Presente nas primeiras páginas e nas chamadas dos principais jornais e TVs do mundo, a saga do ativista cego Chen Guangcheng é virtualmente desconhecida na China. Não há menção ao caso na imprensa, que é controlada pelo Estado, e tentativas de comentar o assunto na internet esbarram na muralha da censura. Na versão chinesa do twitter, chamada de weibo, todas as palavras que podem fazer alusão a ele e sua espetacular fuga são bloqueadas. A lista inclui os óbvios CGC (as iniciais de seu nome) e “homem cego”, além de criações destinadas a burlar os censores, como “Abing” (um célebre músico cego), “The Shawshank Redemption” (filme estrelado por Tim Robbins sobre a espetacular fuga de uma prisão americana) e “UA898” (de acordo com rumores aparentemente infundados, esse seria o número do voo que teria levado Chen para os EUA).
Eu conversei há pouco com um amigo chinês relativamente bem informado, graduado em uma das principais universidades do país e ligeiramente crítico ao governo chinês. Ele não tinha ideia de que Chen Guangcheng havia escapado da estrita vigilância em que era mantido em sua casa havia 19 meses. Na verdade, mal sabia quem era Chen Guangcheng, um homem cuja história é fonte de inspiração para a comunidade de ativistas na China.
Nem mesmo moradores da vila Dongshigu, onde ele era mantido isolado, sabiam de sua fuga, empreendida no dia 22 de abril. “Eu não escutei nada sobre isso. Não é possível que ele tenha conseguido escapar”, disse à Agência France Presse um camponês que não quis se identificar. “[As autoridades] construíram um muro de concreto ao redor da sua casa e há câmeras de segurança em todos os lugares.”
Chen aproveitou segundo de distração dos guardas que o vigiavam dia e noite e pulou o muro em um noite sem lua. Depois disso, caminhou durante horas, nas quais caiu centenas de vezes, até encontrar He Peirong, a mulher que o levou até Pequim.
Cego desde a infância, Chen só se alfabetizou depois dos 20 anos e se formou como massagista e acupunturista, duas das poucas atividades reservadas na China aos cegos, que são proibidos de frequentar a universidade. Mas ele desafiou o destino que lhe era reservado, assistiu aulas da Faculdade de Direito como ouvinte e se tornou um advogado autodidata. Suas primeiras ações foram voltadas à defesa dos direitos de cegos e deficientes. Logo, Chen despertou a ira das autoridades locais da província de Shandong ao expor uma série de casos de abortos e esterilizações realizados à força, algo proibido pela legislação que rege a política de filho único na China.
Sua atuação levou ao afastamento de alguns dos responsáveis pelos casos, mas Chen também foi punido. Em um julgamento que advogados e ativistas afirmam ter sido totalmente manipulado, ele foi condenado a quatro anos e três meses de prisão por “destruição propriedade” e “distúrbio do tráfego”. Cumpriu a pena até o fim, mas continuou preso em sua casa, em uma decisão que não tinha amparo na lei ou em qualquer ordem judicial.
Agora, o ativista está sob proteção de diplomatas dos Estados Unidos em Pequim. Segundo a entidade norte-americana ChinaAid, ele poderá deixar a China em breve e se tornar um exilado político nos EUA.
O bloqueio do Twitter pela censura chinesa não impediu o surgimento de um efervescente universo de microblogs, que reúne algo entre 300 milhões e 400 milhões de usuários e se tornou a principal plataforma de disseminação de informação e de discussão de temas tabus em um país que emprega milhares de censores para definir o que sua população pode ou não saber. Agora esse território semi-livre enfrenta a mais nova ofensiva das autoridades de Pequim para tentar controlar o que é divulgado online: a exigência de que todos os usuários de microblogs _ou weibo em chinês_ se registrem com seus nomes e números de identidade verdadeiros, o que têm o claro objetivo de restringir sua liberdade de comentar assuntos considerados “sensíveis” aos olhos dos censores.
O governo determinou em dezembro que todos os novos usuários de microblogs devem se registrar com seus nomes verdadeiros e deu às empresas prazo até 16 de março para converter as atuais contas anônimas em contas com nome e identidade. O executivo-chefe do portal Sina, Charles Chao, disse que as regras poderão ter efeito “negativo” sobre o weibo da empresa, o mais popular do país, com 300 milhões de usuários.
Segundo ele, mais de 40% dos novos adeptos do serviços não forneceram sua identidade, o que impede que publiquem posts, mas permitem que leiam o que está online. Chao avalia que será “difícil” cumprir o deadline de 16 de março para acabar com o anonimato dos usuários e não descartou a adoção de novas medidas restritivas no futuro.
