados Unidos.
Subjacente à discussão está a ideia de soft power, expressão criada pelo norte-americano Joseph Nye para designar o tipo de influência que não é baseado no poder das armas _o hard power_ e que permite a um país conquistar corações e mentes ao redor do globo. O conceito fundamental é fazer com que os outros queiram o que vocês quer, pelo simples poder de atração de seu modelo ou de suas ideias.
A China já é a segunda maior economia do mundo e investe há anos na modernização do Exército de Libertação Popular. Mas ainda que consiga projeção militar e econômica, o país carece de um modelo que possa servir de inspiração para o restante do mundo, enquanto os norte-americanos possuem um ideário claro que reúne Estado de Direito, liberdade individual e liberalismo econômico _ainda que nem sempre o respeite fora de suas fronteiras.
Em sua tentativa de criar as bases para o desenvolvimento do soft power Made in China, Yan retornou à filosofia clássica chinesa fundada por Confúcio, pensador que o Partido Comunista combateu durante décadas por identificá-lo com os traços retrógrados da sociedade local. Para Yan, o caminho para a China ganhar a disputa com os Estados Unidos é o exercício da autoridade “benevolente” ou “humana”, conceito vago, mas que segundo ele implica justiça social, combate à corrupção e criação de uma sociedade harmônica _você pode ler o artigo aqui.
O problema na tese de Yan é que ela não aponta para a criação de um modelo com regras claras aplicáveis a todos, incluindo aos detentores do poder. Eu levantei esse ponto em uma discussão realizada na semana passada com outros dois jornalistas em Pequim, que você pode ouvir neste podcast podcast. A receita de Yan parece se basear na autoridade moral dos ocupantes do poder, sem nenhuma ênfase nos mecanismos de controle do exercício do poder e de proteção do indivíduo contra o governo. Sem isso, será difícil a China construir um sistema que possa competir com a ideia de Estado de Direito da tradição ocidental.
Para ele, o confronto entre os dois países é inevitável: “Se a história é um guia, a ascensão da China de fato coloca um desafio para a América. Poderes emergentes buscam ganhar mais autoridade no sistema global, e poderes decadentes raramente caem sem luta. E dadas as diferenças entre os sistemas políticos chinês e americano, pessimistas podem até acreditar que existe uma alta possibilidade de guerra”.
No último mês, os norte-americanos levaram a disputa por influência aos países vizinhos da China, em uma tentativa de garantir sua presença na região economicamente mais dinâmica do mundo e contrabalançar a ascensão chinesa. A ofensiva foi tema de reportagem minha que o Estado publicou ontem.
Garantir a sobrevivência do Protocolo de Kyoto é a prioridade de Brasil, África do Sul, Índia e China para a Conferência do Clima que ocorrerá na cidade sul-africana de Durban a partir de 28 de novembro. Mas o grupo de países conhecido como BASIC sinalizou ontem que não está disposto a fazer concessões que impliquem a adoção de metas obrigatórias de redução de emissões por países em desenvolvimento, o que pode frustrar os negociadores da União Europeia.
Depois de dois dias de reunião em Pequim para afinar as posições para Durban, os representantes do BASIC divulgaram um documento que basicamente reafirma suas posições histórias: os países desenvolvidos devem adotar metas obrigatórias de corte nas emissões na segunda fase de compromissos do Protocolo de Kyoto, prevista para substituir as objetivos atuais a partir do fim de 2012.
O problema é que Japão e Rússia já disseram que não vão aderir a essa nova etapa se os principais poluidores do mundo não fizerem o mesmo. Maior emissor absoluto de gases que provocam o aquecimento global, a China não está sujeita às metas obrigatórias, por ser um país em desenvolvimento. Os Estados Unidos têm a maior emissão per capita do mundo e nunca aderiram ao Protocolo de Kyoto. Os europeus sustentam que gostariam de renovar os compromissos de redução de emissões, mas demandam uma sinalização de que esta seria a última vez em que outras grandes economias ficariam fora do acordo.
