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Cláudia Trevisan

17.janeiro.2012 08:12:20

China: quente ou frio?

É cada vez mais evidente que os anos de crescimento chinês na casa dos dois dígitos são coisa do passado, mas as previsões sobre o futuro da segunda maior economia do mundo nunca foram tão disparatadas. O time dos otimistas é majoritário e avalia que as autoridades de Pequim estão conduzindo o país para um pouso suave, no qual os índices de expansão do PIB cairão para algo em torno de 8% no curto prazo, antes de desacelerar ainda mais no médio e longo prazos. Mas há um grupo cada vez maior de pesos-pesados que veem um cenário sombrio, em grande parte como consequência dos desequilíbrios criados pelos esforços de Pequim para manter sua economia a todo o vapor quando o mundo fraquejava nos últimos três anos.

Os que apostam no final feliz afirmam que os números do PIB de 2011 divulgados hoje mostram que o Partido Comunista conseguiu controlar os preços sem sacrificar o ritmo de expansão. A economia cresceu 8,9% no quatro trimestre, continuando a descida gradual iniciada no primeiro trimestre, quando o indicador foi de 9,7%. A perda de fôlego era desejada pelo governo, que passou o ano de 2011 lutando contra a dupla ameaça de explosão inflacionária e de formação de uma bolha no setor imobiliário.

“Nós não devemos mais ser obcecados com a velocidade do crescimento”, disse ao jornal oficial China Daily Lu Zhongyuan, vice-diretor do Centro de Pesquisa em Desenvolvimento do Conselho de Estado, o gabinete comandado por Wen Jiabao. Em sua avaliação, o índice de expansão do PIB ficará em torno de 8,5% em 2012.

Para os pessimistas, esse cenário róseo ignora a ameaça de uma série de bombas-relógio que as autoridades terão dificuldades para desativar. A mais delicada delas é a bolha no setor imobiliário, que coloca o governo entre a necessidade de reduzir o preço das residências e escritórios e o risco de paralisar os investimentos no setor que responde por cerca de 20% da economia (se for incluída a produção de aço e cimento destinada à construção).

Os juros sobre depósitos bancários na China estão negativos e a escassa oferta de investimentos rentáveis levou muitas famílias a destinarem sua poupança à compra de apartamentos e casas, na expectativa de que os preços subiriam no futuro. Com o aumento das compras, os preços subiram, o que estimulou mais compras. O problema é que esse ciclo levou a um excesso de investimentos no setor, argumentam os pessimistas, com milhares de imóveis vazios em todo o país. Se os preços começarem a cair rapidamente, as famílias que colocaram sua poupança no setor podem entrar em pânico ao ver seus ativos se desvalorizarem. Se muitos decidirem vender ao mesmo tempo, pode haver um crash no setor, com impacto devastador sobre diversos setores da economia e os exportadores de commodities que alimentam o boom de construção da China, entre os quais o Brasil e seu minério de ferro.

Para agravar a situação, o governo de Pequim não tem agora a mesma munição de 2008, quando lançou um megapacote de estímulo e deu sinal verde para os bancos emprestarem bilhões e bilhões de dólares que se transformaram em investimentos _em metrôs, rodovias, ferrovias, fábricas, apartamentos, pontes e uma infinidades de outros projetos. Muitos deles não eram necessários e não são rentáveis, o que poderá levar ao aumento da quantidade de créditos podres nos bancos, que já consumiram uma bolada para serem saneados na década passada.

O problema é que o mundo depende muito mais do crescimento da China hoje do que em 2008 e se essa turbina também deixar de funcionar…Houston, we have a problem.

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Os anos de crescimento chinês na casa dos 10% chegaram ao fim e o país entrará agora em uma fase de mais baixa expansão do PIB e taxas de inflação mais elevadas, na qual aumentarão os desafios para manter a economia nos trilhos, com problemas que vão do envelhecimento da população à necessidade de reformas sobre as quais não há consenso. Em linhas gerais, essa foi a conclusão de painel que reuniu analistas chineses e estrangeiros em Pequim na sexta-feira, durante conferência promovida pela revista britânica The Economist sobre as perspectivas para a China.

“Nós estamos no começo da transição do milagre econômico para um desenvolvimento normal”, afirmou Huang Yiping, economista-chefe para a Ásia do Barclays Capital, para quem o modelo baseado em alto nível de investimentos que prevaleceu nas últimas décadas não é mais sustentável. Patrick Chovanec, professor da Universidade de Tsinghua, também vê uma transformação “fundamental”, mas acredita que ela será mais turbulenta do que a prevista por Huang. “O inverno está chegando”, declarou o norte-americano, que não descarta a possibilidade de contração do PIB por curto período na próxima década, a exemplo do que ocorreu com o Japão nos anos de alta expansão da década de 60.