A maioria dos que já estão registrados parece estar aguardando para ver se a regra é mesmo para valer. Na China, como no Brasil, há leis que não pegam e muitos acreditam que essa é uma delas, pelo grande número de pessoas que afeta. Mas a determinação é um termômetro do nervosismo das autoridades chinesas com uma plataforma de informação que foge ao total controle dos censores, ainda que esteja sujeita a seu escrutínio. Várias palavra e temas são bloqueados e mensagens consideradas ofensivas são deletadas.
O weibo é uma plataforma de crítica a uma série de problemas crônicos da sociedade chinesa, como a corrupção e o abuso de poder, e uma fonte de informação vista como mais confiável que a desacreditada mídia oficial. A grande dúvida agora é por quanto tempo poderá sobreviver em seu formato atual.
Mesmo em um país onde o governo defende abertamente a censura e o controle da imprensa, é chocante a afirmação do novo presidente da poderosa rede estatal de televisão CCTV, Hu Zhanfa, de que os jornalistas são “operários da propaganda”. Segundo ele, os que se consideram “profissionais” são vítimas de um erro fundamental sobre suas próprias identidades.
O governo chinês investe milhões de dólares no desenvolvimento e internacionalização de seus meios de comunicação, mas é cada vez mais claro que a independência jornalística não integra os planos do Partido Comunista. “ A primeira responsabilidade e ética profissional do pessoal de mídia deve ser entender o seu papel de maneira clara e ser um bom porta-voz”, afirmou Zhanfa, em declarações reproduzidas pela agência oficial de notícias Xinhua. Apesar de terem sido divulgadas em maio, as posições só ganharam destaque ontem, quando um link para o texto da Xinhua foi publicado no Weibo, a popular versão chinesa do Twitter, com cerca de 200 milhões de usuários.
O post gerou uma onda de críticas a Zhanfa, com milhares de internautas atacando a inexistência de uma imprensa independente na China. Grande parte da população do país vê com descrédito o que é veiculado nos meios oficial e confia mais no que lê na internet. O novo presidente da CCTV se encarregou de agravar a falta de credibilidade. Zhanfa ressaltou que os veículos de comunicação devem ser dirigidos por políticos _leia-se membros do Partido Comunista_ e que os jornalistas que não cumprirem seu papel de “porta-vozes” nunca irão longe.
Os caminhos de Lady Gaga, Walter Salles e dois anônimos blogueiros chineses se cruzaram nos últimos dias no paranoico e labiríntico universo dos censores de Pequim, que se consideram imbuídos da nobre missão de decidir minuto a minuto o que pode e não pode ser lido, visto e ouvido pela maior população do mundo.
O zelo é extremo, mesmo quando o público potencial é reduzido, como no 2˚ Festival de Cinema Brasileiro na China, marcado para novembro em Pequim e Xangai. Dos 16 filmes apresentados pela curadora da mostra, a Annamaria Boschi, 6 foram vetados pela Administração Estatal de Rádio, Filme e Televisão, entre os quais “Linha de Passe”, dirigido por Salles e Daniela Thomas. O organismo é responsável pela aprovação do conteúdo de tudo o que é exibido no país e tem a missão de “proteger” o público de programas que ofendam “sensibilidades chinesas” ou desafiem a autoridade do Partido Comunista. Ao lado de “Linha de Passe” também foram barrados “Dzi Croquettes”, “O Bandido da Luz Vermelha”, “Mangue Negro”, “Cabeça a Prêmio” e “Uma Noite em 67”.
O difícil é imaginar como os censores definem “sensibilidades” comuns na diversa população de 1,3 bilhão de chineses, que não é consultada antes de os burocratas definirem a programação cultural a que terão acesso…
Annamaria recebeu a lista dos filmes vetados e aprovados na sexta-feira, quando estava no Brasil. No dia seguinte, outro braço da máquina da censura chinesa divulgou em Pequim uma lista de 100 músicas que terão de ser excluídas de todos os websites do país, incluindo seis gravadas por Lady Gaga, que aparecem no “index” ao lado de uma inócua canção lançada pelo Backstreet Boys em 1999, “I Want it That Way”. A lista foi anunciada pelo Ministério da Cultura e faz parte de uma política adotada há dois anos com o objetivo de proteger a juventude chinesa do “mau gosto e vulgaridade” na internet, além de combater a pirataria no mundo virtual (no real das ruas chinesas, ela corre solta).
No fim de semana, os censores também apertaram o torniquete das informações que circulam no Weibo, a versão chinesa do Twitter, que tem um total de 200 milhões de usuários nos portais Sina e QQ. Além de receberem visitas de chefões do Partido Comunista nos últimos dias, as duas empresas enviaram circular a seus usuários na qual afirmam que é proibida a divulgação de “rumores” online. O Sina também suspendeu por um mês dois blogueiros que postaram informações posteriormente desmentidas.
