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Cláudia Trevisan

A decisão da China de expulsar a correspondente da Al Jazeera, Melissa Chan, evidencia o abismo que separa as autoridades locais da noção de imprensa livre e independente. Também revela o tratamento desigual dado a jornalistas chineses que trabalham no exterior e a estrangeiros que atuam na China. Enquanto os chineses quase sempre se beneficiam de regras claras e um ambiente livre de restrições, os correspondentes enfrentam tentativas de intimidação, ameaças, assédio policial e limites à sua locomoção.

O governo chinês vê a imprensa como um instrumento do Partido Comunista e não como uma instituição que tem entre suas principais missões a fiscalização do exercício do poder. Melissa Chan é uma jornalista exemplar, que realizou uma série de reportagens sobre casos de abuso de autoridade, desrespeito à lei e violações de direitos humanos. Uma de suas últimas reportagens na China mostrava uma das centenas de “prisões negras” existentes em Pequim, para onde são mandados cidadãos comuns que vão à capital reclamar ao governo central de desmandos cometidos por autoridades locais. Esses centros de detenção são ilegais, mas continuar a abrigar milhares de pessoas, sem que suas famílias saibam de seus paradeiros.

Mas o que enfureceu as autoridades chinesas foi um documentário exibido em novembro sobre as prisões que funcionam como campos de trabalho na China, onde os presos não são remunerados e fabricam produtos de preços baixíssimos, alguns dos quais exportados. Melissa Chan não participou da elaboração do programa, que integrava uma série sobre escravidão no século 21. A insatisfação de Pequim com seu conteúdo ajuda a explicar porque as autoridades se recusaram a dar visto para o eventual substituto da correspondente expulsa. Sem isso, a Al Jazeera foi obrigada a suspender as operações de seu canal em inglês na China.

A visão que o Partido Comunista tem do papel da imprensa foi escancarada no mês passado por um dirigente de uma cidade na província de Guizhou, Wen Yongdong, procurado pela TV local para falar sobre um caso banal: a queda de um objeto pesado sobre o capô de um carro parado em um estacionamento público. O repórter queria saber se o governo iria indenizar o proprietário do veículo pelo dano. Wen respondeu que não e negou qualquer responsabilidade oficial no caso. Quando o entrevistador perguntou se o estacionamento era pago, o dirigente local não se conteve: “Você é um jornalista e é um porta-voz do Partido. Você está servindo o povo ou está servindo o Partido?”.

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É difícil encontrar um caso que traduza de maneira tão dramática a inexistência do Estado de Direito na China quanto o de Chen Guangcheng, o ativista cego mantido encarcerado em sua casa durante os últimos 19 meses, vigiado dia e noite por uma legião de capangas pagos pelos líderes locais do Partido Comunista, até fugir de maneira espetacular no último dia 22. A detenção não era fruto de uma condenação judicial nem se baseava em qualquer dispositivo legal. Chen estava preso por ser inconveniente em sua defesa de outras vítimas de abusos de poder, entre as quais mulheres obrigadas a abortar e a realizar operações de esterilização em nome da política de filho único. Sua mulher, Yuan Weijing, que nunca foi acusada de nenhum crime, também estava confinada com seu marido. A filha de 6 anos do casal ficou meses sem poder frequentar a escola. Quando foi autorizada a sair de casa, passou a ser acompanhada o tempo todo por policiais à paisana.

A família foi vítima de agressões físicas, danos materiais e tortura psicológica, sem que nenhuma autoridade do governo central se dignasse a intervir no caso. A mulher de Chen foi espancada até ficar inconsciente e teve ossos da face quebrados. O ativista ficou na cama durante dias para se recuperar das agressões. Chen havia sido condenado em 2006 a quatro anos e três meses de prisão sob a acusação ridícula de “reunir uma multidão para atrapalhar o trânsito”. Na época em que os fatos teriam ocorrido ele era mantido em sua casa, na sua primeira prisão domiciliar. Como todos os julgamentos de caráter político na China, não lhe foi garantido o direito de defesa e o processo se desenrolou sem nenhuma transparência.