“Nossa maior preocupação é o segundo compromisso do Protocolo de Kyoto. Estamos os quatro unidos nesse propósito”, disse Francisco Gaetani, secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, que representou o Brasil nas discussões. “Alguns países, como a Rússia e o Japão, estão sinalizando posições complicadas.”
Participante do encontro de Pequim na condição de observador, o deputado federal Alfredo Sirkis (PV-RJ) considerou “absolutamente inócuo” o documento aprovado pelo BASIC. “[O texto] não cumpriu propósito político de lançar nem que fosse uma pinguela de aproximação com a Europa para evitar que ela saia do Protocolo de Kyoto.” Segundo ele, a “velocidade da tropa” foi determinada pelo mais lento, no caso a Índia, que foi intransigente na posição contrária a qualquer concessão.
O que os europeus argumentam é que o mundo atual é bastante distinto do existente há 20 anos, quando as bases do Protocolo de Kyoto foram negociadas. A China hoje tem uma economia maior que a de qualquer país europeu e menor apenas que a dos Estados Unidos e ocupa desde 2009 o posto de principal emissor de gases-estufa _enquanto a Europa responde por 16% das emissões.
Na entrevista coletiva realizada depois do encontro, o representante da China, Xie Zhenhua, disse que o país está “pronto” para fazer concessões, mas ressaltou que elas devem seguir o princípio de responsabilidades diferenciadas entre países ricos e emergentes. Gaetani observou que é difícil discutir metas obrigatórias para as nações em desenvolvimento quando o país “mais desenvolvido do mundo” não é nem sequer signatário do Protocolo de Kyoto.
Sirkis ressaltou que a posição do BASIC de que apenas os países com maior emissão per capita devem ter metas obrigatórias é insustentável quando se considera o fato de que as nações em desenvolvimento respondem por 70% das emissões atuais. “É um diálogo de surdos. Isso não aponta para a solução, aponta para o impasse”, afirmou.
A crise da dívida norte-americana deu um sentido de urgência ao projeto de reestruturação da economia chinesa e colocou no centro do debate a questão da apreciação do yuan, que deixou de ser um tabu e passou a ser defendida abertamente por inúmeros economistas, incluindo vários ligados ao governo.
A mudança no câmbio é considerada essencial para colocar fim ao processo de acumulação de reservas pela China, que já gerou uma montanha de US$ 3,2 trilhões, valor que supera todo o PIB brasileiro. A administração desses recursos se tornou delicada depois da redução da nota de crédito dos Estados Unidos pela agência de classificação de risco Standard & Poors, no dia 5 de agosto, e a perspectiva de desvalorização persistente da moeda norte-americana.
Pequim é o maior credor de Washington, com pelo menos US$ 1,16 trilhão em títulos do Tesouro. Analistas estimam que 70% dos US$ 3,2 trilhões de reservas estão investidos em ativos denominados em dólar, cujo valor relativo seria reduzido na hipótese de depreciação da moeda. Com o agravamento da crise da dívida na Europa, há poucas opções seguras e líquidas para a China aplicar sua crescentes reservas. A saída é reduzir seu ritmo de acumulação. Para que isso aconteça, é necessário que o banco central restrinja as compras de dólares, euros ou ienes que entram no país, movimento pelo qual evita a apreciação do yuan. A moeda mais valorizada diminuiria o superávit comercial, em razão da queda nas exportações e aumento das importações, o que também amenizaria a pressão sobre o banco central provocada pela entrada de recursos externos no país.
A especulação em torno do aumento no ritmo de valorização do yuan ganhou força no fim da semana, depois de o banco central ter empurrado a cotação em relação do dólar para patamares recordes por três dias seguidos. Na sexta-feira, o yuan chegou a alcançar 6,3890 por US$ 1,00, encerrando uma semana na qual a apreciação foi a maior desde que o governo voltou a permitir a alta da moeda, em meados de 2010. O Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, publicou texto na sexta-feira no qual cita “analistas” para dizer que a China aceitará uma apreciação mais rápida do yuan, medida que também levaria à redução no fluxo de capital especulativo para o país e facilitaria o combate da inflação.