O poder dos rumores na China é o mais irônico efeito colateral da censura e do caráter oficialesco da imprensa do país. A população sabe que jornais, revistas e rádios omitem informações “sensíveis” e prefere acreditar no que vê colocado online por cidadãos comuns, o que às vezes gera ondas de revoltas e protestos e mina a frágil credibilidade de autoridades locais. Um dos blogueiros suspensos pelo Sina afirmou no Weibo que o assassino de uma mulher de 19 anos escapou de punição em razão das conexões políticas de sua família _o que se revelou falso.
As diretrizes contra os rumores provocaram reações dos usuários, que veem no movimento mais um gesto dos censores para restringir sua já limitada liberdade de expressão. “Como o Weibo vai saber o que é verdade ou não?”, escreveu um blogueiro, em uma afirmação que pode se aplicar a toda ação dos censores. “Quem dá ao Weibo o direito de silenciar seus usuários?”, pergunta outro.
Bem, no maravilhoso mundo da censura chinesa cabe aos portais de internet censurar o conteúdo de tudo o que vai ao ar, incluindo comentários de usuários em fóruns e microblogs. Para isso, eles empregam um exército de censores próprios, que monitoram constantemente o que é publicado. Muitas vezes, há uma corrida de gato e rato, com internautas criando novas contas para postar mensagens modificadas, mas com conteúdo parecido ao das deletadas. Mas quase sempre não há como escapar do veto total a temas “sensíveis”, em relação aos quais é impossível publicar posts.
Voltando aos filmes brasileiros, os que foram vetados poderão ser exibidos em centros culturais mantidos por embaixadas na capital chinesa. Os dez aprovados para salas de cinema são “Malu de Bicicleta”, “Família Braz”, “Cinco Vezes Favela” , “Antes que Meu Mundo Acabe”, “Mãe e Filha”, “Reflexões de um Liquidificador” e quatro curtas de animação. Annamaria diz que a programação não está fechada e que dois outros filmes ainda serão avaliados pelas autoridades chinesas: “É Proibido Fumar” e o documentário “Vip’s”.
Parte da imprensa chinesa ignorou de maneira ostensiva determinação dos censores de Pequim e decidiu publicar com destaque reportagens independentes sobre o acidente de trens rápidos que matou 40 pessoas no dia 23 de julho e gerou a maior onda de críticas ao governo já registrada na internet.
A ordem do Departamento de Propaganda chegou aos veículos de comunicação na sexta-feira à noite, quando muitos deles fechavam cadernos especiais sobre o assunto para sábado e domingo. Os editores deveriam reduzir o espaço dedicado ao tema, publicar apenas textos positivos, utilizar informações da agência oficial Xinhua e não veicular fotos do acidente.
O semanário Economic Observer desobedeceu à determinação e trouxe no dia seguinte oito páginas sobre o acidente, com o título “Sem milagre em Wenzhou”, uma referência à declaração do porta-voz do Ministério das Ferrovias, Wang Yongping, de que o resgate de uma menina de dois anos 21 horas depois do choque entre os trens havia sido um “milagre”. Entre os títulos trazidos pela publicação estava “Quem é o assassino?”. Milhões de comentários deixados na internet sustentam que as operações de resgate foram mal conduzidas e suspensas precocemente. Fundado em 2001, o Economic Observer é independente (sem vínculo com órgãos oficiais) e tem a reputação de realizar uma das melhores coberturas de temas econômicos e financeiros da China.
Outro veículo que ignorou as ordens dos censores foi o Diário Metropolitano do Sul (Nangfang Du Shi), que apesar de ser ligado ao Partido Comunista costuma trazer reportagens investigativas. No domingo, o jornal usou um palavrão para se referir ao “milagre” mencionado pelo porta-voz do Ministério das Ferrovias, cuja reputação já era baixa junto ao público chinês e foi destruída pela maneira com que reagiu ao acidente. A maioria dos veículos cumpriu a determinação dos censores, mas alguns jornalistas manifestaram sua frustração e relataram na internet as ordens recebidas do governo, que são tratadas pelas autoridades como segredos de Estado. Enquanto muitos optaram pelo anonimato, o editor de fotografia do jornal Notícias de Pequim descreveu a atuação do Departamento de Propaganda em um post no Weibo (microblog), o equivalente chinês do Twitter, bloqueado no país.