Chen cumpriu a pena até o fim, mas não ganhou a liberdade e foi colocado em outra prisão, sua própria casa, isolado do mundo exterior. Sua espetacular fuga e a busca de abrigo na Embaixada dos Estados Unidos revelam a ausência de canais confiáveis para receber as demandas dos que se sentem injustiçados por abusos de poder. As vozes dissidentes da China são sufocadas, até que não encontram outra expressão além de um grito desesperado.

A desconfiança em relação ao Estado chinês não se restringe aos dissidentes e críticos do regime. Wang Lijun, o ex-braço direito do ex-todo-poderoso chefe do Partido Comunista em Chongqing, Bo Xilai, também se refugiou em uma representação diplomática dos Estados Unidos quando se convenceu de que sua vida estava em perigo. “Só há um lugar 100% seguro na China, a Embaixada dos Estados Unidos”, disse Hu Jia, ativista que já ficou três anos e meio na prisão sob acusação de subversão, mas não abandonou a crítica ao governo chinês.

Hu Jia foi um dos integrantes da rede subterrânea que ajudou Chen Guangcheng a fugir. O ativista aproveitou segundos de distração dos guardas para pular o muro de sua casa e caminhou durante horas na noite sem lua. A escuridão é constante na vida de Chen, cego desde a infância. Na caminhada que durou horas, ele caiu dezenas de vezes, atravessou obstáculos, cruzou um rio, até se encontrar, molhado e ferido na perna, com He Peirong, uma chinesa de sorriso luminoso que liderava havia mais de um ano uma campanha por sua libertação. Guo Yushan também ajudou a levar o ativista a Pequim, onde ele passou alguns dias em casas de diferentes pessoas antes de ser colocado sob a proteção de autoridades dos Estados Unidos. Agora, He, Guo e Hu Jia estão detidos. Como Chen Guangcheng era mantido em prisão domiciliar sem base legal, é difícil saber de que crime serão acusados, caso as autoridades queiram dar um verniz de legalidade a seu confinamento.

Abaixo estão fotos de alguns dos “perigosos subversivos” temidos pela segunda maior economia do mundo:

He Peirong, que liderou campanha pela libertação de Chen Guangcheng e ajudou o ativista a fugir da prisão domiciliar

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Chen Guangcheng e o ativista e amigo Hu Jia, em foto tirada na semana passada em Pequim

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Apesar da queda na taxa de juros, a redução nos prazos de financiamento deverá conter a expansão do mercado automobilístico brasileiro em 2012, que fechará com vendas semelhantes às do ano passado, avaliaram ontem os representantes das duas montadoras chinesas com maior presença no país.

“Para o consumidor brasileiro, prazo é mais importante que os juros”, disse ontem Luis Curi, CEO da Chery Brasil, que está em Pequim para participar da Auto China 2012, a maior exibição de carros do país, que acontece a cada dois anos. Sergio Habib, presidente da JAC no Brasil, concorda: “As taxas caíram, mas o prazo diminuiu, o que aumentou as parcelas que os consumidores devem pagar a cada mês”.

Segundo eles, os financiamentos de até 60 meses que aqueceram as vendas até o ano passado deixaram de existir. O máximo agora são 48 meses. As marcas que os dois executivos representam também foram afetadas pelo aumento do IPI sobre carros importados anunciado pelo governo no ano passado. Ambos abandonaram as estimativas otimistas de aumento de vendas que tinham anteriormente, mas ainda esperam resultados melhores que os de 2011. Curi cortou sua projeção de 60 mil para 30 mil unidades, um aumento de 20% em relação ao ano passado. Habib esperava vender 50 mil carros e agora conta com algo entre 30 mil e 35 mil _comparados a 27 mil em 2011.

Zhou Bi Ren, presidente da Chery International, disse que o Brasil é um mercado prioritário para a empresa, que aposta em outros países em desenvolvimento, como Irã, Rússia, Venezuela, Iraque, Ucrânia e Egito. “Nós somos uma companhia nova e começamos com os países em desenvolvimento, mas esperamos em breve entrar na Europa e na América do Norte”, afirmou.

O executivo chinês não quis comentar o aumento do IPI, mas ressaltou que a decisão foi adotada de maneira “súbita” pelo governo brasileiro. A empresa espera a conclusão de sua fábrica em Jacareí (SP) para aumentar sua fatia no mercado doméstico. Para manter as vendas, a Chery decidiu não aumentar os preços, apesar de o IPI equivaler a um Imposto de Importação de mais de 50%. Mas por isso, não poderá ser muito agressiva na expansão das vendas dos carros importados da China. “Se eu vendo menos, eu perco menos”, observou Curi.

