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Cláudia Trevisan

A crise em torno do endividamento norte-americano e o rebaixamento da nota do país pela Standard & Poors evidenciaram a necessidade de a China transformar seu modelo de crescimento, o que implica mudança no regime de câmbio e apreciação do yuan, disse o diretor do Centro de Pesquisa em Reservas Internacionais da Universidade Central de Finanças e Economia de Pequim, Li Jie.
“Nós não podemos mais continuar a acumular reservas”, ressaltou Li. Para isso, a China tem de reduzir seu superávit externo, com aumento das importações e queda das exportações.
A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual o impacto da decisão da S&P para a China?
O maior impacto é sobre as reservas internacionais. A China é o país com o maior volume de títulos norte-americanos. Com o rebaixamento da dívida, deve haver elevação dos juros sobre a dívida americana, o que reduzirá o valor dos títulos detidos pela China. Eles vão em direções opostas.
Outro aspecto é o investimento futuro das reservas chinesas. O modelo de crescimento chinês depende das exportações e gera a acumulação de reservas. Se não mudarmos esse modelo, as reservas continuarão a aumentar e não há nenhum ativo financeiro líquido o bastante, grande o bastante e seguro o bastante no qual esses recursos podem ser investidos. Nós não podemos mais continuar a acumular reservas.

O que significa a mudança no modelo de crescimento?
Importar mais e reduzir o tamanho das exportações.

É possível fazer isso sem alterar o sistema de câmbio?
Não. O regime cambial tem de ser reformado, para permitir rápida apreciação do renminbi [outro nome do yuan]. Nós temos feito uma apreciação gradual, mas ela não é suficiente. Com a crise da dívida, nós temos que mudar isso.
Uma apreciação gradual pode deteriorar ainda mais o problema da acumulação de reservas, pois estimula a entrada de capital especulativo no país. A magnitude da apreciação tem que ser grande o bastante para desestimular esse fluxo de capital.

Há disposição política em Pequim para uma apreciação do renminbi?
Existe o temor de perda de empregos no setor exportador, mas esse modelo não é mais sustentável. Não há onde investir as reservas. Os Estados Unidos não podem mais sustentar um modelo baseado no consumo.

Isso significa que o modelo chinês baseado na poupança também não é mais sustentável, certo?
Nós temos discutido os desequilíbrios globais por longo tempo. Esse modelo podia ser mantido enquanto os Estados Unidos provessem o mundo com débito seguro [onde a poupança chinesa poderia ser investida], mas isso deixou de existir.
Toda a arquitetura econômica internacional tem que mudar. Esse é o momento para a China passar a consumir mais e os Estados Unidos pouparem mais.

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O acordo que elevou o teto de endividamento dos Estados Unidos reduziu a ansiedade chinesa em relação à possibilidade de um calote norte-americano, mas o longo impasse entre republicanos e democratas evidenciou os riscos enfrentados por Pequim e aumentou a pressão para que o Partido Comunista reveja a política de acumulação de reservas internacionais, cujo valor já alcançou estratosféricos US$ 3,2 trilhões. Cerca de 70% dessa montanha de dinheiro estão aplicados em ativos denominados em dólar, incluindo US$ 1,16 trilhão em títulos do Tesouro, o que coloca a China na condição de maior credor de Washington. Isso significa que uma eventual depreciação persistente da moeda norte-americana provocará redução no valor dos recursos administrados pelo Banco do Povo da China (banco central).

O confronto político em Washington acendeu a luz amarela em Pequim, mas a acumulação de reservas criou uma armadilha difícil de ser desarmada. A China não pode se desfazer dos títulos do Tesouro e dos ativos em dólar sem arriscar derrubar seu valor, o que reduziria sua própria poupança. Além disso, o modelo de intervenções no mercado para impedir a apreciação do yuan torna inevitável o aumento das reservas, já que essa operação é feita por meio da compra de dólares pelo banco central. Editorial publicado ontem pelo jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista, afirmou que as reservas internacionais “enormes, mas em depreciação” são um peso para o povo chinês, ao mesmo tempo em que reconheceu que há poucas opções para aplicá-las. “Essa talvez seja a lição que a China aprendeu” com a crise em torno do teto de endividamento norte-americano.

A manchete do jornal China Daily, editado pelo Conselho de Estado, foi “O dilema das reservas internacionais da China”. O texto afirma que o acordo é um “alívio” para os credores de Washington, mas observa que Pequim enfrenta o desafio de diversificar suas reservas, “ameaçadas” pela possibilidade de desvalorização do dólar. Em artigo publicado no Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, o pesquisador Li Xiangyang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, defendeu o abandono do modelo atual. “É necessário mudar a atual concentração em ativos denominados em dólar, mas o que é mais importante é mudar no futuro a propensão para elevação dos ativos em dólar”. Segundo Li, isso exige um “ajuste fundamental” no modelo de crescimento econômico adotado pela China”.