Segundo Chen Jie, a primeira orientação foi dada por telefone às 21h de sexta-feira: a imprensa deveria “esfriar” a cobertura do desastre e evitar análise, comentários, reportagens ou links na internet para os textos. Só declarações oficiais “positivas” deveriam ser veiculadas. Outra ligação foi recebida às 22h: “Nenhuma notícia sobre o acidente, não importa se positiva ou negativa”. A orientação final veio por volta da meia-noite: “Vocês podem usar apenas palavras da agência Xinhua e nenhuma foto deve ser utilizada. As reportagens não podem ser publicadas com destaque. Ele nos ordenaram a fazer o que diziam sem questionamento. Nós cancelamos a edição de nove páginas”, disse Chen em seu post. No sábado, o Notícias de Pequim publicou um texto sobre a previsão do tempo em sua primeira página, onde estaria o texto sobre o acidente, em uma decisão que lembra a adotada pelo Estado e o Jornal da Tarde quando estava em vigor a censura prévia no Brasil (1968-1975) _poemas de Camões e receitas de bolos eram publicados no lugar de reportagens vetadas.
A Associação de Jornalistas de Hong Kong divulgou nota no sábado na qual criticou a determinação do Departamento de Propaganda e demandou que ela seja cancelada. “Nós precisamos aprender com esse terrível desastre para prevenir a sua repetição”, ressaltou a entidade. Mesmo monitorados pelas autoridades de Pequim, os microblogs se transformaram em um catalisador do descontentamento da população em relação à falta de transparência com qual o governo reagiu ao acidente, que ocorreu quando um trem ficou sem energia e foi atingido por outro que trafegava na mesma linha.
Nos nove dias que se seguiram ao choque, os microblogs do portais Sina e QQ receberam, respectivamente, 10 milhões e 20 milhões de comentários sobre o assunto. Ontem, o jornal oficial China Daily, editado em inglês pelo Conselho de Estado, trouxe uma reportagem positiva sobre o Weibo, dizendo que a ferramenta é uma plataforma para o desenvolvimento de uma “cidadania madura, a qual é um pré-requisito para a China avançar na direção de uma sociedade civil”. Zhang Jiang, professor de Comunicação e Jornalismo Internacional da Universidade de Estudos Internacionais de Pequim, classifica o movimento de uma “revolução”, mas ressalta que ela não tem uma natureza política. Apesar disso, ele ressalta que será um enorme desafio para o governo se equilibrar entre essa nova forma de participação e a censura. “Eu diria que é uma das maiores dores de cabeça para as autoridades.”
A China tem a maior população de internautas do mundo _470 milhões_ e uma reserva de mercado levantada pela barreira da censura, em razão da qual sites como Facebook, Twitter e Youtube são inacessíveis no país. Nesse vácuo, empreendedores chineses criaram “clones” locais, muitos dos quais cresceram a ponto de entrar para o ranking das maiores empresas de internet do mundo. Apesar de todas serem companhias privadas, seus donos juram fidelidade ao Partido Comunista e compareceram em massa a um evento realizado dia 8 de junho para celebrar os 90 anos da organização.
Entre os 80 executivos do setor que participaram da “Gloriosa Excursão Vermelha” estava Li Yanghong, 42, o homem mais rico da China e fundador do site de buscas Baidu, a versão chinesa do Google. O Baidu está em sexto lugar no ranking dos sites mais visitados do mundo da consultoria Alexa, atrás de Google, Facebook, Youtube, Yahoo! e Live. Com uma fortuna de US$ 9,4 bilhões, Li é o que está de roupa caqui, sorridente e agitando uma bandeira vermelha na foto abaixo.
Outro que participou da celebração foi Cao Guowei, CEO da Sina, o principal portal de notícias e entretenimento, que abriga o clone chinês do Twitter, conhecido por Weibo (que significa microblog). Com 95% de seus usuários dentro da China, o Weibo deverá lançar um serviço em inglês para concorrer com o Twitter. Resta saber se usuários fora da China serão atraídos por um site tão intimamente relacionado ao Partido Comunista, cujo desprezo pela liberdade de expressão é notório.
O destino da peregrinação era o lugar onde em 1921 ocorreu o primeiro congresso da organização, em Xangai. Hoje, a antiga casa faz parte de um complexo de bares, restaurantes e lojas que estão entre os mais caros da cidade e são frequentados principalmente por estrangeiros e os emergentes chineses, em um dos inúmeros paradoxos do modelo comunista local.
Donos de empresas que estão sujeitas à estrita censura de Pequim, os milionários da internet chinesa não só aceitam as regras do jogo como reverenciam _pelo menos em público_ o Partido Comunista. Eles sabem que suas companhias podem ser fechadas sem aviso prévio, caso os mandarins comunistas considerem que elas ultrapassaram os limites oficiais do que pode ou não ser divulgado online _a demarcação desse território é fluida e é definida diariamente por orientações do Ministério da Propaganda para toda a mídia do país.