A fábrica deverá estar concluída em setembro de 2013 e começará a produzir 50 mil veículos/ano, até atingir a capacidade máxima de 150 mil unidades/ano em 2015. A JAC espera iniciar a construção de sua planta em outubro e novembro e espera produzir em 2014. “Quem quiser vender no Brasil, tem que ter fábrica”, ressaltou Habib.

Mesmo com o aumento de custo decorrente do IPI, as duas empresas planejam lançar novos modelos no mercado brasileiro neste ano. A Chery começará a vender em setembro o hatch Celer, que já chegará com motor flex e custará entre R$ 37 mil e R$ 39 mil. As novas apostas da JAC serão o J2, um carro menor que os comercializados hoje pela montadora no Brasil, e um VUC (veículo urbano de carga), que é um caminhão pequeno, que pode circular nas cidades.

Recém-chegadas ao mercado nacional, as duas empresas têm fatia inferior a 1% das vendas totais, mas esperam elevar o percentual em pouco tempo. A Chery, maior exportadora de carros da China, acredita que chegará a 3% em 2015, quando o mercado brasileiro poderá atingir a marca de 5 milhões de unidades/ano. Com a fábrica para 100 mil carros/ano, a JAC espera conquistar de 2% a 2,5% das vendas totais.

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04.abril.2012 07:29:48

Na web com Ai Weiwei

Mais célebre entre os ativistas chineses atingidos pela onda de repressão que tomou conta do país a partir do ano passado, o artista Ai Weiwei tem um talento único para subverter as punições a que é submetido. Seu mais recente gesto foi escancarar sua intimidade com a instalação de webcams em diferentes áreas de sua casa, incluindo a cama onde dorme. As imagens são transmitidas 24 horas por dia no site weiweicam.com. O gesto ironiza a vigilância a que está sujeito faz com que as 15 câmeras de vigilância instaladas na rua de sua casa percam a relevância.

“Quando eu fui preso, ninguém sabia onde eu estava. Minha família, meus amigos, meus colegas, ninguém tinha nenhuma informação. Por isso eu quis que as pessoas me vissem nesse momento especial. Elas podem me ver até quando estou dormindo e constatar que não estou em perigo”, disse Ai Weiwei ao Estado na tarde de ontem, em entrevista que foi captada por uma das webcams colocadas em sua mesa de trabalho:


Ai Weiwei usou a instalação das câmeras para marcar o aniversário de um ano de sua detenção, ocorrida em 3 de abril de 2011 no aeroporto de Pequim. O artista passou 81 dias desaparecido, sem contato com sua família. Mas o governo não o acusou de subversão, à diferença de outros ativistas presos no ano passado. O suposto crime de Ai Weiwei foi a sonegação de impostos. No dia 1˚ de novembro, o artista recebeu notificação para pagar o equivalente a US$ 2,4 milhões em tributos atrasados e multas.

A cobrança desencadeou uma onda de solidariedade ao artista, que em 15 dias arrecadou US$ 1,4 milhão em doações de 30 mil chineses, em uma claro gesto político de desafio ao governo. A “vaquinha” foi suficiente para o depósito de US$ 1,3 milhão necessário para apresentação de recurso contra a decisão.

No dia 18 de novembro, as autoridade chinesas abriram nova frente de ataque a Ai Weiwei e passaram a investigá-lo sob acusação de pornografia, em razão de uma foto na qual ele e quatro mulheres aparecem nus. Na época, o artista sustentou que “nudez não é pornografia”. Nos dias seguintes ao da acusação, mais de cem chineses publicaram fotos de si próprios nus ou seminus em site dedicado à defesa do artista, em outro exemplo de contestação política.

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O governo chinês prendeu seis pessoas, fechou 16 sites e suspendeu os comentários nos dois grandes serviços de microblogs do país, cada um dos quais com cerca de 300 milhões de usuários, na maior ofensiva de controle das versões locais do twitter desde que eles ganharam popularidades, nos últimos dois anos.

