Na tentativa de mudar seu padrão de crescimento, a China anunciou ontem que dará prioridade ao desenvolvimento de novas indústrias estratégicas, que o governo de Pequim acredita que estarão na vanguarda do crescimento global futuro. Também foram anunciadas medidas para ampliar a oferta de serviços públicos, diminuir a desigualdade e estimular o consumo doméstico.
O país não quer só surfar na onda das novas indústrias, mas ser um dos líderes de inovação em segmentos que incluem energia limpa, biotecnologia, a nova geração da tecnologia da informação, carros elétricos e conservação ambiental. O objetivo de Pequim é fazer com que a participação desses setores no PIB chegue a 8% em 2015 e 15% em 2020.
As metas foram anunciadas ao fim de quatro dias de reunião do Comitê Central do Partido Comunista, na qual foi discutido o esboço do Plano Quinquenal que dará as linhas do desenvolvimento do país no período de 2011 a 2015, que terá como foco a reestruturação da economia. Os dirigentes chineses acreditam que os próximos cinco anos serão cruciais para a construção dos pilares de um modelo de crescimento sustentável e de criação de uma sociedade “razoavelmente próspera” até a metade do século.
Trinta anos depois do início do processo de reforma e abertura, o Partido Comunista quer mudar o rumo do desenvolvimento do país e estimular indústrias que poluam menos, consumam menos energia e recursos naturais e criem mais e melhores empregos. A inflexão é acompanhada de maior ênfase na construção de uma rede de proteção social, vista como essencial para o aumento do consumo doméstico.
O excesso de poupança na China e de consumo nos Estados Unidos é o principal desequilíbrio da economia global que foi evidenciado pela crise iniciada em 2008. Com a retração do crescimento dos países desenvolvidos, que são seus principais clientes, a China quer reduzir a dependência das exportações e dos investimentos como motores de seu crescimento e ampliar a participação da demanda interna na composição do PIB.
Para isso, é necessário aumentar a renda da população e fornecer serviços públicos essenciais, como saúde, educação e aposentadoria, que podem estimular a redução da enorme poupança do país. Entre as razões para os chineses guardarem dinheiro em vez de utilizá-lo no consumo está a necessidade de poupar para a educação dos filhos, as emergências médicas e a velhice.
O comunicado oficial divulgado no fim da reunião dos 365 integrantes do Comitê Central afirma que a distribuição de renda, o aumento da remuneração e a construção de uma rede de serviços públicos essenciais estarão entre as prioridades do próximo Plano Quinquenal, cuja versão final será aprovada pelo Congresso Nacional do Povo em março de 2011. As informações sobre o encontro não mencionaram metas de crescimento para o período 2011-2015, mas a agência oficial de notícias Xinhua disse que o objetivo do governo é manter expansão estável e relativamente rápida.
“Inclusão”, “sustentabilidade” e “reestruturação industrial” deverão ser algumas das novas palavras de ordem que vão orientar as políticas do governo chinês para os próximos cinco anos, período no qual Pequim deverá buscar mais “qualidade” e menos “quantidade” em seu crescimento econômico.
O Plano Quinquenal para o período 2011- 2015 começou a ser discutido ontem na reunião anual do Comitê Central do Partido Comunista, que termina na segunda-feira. O documento dará as linhas gerais para a atuação do governo nesse período, com estabelecimento de prioridades e definição de metas específicas.
A mudança de tom poderá ser dada pela redução do crescimento projetado para o período, que sempre ficou abaixo do efetivamente alcançado. O plano em vigor prevê expansão anual de 7,5%, mas a partir de 2006 os índices foram de 11,6%, 13%, 9,6% e 9,1% _no primeiro semestre de 2010, ele ficou em 11,1%. A possibilidade de diminuição da meta de crescimento foi mencionada ontem pela agência oficial de notícias Xinhua. A economista-chefe do banco UBS na China, Wang Tao, espera que o documento reduza a estimativa de expansão anual de 7,5% para 7,0%, mas ressalta que o índice funciona mais como um piso do que como índice a ser perseguido pelo governo.
O novo plano repetirá o objetivo de reestruturação da economia chinesa, com o aumento do consumo doméstico e redução da dependência de investimentos e exportações. Apesar de essa questão ser discutida pelo menos desde 2004 e fazer parte do plano para 2006-2010, não houve avanços no padrão de crescimento chinês. Pelo contrário. A contribuição do consumo na formação do PIB diminuiu ano a ano a partir de 2000, enquanto a dos investimentos aumentou.
Para mudar esse modelo, o governo deverá adotar uma política mais agressiva de aumento da renda das famílias, que começou a ser colocada em prática nesse ano com a elevação do salário mínimo e da remuneração de trabalhadores em inúmeras fábricas ao redor do país. O aumento da renda deverá ser acompanhado de medidas para sua melhor distribuição e de programas de construção de casas populares, fortalecimento da precária rede de proteção social e desenvolvimento das regiões centro e oeste, que são as mais pobres do país.