O evento também deixa claro que nenhum setor da economia da China está imune à influência e aos vínculos com o Partido Comunista. Abaixo estão algumas fotos da celebração divulgadas pela revista Caixin, uma das mais independentes da China. A seguir eu reproduzo reportagem que escrevi para o Estado sobre as gigantes da internet chinesa, pouco conhecidas no exterior, mas cujos nomes serão cada vez mais familiares.

O dono do Baidu, Li Yanghong (de caqui), e o CEO da Sina, Cao Guowei (à sua esquerda), na frente da casa onde ocorreu o primeiro congresso do Partido Comunista chinês
Clones chineses estão entre as maiores empresas da internet do mundo
Cláudia Trevisan
Correspondente
Pequim
O mapa luminoso da presença global do Facebook mostra uma mancha negra sobre a China, onde a mais célebre rede social da internet é bloqueada, assim como Youtube e Twitter. Mas isso não significa que a maior população online do planeta está fora do universo dos microblogs, games e redes virtuais de amigos.
Dentro da invisível Grande Muralha de Fogo levantada pela censura chinesa surgiram algumas das maiores empresas de internet do mundo, que começam a rivalizar com os originais que clonaram, tanto em valor de mercado quanto em número de usuários.
O serviço de mensagens instantâneas QQ tem apenas 5% de seus clientes fora da China, mas a audiência doméstica é suficiente para colocá-lo em 10˚ lugar no ranking dos sites mais visitados do mundo elaborado pela empresa de consultoria Alexa, uma posição acima do MSN da Microsoft.
Na origem do sucesso do QQ estão os 477 milhões de usuários da internet na China, quase o dobro dos 250 milhões existentes nos Estados Unidos. Em poucos anos, a população online do país asiático será o triplo da norte-americana, estima Duncan Clark, da empresa de consultoria BDA China. “O centro de gravidade da internet está mudando”, observa.
QQ é a face mais popular da Tencent, a maior companhia de internet da China e a terceira do mundo em valor de mercado, com US$ 52 bilhões, abaixo apenas do Google (US$171,2 bilhões) e Amazon (US$ 89,9 bilhões) _se o Facebook tivesse ações em Bolsa quase certamente estaria à frente da empresa chinesa.
O consultor Bill Bishop, editor do site Digichina, acredita que a internet representa o maior segmento da economia chinesa que não está nas mãos do Estado. Todas as líderes são empresas de capital privado com ações nas Bolsas de Valores de Nova York ou Hong Kong _nenhuma tem papeis negociados na China.
Entre as 12 representantes chinesas que apareceram na lista BrandZ das 100 marcas mais valiosas do mundo divulgada no início de maio, só duas não eram estatais: Baidu e Tencent, ambas do setor de internet.
Elaborado pela agência Millward Brown Group, o ranking estimou o valor da marca Baidu em US$ 22,56 bilhões, alta de 141% em relação ao ano anterior, o que elevou a grife chinesa ao segundo lugar entre as de mais rápido crescimento do planeta, atrás apenas do Facebook.
O vigor da internet também se reflete na lista dos chineses mais ricos elaborada pela Forbes. O primeiro lugar de 2011 é ocupado por Li Yanghong, 42, o fundador do Baidu. Também conhecido como Robin Li, ele é dono de uma fortuna de US$ 9,4 bilhões _o que o colocou em 95˚ lugar no ranking global da Forbes. O criador da Tencent, Ma Huateng, 39, aparece na 10ª posição entre os chineses endinheirados, com US$ 5 bilhões.
Idealizada para controlar a informação e barrar o que é considerado contrário aos interesses do Partido Comunista, a censura acabou funcionando como uma reserva de mercado, que permitiu o desenvolvimento dos sites chineses sem a ameaça de concorrência externa.
Mas a proteção não é o único fator que explica o sucesso de alguns deles. O Baidu já era o líder do mercado de buscas online antes de o Google decidir transferir para Hong Kong o seu site chinês, em março de 2010, em razão da intensificação da censura.
De qualquer maneira, a saída de campo de seu principal competir elevou a fatia de mercado do Baidu de pouco mais de 60% para cerca de 80%. Nesse mesmo período, o preço de suas ações na NASDAQ teve alta de quase 150%, o que jogou o valor de mercado da empresa para US$ 47,4 bilhões, mais que o dobro dos US$ 21,3 bilhões do Yahoo!.
O Baidu está em sexto lugar no ranking dos sites mais visitados do mundo da Alexa, atrás de Google, Facebook, Youtube, Yahoo! e Live.
Os campeões da internet chinesa só conseguiram prosperar porque se sujeitaram aos estritos limites estabelecidos pelo Partido Comunista, que os transformam em agentes executores da censura.
Os sites são responsáveis por impedir que cheguem a seus portais todas as informações vetadas pelas autoridades de Pequim. A lista do que é proibido tem temas permanentes, como independência do Tibete, e outros que mudam de acordo com as circunstâncias.