As medidas são uma resposta aos rumores que circularam na internet na semana retrasada, segundo os quais Pequim havia sido palco de uma tentativa de golpe de Estado, com tanques nas ruas e troca de tiros em Zhongnanhai, o complexo onde vivem e trabalham os líderes máximos chineses.

Os boatos estão relacionados à queda do ex-chefe do Partido Comunista na megacidade de Chongqing, Bo Xilai, e à disputa de poder dentro da organização nos meses que antecedem à troca de comando que ocorrerá no fim deste ano. Bo era um dos principais candidatos ao Comitê Permanente do Politburo, formado pelos nove homens que de fato mandam no país, mas foi afastado no dia 15 de março. Não há nenhuma informação oficial sobre seu paradeiro, as causas de sua queda e seu futuro.

De acordo com os comentários que circularam online, a tentativa de golpe teria sido orquestrada por Zhou Yongkang, o principal aliado de Bo entre os atuais nove integrantes do Comitê Permanente do Politburo. Zhou é responsável pelas forças de segurança e esteve ausente de uma reunião da comissão que preside no dia 22 de março, uma semana depois do afastamento de Bo Xilai, o que estimulou as especulações sobre choques sísmicos na cúpula do Partido Comunista.

Os comentários circularam amplamente online, mas nada nas ruas de Pequim indicava que algo de anormal estivesse ocorrendo. O policiamento continuava o mesmo, não havia nenhum sinal de tanques e analistas afirmaram que os boatos eram fabricados. Nenhuma autoridade desmentiu os rumores, mas eles perderam força depois que Zhou Yongkang participou de atividades públicas no dia 26 de março.

Os usuários podem publicar posts nos microblogs, mas comentários sobre informações veiculadas por outros internautas estão suspensos até terça-feira. Os usuários que tentam realizar comentários são informados de que os serviços estavam contaminados com “muitos rumores e informação destrutiva e ilegal” e que a interrupção é necessária para realização de uma “limpeza”.

A decisão foi anunciada tarde da noite de sexta-feira. A agência de notícias Xinhua afirmou ontem que o Departamento Estatal de Informação na Internet concluiu que os 16 sites fechados haviam espalhado rumores de que “veículos militares haviam entrado em Pequim” e que algo de errado estava ocorrendo na cidade.

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China e Estados Unidos vivem uma relação de dependência econômica e desconfiança política que parece aumentar a cada dia, mas isso não impede que o mundo acadêmico dos dois países esteja cada vez mais integrado. A Universidade de Stanford acaba de se transformar na primeira instituição de ensino norte-americana a ter uma sede dentro da Universidade de Pequim, uma das mais tradicionais da China.

A Stanford investiu US$ 7 milhões na construção de um edifício de 36 mil metros quadrados, que será o quartel general para seus programas de pesquisas no país. O centro também terá missão de estimular a ida de estudantes americanos para a China. Segundo dados de Washington, o número de alunos chineses matriculados em escolas nos Estados Unidos é dez vezes maior que o de norte-americanos em instituições chinesas.

A China ultrapassou a Índia e se tornou a principal origem de alunos estrangeiros em escolas e universidades norte-americanas. No ano passado, eram 157.558 o equivalente a 22% dos estudantes internacionais. Só em Stanford há cerca de 1.000 alunos chineses atualmente e nos últimos dez anos eles lideraram o ranking do número de estrangeiros na instituição.

Em 2010, o presidente Barack Obama lançou projeto que prevê o envio de 100 mil estudantes para a China no período de quatro anos, com o objetivo de equilibrar o fluxo acadêmico entre os dois países. “A necessidade de os americanos ganharem exposição e entenderem a China é clara: talvez não exista nenhuma relação no mundo mais importante ou complexa do que a entre Estados Unidos e China em termos de garantia da paz e segurança globais”, diz texto do Departamento de Estado sobre o projeto.

A Stanford está longe de ser um caso isolado. Várias universidades norte-americanas têm programas de cooperação com instituições chinesas. A Yale atua junto com a Universidade de Pequim e a Columbia tem laços com a Tsinghua, onde se formou o atual presidente chinês, Hu Jintao. A Johns Hopkins é parceira da Universidade de Nanjing no Hopkins-Nanjing Center for Chinese and American Studies. A Missouri State University está na província de Lioning, no nordeste chinês, para citar apenas alguns exemplos.