O crescimento vai desacelerar para o terreno de 7% a 8% na opinião de Arthur Kroeber, diretor da consultoria Dragonomics, que desenha um cenário pessimista para a próxima década em razão de mudanças na estrutura demográfica do país. “Um dos fatores que sustentaram o crescimento chinês foi o grande número de pessoas que trabalhavam em relação às que estavam aposentadas”, observou. Segundo ele, essa relação é de 5 para 1 atualmente. Em 20 anos, será de 2 para 1. “É uma enorme mudança demográfica que ocorrerá de maneira muito rápida.” A oferta de trabalhadores sofrerá um declínio severo, com redução em um terço do número de pessoas na idade de 15 a 24 anos, ressaltou.

Para manter o crescimento elevado, a China terá que fazer reformas que aumentem de maneira “dramática” a produtividade, mas Kroeber não vê sinais de que as autoridades de Pequim estejam dispostas a implementá-las. A perda do ímpeto reformista que marcou os últimos 30 anos do desenvolvimento chinês é um problema apontado com frequência por analistas céticos em relação ao futuro do país. Mesmo os otimistas ligados ao governo manifestam preocupação quando o assunto é o rumo que a China adotará no futuro. “Não há consenso sobre o tipo de economia de mercado moderna que nós aspiramos ser”, disse no mesmo debate Li Daokui, conselheiro do Comitê de Política Monetária do Banco do Povo da China e diretor do Centro para a China na Economia Mundial da Universidade Tsinghua.

O tema também foi discutido em painel sobre a transição de poder para a nova geração de líderes comunistas, prevista para o próximo ano. Jin Canrong, vice-reitor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade do Povo, observou que há intensa discussão sobre a necessidade de reformas, mas ausência de acordo sobre o caminho a seguir. “Há 30 anos, havia forte consenso no sentido de que deveríamos ir para o outro lado do rio, para a economia de mercado”, lembrou Jin, em referência à transformação iniciada por Deng Xiaoping no fim dos anos 70. “Sem consenso, não há como irmos em uma direção”, acrescentou o professor, para quem as diferentes facções do Partido Comunista acabarão chegando a uma forma de compromisso.

Entre as reformas econômicas, uma das mais mencionadas é a do setor financeiro, dominado por gigantescos bancos estatais que praticam juros artificialmente baixos ditados pelo governo e canalizam crédito para outras empresas estatais igualmente gigantescas. O setor é um dos principais componentes do que Hu Yiping, do Barclays, chamou de modelo de crescimento subsidiado, que prevaleceu nos últimos 30 anos e beneficiou investidores, produtores e exportadores, em detrimento das famílias e dos consumidores.

Para mudar o sistema financeiro, o governo chinês precisa liberalizar os juros, o que acabaria com o subsídio e permitiria que o capital fosse alocado de maneira mais eficiente. Na opinião de Hu Yiping, esse movimento já começou nas operações de crédito informais que ocorrem fora do sistema bancário, nas quais são cobradas taxas de mercado, e logo se espalhará para o restante do sistema. Mais cético, Chovanec acredita que a reforma não virá rapidamente em razão do volume ainda desconhecido de créditos irrecuperáveis que os bancos acumularam com a explosão de empréstimos fáceis dos últimos três anos. “Os bancos terão de se recuperar antes de haver uma liberalização.”

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Tradicionalmente pessimista em relação à China, o norte-americano Michael Pettis acredita que o país vai desacelerar de maneira “dramática” depois de 2013, para inimagináveis 3%. Mas mesmo que isso não ocorra, ele afirma que haverá queda na demanda por commodities não-alimentícias, em razão do inevitável processo de correção dos profundos desequilíbrios da economia chinesa, que se manifestam no excessivo investimento e anêmico consumo. Para o Brasil, a mudança é crucial, já que pode afetar as vendas de minério de ferro, o principal produto de exportação nacional, com embarques de US$ 18,38 bilhões nos primeiros seis meses de 2011 _quase metade dos quais destinados à China. A cifra correspondeu a 15,6% das vendas totais do país, bem à frente do segundo colocado, o petróleo, com 8,50% no mesmo período.