Diariamente, a relação do que está vetado é distribuída pelos censores de Pequim. Jasmim, nome do chá mais popular da China, foi banido desde que foi vinculado à Revolução do Jasmim que derrubou o governo da Tunísia em janeiro.
O agravamento da censura, a crescente dificuldade para atuar no país e o ataque de seu site por hackers foram os argumentos utilizados pelo Google para justificar a transferência de sua operação em chinês do continente para Hong Kong. Na China, o Google era obrigado a praticar a autocensura, como todos os demais sites registrados no país.
Diante da barreira à entrada de empresas estrangeiras no país, a compra de ações em Bolsa ou a aquisição de participação direta no capital das empresas chinesas se transformaram nos únicos caminhos pelos quais os investidores podem apostar no boom da internet na China. E muitos estão se jogando nesse mercado sem saber se serão salvos por uma rede de proteção.
O site de relacionamento Renren, a versão chinesa do Facebook, conseguiu levantar US$ US$ 743,4 milhões na Bolsa de Nova York no início deste mês, dez vezes mais o seu faturamento de 2010. As ações perderam 24% desde então, mas estão em patamar suficiente para dar à companhia um valor de mercado de US$ 5,4 bilhões. “O Renren é pequeno e isso certamente é uma bolha”, afirma Clark, da BDA.
Huang Yikai, 29, publicou 1.400 posts nos últimos cinco meses no Weibo, o serviço de microblog do portal Sina que é a mais popular versão chinesa do Twitter, com 140 milhões de usuários registrados. “Todos os dias eu estou conectado ao Renren e ao Weibo, que são parte da minha vida cotidiana”, disse Huang, que há nove anos também é usuário ativo do serviço de mensagens instantâneas QQ.
Como alguns dos jovens urbanos chineses, Huang possui ainda contas no Facebook e no Twitter, as quais acessa graças ao uso de VPN (Virtual Private Network), ferramenta que permite aos internautas burlarem a censura e abrirem sites bloqueados. Mas a maior parte de seus contatos online se dá por meio dos sites chineses, onde seus amigos estão e que “falam” o seu idioma.
Segundo Huang, a grande desvantagem dos portais locais é a censura imposta pelo governo. “Saber que todo o conteúdo que eu publico está sujeito a controles prévios me faz sentir mal”, afirma. “A única vantagem é que os sites refletem minha rede social, já que muitos de meus amigos também os utilizam.”
A censura chinesa se intensificou nos últimos dois anos, mas isso não impediu a explosão dos microblogs, que se transformaram em um amplo espaço de troca de informações, do qual não estão ausentes críticas ao governo e denúncias de abusos de poder.
A linha que não pode ser ultrapassada é a que separa a manifestação de opiniões do uso da internet como uma ferramenta de organização, à exemplo do que ocorreu com as mídias sociais nos protestos que desafiam regimes autoritários no mundo islâmico desde o início deste ano.
O governo reagiu com violência à tentativa de reprodução de manifestações semelhantes na China, convocadas por mensagens anônimas que circularam em sites bloqueados no país. Dezenas de pessoas foram presas, algumas das quais acusadas de subversão por retransmitirem a chamada para os protestos.
Mesmo dentro desses limites, há espaço para debates, potencializado pelo fato de que é possível colocar muito mais informação nos 140 “toques” do microblog em mandarim do que no alfabeto romano _cada caractere equivale a cerca de quatro a cinco letras.
“O Weibo surpreende mais pelo que é publicado do que pelo que é proibido. Há muito mais discussões e críticas do que se supõe”, ressalta Bill Bishop, editor do site Digichina.
Para quem quiser saber mais sobre o mundo da internet na China, aí vai o link para minha reportagem sobre o assunto publicada no Estado de hoje:
http://digital.estadao.com.br/download/p…
As autoridades chinesas lançaram mão de artilharia pesada para bloquear a segunda tentativa de organização de protesto contra o governo convocada anonimamente pela internet. Centenas de policiais uniformizados e à paisana ocuparam hoje a área ao redor do ponto de encontro da manifestação em Pequim, onde no fim da semana surgiu um inesperado canteiro de obras.
Até limpadores de rua armados de vassouras foram mobilizados para literalmente “varrer” os que conversavam em pequenos grupos, com o objetivo de evitar aglomerações. Em alguns momentos, a violência imperou: jornalistas foram presos e um correspondente da Bloomberg foi espancado por quatro policiais à paisana.
O primeiro-ministro Wen Jiabao também entrou em campo para sufocar o protesto antes que ele nascesse e realizou um chat de duas horas com internautas do país, no qual prometeu combater a inflação e a alta do preço dos imóveis, dois dos principais focos de insatisfação no país.