No Brasil, há pouquíssimas instituições de pesquisa dedicadas ao estudo da China, país que é nosso maior parceiro comercial e dono do segundo maior PIB do mundo. Também há poucos estudantes de chinês e, apesar de crescente, o número de brasileiros em instituições de ensino na China é minúsculo. Está na hora de mudar.

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Cada dia fica mais claro o tipo de Estado de Direito que os líderes chineses pretendem implementar no país: qualquer um que não desafie a permanência do Partido Comunista no poder. O Ministério da Justiça acaba de divulgar o novo juramento que deve ser realizado por todos os que se credenciarem como advogados ou renovarem seu registro a partir de agora. Entre as promessas que devem ser realizadas está a de “defender a liderança do Partido Comunista e do sistema socialista”. É difícil saber como essa parte do juramento será conciliada com a que aparece em seguida: “Proteger a Constituição e a autoridade da lei”. Os advogados que atuam na área de direitos humanos e defendem críticos do regime sustentam que seus clientes apenas exerceram garantias previstas na Constituição, entre as quais está a liberdade de expressão.

A íntegra do juramento é uma pérola de politização de uma profissão que tem entre seus princípios básicos a defesa dos cidadãos contra abusos do Estado: “Eu prometo desempenhar a sagrada missão de trabalhador da lei dentro do socialismo com características chinesas, ser leal ao país e ao seu povo, defender a liderança do Partido Comunista e do sistema socialista e proteger a Constituição e a autoridade da lei”. Segundo nota divulgada no site do Ministério da Justiça, o objetivo do novo juramento estabelecer “firmemente” entre os advogados a fé no sistema socialista com características chinesas e melhorar a qualidade de sua “ideologia política”.

Dizimada no período posterior à Revolução Comunista de 1949, a prática da advocacia foi restaurada em 1979, no início do processo de abertura econômica iniciado por Deng Xiaoping. Afinal, é difícil fazer negócios e receber investimentos estrangeiros sem o mínimo de previsibilidade legal. Mas o número de advogados na China é mínimo se comparado à população de 1,35 bilhão de pessoas: 200 mil, menos de um terço dos cerca de 720 mil existentes no Brasil.

Advogado do artista Ai Wei Wei, Liu Xiaoyuan considera o novo juramento “impróprio”, para dizer o mínimo. “Nós não temos responsabilidade direta em relação ao governo ou ao partido. Nossa prioridade é seguir a Constituição e as leis. O governo deveria ter em mente as características profissionais da advocacia e não tachar tudo com uma marca política”, afirmou.

A vida de advogados como Liu Xiaoyuan se tornou mais difícil a partir do começo de 2011, quando chamada anônima na internet convocou chineses para manifestações semelhantes às que derrubaram regimes autoritários em países árabes. As demonstrações nunca chegaram a ocorrer, mas dezenas de ativistas foram detidos, entre os quais vários advogados que atuam na defesa de direitos civis. Apesar de ter se intensificado desde então, a repressão é anterior à fracassada tentativa de realizar uma Revolução do Jasmim na China. Um caso extremo é o do advogado Gao Zhisheng, que desapareceu em abril de 2010, depois de ter documentado vários casos de violações dos direitos humanos no país. “Nos últimos anos, o controle sobre os advogados se tornou mais severo, porque há ‘vozes discordantes’ dentro desse grupo e nós não somos tão obedientes”, ressaltou Liu. “Eu não acredito que o juramento terá efeito na prática. A defesa da lei continuará a ser a prioridade dos advogados.”

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A chamada por reformas radicais na China feita pelo Banco Mundial em conjunto com pesquisadores ligados ao governo de Pequim evidencia a percepção de que o ímpeto reformista que marcou os primeiros 25 anos da abertura do país foi gradualmente abandonado pela geração de líderes que chegou ao poder em 2003. Na opinião de muitos analistas, Hu Jintao e Wen Jiabao colheram os frutos de mudanças realizadas em décadas anteriores, entre as quais a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, que pavimentou o caminho para o país se tornar o maior exportador do mundo em 2010.