Editorial veiculado no mesmo jornal ressaltou que os problemas da dívida soberana dos Estados Unidos continuam, apesar do acordo entre republicanos e democratas. “Eles foram apenas adiados e há uma tendência de que cresçam. Isso está lançando uma sombra sobre a recuperação da economia dos EUA e escondendo riscos e turbulências ainda maiores para a economia global”, sustenta o texto. O nacionalista Global Times adotou um tom irônico em seu editorial, no qual disse que a solução do impasse poderia render um filme hollywoodiano de efeito especiais “democráticos” com o título “Acordo de Último Momento”. Mas o desenlace não deve arrancar aplausos do restante do mundo, ressalta. “Ao usar nova dívida para pagar a velha, os EUA estão afundando ainda mais em areia movediça. Isso não é um sacrifício altruísta feito para salvar o mundo, já que os países que detêm títulos da dívida estão todos atrelados aos EUA.”

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08.fevereiro.2011 05:01:35

O Brasil e o desafio chinês

Não é fácil entrar em atrito com seu maior cliente, principalmente quando ele é a segunda maior economia do mundo, tem 1,3 bilhão de habitantes e possui dinheiro de sobra para investir fora de suas fronteiras. Mas quanto antes o Brasil tentar redefinir as regras do jogo do relacionamento com a China, maiores serão as chances de sucesso.

Tudo indica que a gestão de Dilma Rousseff está disposta a abandonar a posição benevolente de seu antecessor em relação a Pequim, manifestada entre outros aspectos pela ausência de crítica à desvalorização cambial que beneficia os exportadores chineses.

O câmbio nunca entrou nas discussões econômicas entre os dois países e o ministro Guido Mantega repetiu inúmeras vezes que o grande problema para o Brasil não era o patamar depreciado do yuan, mas a desvalorização do dólar _desprezando o fato de que a moeda chinesa é atrelada ao dólar e mantida em patamar artificialmente baixo graças a pesadas intervenções do Banco do Povo da China.

Não há nenhuma indicação de que Pequim abandonará no futuro previsível o seu sistema de câmbio semifixo, o que fomentará a pressão da indústria pela adoção de barreiras de proteção aos setores mais afetados pelas importações do país asiático.

Mas é óbvio que só medidas defensivas são insuficientes e têm que ser adotadas com prazo de validade. O Brasil tem que resolver suas próprias mazelas, aquelas que há décadas frequentam o debate nacional sem alcançar solução _infraestrutura precária, alta carga tributária, juros altos, excesso de burocracia, ineficiência etc.

Acima de tudo, o Brasil precisa definir o tipo de país que pretende ser no futuro e a relação comercial com a China é crucial nessa equação. A voraz demanda do país asiático por produtos primários e sua imbatível competitividade na indústria nos empurram para um modelo exportador de commodities e importador de bens de alto valor agregado.

Ao mesmo tempo, a demanda chinesa é irresistível, garante superávits na balança comercial e injeta bilhões de dólares nos setores produtores de minério, soja e petróleo. Para amenizar o impacto do boom de commodities, o país poderia transferir uma parcela maior dos lucros gerados pela exploração de recursos naturais _findos por excelência_ para investimentos em infraestrutura e aumento da competitividade da indústria.

Principal concorrente do Brasil no mercado de minério de ferro, a Austrália aprovou no ano passado um imposto adicional sobre a exploração de carvão, gás, petróleo e minério, que entrará em vigor no dia 1º de julho de 2012. A fórmula final é bem mais amena que a “supertaxa” proposta pelo ex-primeiro-ministro Kevin Rudd, que acabou deixando o cargo diante da violenta reação das mineradoras. Ainda assim, trará aos cofres australianos estimados US$ 10 bilhões anuais de arrecadação, que o governo pretende investir em infraestrutura e no apoio a pequenas e médias empresas.

O Chile, outro exportador de commodities, destina parte da receita obtida com o setor primário a um fundo de estabilização econômica, que deve ser usado em momentos de turbulência ou vacas magras. O fundo tinha US$ 20 bilhões no fim de 2008, dos quais saíram US$ 3 bilhões para financiar um pacote de estímulo fiscal durante a crise financeira global.

Além de serem finitos, os recursos naturais estão sujeitos a oscilações de preços no mercado internacional e suas cotações podem sofrer um baque caso haja algum soluço no crescimento chinês. Não há indícios de que isso ocorrerá em 2010, mas crescem as apostas de que a China viverá uma crise financeira até metade desta década e é bom o Brasil estar preparado para essa eventualidade.