A grande questão é o ritmo no qual a valorização ocorrerá. Tudo indica que Pequim manterá a opção pelo gradualismo, ainda que menos lento. O problema é que isso pode funcionar como estímulo para o aumento do fluxo de capital especulativo, já que os investidores apostariam na apreciação futura do yuan. Nesse cenário, as reservas continuariam a se acumular, pois haveria elevação da quantidade de recursos externos que entram na China. Outro dado que esquentou o debate foi o inesperado superávit comercial de US$ 31,5 bilhões de julho, o maior em dois anos. Para muitos, ele é um indício de que a China tem espaço para apreciar sua moeda mais rapidamente.
Dong Tao, economista-chefe para a Ásia (menos Japão) do Credit Suisse, afirma que os líderes chineses adotaram a decisão de internacionalizar o yuan depois da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. No início de 2009, o presidente do banco central, Zhou Xiaochuan, defendeu a substituição do dólar como moeda de reserva global e ampliação do uso do yuan fora das fronteiras do país. Essa mudança reduziria a dependência da China _e do mundo_ dos investimentos em dólar. Mas para que isso ocorra, o yuan tem de ser uma moeda conversível, o que é impossível dentro do regime de câmbio atual, determinado pelo banco central. Mas Dong ressalta que a mudança não pode ser feita rapidamente e continuará a obedecer ao ritmo ditado pelo governo chinês.
Zhang Lei, analista da Minsheng Securities em Xangai, defende a mudança no regime cambial como medida necessária para reduzir a pressão da acumulação de reservas e acelerar a transformação do modelo de desenvolvimento do país, com redução dos investimentos e aumento do consumo. Em entrevista ao Estado na semana passada, o diretor do Centro de Pesquisa em Reservas Internacionais da Universidade Central de Finanças e Economia de Pequim, Li Jie, afirmou que o rebaixamento dos EUA pela Standard & Poors colocou em xeque a arquitetura econômica internacional que prevaleceu na última década, pela qual a China poupava e os Estados Unidos gastavam. O câmbio desvalorizado era um dos elementos da equação, que permitia aos chineses exportarem para os norte-americanos, acumularem reservas e usarem esses recursos para financiar o déficit de Washington. “Esse modelo podia ser mantido enquanto os Estados Unidos provessem o mundo com débito seguro, mas isso deixou de existir”, disse Li, para quem a apreciação do yuan é essencial para mudança desse cenário.
A crise em torno do endividamento norte-americano e o rebaixamento da nota do país pela Standard & Poors evidenciaram a necessidade de a China transformar seu modelo de crescimento, o que implica mudança no regime de câmbio e apreciação do yuan, disse o diretor do Centro de Pesquisa em Reservas Internacionais da Universidade Central de Finanças e Economia de Pequim, Li Jie.
“Nós não podemos mais continuar a acumular reservas”, ressaltou Li. Para isso, a China tem de reduzir seu superávit externo, com aumento das importações e queda das exportações.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Qual o impacto da decisão da S&P para a China?
O maior impacto é sobre as reservas internacionais. A China é o país com o maior volume de títulos norte-americanos. Com o rebaixamento da dívida, deve haver elevação dos juros sobre a dívida americana, o que reduzirá o valor dos títulos detidos pela China. Eles vão em direções opostas.
Outro aspecto é o investimento futuro das reservas chinesas. O modelo de crescimento chinês depende das exportações e gera a acumulação de reservas. Se não mudarmos esse modelo, as reservas continuarão a aumentar e não há nenhum ativo financeiro líquido o bastante, grande o bastante e seguro o bastante no qual esses recursos podem ser investidos. Nós não podemos mais continuar a acumular reservas.
O que significa a mudança no modelo de crescimento?
Importar mais e reduzir o tamanho das exportações.
É possível fazer isso sem alterar o sistema de câmbio?
Não. O regime cambial tem de ser reformado, para permitir rápida apreciação do renminbi [outro nome do yuan]. Nós temos feito uma apreciação gradual, mas ela não é suficiente. Com a crise da dívida, nós temos que mudar isso.