“O crescimento econômico nas últimas três décadas foi obtido ao custo de consumo excessivo de energia e distribuição desigual de renda”, disse o cientista político da Academia Chinesa de Ciências Sociais Liu Shangying, em entrevista sobre o novo plano ao jornal oficial China Daily. “Se não for resolvido, o problema da disparidade de renda levará à desordem social”, ressaltou.
Wang Tao espera que o documento repita a meta de redução de 20% no consumo da energia necessária para produção de cada dólar do PIB, conceito chamado de “intensidade energética”. O princípio foi adotado pela primeira vez no plano de 2006-2010, mas parece pouco provável que o percentual de 20% será alcançado, apesar de a meta estar entre as que são “obrigatórias”. Até o fim de 2009, a China havia conseguido reduzir sua intensidade energética em 15,6%. Mas no primeiro semestre de 2010, o consumo por unidade do PIB aumentou 0,9% em vez de diminuir, o que levou o governo a determinar o fechamento de 2.000 fábricas em agosto, em uma tentativa de cumprir a meta energética.
Wang espera que a promoção de “novas indústrias” esteja no centro da estratégia econômica do novo plano, o que é coerente com o objetivo mais amplo de Pequim de reestruturar a economia e aumentar a “qualidade” do crescimento. Sem citar a fonte da informação, o jornal de Hong Kong South China Morning Post disse que o documento vai destinar 4 trilhões de yuans a investimentos nas regiões centro e oeste e no desenvolvimento de novos setores. O valor equivale hoje a US$ 600 bilhões e é idêntico ao pacote de estímulo adotado por Pequim em 2008 para combater os efeitos da crise econômica mundial.
A maior parte das indústrias que serão beneficiadas já foi definida pelo Conselho de Estado em setembro: conservação de energia e tecnologias ambientais, nova geração de tecnologia da informação, máquinas e equipamentos avançados, novas energias, novos materiais e carros elétricos.
Na década de 60, a Coreia do Sul era uma das nações mais pobres do mundo, destroçada por uma guerra que destruiu 25% da riqueza nacional e matou 5% da população civil. Hoje, o país tem um PIB per capita quase três vezes superior ao brasileiro (calculado pela paridade do poder de compra) e uma economia impulsionada pela alta tecnologia. Quando estive em Seul, o que mais me impresssionou foi a onipresença de marcas coreanas no quotidiano das pessoas. Nas ruas, a maioria dos carros são Hyundai, Daewoo ou Kia. Os celulares são LG, Samsung, Anycall e Cyon. Nas casas e hoteis, os aparelhos de TV também são Samsung ou LG.
A trajetória coreana atrai a atenção de todos que se debruçam sobre modelos de desenvolvimento bem sucedidos e isso ficou claro nos comentários feitos no post anterior, “O Brasil e o desafio chinês”. Quando citaram algum país além dos Estados Unidos, esse foi a Coreia. E o aspecto mais ressaltado foi o investimento em educação realizado pelo país desde os anos 60. Decidi ler mais sobre o assunto e encontrei um estudo revelador da economista Irma Adelman, da Universidade Berkeley, que analisa o desenvolvimento coreano de 1953 a 1993. No período de 1953 _quando termina a guerra da Coreia_ a 1961, houve pesados investimentos em educação, que reduziram o analfabetismo de 70% para 20%. Entre 1961 e 1966, a quantidade de alunos matriculanos no ensino primário e secundário cresceu 30%, enquanto o número de estudantes universitários dobrou.
De acordo com Adelman, em 1966 a Coreia atingiu a educação primária universal e tinha um índice de pessoas em universidades superior ao da Inglaterra. Conquistada a universalidade na educação primária, o país experimentou na etapa seguinte (1967-1971) o aumento de 28% da quantidade de estudantes no secundário e de 20% nas universidades. A prioridade dada ao ensino primário e secundário teve um efeito igualitário na sociedade coreana, na avaliação de Adelman.
Advinha qual o exemplo contrário que ela cita no estudo? Sim, o Brasil. A estratégia coreana “contrastou com a do Brasil, por exemplo, onde o ensino secundário era restrito à elite e suficiente apenas para alimentar as matrículas nas universidades”. A situação tupiniquim mudou desde que ela escreveu o estudo, mas a educação ainda está muito longe do grau de penetração que tem na sociedade sul-coreana.
O caráter mais igualitário do país asiático também tem origem em condições que antecedem o período de crescimento econômico, entre elas a distribuição equitativa de terras e de ativos logo depois da guerra, ressalta Adelman. Esse é outro aspecto no qual a Coreia se distingue do Brasil, onde a concentração de riqueza é enorme. A estratégia de Seul tem mais um ingrediente de peso, que é o forte papel do Estado no desenho da economia nacional. No período de 1967 a 1971, o crescimento do país passou a ser impulsionado pela exportação, com indústrias intensivas em mão-de-obra e uma desvalorização de 100% da moeda, que deu competitividade aos produtos coreanos no exterior. Em 2009, a Coreia do Sul foi o oitavo maior exportador do mundo, à frente da Inglaterra.