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Na excelente entrevista realizada por Patrícia Campos Mello e publicada domingo no Estadão, o chanceler Celso Amorim admitiu não ter construído uma estratégia para o relacionamento com a China nos oito anos em que comandou a diplomacia brasileira. O ministro também afirmou que um país que não tem uma política cambial de mercado não pode ser tratado como economia de mercado. Amorim só não lembrou que ele próprio deu aval à decisão de reconhecer a China como economia de mercado em 2004, a despeito dos fortes protestos do setor privado brasileiro, liderado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

Se o ministro acredita que a política cambial chinesa atual não respeita as regras de mercado, com muito mais razão deveria ter essa opinião em 2004, quando o governo de que participa desconsiderou esse fato e atendeu à reivindicação de Pequim. Na época, a moeda chinesa estava congelada havia dez anos no patamar de 8,30 yuans por US$ 1,00. Hoje, a cotação ronda os 6,70 por US$ 1,00.

A concessão do status de economia de mercado dificulta a imposição de barreiras às importações chinesas e por isso foi tão criticada pelas empresas nacionais. Mas a promessa brasileira nunca saiu do papel, o que coloca o país como devedor de Pequim. Sempre que há reuniões bilaterais, os representantes chineses cobram os brasileiros e perguntam quando o documento assinado em 2004 será regulamentado. A julgar pelas declarações de Amorim, isso não ocorrerá tão cedo.

Até agora, o argumento de Brasília para justificar o não cumprimento da promessa era o fato de que Pequim não havia ampliado seus investimentos no Brasil, também frustrando compromisso assumido no mesmo documento de 2004. Com o espetacular salto nos anúncios de negócios de estatais chinesas no país desde o início deste ano é cada vez mais difícil sustentar esse argumento.

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Ator central do espectro da “guerra cambial” que paira sobre o mundo, a China resistirá ao máximo ao apelo internacional para que aprecie sua moeda de maneira expressiva. A decisão do Japão de sucumbir à pressão dos Estados Unidos e aceitar a valorização de sua moeda em 1985 é uma das principais razões apresentadas por muitas das autoridades chineses para resistir ao coro global a favor da apreciação do yuan.

“A China não repetirá o erro do Japão”, avisou há duas semanas Li Daokui, economista e membro do comitê de política monetária do Banco do Povo da China. Depois de permitir a apreciação do iene, o Japão entrou em um período de especulação que levou à formação de bolhas de ativos. Quando elas estouraram, no início dos anos 90, o país mergulhou na chamada “década perdida”, da qual ainda não conseguiu se recuperar totalmente.

Ainda que muitos sustentem que a crise foi originada por outros fatores que não a mudança cambial, a China não está disposta a correr o risco de repetir a história do país vizinho, o qual acaba de deixar para trás na corrida pelo posto de segunda maior economia do mundo.

A mudança cambial do Japão ocorreu a partir do Acordo Plaza, assinado em setembro de 1985 em Nova York pelos países que integravam o G5 _Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e Inglaterra. O pacto decorreu da ação coordenada entre as maiores economias industrializadas, movimento semelhante ao defendido agora pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para enfrentar a ameaça de uma “guerra cambial”. O objetivo do Acordo Plaza era desvalorizar a moeda dos Estados Unidos, que acumulava grandes déficits comerciais, e apreciar o iene. A moeda japonesa estava cotada na época a 240 por dólar. Em 1987, já estava em 130 por dólar. Atualmente, gira em torno de 85.

A China considera seu sistema cambial uma questão de política interna, em relação à qual os demais países não devem se manifestar _mesmo que ela afete preços relativos do comércio global. O controle da taxa de câmbio é visto como elemento central da estratégia de desenvolvimento do país, na qual as exportações cumprem papel relevante. “A apreciação do yuan antes que a China seja realmente próspera vai prejudicar o desenvolvimento sustentável da indústria manufatureira”, escreveu no jornal oficial China Daily o economista Mei Xinyu, da Academia Chinesa de Comércio Internacional e Cooperação Econômica, ligada ao Ministério do Comércio.

Na opinião de Mei, a China sofreria mais que o Japão na hipótese de apreciação significativa da moeda, em razão dos diferentes estágios de suas economias. “O Japão havia entrado na fase pós-industrial e já integrava a lista dos países desenvolvidos naquela época [1985], enquanto a China ainda percorre o caminho da industrialização.”

Mas como a China de hoje, o Japão dos anos 80 tinha grandes superávits comerciais com os Estados Unidos, acumulava reservas estrangeiras e usava sua poupança para comprar títulos do Tesouro norte-americano. E como a China de hoje, o Japão também emergia como um país capaz de desafiar a posição dos Estados Unidos como grande potência mundial. Isso faz com que não poucos em Pequim tenham teorias conspiratórias, que vêem na pressão norte-americana pela valorização do yuan uma estratégia para minar a ascensão chinesa.

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