Uma apreciação gradual pode deteriorar ainda mais o problema da acumulação de reservas, pois estimula a entrada de capital especulativo no país. A magnitude da apreciação tem que ser grande o bastante para desestimular esse fluxo de capital.
Há disposição política em Pequim para uma apreciação do renminbi?
Existe o temor de perda de empregos no setor exportador, mas esse modelo não é mais sustentável. Não há onde investir as reservas. Os Estados Unidos não podem mais sustentar um modelo baseado no consumo.
Isso significa que o modelo chinês baseado na poupança também não é mais sustentável, certo?
Nós temos discutido os desequilíbrios globais por longo tempo. Esse modelo podia ser mantido enquanto os Estados Unidos provessem o mundo com débito seguro [onde a poupança chinesa poderia ser investida], mas isso deixou de existir.
Toda a arquitetura econômica internacional tem que mudar. Esse é o momento para a China passar a consumir mais e os Estados Unidos pouparem mais.
A China espera que os Estados Unidos adotem “políticas responsáveis” em relação à sua dívida, para prevenir flutuações no mercado de títulos do Tesouro que possam gerar instabilidade no sistema financeiro internacional e comprometer o crescimento global, afirmou ontem o presidente do banco central, Zhou Xiaochuan. Segundo ele, a Administração e o Congresso norte-americanos devem considerar não apenas seus próprios interesses, mas os de todo o mundo ao gerir o problema do endividamento do país, já que os bônus do Tesouro estão entre os papéis mais negociados do planeta. “Isso vai ajudar a garantir a segurança dos investimentos em títulos do Tesouro dos EUA e o efetivo funcionamento do mercado. Também ajudará a manter a confiança dos investidores globais e de maneira geral contribuir para um crescimento forte, sustentado e equilibrado da economia mundial”, ressaltou, em referência à desejada postura responsável dos norte-americanos.
Com US$ 3,2 trilhões em reservas internacionais _valor que supera o PIB do Brasil_, a China é o maior credor de Washington, com pelo menos US$ 1,16 trilhão em títulos do Tesouro. No total, cerca de 70% das reservas estão aplicadas em ativos denominados em dólar, o que coloca Pequim em uma posição frágil na hipótese de persistente desvalorização da moeda norte-americana _que por tabela reduziria o valor relativo dos trilhões administrados pelo Banco do Povo da China. Zhou deu boas-vindas ao acordo fechado no Congresso e observou que a autoridade monetária chinesa acompanhará “de perto” sua implementação “em diferentes estágios”. O dirigente do banco central afirmou ainda que o país manterá sua política de diversificação de reservas, pela qual busca alternativas aos investimentos em dólar.
A agência oficial de notícias Xinhua adotou um tom mais agressivo que o de Zhou em editorial divulgado ontem: “A farsa demente de confrontação revelou outra bomba relógio no coração da única superpotência do mundo _a destrutiva tendência de politizar a economia e trivializar a política”. O comentário foi divulgado no dia seguinte à sanção pelo presidente Barack Obama do acordo que colocou fim a meses de confrontação entre democratas e republicanos em torno do aumento do teto de endividamento dos Estados Unidos e afastou o risco de um calote. “Agora pode surgir um consenso no mercado global de que há risco nos títulos do Tesouro dos EUA e que é aconselhável não se envolver muito com eles”, ressaltou o editorial.
E continua: se não contiverem sua “dependência do endividamento”, os Estados Unidos podem perder sua já “manchada credibilidade”, o que poderá detonar a “bomba” e comprometer o bem-estar de centenas de milhões de pessoas além da fronteira norte-americana. Mas enquanto continuar a acumular reservas, a China tem poucas opções além de investir na comprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos, especialmente agora que a Europa enfrenta uma crise que pode levar alguns países a deixarem de pagar sua dívida soberana. A mudança desse cenário só será possível com a reestruturação do modelo de crescimento do país, com redução do peso das exportações (e do superávit comercial) e aumento da participação do consumo doméstico na composição do PIB, dizem alguns analistas.