O local escolhido pelos autores da convocação era o mesmo do protesto fracassado do domingo anterior: o calçadão em frente à loja do McDonald´s da Wangfujing, uma das mais movimentadas ruas de comércio de Pequim, localizada a pouco mais de um quilômetro da Praça Tiananmen.
Vários policiais à paisana estavam dentro e na frente do McDonald´s no início da tarde, fotografando e filmando os que passavam pelo lugar. Às 14h, horário marcado para a manifestação, a porta principal da loja foi fechada e varredores e policiais entraram em ação para impedir aglomerações do lado de fora.
Vários jornalistas estrangeiros tiveram que apresentar identificação em barreiras policiais nas ruas de acesso à Wangfujing. No sábado, os correspondentes receberam telefonemas de funcionários do governo alertando-os de que deveriam obedecer à regulamentação sobre a atuação de jornalistas estrangeiros no país, apesar de não haver nela nada que impeça a cobertura de eventos em locais públicos e a realização de entrevistas com o consentimento do entrevistado.
Era impossível saber quem estava na Wangfujing com a intenção de participar da manifestação e quem apenas passeava no domingo de inverno. Pouco depois das 14h30, a polícia bloqueou várias ruas de acesso ao local, evacuou a rua e determinou o fechamento dos shoppings centers e lojas, onde turistas e visitantes ficaram presos enquanto a tropa de choque marchava do lado de fora. O movimento voltou ao normal logo em seguida.
A polícia também ocupou a região de Xangai apontada como local de manifestação pela convocação anônima, que começou a circular em um site mantido por dissidentes chineses nos Estados Unidos. Segundo agências de notícias internacionais, pelo menos sete pessoas foram presas na cidade que é a mais rica da China.
As revoltas que derrubaram regimes autoritários no mundo árabe deixaram os líderes comunistas chineses em alerta contra qualquer movimento de contestação dentro do país.
As notícias sobre os movimentos na Tunísia, Egito e Líbia são controladas pelo governo e há censura sobre fóruns e microblogs que tentam discutir o assunto. Várias palavras relacionadas às rebeliões estão bloqueadas na internet, entre elas “jasmim”, nome de um dos mais populares chás da China. No sábado, a censura bloqueou o uso da palavra “amanhã” e hoje, a da palavra “hoje”.
Antes da primeira tentativa de protestos no domingo retrasado, o governo prendeu ou colocou sob vigilância policial cerca de 100 ativistas. Pelo menos cinco deles continuam detidos. Na semana passada, três pessoas foram acusadas de subversão por terem retransmitido a mensagem de convocação para a manifestação.
Sob o impacto da sucessão de revoltas contra regimes autoritários no mundo árabe, um dirigente do Partido Comunista chinês afirmou ontem que o governo de Pequim enfrenta um período turbulento de instabilidade doméstica, agravado pela atuação de “forças ocidentais hostis” que tentam interferir em assuntos internos da China e dividir o país.
Desde o fim da semana passada, vários líderes comunistas alertaram para o aumento de conflitos no país, defenderam uma melhor “gestão social” para administrá-los e ressaltaram a necessidade de intensificar a censura na internet. No sábado, o presidente Hu Jintao disse em seminário que reuniu toda a cúpula do Partido Comunista que a China ainda está em um estágio de desenvolvimento no qual “muitos conflitos” devem emergir e reconheceu que a capacidade do governo de solucioná-los continua “frágil”.
No dia seguinte, o ministro responsável pela segurança pública, Zhou Yongkang, defendeu no mesmo encontro a necessidade de solução dos conflitos em seu estágio inicial e bateu novamente na tecla de “melhor gestão social”.
Ontem, a revista Outlook Weekly, editada pela agência oficial de notícias Nova China, trouxe declarações do vice-secretário-geral do comitê de assuntos políticos e legislativos do Partido Comunista, Chen Jiping, segundo o qual os conflitos que “afetam a estabilidade social” continuarão a existir no futuro previsível.
Segundo Chen, “forças ocidentais hostis” usam o pretexto de defesa de direitos para interferir em assuntos internos da China e criar novos incidentes. O dirigente também ressaltou a necessidade de resolver os conflitos em seu estágio inicial e disse que o governo passará a avaliar seus projetos e políticas não apenas sob a ótica econômica, mas levando em consideração seu impacto sobre a estabilidade social.
Nas declarações tornadas públicas pela imprensa oficial chinesa, nenhum dos dirigentes fez referência aos protestos pró-democracia no mundo árabe, que já levaram à queda dos governos da Tunísia e do Egito. Mas desde o início das manifestações, em janeiro, a apreensão dos líderes comunistas foi evidencia pela censura na internet a termos relativos às demonstrações e o estrito controle da cobertura dos eventos. No mesmo discurso de sábado, Hu Jintao disse que o governo deve aumentar o controle sobre a “sociedade virtual” com o objetivo de melhor “guiar a opinião pública” na internet _eufemismo para a censura.