Segundo Pettis, o boom de investimentos que alimenta a expansão chinesa aprofunda os desequilíbrios e é insustentável em razão do alto endividamento que gera. “Todos os países com crescimento milagroso amparado em investimentos tiveram um problema de dívida, sem exceção”, ressalta o economista, que apresentará sua visão do relacionamento Brasil-China no congresso internacional que a BM&FBovespa realiza nesta semana em Campos do Jordão. Caso o consumo realmente cresça e leve ao aumento da demanda por comida, isso poderá amenizar o impacto sobre o Brasil, que poderia expandir suas exportações de commodities alimentícias, diz Pettis. A seguir, trechos da entrevista, concedida em um café no bairro universitário de Pequim:

Qual seu cenário para a China?
Eu acredito que a China vai desacelerar de maneira dramática, para 3%. Mesmo que o crescimento fique em 9%, no que eu não acredito, o ritmo do investimento vai ter de diminuir de maneira significativa e ser substituído pela expansão no consumo, no processo de rebalanceamento da economia.
Se houver a substituição do investimento pelo consumo, isso terá grande impacto sobre o Brasil. Quando os chineses consumirem, eles vão comprar roupas, ir a restaurantes, consumir serviços de saúde e construir menos metrôs e prédios. Eu acredito que a demanda total vai cair muito, mas mesmo que ela permaneça a mesma, ela vai mudar de bens de investimentos para bens de consumo. Portanto, a demanda por commodities não-alimentícias, como minério de ferro e cobre, vai cair de qualquer maneira.

Qual o horizonte de tempo desse cenário?
A maioria dos economistas acredita que não veremos mudança significativa até que a nova geração de líderes assuma o poder, em 2013. Mas a transformação ocorrerá quando eles alcançarem consenso sobre a necessidade de realizá-la, o que pode demorar mais tempo. Quanto mais eles demorarem, mais difícil será o ajuste, porque o nível de endividamento será mais elevado. Nós todos esperamos que ocorra rapidamente, porque será menos doloroso, mas quando ele ocorrer o crescimento vai desacelerar de maneira significativa.

O agravamento da crise nos EUA e na Europa aumentou a pressão sobre a China para reequilibrar sua economia?
Sim. Nos anos 70, os Estados Unidos e a Europa tiveram uma crise e o Brasil, não. Graças à reciclagem de petrodólares houve um enorme aumento dos investimentos e um boom no preço de ativos, o que atrasou o ajuste no Brasil. Mas isso se tornou insustentável quando os níveis de endividamento ficaram muito altos. Nós vamos ver a mesma coisa [na China]. Essa conversa sobre descolamento dos BRICS não faz sentido. É a mesma conversa que existia nos anos 70, de que os LDC [países menos desenvolvidos, na sigla em inglês] estavam se descolando. Eles não estavam. O impacto da crise nos países ricos foi retardado em razão do enorme boom em investimentos.

Mas por que a China vai desacelerar?
Porque o que está promovendo o crescimento também está agravando os desequilíbrios. O consumo está aumento muito lentamente, porque o rápido crescimento é gerado por transferências das famílias, por meio de baixos salários, baixa taxa de juros e moeda depreciada. Isso reduz o consumo e subsidia o crescimento, gerando dois grandes desequilíbrios. O primeiro é o fato de o consumo ser muito baixo em relação ao PIB e estar no patamar mais baixo que já vimos na história, de 34%. O crescimento chinês está sendo sustentado pelo superávit comercial _e com o mundo em uma situação difícil ele não pode continuar a crescer_ e investimento, mas o investimento tem sido mal alocado. Isso significa que a dívida está crescendo, o que gera um problema de sustentabilidade.
Por quanto tempo a China pode sustentar o aumento do débito? Eu não sei. Talvez 4 a 5 anos, no máximo, mas no fim eles estão caminhando para o mesmo problema de dívida que o Brasil enfrentou em 1981 e o Japão, no início dos anos 90. Os níveis de endividamento eram muito altos e não foi possível manter o modelo de crescimento baseado no investimento.

Mas eles têm dinheiro, não? Na década passada a China saneou seus bancos e retirou de seus balanços os créditos irrecuperáveis. Eles não podem fazer a mesma coisa agora?
Como eles fizeram isso? Com enormes transferências das famílias. No ano 2000, o consumo representava 46% do PIB, o que é bastante baixo, mas não sem precedentes. No ano passado, o percentual estava em 34% do PIB. Há uma relação entre as duas coisas. Quando eles retiraram dinheiro das famílias para sanear os bancos, eles reduziram o consumo. Mas agora o consumo das famílias já está tão baixo que não pode ser reduzido mais ainda.
Como eles vão limpar os bancos? Eles podem continuar a tirar dinheiro das famílias, mas se fizerem isso a China vai ficar ainda mais desequilibrada e mais dependente do superávit comercial _o que o mundo não pode absorver_ e de investimentos. Mas se o investimento está sendo mal alocado, quanto mais rapidamente ele cresce, mais rapidamente a dívida cresce. Eles podem continuar fazendo isso até que tenham um problema de endividamento, e isso vai ocorrer. Todos os países com crescimento milagroso amparado em investimentos tiveram um problema de dívida, sem exceção.