O acordo que elevou o teto de endividamento dos Estados Unidos reduziu a ansiedade chinesa em relação à possibilidade de um calote norte-americano, mas o longo impasse entre republicanos e democratas evidenciou os riscos enfrentados por Pequim e aumentou a pressão para que o Partido Comunista reveja a política de acumulação de reservas internacionais, cujo valor já alcançou estratosféricos US$ 3,2 trilhões. Cerca de 70% dessa montanha de dinheiro estão aplicados em ativos denominados em dólar, incluindo US$ 1,16 trilhão em títulos do Tesouro, o que coloca a China na condição de maior credor de Washington. Isso significa que uma eventual depreciação persistente da moeda norte-americana provocará redução no valor dos recursos administrados pelo Banco do Povo da China (banco central).
O confronto político em Washington acendeu a luz amarela em Pequim, mas a acumulação de reservas criou uma armadilha difícil de ser desarmada. A China não pode se desfazer dos títulos do Tesouro e dos ativos em dólar sem arriscar derrubar seu valor, o que reduziria sua própria poupança. Além disso, o modelo de intervenções no mercado para impedir a apreciação do yuan torna inevitável o aumento das reservas, já que essa operação é feita por meio da compra de dólares pelo banco central. Editorial publicado ontem pelo jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista, afirmou que as reservas internacionais “enormes, mas em depreciação” são um peso para o povo chinês, ao mesmo tempo em que reconheceu que há poucas opções para aplicá-las. “Essa talvez seja a lição que a China aprendeu” com a crise em torno do teto de endividamento norte-americano.
A manchete do jornal China Daily, editado pelo Conselho de Estado, foi “O dilema das reservas internacionais da China”. O texto afirma que o acordo é um “alívio” para os credores de Washington, mas observa que Pequim enfrenta o desafio de diversificar suas reservas, “ameaçadas” pela possibilidade de desvalorização do dólar. Em artigo publicado no Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, o pesquisador Li Xiangyang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, defendeu o abandono do modelo atual. “É necessário mudar a atual concentração em ativos denominados em dólar, mas o que é mais importante é mudar no futuro a propensão para elevação dos ativos em dólar”. Segundo Li, isso exige um “ajuste fundamental” no modelo de crescimento econômico adotado pela China”.
Editorial veiculado no mesmo jornal ressaltou que os problemas da dívida soberana dos Estados Unidos continuam, apesar do acordo entre republicanos e democratas. “Eles foram apenas adiados e há uma tendência de que cresçam. Isso está lançando uma sombra sobre a recuperação da economia dos EUA e escondendo riscos e turbulências ainda maiores para a economia global”, sustenta o texto. O nacionalista Global Times adotou um tom irônico em seu editorial, no qual disse que a solução do impasse poderia render um filme hollywoodiano de efeito especiais “democráticos” com o título “Acordo de Último Momento”. Mas o desenlace não deve arrancar aplausos do restante do mundo, ressalta. “Ao usar nova dívida para pagar a velha, os EUA estão afundando ainda mais em areia movediça. Isso não é um sacrifício altruísta feito para salvar o mundo, já que os países que detêm títulos da dívida estão todos atrelados aos EUA.”
O nome em chinês do embaixador dos Estados Unidos na China, Jon Huntsman, foi bloqueado ontem na internet pelos censores do país, depois que um vídeo veiculado online mostrou o representante norte-americano no ponto de encontro de uma fracassada manifestação contra o governo convocada para o último domingo.
O governo também bloqueou ontem o Linkedin, que passou a ser inacessível como Facebook, Twitter e Youtube. Apreensivas com o que ocorre no mundo árabe, as autoridades de Pequim não quer dar nenhum espaço para os críticos do governo se organizarem.
No vídeo, Huntsman aparece de óculos escuros observando o grupo de pessoas que estava em frente à loja do McDonald´s na Wangfujing, uma das principais e mais movimentadas ruas comerciais da capital. A embaixada norte-americana afirmou que sua presença no local no horário convocado para o protesto foi uma coincidência e que Huntsman estava com sua família quando parou para ver o que estava acontecendo.
