Representante dos bancos estrangeiros na renegociação da dívida externa dos países latino-americanos nos anos 80 e 90, William Rhodes afirma que as nações europeias em dificuldade devem se inspirar na experiência brasileira para superar a crise em que estão mergulhadas. “O Brasil reestruturou seu sistema bancário, os bancos aumentaram capital e hoje um dos maiores bancos do mundo em termos de capital é o Itaú-Unibanco”, disse Rhodes ao Estado ontem, em rápida entrevista durante a edição chinesa do Fórum Econômico Mundial, na cidade de Dalian. Ex-vice-presidente do Citigroup, Rhodes acaba de publicar o livro “Banker to the World: Leadership Lessons From the Front Line of Global Finance”, no qual relembra sua experiência na solução da crise da dívida da América Latina. A seguir, a entrevista com o banqueiro, que hoje é conselheiro sênior do Fórum Econômico Mundial para a América Latina:
Que semelhanças o sr. vê entre a crise da dívida europeia e a crise da dívida latino-americana das décadas de 80 e 90?
Muitas. Você tem que ler meu livro, porque eu menciono o Brasil em particular minha experiência lá. O que retirou o Brasil da moratória foi o plano em duas frentes concebido na gestão do e então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Primeiro, houve acordo com os bancos e, do lado dos credores, eu representei os bancos e ele obviamente representou o Brasil.
Além disso havia um time de brasileiros, não do FMI ou outro conselho externo, que elaborou o Plano Real, estabilizou a economia e controlou a hiperinflação. Cardoso se tornou presidente por dois mandatos, [Luiz Inácio] Lula da Silva veio depois com seu programa de reformas e [Antonio] Palocci e agora nós temos Dilma [Rousseff]. O Brasil nunca parou desde então. Os europeus precisam estudar o que aconteceu no Brasil, porque os europeus e os americanos estavam dizendo [na época] o que o Brasil deveria fazer e eles deveriam aprender a lição. O Brasil está crescendo hoje com sólidas instituições financeiras.
É possível evitar o calote na Grécia?
Depende. No caso da América Latina e do Brasil, havia o Plano Brady, mas o ponto é que os governos implementaram o que disseram que iriam fazer. Se um chefe de Estado dizia que faria determinada coisa, definia um cronograma e fazia. O problema do que vejo na Europa é que eles fazem anúncios e não definem um cronograma para implementá-los.
Que medidas adotadas pelo Brasil deveriam ser implementadas agora pela Europa?
O que é extremamente importante é a situação dos bancos. O Brasil reestruturou seu sistema bancário, os bancos aumentaram capital e hoje um dos maiores bancos do mundo em termos de capital é o Itaú-Unibanco. Eles desenharam as reformas necessárias e as implementaram. Havia um programa no Brasil, concebido por brasileiros, que levou ao crescimento. O programa final que eu negociei com Fernando Henrique Cardoso levou ao crescimento e isso continuou com Lula da Silva e Palocci e uma parte importante daquele time era Dilma. Então houve continuidade. É por isso que o novo presidente do Peru, [Ollanta] Humala, disse que seu exemplo era Brasil.
Mas na Europa eles precisam coordenar medidas entre diferentes governos. Isso é viável?
Eu estou me referindo a países específicos. São medidas nacionais para a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália. Quem imaginaria que hoje um dos grande compradores de empresas em Portugal são brasileiros?
E quando pensamos na América Latina dos anos 80 e 90…
Eu nunca desisti. Quando as pessoas diziam “Deus é brasileiro, mas foi embora”… [E mudando o idioma para o português] O país do futuro. O futuro é hoje no Brasil. Eu sou bastante brasileiro. É um grande país, um grande povo.
A China espera que os Estados Unidos adotem “políticas responsáveis” em relação à sua dívida, para prevenir flutuações no mercado de títulos do Tesouro que possam gerar instabilidade no sistema financeiro internacional e comprometer o crescimento global, afirmou ontem o presidente do banco central, Zhou Xiaochuan. Segundo ele, a Administração e o Congresso norte-americanos devem considerar não apenas seus próprios interesses, mas os de todo o mundo ao gerir o problema do endividamento do país, já que os bônus do Tesouro estão entre os papéis mais negociados do planeta. “Isso vai ajudar a garantir a segurança dos investimentos em títulos do Tesouro dos EUA e o efetivo funcionamento do mercado. Também ajudará a manter a confiança dos investidores globais e de maneira geral contribuir para um crescimento forte, sustentado e equilibrado da economia mundial”, ressaltou, em referência à desejada postura responsável dos norte-americanos.