O que isso significa para países como o Brasil, que dependem da China em razão da exportação de commodities?
Mesmo que o crescimento chinês continue elevado, a taxa de investimento vai cair de maneira dramática e isso vai provocar queda no preço de commodities não-alimentícias. Se o consumo se expandir, o consumo de alimentos vai aumentar, na medida em que as pessoas terão mais dinheiro para comprar comida. Não há dúvida de que a demanda por commodities não-alimentícias vai cair de maneira acentuada nos próximos 4 a 5 anos. A grande questão é o que acontecerá com as commodities alimentícias. Se a China conseguir manter elevadas taxas de consumo, os alimentos não serão afetados de maneira dramática. Mas se a taxa de consumo também desacelerar, isso também afetará o preço dos alimentos. O Brasil exporta os dois tipos de commodities. As não-alimentícias serão afetadas dramaticamente e as alimentícias podem ou não ser afetadas.

Qual é a disposição da China de fazer o rebalanceamento, considerando o fato de que os desequilíbrios se agravaram nos últimos dois anos com a resposta do país à crise de 2008?
É muito difícil fazer o ajuste, porque ele significa menos crescimento e historicamente a maioria dos países não faz o ajuste enquanto podem adiá-lo. E quando você não pode mais adiar? Quando tem uma crise da dívida. Isso é o que ocorreu com a União Soviética, o Brasil, o Japão, os países do milagre asiáticos, todos os que tiveram rápido crescimento sustentado por investimentos. Eles mantiveram isso por muito tempo, até que uma crise da dívida os forçou a parar. O que esperamos é que a China pare antes da crise da dívida.

Muita gente acredita que as regras econômicas não se aplicam à China, que o país é diferente e pode fazer coisas que outros não conseguiriam. Por que a China precisa mudar agora se conseguiu manter seu modelo por tanto tempo?
Essa é uma velha crença. Nos anos 80 havia a crença de que o Japão não seguia ‘regras econômicas ocidentais’, seja lá o que isso signifique. Todo mundo ‘sabia’ que até o fim do século o Japão seria a maior economia do mundo. O debate não era se isso ocorreria, mas quando ocorreria. Nos anos 60 e 70, todo mundo ‘sabia’ que o Brasil nunca iria parar. Havia crescimento, crescimento, crescimento. Aconteceu a mesma coisa com os países do milagre asiático ou os Estados Unidos nos anos 20. Ninguém na década de 20 acreditava que os Estados Unidos teriam uma pequena recessão, muito menos a Grande Depressão.

Qual sua visão da economia mundial?
Bastante negativa. Não há fonte de demanda em nenhum lugar, a não ser por excesso de investimentos. E excesso de investimento não pode ser uma fonte saudável ou sustentável de crescimento. O excesso de investimento exacerba o ajuste inevitável. Nós temos 4 ou 5 anos muito difíceis pela frente.

As reservas internacionais de US$ 3,2 trilhões não podem ajudar a China a enfrentar uma eventual crise de dívida?
As pessoas que não entendem nada de reservas internacionais as veem como uma grande fortaleza. Quem entende, as veem como um dos problemas fundamentais da economia chinesa. O Banco do Povo da China não é rico e está provavelmente quebrado. Ele não detém reservas, ele compra reservas e as paga emprestando dinheiro. Ele tem US$ 3,2 trilhões em reservas, mas também tem US$ 3,2 trilhões em dívida. Quanto mais rapidamente as reservas crescem, mais difícil é administração da política monetária e mais excesso de investimento ocorre.

E há alguma maneira de a China parar de acumular reservas?
Sim, abrindo mão do superávit em conta corrente, o que eles não querem fazer. O superávit em conta corrente é alto porque a China produz mais do que consome. E a China consome pouco porque a renda das famílias é baixa, em parte por causa da moeda depreciada, em parte por causa do baixo ritmo de crescimento dos salários, mas principalmente pela baixa taxa de juros. Isso transfere recursos dos poupadores, que são as famílias, para emprestadores, que são as empresas estatais, os empreendedores imobiliários, os construtores de infraestrutura etc. Há muitas coisas que eles podem fazer, mas tudo isso diminui o crescimento. A razão pela qual a China está crescendo é a transferência das famílias que subsidiam o rápido crescimento.