O governo chinês acusou de subversão pelo menos três pessoas que retransmitiram na internet a convocação para o fracassado protesto, segundo o Centro para Direitos Humanos e Democracia, com sede em Hong Kong.
O movimento é anônimo e a primeira mensagem foi colocada no site Boxun.com, baseado nos Estados Unidos, que reúne dissidentes e críticos do Partido Comunista. Os responsáveis pelo chamado gostariam de criar uma versão chinesa da “Revolução do Jasmim” que derruba regimes autoritários no mundo árabe.
Subversão é o crime do qual os dissidentes chineses costumam ser acusados e foi o que levou o vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2010, Liu Xiaobo, a receber uma pena de 11 anos de prisão.
Na terça-feira, o mesmo grupo anônimo divulgou um novo manifesto, no qual convoca demonstrações para todos os domingos, às 14h, em 18 grandes cidades do país, incluindo Pequim e Xangai. O texto conclama os chineses a protestar contra corrupção, desigualdade, falta de seguridade social, má utilização do dinheiro público, inflação e ausência de supervisão popular sobre o Estado.
O vídeo que mostra Huntsman no local da manifestação foi colocado no Youtube _bloqueado na China_ e no site nacionalista M4.cn. O embaixador é abordado por um chinês, que questiona sua presença no local e pergunta se ele quer ver a China mergulhada no caos. Huntsman, que fala mandarim fluentemente, responde que não e deixa o local escoltado por dois seguranças quando o chinês começa a dizer para os que estão ao redor que aquele homem é o embaixador dos Estados Unidos na China.
A presença de Huntsman no local fortaleceu o argumento de setores do Partido Comunista que acusam o Ocidente _em especial os Estados Unidos_ de interferência indevida em assuntos internos do país.
O vídeo colocado no M4.cn termina com uma declaração de princípios: “Nós não queremos ser outro Iraque! Nós não queremos ser outra Tunísia! Nem outro Egito! Se a nação mergulhar no caso, os Estados Unidos e esses “reformistas” vão colocar comida na mesa de 1,3 bilhão de chineses?”
Huntsman anunciou sua renúncia ao cargo de embaixador na China no dia 31 de janeiro. Ex-governador de Utah, ele deixará o posto em abril e deverá disputar a indicação do Partido Republicano para a candidatura à presidência contra seu atual chefe, Barack Obama.
Apesar de não haver indícios de que o país poderá viver algo semelhante às manifestações do mundo árabe, as autoridades de Pequim reagiram com mão pesada para impedir qualquer tipo de demonstração.
No fim de semana, o governo prendeu ou colocou sob vigilância policial cerca de 100 ativistas. O controle da internet se intensificou e palavras relacionadas às manifestações no mundo árabe estão bloqueadas. “Jasmim”, nome de um dos mais populares chás do país, não pode ser escrito em microblogs e até o nome de uma cantora que gravou uma canção com esse título estava bloqueado.
Apesar de ter crescido robustos 3,9% no ano passado, o Japão perdeu oficialmente para a China o posto de segunda maior economia do mundo que ocupou durante quatro décadas. Autoridades de Tóquio informaram ontem que o PIB de 2010 ficou em US$ 5,47 trilhões, abaixo dos US$ 5,88 trilhões do vizinho emergente.
A diferença de US$ 410 bilhões entre os dois países supera o tamanho da economia da Argentina, que atingiu US$ 351 bilhões em 2010, segundo estimativa do Fundo Monetário Internacional.
O resultado era impensável há uma década, quando o PIB chinês representava um terço do japonês, e reflete tanto o dinamismo da China quanto a estagnação em que o Japão mergulhou a partir dos anos 90.
Mas o 1,3 bilhão de habitantes da que agora é a segunda maior economia do mundo continua a ser bem mais pobre que os 128 milhões que passaram para a terceira posição _o PIB per capita chinês equivale a cerca de um décimo dos US$ 43 mil dos japoneses.