A China tem um dos mais sofisticados mecanismos de controle das informações online e todos os sites que tiveram papel relevante na organização de manifestantes no Egito são bloqueados no país, incluindo Facebook, Twitter e Youtube. Muitos chineses usam ferramentas tecnológicas para contornar a censura e ter acesso a endereços vetados pelo governo. Algumas dezenas de ativistas têm contas no Twitter, por exemplo, mas o número de internautas que consegue escalar a Grande Muralha de Fogo da censura é bastante reduzido.
Diante da ampliação das possibilidades de furo do bloqueio erigido pelo governo, o criador da Grande Muralha de Fogo, Fang Binxing, afirmou na sexta-feira que o mecanismo precisa ser aperfeiçoado para impedir o surgimento de brechas e fechar as já existentes. Fang admitiu em entrevista a um jornal oficial chinês que utiliza seis diferentes VPNs (Redes Virtuais Privadas, na sigla em inglês), um dos mais populares mecanismos para escapar da censura. Mas ressaltou que só lança mão da ferramenta para “testar qual lado ganha”.
A apreensão dos líderes chineses aumentou no fim de semana, com a convocação anônima para um protesto inspirado nas manifestações dos países árabes. O apelo para uma “Revolução do Jasmim” chinesa teve pouca repercussão, tanto pela censura quanto pela ausência da mesma disposição de questionar o regime vista em países como Tunísia, Egito e Líbia.
Mesmo assim, o governo agiu de maneira preventiva e colocou na prisão ou sob vigilância policial quase 100 ativistas, quase todos sem nenhuma relação com a convocação, que se originou em um site baseado nos Estados Unidos.
A maioria dos comentários deixados pelos leitores em posts sobre a China tem caráter extremo e professa o amor ou o ódio incondicional ao país. Mas a realidade chinesa é multifacetada e merece uma abordagem muito mais ponderada.
A transformação que o país viveu nos últimos 30 anos não tem paralelo na história da humanidade por sua rapidez e abrangência. O país empobrecido e isolado do mundo se integrou à globalização e desenhou uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, o que garantiu um invejável crescimento médio anual de 9,6%. Graças a ele, 500 milhões de pessoas deixaram de viver abaixo da linha da pobreza e a China se tornou a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
O espaço da liberdade individual também se ampliou, com a redução da interferência do Estado na vida privada dos cidadãos. Há menos de 20 anos, os chineses tinham que ter autorização da empresa estatal onde trabalhavam para viajar, casar ou se divorciar. Hoje, podem viajar sem restrição, dentro e fora do país, e gerenciar sua vida amorosa da maneira que considerarem mais adequada. A tolerância ao debate de ideias e opiniões também se ampliou.
Mas o país avançou muito pouco do ponto de vista de instituições que garantam liberdades civis aos chineses. O Partido Comunista continua a estar acima da lei e não existem canais pelos quais os cidadãos possam defender o que vêem como seus direitos. Há uma brutal desconfiança da população em relação aos ocupantes de cargos públicos nas províncias e nos municípios, vistos como corruptos e mancomunados com o poder econômico. Não por acaso, há inúmeros casos de ataques de fúria da população contra edifícios e funcionários do Estado ou do Partido. Diante da inexistência de canais institucionais para a solução de conflitos e proteção de direitos individuais, a violência é vista como a única opção disponível.
O mais preocupante é que a repressão e o autoritarismo do Partido se acentuaram nos últimos três anos e a condenação do dissidente Liu Xiaobo a 11 anos de prisão em 2009 é um dos reflexos desse movimento. Vencedor do Prêmio Nobel da Paz anunciado na sexta-feira, Liu pedia justamente a criação de um Estado de Direito, no qual nenhuma instituição esteja acima da lei.
Liu está longe de ser o único crítico do regime a estar na prisão. Há centenas de outros, condenados por “juízes” sujeitos ao Partido em julgamentos que não obedecem aos requisitos mínimos do devido processo legal.
A maioria esmagadora da China não conhece os nomes desses ativistas, incluindo o de Liu Xiaobo, porque a censura barra a menção a eles na imprensa do país. E nos últimos anos, o controle sobre a informação se acentuou em vez de arrefecer.
Essa realidade não pode ser ignorada, mesmo pelos que admiram a transformação experimentada pelo país nas últimas três décadas. E jogar luz sobre esses problemas não faz parte de nenhuma conspiração internacional mirabolante em favor do imperialismo ianque.
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