A pressão pela valorização do yuan está crescendo e um número sem precedentes de acadêmicos chineses está pedindo mudanças no câmbio. Isso pode ocorrer?
O debate se arrasta há anos. As pessoas que entendem as razões do desequilíbrio na China sustentam há anos que os juros precisam subir e a moeda precisa se apreciar. Mas há setores muito poderosos da economia que resistem, como o setor exportador e os devedores. Quando existem distorções na economia por longo prazo, os setores que se beneficiam dessas distorções se tornam cada vez mais poderosos e são os que mais resistem à sua eliminação das distorções. É uma problema em todos os países. Os acadêmicos sabem há muito tempo que é necessário apreciar o valor da moeda, mas há oposição política muito forte dos que se beneficiam da moeda desvalorizada.

O ajuste chinês é necessariamente ruim para o Brasil?
Depende do horizonte de tempo. No curto prazo será muito ruim. Mas o que aconteceu nos últimos 10 a 20 anos no Brasil é o que o Brasil gastou grande parte dos anos 70 e 80 tentando reverter, que é a crescente dependência de commodities. Acreditava-se que o excesso de dependência das commodities era uma das fontes de fragilidade dos países em desenvolvimento e houve um esforço para diversificar além das commodities e criar uma fonte de crescimento mais equilibrada.
Se eles estavam certos _e eu acredito que estavam_, a queda no preço das commodities vai forçar o Brasil a reduzir o peso das commodities, o que será muito doloroso, mas necessário. A menos que você acredite que desta vez as pessoas que dizem que o preço das commodities nunca vai cair estão certas. E elas disseram isso muitas vezes nos últimos 200 anos e sempre estiveram erradas.

Muitos também dizem que a natureza das commodities mudou, que elas agregam tecnologia e estão mais sofisticadas.
Sempre disseram isso nos booms de commodities. Você não pode ter um boom de commodity sem pessoas dizendo ‘desta vez é sustentável’. O fato de que estão dizendo agora não muda nada. Nos últimos 200 anos, o preço médio de commodities sempre foi o mesmo. Nos anos 70, o preço real das commodities provavelmente era ligeiramente maior do que o atual.

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A China vai desacelerar no segundo semestre, em razão do menor ritmo de crescimento do crédito e do investimento, previu ontem o instituto de pesquisa norte-americano Conference Board, que espera um “pouso suave” do país. A entidade tem uma projeção menos rósea para o médio prazo _dois a três anos_, quando aposta em uma redução “significativa” na velocidade de expansão da segunda maior economia do mundo. Na avaliação da instituição, a freada será provocada por medidas “drásticas” que Pequim terá de adotar para mudar seu modelo de crescimento baseado em investimentos e exportações.

Paradoxalmente, o Conference Board divulgou ontem seu indicador econômico para a China, que mostra aumento da atividade econômica em junho, na comparação com os meses anteriores. Mas dados relativos a julho indicam que o aperto monetário promovido pelo banco central desde o início de 2010 teve efeito sobre a expansão do país. No mês passado, o volume de novos empréstimos ficou em 492,6 bilhões de yuans (R$ 122,9 bilhões), menos que os 633,9 bilhões de yuans (R$ 158,2 bilhões) de junho e abaixo dos cerca de 550 bilhões de yuans (R$ 137,2 bilhões) esperados por analistas.

O crédito é a principal fonte de recursos dos investimentos e ambos os indicadores foram responsáveis pelo alto índice de crescimento da economia chinesa nos últimos dois anos, lembra Jing Sima, economista do Conference Board. Dados divulgados na semana passada pelo Escritório Nacional de Estatísticas revelaram que o investimento em ativos fixos nos primeiros sete meses do ano aumentou 25,4% _uma ligeira desaceleração de 0,2 ponto percentual em relação ao patamar registrado nos primeiros seis meses.

A expansão na produção industrial passou de 15,1% em junho para 14% no mês seguinte, enquanto o Índice de Compras de Gerentes calculado pelo HSBC ficou em 49,3, na primeira vez em um ano em que o indicador caiu abaixo da marca de 50 que separa expansão de contração da atividade. Mas economistas do HSBC ressaltaram que, na China, esse nível é compatível com uma produção industrial na casa de 11% a 13%, o que sustentaria um crescimento do PIB de 9% no ano. A venda de carros caiu 11,1% entre junho e julho, apesar de ter aumentado 2,2% em relação a igual período do ano passado. A desaceleração levou a Associação de Fabricantes de Veículos da China a revisar para baixo a previsão de expansão do asetor em 2011.