No ritmo atual, a China deverá superar os Estados Unidos e se tornar a maior economia do mundo até 2030. A ultrapassagem ocorrerá cerca de 15 anos antes se for considerado o valor do PIB pela Paridade de Poder de Compra (PPP, na sigla em inglês), cuja equação contempla o impacto dos preços relativos na economia de cada país.
A espetacular história da expansão chinesa começou a ser escrita em 1978, quando Deng Xiaoping (1904-1997) obteve apoio dentro do Partido Comunista para implantar sua política de abertura e integração gradual do país à economia mundial.
Naquela época, a China estava isolada e destroçada pela trágica experiência da Revolução Cultural (1966-1976). O PIB per capita não chegava a US$ 300 ao ano, comparados com quase US$ 9.000 dos japoneses.
As reformas iniciadas por Deng levaram a China a um crescimento médio de quase 10% ao ano nas últimas três décadas, algo inédito na história recente da humanidade. Os principais motores dessa expansão foram os investimentos e as exportações. O grande desafio dos dirigentes de Pequim agora é mudar o padrão de crescimento e aumentar o peso do consumo doméstico no PIB.
Se conseguir essa transição, a China aumentará sua relevância como uma das principais turbinas da expansão mundial. O país é o principal destino das exportações do Japão e sua demanda foi um dos fatores que levaram aos 3,9% de crescimento em 2010.
Apesar do resultado positivo, a economia japonesa encolheu 0,3% no quarto trimestre _ou 1,1% anualizados. A contração decorreu principalmente da queda no consumo interno provocada pelo fim de subsídios adotados depois da crise financeira global. Ainda assim, a contração foi menor que a média de -0,5% esperada por analistas.
Além da pompa e circunstância com que Hu Jintao foi recebido na semana passada em Washington, um fato mais corriqueiro evidenciou o novo peso da China no cenário global: a filha mais nova de Barack Obama, Sasha, está estudando mandarim. Aparentemente pouco significativa, a informação reforçou a aura de potência emergente que cerca a China e indicou que muitas outras mudanças virão com sua proeminência econômica. Por enquanto, são os líderes comunistas chineses que enviam seus filhos para estudar nos Estados Unidos _a filha de Xi Jinping, provável sucessor de Hu Jintao, frequenta a Universidade de Harvard.
O que não se sabe é quanto tempo vai perdurar o clima de bons amigos que envolveu a passagem de Hu Jintao por Washington, na qual o líder chinês atingiu o objetivo de ser tratado e visto como um igual ao lado de Obama. Nenhuma das divergências que opõem os dois lados foi resolvida ou amenizada e não há dúvida de que os conflitos voltarão a emergir. O relacionamento bilateral chegou ao mais baixo patamar da última década no ano passado, com ataques de lado a lado _ainda que publicamente a voz de Pequim tenha soado alguns tons acima da de Washington.
Em seus pronunciamentos, Hu Jintao disse esperar “respeito” aos “interesses fundamentais” da China, que incluem Tibete e Taiwan. Na prática, é um apelo para que líderes norte-americanos não se encontrem mais com o dalai lama _o que Obama fez há um ano_ e que o país deixe de vender armas e dar apoio material ao governo de Taiwan. É altamente improvável que alguma das duas coisas ocorra e será interessante ver como os chineses reagirão quando se considerarem “desrespeitados”.
As demandas de Washington também não serão facilmente aceitas por Pequim. Mesmo que se acelere em relação a 2010, o ritmo de apreciação do yuan continuará muito mais lento do que gostariam os norte-americanos _os mais otimistas prevêem valorização de 6%, o dobro da de 2010. E mesmo que venha a adotar uma retórica mais dura, a China não colocará o regime da Coreia do Norte contra a parede.
Mas é possível que a visita e seus desdobramentos permitam que ambos os países lidem melhor com suas divergências, com menos estridência de Pequim e mais tolerância dos norte-americanos em relação a um modelo político e econômico que desafia os seus valores. Uma coisa é certa: a versão chinesa do “the book is on the table” será cada vez mais disseminada. Quem quiser, pode começar a praticar: “shu zai zhuozi shang”.
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