O grande salto da China rumo à globalização foi dado no período de Jiang Zemin e Zhu Rongji, o reformista que foi primeiro-ministro de 1998 a 2003. Além do ingresso na OMC, Zhu comandou o radical processo de reestruturação das estatais no fim da década de 90, que levou ao fechamento de milhares de grupos deficitários e levou à demissão de milhões de trabalhadores. Também deu início ao saneamento do sistema financeiro, que levou à abertura de capital das grandes instituições e à injeção de US$ 600 bilhões nos bancos estatais para livrá-los de uma montanha de créditos podres.

A crise que chacoalhou o mundo em 2008 fortaleceu a posição dos que resistem a mudanças adicionais, na medida em que colocou em xeque a receita de liberalização e desregulamentação prescrita pelo Ocidente. Os setores chineses que defendem o status quo acreditam que o Estado e o Partido Comunista devem sua posição proeminente na economia, que foi ampliada a partir de 2008 com o megapacote de estímulo que Pequim lançou para combater os efeitos da crise global.

As gigantescas empresas estatais dominam os setores considerados estratégicos pelo governo_ como petróleo, telecomunicações, eletricidade e aviação civil_ e seus dirigentes não aceitarão facilmente perder a posição privilegiada que ocupam hoje. Além disso, muitos dirigentes estão convencidos de que a debacle dos países ocidentais explicitou a superioridade do modelo chinês de capitalismo de Estado e são contra reformas que o transformem de maneira significativa.

O processo de tomada de decisões na China também deve dificultar qualquer tentativa de transformação pelos próximos dois anos e possivelmente em um período ainda mais longo. Apesar de serem a face visível do governo, o presidente e o primeiro-ministro não tomam decisões de maneira isolada e dependem do apoio de distintos grupos dentro do Partido Comunista, em uma árdua tarefa de construção de consensos.

O maior símbolo das limitações impostas aos líderes máximos do país é Wen Jiabao, o primeiro-ministro que é visto como um reformista, mas que conseguiu implementar muito pouco de sua agenda de mudanças nos nove anos desde que assumiu o cargo. Agora, é pouco provável que consiga qualquer avanço no ano que lhe resta como primeiro-ministro.
As recomendações do Banco Mundial e de pesquisadores do governo chinês pode ser vista em inglês aqui. E aqui está minha reportagem sobre o assunto publicada hoje no Estado.

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02.fevereiro.2012 06:25:18

A aposta equivocada da Vale

O estaleiro chinês Rongsheng Heavy Industries tem contrato de US$ 1,6 bilhão com a brasileira Vale para construção de 12 supercargueiros, dos quais apenas 1 já foi entregue. A utilidade dos demais foi colocada em xeque anteontem, quando o Ministério dos Transportes da China anunciou que os portos do país não poderão receber as embarcações contratadas pela mineradora brasileira.

Maior cargueiro do mundo, com capacidade de transporte de 400 mil toneladas, o navio foi concebido para atender principalmente o mercado chinês, destino de quase metade do minério de ferro exportado pelo Brasil.

O Ministério dos Transportes cedeu à pressão dos armadores chineses, segundo os quais há um excesso de navios no mercado e uma tendência de baixa no preço dos fretes, situação que se agravaria ainda mais com a entrada em operação dos megacargueiros da Vale.

Em entrevista concedida ao Estado antes do veto do Ministério dos Transportes, o vice-presidente da Associação de Proprietários de Navios da China (CSA, na sigla em inglês), Zhang Shouguo, afirmou que a Vale cometeu um “grande erro” ao decidir construir os navios e deveria cancelar as encomendas. “Eles devem esperar um momento mais apropriado”, declarou.

A mineradora anunciou a criação da frota de supercargueiros em 2008, antes do estouro da crise financeira que afetou o comércio global e a demanda por frete. O projeto da companhia prevê uma frota de 35 dessas embarcações, dos quais 16 serão contratados com exclusividade de armadores. Os restantes 19 serão operados diretamente pela própria Vale _a Rongsheng construirá 12 deles, enquanto a coreana Daewoo Shipbuilding & Marine Engineering é responsável pelos outros 7.

Segundo um funcionário da Rongsheng que se identificou apenas pelo sobrenome Zheng, a empresa não havia recebido até ontem nenhum pedido da Vale de cancelamento ou adiamento do contrato. Em sua avaliação, é pouco provável que a mineradora desista do acordo, porque o valor que já foi pago é muito alto.