Segundo o economista do Conference Board, a melhoria do indicador de atividade de junho calculado pela entidade foi puxada pelo aumento da expectativa positiva dos consumidores. Na avaliação da instituição, o movimento se deveu principalmente à ampla divulgação na mídia oficial da afirmação do governo de que a inflação havia atingido um pico e começaria a cair. Mas o Índice de Preços ao Consumidor continuou a se acelerar e atingiu em julho 6,5%, o maior patamar em dois anos.

A pressão inflacionária reduz a margem de manobra do Banco do Povo da China de afrouxar a política monetária para estimular a economia. Desde outubro, a instituição elevou em nove vezes o percentual de depósitos que os bancos devem manter imobilizados, sem emprestar a seus clientes _o índice está no patamar recorde de 21,5%. A medida reduziu a quantidade de dinheiro disponível para o crédito e foi acompanhada da elevação da taxa de juros. A maioria dos analistas acredita que a autoridade monetária abandonará a política de aperto em razão do agravamento da crise nos países ricos. Mas não há consenso em relação à possibilidade de afrouxamento, com alguns apostando na redução do depósito compulsório dos bancos, outros prevendo um cenário de estabilidade, em resposta às pressões inflacionárias, e uma minoria acreditando em uma alta de 0,25 ponto percentual dos juros.

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A China vai reduzir sua meta de crescimento anual para 7% no Plano Quinquenal 2011-2015 que será aprovado em meados de março, afirmou ontem o primeiro-ministro Wen Jiabao. O objetivo de Pequim é buscar um modelo de desenvolvimento mais sustentável, menos poluente e mais inclusivo socialmente.

A meta funciona mais como um piso do que como um alvo a ser perseguido pelas autoridades chinesas. O Plano Quinquenal que vigorou no período 2006-2010 previa crescimento de 7,5%, bem inferior à média anual de cerca de 10% registrada no período.

Mas a redução sinaliza a intenção do Partido Comunista de obter mais qualidade e menos quantidade no padrão de desenvolvimento do país. “Nós nunca vamos buscar um alto índice de crescimento econômico com o sacrifício do meio ambiente, pois isso resultaria em crescimento insustentável, com excesso de capacidade industrial e consumo intensivo de recursos naturais”, declarou Wen em chat com internautas chineses na manhã de ontem.

Apesar das declarações do primeiro-ministro, o sacrifício do meio ambiente é um dos preços que a China ainda paga pelo alto ritmo de expansão registrado nos últimos 30 anos, com poluição de rios, chuva ácida e contaminação da terra usada por camponeses.

A conversa de Wen com os internautas coincidiu com mais uma tentativa de organização de protesto contra o governo nos moldes da Revolução do Jasmim que varre o mundo árabe, e que pelo segundo domingo consecutivo foi frustrada pela fraca adesão e a forte mobilização das forças de segurança.

O primeiro-ministro prometeu combater a inflação e a alta no preço dos imóveis, dois dos principais itens que alimentam a crescente insatisfação dos chineses. O Índice de Preços ao Consumidor alcançou 4,9% em janeiro, impulsionado principalmente pelos alimentos, que ficaram 10,3% mais caros.

“O aumento de preços afeta não apenas a vida das pessoas, mas também a estabilidade social”, reconheceu Wen. Os imóveis sobem há meses de maneira persistente e muitos analistas acreditam que o setor está envolto em uma bolha especulativa.

Em chat online realizado há exatamente um ano, o primeiro-ministro já havia prometido conter a especulação que infla o preço dos imóveis, mas eles continuaram a subir. A alta é ininterrupta desde junho de 2009 e atingiu o recorde de 12,8% em abril de 2010.

A especulação no setor imobiliário transforma a compra de uma casa em sonho cada vez mais distante para os integrantes da classe média que precisam de um imóvel para viver e não para investir sua poupança.

Combate à corrupção, melhoria da rede de seguridade social e ampliação dos serviços médicos foram outros tópicos tratados por Wen na conversa com internautas _a terceira que ele realiza desde 2009, sempre na véspera do encontro anual do Congresso Nacional do Povo, que começa no dia 5 de março e no qual o Plano Quinquenal será aprovado.

“Eu tenho visto que em alguns lugares a construção urbana é muito rápida, mas quando você caminha, vê ruas e casas rurais miseráveis e alguns camponeses ainda são pressionados a pagar a contribuição escolar de 100 yuans [R$ 25,30] para o aquecimento das escolas”, ressaltou o primeiro-ministro _a renda per capita líquida dos moradores da zona rural foi de 5,9 mil yuans (R$1.490,00) em 2010.