Com US$ 3,2 trilhões em reservas internacionais _valor que supera o PIB do Brasil_, a China é o maior credor de Washington, com pelo menos US$ 1,16 trilhão em títulos do Tesouro. No total, cerca de 70% das reservas estão aplicadas em ativos denominados em dólar, o que coloca Pequim em uma posição frágil na hipótese de persistente desvalorização da moeda norte-americana _que por tabela reduziria o valor relativo dos trilhões administrados pelo Banco do Povo da China. Zhou deu boas-vindas ao acordo fechado no Congresso e observou que a autoridade monetária chinesa acompanhará “de perto” sua implementação “em diferentes estágios”. O dirigente do banco central afirmou ainda que o país manterá sua política de diversificação de reservas, pela qual busca alternativas aos investimentos em dólar.
A agência oficial de notícias Xinhua adotou um tom mais agressivo que o de Zhou em editorial divulgado ontem: “A farsa demente de confrontação revelou outra bomba relógio no coração da única superpotência do mundo _a destrutiva tendência de politizar a economia e trivializar a política”. O comentário foi divulgado no dia seguinte à sanção pelo presidente Barack Obama do acordo que colocou fim a meses de confrontação entre democratas e republicanos em torno do aumento do teto de endividamento dos Estados Unidos e afastou o risco de um calote. “Agora pode surgir um consenso no mercado global de que há risco nos títulos do Tesouro dos EUA e que é aconselhável não se envolver muito com eles”, ressaltou o editorial.
E continua: se não contiverem sua “dependência do endividamento”, os Estados Unidos podem perder sua já “manchada credibilidade”, o que poderá detonar a “bomba” e comprometer o bem-estar de centenas de milhões de pessoas além da fronteira norte-americana. Mas enquanto continuar a acumular reservas, a China tem poucas opções além de investir na comprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos, especialmente agora que a Europa enfrenta uma crise que pode levar alguns países a deixarem de pagar sua dívida soberana. A mudança desse cenário só será possível com a reestruturação do modelo de crescimento do país, com redução do peso das exportações (e do superávit comercial) e aumento da participação do consumo doméstico na composição do PIB, dizem alguns analistas.
O acordo que elevou o teto de endividamento dos Estados Unidos reduziu a ansiedade chinesa em relação à possibilidade de um calote norte-americano, mas o longo impasse entre republicanos e democratas evidenciou os riscos enfrentados por Pequim e aumentou a pressão para que o Partido Comunista reveja a política de acumulação de reservas internacionais, cujo valor já alcançou estratosféricos US$ 3,2 trilhões. Cerca de 70% dessa montanha de dinheiro estão aplicados em ativos denominados em dólar, incluindo US$ 1,16 trilhão em títulos do Tesouro, o que coloca a China na condição de maior credor de Washington. Isso significa que uma eventual depreciação persistente da moeda norte-americana provocará redução no valor dos recursos administrados pelo Banco do Povo da China (banco central).
O confronto político em Washington acendeu a luz amarela em Pequim, mas a acumulação de reservas criou uma armadilha difícil de ser desarmada. A China não pode se desfazer dos títulos do Tesouro e dos ativos em dólar sem arriscar derrubar seu valor, o que reduziria sua própria poupança. Além disso, o modelo de intervenções no mercado para impedir a apreciação do yuan torna inevitável o aumento das reservas, já que essa operação é feita por meio da compra de dólares pelo banco central. Editorial publicado ontem pelo jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista, afirmou que as reservas internacionais “enormes, mas em depreciação” são um peso para o povo chinês, ao mesmo tempo em que reconheceu que há poucas opções para aplicá-las. “Essa talvez seja a lição que a China aprendeu” com a crise em torno do teto de endividamento norte-americano.
A manchete do jornal China Daily, editado pelo Conselho de Estado, foi “O dilema das reservas internacionais da China”. O texto afirma que o acordo é um “alívio” para os credores de Washington, mas observa que Pequim enfrenta o desafio de diversificar suas reservas, “ameaçadas” pela possibilidade de desvalorização do dólar. Em artigo publicado no Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, o pesquisador Li Xiangyang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, defendeu o abandono do modelo atual. “É necessário mudar a atual concentração em ativos denominados em dólar, mas o que é mais importante é mudar no futuro a propensão para elevação dos ativos em dólar”. Segundo Li, isso exige um “ajuste fundamental” no modelo de crescimento econômico adotado pela China”.