O vice-presidente da CSA observou que a Vale cometeu um erro ao insistir na construção dos navios mesmo em meio à crise financeira mundial que reduziu a demanda por carga e provocou excesso de capacidade no setor. Zhang prevê que a situação vai permanecer inalterada pelo menos até o fim de 2013, o que inviabiliza a utilização dos novos cargueiros da Vale nos próximos dois anos. “Em 2008 havia demanda e o mercado estava aquecido, mas a situação é totalmente diferente agora”, ressaltou.

A decisão do Ministério dos Transportes da China de proibir o atracamento em portos do país de navios com capacidade superior a 300 mil toneladas atinge em cheio o investimento estratégico de US$ 2,35 bilhões feito pela Vale para atender o mercado asiático e, em especial, a China. Esse valor representa apenas os recursos destinados à construção dos navios que serão operados diretamente pela empresa e não inclui as 16 embarcações que serão alugadas por armadores para a empresa brasileira.

A Vale decidiu investir na construção do maior cargueiro do mundo para reduzir o custo do transporte do minério de ferro do Brasil para a China e compensar a vantagem de seus concorrentes australianos, que estão muito mais próximos do principal comprador do produto.

Com capacidade de transporte quase três vezes maior que os navios utilizados atualmente, o Valemax diminui o custo do frete em cerca de 30%, segundo avaliação de fonte do mercado. Mas isso não significa redução no preço do minério que será cobrado dos clientes chineses, já que o frete não é incorporado à sua cotação. Além dos armadores, as siderúrgicas chinesas também eram contra a utilização do supercargueiro, em razão do temor de perder poder na negociação de preços com a Vale.

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O governo chinês condenou ontem um ativista pró-democracia a 10 anos de prisão sob acusação de “subversão do poder do Estado”, no terceiro caso semelhante em menos de um mês. O cerco de Pequim aos dissidentes se intensificou a partir de fevereiro de 2011, em resposta a tentativas fracassadas de realização de protestos inspirados na Revolução do Jasmim que derrubou ditadores no mundo árabe.

“As autoridades estão usando essas penas severas para mandar uma mensagem aos ativistas de que eles serão punidos se defenderem reformas democráticas”, disse Wang Songliang, do Chinese Human Rights Defenders (CHRD), entidade com sede em Hong Kong.

A decisão de ontem foi proferida pela Corte Popular Intermediária de Wuhan, capital da província central de Hubei, e atingiu o escritor Li Tie. Segundo informações dadas por sua família ao CHRD, as evidências apresentadas no julgamento foram artigos críticos ao governo, a participação em discussões promovidas na internet por sites “reacionários”, comentários “reacionários” em encontros com amigos e a filiação ao Partido Democrático Social da China.

No dia 23 de dezembro, o dissidente Chen Wei foi condenado a 9 anos de prisão sob acusação de “incitamento à subversão” na província de Sichuan, no centro-oeste do país, em razão de quatro artigos em defesa de reformas democráticas que divulgou na internet. Três dias mais tarde, uma corte na província de Guizhou, no sudoeste, sentenciou o ativista Chen Xi a 10 anos de prisão, sob a mesma acusação.

Ambos os Chen _que não têm relação de parentesco_ participaram dos protestos na praça Tiananmen em 1989 e foram signatários da Carta 08, o documento em defesa de reformas democráticas divulgado em dezembro de 2008.

O principal mentor da Carta 08, Liu Xiaobo, venceu o Prêmio Nobel da Paz de 2010 e cumpre desde dezembro de 2009 pena de 11 anos de prisão.
Os três dissidentes condenados nas últimas semanas se declararam inocentes e ressaltaram que a Constituição chinesa garante a liberdade de expressão. “Não é um bom momento para ser um ativista na China”, lamentou Wang, do CHRD.

Na quarta-feira, o escritor chinês Yu Jie afirmou em entrevista coletiva em Washington que foi torturado sob custódia policial no período de entrega do Prêmio Nobel da Paz a seu amigo Liu Xiaobo, em dezembro de 2010.

Autor de “O Melhor Ator da China: Wen Jiabao”, no qual ataca o primeiro-ministro do país, Yu Jie se autoexilou nos Estados Unidos no dia 11 de janeiro, depois de uma longa negociação com as autoridades de Pequim para ter autorização de deixar o país.

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