Dentro do espírito do novo Plano Quinquenal, Wen defendeu mudança no critério de avaliação dos dirigentes locais do Partido Comunista, focado atualmente no índice de crescimento econômico. “O critério supremo para medir sua performance deve ser se as pessoas estão felizes e satisfeitas, mais do que arranha-céus.”

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“Inclusão”, “sustentabilidade” e “reestruturação industrial” deverão ser algumas das novas palavras de ordem que vão orientar as políticas do governo chinês para os próximos cinco anos, período no qual Pequim deverá buscar mais “qualidade” e menos “quantidade” em seu crescimento econômico.

O Plano Quinquenal para o período 2011- 2015 começou a ser discutido ontem na reunião anual do Comitê Central do Partido Comunista, que termina na segunda-feira. O documento dará as linhas gerais para a atuação do governo nesse período, com estabelecimento de prioridades e definição de metas específicas.

A mudança de tom poderá ser dada pela redução do crescimento projetado para o período, que sempre ficou abaixo do efetivamente alcançado. O plano em vigor prevê expansão anual de 7,5%, mas a partir de 2006 os índices foram de 11,6%, 13%, 9,6% e 9,1% _no primeiro semestre de 2010, ele ficou em 11,1%. A possibilidade de diminuição da meta de crescimento foi mencionada ontem pela agência oficial de notícias Xinhua. A economista-chefe do banco UBS na China, Wang Tao, espera que o documento reduza a estimativa de expansão anual de 7,5% para 7,0%, mas ressalta que o índice funciona mais como um piso do que como índice a ser perseguido pelo governo.

O novo plano repetirá o objetivo de reestruturação da economia chinesa, com o aumento do consumo doméstico e redução da dependência de investimentos e exportações. Apesar de essa questão ser discutida pelo menos desde 2004 e fazer parte do plano para 2006-2010, não houve avanços no padrão de crescimento chinês. Pelo contrário. A contribuição do consumo na formação do PIB diminuiu ano a ano a partir de 2000, enquanto a dos investimentos aumentou.

Para mudar esse modelo, o governo deverá adotar uma política mais agressiva de aumento da renda das famílias, que começou a ser colocada em prática nesse ano com a elevação do salário mínimo e da remuneração de trabalhadores em inúmeras fábricas ao redor do país. O aumento da renda deverá ser acompanhado de medidas para sua melhor distribuição e de programas de construção de casas populares, fortalecimento da precária rede de proteção social e desenvolvimento das regiões centro e oeste, que são as mais pobres do país.

“O crescimento econômico nas últimas três décadas foi obtido ao custo de consumo excessivo de energia e distribuição desigual de renda”, disse o cientista político da Academia Chinesa de Ciências Sociais Liu Shangying, em entrevista sobre o novo plano ao jornal oficial China Daily. “Se não for resolvido, o problema da disparidade de renda levará à desordem social”, ressaltou.

Wang Tao espera que o documento repita a meta de redução de 20% no consumo da energia necessária para produção de cada dólar do PIB, conceito chamado de “intensidade energética”. O princípio foi adotado pela primeira vez no plano de 2006-2010, mas parece pouco provável que o percentual de 20% será alcançado, apesar de a meta estar entre as que são “obrigatórias”. Até o fim de 2009, a China havia conseguido reduzir sua intensidade energética em 15,6%. Mas no primeiro semestre de 2010, o consumo por unidade do PIB aumentou 0,9% em vez de diminuir, o que levou o governo a determinar o fechamento de 2.000 fábricas em agosto, em uma tentativa de cumprir a meta energética.

Wang espera que a promoção de “novas indústrias” esteja no centro da estratégia econômica do novo plano, o que é coerente com o objetivo mais amplo de Pequim de reestruturar a economia e aumentar a “qualidade” do crescimento. Sem citar a fonte da informação, o jornal de Hong Kong South China Morning Post disse que o documento vai destinar 4 trilhões de yuans a investimentos nas regiões centro e oeste e no desenvolvimento de novos setores. O valor equivale hoje a US$ 600 bilhões e é idêntico ao pacote de estímulo adotado por Pequim em 2008 para combater os efeitos da crise econômica mundial.

A maior parte das indústrias que serão beneficiadas já foi definida pelo Conselho de Estado em setembro: conservação de energia e tecnologias ambientais, nova geração de tecnologia da informação, máquinas e equipamentos avançados, novas energias, novos materiais e carros elétricos.