Editorial veiculado no mesmo jornal ressaltou que os problemas da dívida soberana dos Estados Unidos continuam, apesar do acordo entre republicanos e democratas. “Eles foram apenas adiados e há uma tendência de que cresçam. Isso está lançando uma sombra sobre a recuperação da economia dos EUA e escondendo riscos e turbulências ainda maiores para a economia global”, sustenta o texto. O nacionalista Global Times adotou um tom irônico em seu editorial, no qual disse que a solução do impasse poderia render um filme hollywoodiano de efeito especiais “democráticos” com o título “Acordo de Último Momento”. Mas o desenlace não deve arrancar aplausos do restante do mundo, ressalta. “Ao usar nova dívida para pagar a velha, os EUA estão afundando ainda mais em areia movediça. Isso não é um sacrifício altruísta feito para salvar o mundo, já que os países que detêm títulos da dívida estão todos atrelados aos EUA.”
Os governos locais chineses encerraram 2010 com uma dívida de US$ 1,65 trilhão e alguns deles podem não conseguir pagar o que devem, de acordo com relatório do Escritório Nacional de Auditoria divulgado na segunda-feira. Para alguns analistas, a situação é mais grave que a revelada nos dados oficiais, que coloca o débito em um patamar equivalente a 25% do PIB do país _percentual que não inclui o endividamento em âmbito nacional.
Essa foi a primeira auditoria que as autoridades de Pequim realizaram nos débitos dos governos locais, que se transformaram em um problema com a febre de investimentos que tomou conta do país depois do pacote de estímulo de US$ 586 bilhões adotado em novembro de 2008 em resposta à crise internacional.
Para financiar os milhares de projetos que pipocaram ao redor da China, muitas províncias e cidades escaparam das restrições oficiais de endividamento com a criação de “veículos especiais” _entidades que contraíram empréstimos junto aos bancos públicos e os aplicaram na construção de obras que nem sempre tinham viabilidade econômica.
“A administração de algumas das plataformas de financiamento dos governos locais é irregular e sua lucratividade e capacidade de pagar seus débitos é bastante frágil”, declarou o auditor nacional, Liu Jiayi, ao apresentar o relatório ao Congresso Nacional do Povo.
A cifra de US$ 1,65 trilhão é inferior à estimativa dos débitos locais feita pelo Banco do Povo da China _o banco central do país_ no início deste mês, que colocou a cifra em US$ 2,2 trilhões, o equivalente a 30% do estoque de empréstimos em yuans concedidos pelo sistema financeiro.
O eventual calote pelos governos locais terá impacto direto sobre a saúde dos grandes bancos públicos chineses, que foram a principal fonte de recursos para sustentar o boom de investimentos experimentado pelo país nos últimos dois anos. Em 2009, o sistema financeiro chinês concedeu empréstimos no valor de US$ 1,4 trilhão, o dobro do registrado no ano anterior e o equivalente a 30% do PIB naquele período. A cifra diminuiu para US$ 1,2 trilhão em 2010, mas ainda ficou bem acima do patamar de 2008.
Proibidos de emprestar diretamente dos bancos, os governo locais criaram cerca de 10 mil veículos especiais até o fim do ano passado, segundo relatório do banco central. Essas instituições contornaram as restrições e abocanharam parte da montanha de crédito que inundou a economia chinesa e garantiu taxas de crescimento próximas de 10% ao ano.
No livro “Capitalismo Vermelho – O frágil alicerce financeiro da extraordinária ascensão da China” (tradução livre), os economistas Carl Walter e Fraser Howie sustentam que a explosão de empréstimos para estimular o crescimento da economia chinesa em 2009 e 2010 vai inevitavelmente levar ao surgimento de créditos podres, que exigirão uma nova onda de capitalização dos bancos dentro de dois a três anos.
O risco de que os bancos não consigam recuperar parcela significativa do que emprestaram levou a agência de classificação de risco Fitch a rebaixar de “estável” para “negativo” a perspectiva da nota AA- que dá às dívidas de longo prazo em moeda local. Anunciada em abril, a decisão poderá levar ao primeiro rebaixamento do rating chinês em 12 anos. Na avaliação da Fitch, existe “grande possibilidade de significativa deterioração” no balanço dos bancos nos próximos três anos.
Victor Shih, professor da Universidade Northwestern de Chicago, sustenta que a situação das finanças públicas na China é bem mais grave que a apresentada no relatório dos auditores. Se forem somados as dívidas dos governos nacionais e locais, das estatais e de outras agências controladas pelo Estado, o valor se aproxima de 70% do PIB.
O economista-chefe do HSBC para a China, Qu Hongbin, acredita que a situação tende a se agravar em razão do descompasso entre o vencimento das dívidas e a geração de caixa pelas obras construídas nos últimos dois anos. Em sua opinião, se não houver uma reestruturação desses passivos, os bancos enfrentarão o aumento do calote nos próximos anos, com a consequente elevação do volume de créditos irrecuperáveis em seus balanços.
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