Na etapa seguinte, de 1973 a 981, o Estado definiu seis setores estratégicos, que passaram a receber incentivos para seu desenvolvimento: produção de aço, indústria naval, eletrônicos, máquinas, petroquímico e metais não-ferrosos. A realidade atual da economia sul-coreana reflete em grande parte as escolhas feitas naquela época. O país é o maior fabricante de navios do mundo, o sexto produtor de aço e possui um setor eletrônico que está entre os mais inovadores do planeta.
Antes que me acusem de omissão, é bom lembrar que o “milagre” sul-coreano se deu sob um regime militar autoriátio, instalado por meio de um golpe de Estado em 1961. As eleições diretas só voltaram em 1987 e o primeiro presidente civil foi eleito apenas em 1993. Grande parte das transformações econômicas vividas pelo país nas décadas de 60 e 70 são fruto do caráter nacionalista e desenvolvimentista do general Park Chung-hee (1917-1979), responsável pelo golpe de 1961 e dirigente do país até seu assassinato, em 1979.
Park instaurou a Lei Marcial em 1972 e governou nos anos seguintes de maneira cada vez mais autoritária, com a prisão de centenas de opositores e a repressão a todo o tipo de oposição.
O Brasil precisa desenvolver uma estratégia de relacionamento com a China, se não quiser se tornar uma neocolonia cujo papel é fornecer as matérias-primas que o país asiático demanda com voracidade crescente. O alerta foi feito em entrevista que realizei com o especialista em China David Shambaugh, da George Washington University, publicada hoje no Estadão.
A China representa de longe o maior desafio para o futuro econômico do Brasil e requer uma estratégia não apenas para a relação bilateral, mas para nossa inserção global. No sábado, o Estadão publicou reportagem do correspondente em Genebra, Jamil Chade, sobre as recomendações de um grupo de economistas liderados por Joseph Stiglitz para os países em desenvolvimento que têm aspiração de um dia se tornarem desenvolvidos.
O conselho é óbvio: a agricultura e a exploração de recursos naturais não vão provocar essa mudança. É só pensar no tipo de emprego que esses setores oferecem e no perfil de trabalhadores que demandam. A recomendação do grupo é a de que os países em desenvolvimento invistam em tecnologia e busquem espaços nos quais possam competir com a China.
Isso não significa que o Brasil deixará de exportar produtos agrícolas, minério de ferro e petróleo, áreas nas quais é competitivo. Mas o risco é que o sucesso nessas áreas acabe enfraquecendo a indústria nacional e comprometendo esforços no desenvolvimento de outros setores. Afinal, a China foi o principal destino das exportações brasileiras no ano passado. Reclamar por quê? O fato é que 73% dos US$ 20,2 bilhões que o Brasil vendeu aos chineses no ano passado eram representados por três produtos: minério de ferro, soja e petróleo.
O grupo liderado por Stiglitz , prêmio Nobel de Economia, concluiu que o Brasil precisa de mais “Embraers”, empresas nacionais de alta tecnologia capazes de competir globalmente. A questão é como fazer isso. Há uma antiga discussão sobre o tipo de política industrial que o Brasil deveria adotar e que opõe incentivos horizontais, para todos os setores, ou específicos para segmentos escolhidos como prioritários. A crítica à eleição de determinados segmentos é a de que o Estado estará escolhendo os “vencedores” e, no fim, beneficiando determinadas empresas em detrimento de outras.
Apesar das objeções, me parece cada vez mais inescapável a aposta em certos segmentos que o país considera estratégicos. Também é relevante o empenho no desenvolvimento de companhias genuinamente nacionais, que tenham capacidade de competir globalmente.
A China tem uma estratégica clara de inserção global e tem sido extremamente agressiva na defesa das empresas nacionais que o Estado considera “campeãs” _que são as apostas para a projeção econômica global do país. Além disso, Pequim mudou as regras de atração de investimento estrangeiro direto e deixou de conceder incentivos para os destinados à manufatura barata, como roupas, brinquedos e calçados. Desde 2006, o alvo dos incentivos são inventimentos em alta tecnologia. Com isso, a China quer subir na escala de valor agregado.
Na América Latina, um dos poucos países que não exporta commodities para a China é a Costa Rica, que em 1996 conseguiu atrair um investimento de US$ 300 milhões da fabricante de chips Intel _que quase instalou essa fábrica no Brasil. Hoje a Costa Rica vende chips para a China e tem superávit no comércio com o país asiático.
Talvez o Brasil tenha algo a aprender com a própria estratégia chinesa de planejamento de longo prazo, escolhas estratégicas e defesa de seus interesses nacionais.
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