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O Banco Mundial elevou de 9,0% para 9,5% sua projeção de crescimento da China neste ano, ao mesmo tempo em que e defendeu a valorização do yuan em relação ao dólar e a elevação dos juros para conter expectativas inflacionárias, evitar a formação de bolhas de ativos e rebalancear a economia. Em sua avaliação trimestral sobre a China, a instituição ressaltou que a situação local é distinta à da maioria dos demais países e demanda uma política monetária mais apertada que a do ano passado, quando o volume de novos créditos dobrou em relação ao período anterior, para US$ 1,4 trilhão, o equivalente a 30% do PIB.

“A crise financeira mundial nos ensinou que a política monetária tem um papel central para evitar a criação de bolhas de ativos. A China tem condições de ter uma taxa de juros mais alta e a maior flexibilidade na taxa de câmbio ajudaria a reduzir o temor de aumento do fluxo de capitais para o país”, afirmou Louis Kuijs, economista-sênior do Banco Mundial em Pequim.

Depois da reforma do regime cambial em 2005, a China voltou a vincular a cotação de sua moeda ao dólar a partir de meados de 2008. Desde então, o yuan está estabilizado no patamar de 6,83 por US$ 1,00. A paridade com o dólar faz com que Pequim tenha que seguir a política monetária dos Estados Unidos, que está com juros extremamente baixos para enfrentar a queda na atividade econômica.

A China cresceu 10,7% no último trimestre de 2009 e fechou o ano com expansão de 8,7%, de longe o maior índice entre os grandes países. Apesar do aquecimento econômico, a China enfrenta restrições para elevar os juros, porque o movimento pode estimular a entrada de capitais no país, dificultando a manutenção do câmbio fixo. É por isso que o Banco Mundial defende a apreciação da moeda. “O fortalecimento da taxa de câmbio pode ajudar a reduzir as pressões inflacionárias e rebalancear a economia. Com o tempo, a maior flexibilidade cambial pode permitir que a China tenha uma política monetária independente das condições cíclicas dos Estados Unidos, o que é cada vez mais necessário”, observa o relatório trimestral divulgado ontem.

Pequim enfrenta pressão internacional crescente para apreciar sua moeda. Nesta semana, senadores norte-americanos apresentaram proposta de legislação que classifica a China como um país que manipula o câmbio para obter vantagens comerciais, o que abriria caminho para a imposição de sobretaxas na importação de seus produtos. Com isso, eles esperam neutralizar o que consideram como vantagem indevida das vendas chinesas.

Os críticos afirmam que a cotação do yuan é mantida artificialmente entre 20% e 40% abaixo do que seria o patamar correto, caso forças de mercados definissem o seu valor. A moeda depreciada aumenta a competitividade das exportações chinesas, na medida em que reduz os seus preços em dólares. O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, afirmou no domingo que o yuan não está depreciado e disse que seu valor será mantido em um patamar “estável”.

Os economistas do Banco Mundial não se referiram ao impacto do câmbio sobre as exportações e destacaram apenas os efeitos que uma moeda valorizada teria sobre a economia chinesa. “Se há inflação e fluxo de capitais, o fortalecimento da taxa de câmbio faz parte do arsenal para enfrentar esses problemas e também ajuda no objetivo de rebalancear a economia, na medida em que muda os preços relativos e cria incentivos para o consumo doméstico”, destacou Ardo Hansson, economista-chefe do Banco Mundial na China.

A instituição espera crescimento de 8,7% em 2011, mas ressalta que o país enfrenta riscos decorrentes da grande expansão monetária no ano passado. Os mais preocupantes são a alta do preço dos imóveis, que pode indicar uma bolha no setor, e a piora das finanças dos governos locais, em razão do grande volume de empréstimos contraídos em 2009 para construção de obras de infraestrutura.

Além de defender a alta dos juros, Kuijs ressaltou que o governo terá de ser estrito neste ano no cumprimento da meta de expansão do crédito em 7,5 trilhões de yuans (US$ 1 trilhão), para reduzir os riscos relacionados ao aumento da liquidez. O mercado imobiliário está “superaquecido”, na avaliação da instituição, e registrou alta de preços de 10,7% no mês de fevereiro, o mais elevado índice dos últimos dois anos.

Os economistas do Banco Mundial não consideram que a inflação seja um problema, apesar da alta de 2,7% no Índice de Preços ao Consumidor registrada em fevereiro. Segundo Kuijs, há capacidade ociosa no mundo, o que deve conter as remarcações de produtos manufaturados, enquanto as cotações das commodities não deverão ter elevação significativa em 2010 _o Banco Mundial prevê alta média de 5,3%, excluído o petróleo, cujo preço passaria de US$ 61,80 em 2009 para US$ 76,00 neste ano. (Este texto foi publicado na edição de hoje do jornal O Estado de S.Paulo)

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