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Cláudia Trevisan

Mesmo em um país onde o governo defende abertamente a censura e o controle da imprensa, é chocante a afirmação do novo presidente da poderosa rede estatal de televisão CCTV, Hu Zhanfa, de que os jornalistas são “operários da propaganda”. Segundo ele, os que se consideram “profissionais” são vítimas de um erro fundamental sobre suas próprias identidades.

O governo chinês investe milhões de dólares no desenvolvimento e internacionalização de seus meios de comunicação, mas é cada vez mais claro que a independência jornalística não integra os planos do Partido Comunista. “ A primeira responsabilidade e ética profissional do pessoal de mídia deve ser entender o seu papel de maneira clara e ser um bom porta-voz”, afirmou Zhanfa, em declarações reproduzidas pela agência oficial de notícias Xinhua. Apesar de terem sido divulgadas em maio, as posições só ganharam destaque ontem, quando um link para o texto da Xinhua foi publicado no Weibo, a popular versão chinesa do Twitter, com cerca de 200 milhões de usuários.

O post gerou uma onda de críticas a Zhanfa, com milhares de internautas atacando a inexistência de uma imprensa independente na China. Grande parte da população do país vê com descrédito o que é veiculado nos meios oficial e confia mais no que lê na internet. O novo presidente da CCTV se encarregou de agravar a falta de credibilidade. Zhanfa ressaltou que os veículos de comunicação devem ser dirigidos por políticos _leia-se membros do Partido Comunista_ e que os jornalistas que não cumprirem seu papel de “porta-vozes” nunca irão longe.

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Desde o dia 1˚ de agosto, um dos painéis luminosos da Times Square, em Nova York, estampa o nome da agência oficial de notícias da China, a Xinhua, no mais ostensivo símbolo do processo de internacionalização da mídia controlada por Pequim, que está levando à abertura de escritórios em todo o mundo e à multiplicação das línguas em que as informações são veiculadas. Mais do que retorno financeiro, o objetivo primordial da ofensiva é combater a suposta visão anti-China da imprensa ocidental, fortalecer o incipiente ‘soft-power’ chinês e veicular a posição do Partido Comunista em relação a temas domésticos e internacionais.

Além da Xinhua, os atores principais desse movimento são jornais em inglês, a Rádio Internacional da China e a rede estatal de televisão CCTV, que os propagandistas de Pequim sonham em transformar na versão chinesa da CNN. A emissora inaugurou no fim de 2010 um escritório em São Paulo, que terá a missão de coordenar sua atuação na América Latina, mas o projeto de lançar um canal em português _anunciado em 2009_ continua sem prazo definido.
A CCTV já tem canais em inglês, árabe, espanhol, francês e russo e correspondentes em 50 locais, que se reportam a escritórios centrais na Ásia-Pacífico, Oriente Médio, África, Europa, América do Norte, Rússia e América Latina _que é o de São Paulo.

“A China está competindo com os Estados Unidos não só em termos de desenvolvimento econômico, mas também na construção de imagem e na tentativa de definir a agenda internacional”, diz Li Xiguang, diretor do Centro de Pesquisa em Comunicação Internacional da Universidade Tsinghua. Segundo ele, a China é um dos únicos países além dos Estados Unidos que ostensivamente busca construir uma rede global de mídia para consumo de estrangeiros. Impulsionando esse movimento está a convicção de Pequim de que a imprensa estrangeira não reporta de maneira “justa e precisa” os fatos que ocorrem no país, especialmente nas áreas de desenvolvimento político e social, afirma Li. “A mídia ocidental ainda olha a China como olhava a União Soviética e ainda possui uma espécie de mentalidade da Guerra Fria.”

Ming Anxiang, do Instituto de Jornalismo da Academia Chinesa de Ciências Sociais, observa que o processo de expansão internacional da mídia chinesa ainda está no primeiro estágio, de construção da infraestrutura, por meio da abertura de escritórios e contratação de jornalistas. A segunda fase será a do fortalecimento do “soft-power”, com aumento da audiência e da influência dos veículos chineses.

Nesse processo, o maior desafio será a conquista de credibilidade, já que a mídia controlada por Pequim é frequentemente vista como um instrumento de propaganda oficial, mais do que de informação. No livro “Marketing Dictatorship”, a professora neozelandesa Anne-Marie Brady ressalta que o objetivo do Partido Comunista é transformar a CCTV em uma versão chinesa da CNN, com abrangência global e notícias 24 horas por dia. A diferença entre ambas, ressalta, é o fato de a CCTV ser porta-voz do governo chinês em questões internacionais e do Partido nos temas domésticos. “A rede ganhou recursos substanciais em termos de equipamentos, mas não tem nenhuma independência editorial. Os jornalistas estão sob constante pressão para apresentarem uma visão positiva da China”, escreve Brady no livro, no qual mapeia a máquina de propaganda controlada por Pequim.

A expansão internacional da mídia oficial chinesa ganhou velocidade em 2009, quando a imprensa ocidental enxugava custos sob o impacto da crise econômica iniciada no ano anterior. Naquela época, jornais de Hong Kong divulgaram reportagens segundo as quais Pequim havia aprovado um plano de 45 bilhões de yuans (US$ 7 bilhões) para a globalização de sua imprensa. A informação foi contestada pelas autoridades chineses, mas o ritmo de crescimento da mídia oficial além das fronteiras chinesas se acelerou desde então.

Em discurso proferido em janeiro de 2009, o ministro da Propaganda, Liu Yushan, enfatizou a relevância desse movimento: “Fazer com que a nossa capacidade de comunicação se equipare ao nosso status internacional se tornou uma missão estratégica urgente. Nessa era moderna, aquele que domina as técnicas avançadas de comunicação, a poderosa capacidade de comunicação e cuja cultura e valores são mais amplamente divulgados é capaz de influenciar o mundo de maneira mais efetiva”.

A chegada da Xinhua ao coração de Nova York é o principal símbolo dessa expansão. A agência oficial de notícias do governo chinês não está presente na Times Square apenas no painel luminoso: desde maio, seu escritório norte-americano funciona no local, que também é o endereço de ícones da imprensa ocidental, como o The New York Times e a Reuters. Com 16 mil funcionários e presença em 130 países, a Xinhua criou em 2009 uma TV online em inglês, a China Network Corporation (CNC), que Pequim pretende transformar em uma emissora de influência global até 2020, com a criação de canais em francês, japonês, espanhol, russo, árabe e português.

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A já baixa credibilidade da rede estatal chinesa CCTV foi abalada ainda mais na semana passada, quando reportagem sobre um novo jato do Exército de Libertação Popular foi ilustrada com imagens do filme “Top Gun”, o sucesso hollywoodiano de 1986 que transformou Tom Cruise em uma celebridade global.

 A cena que supostamente seria protagonizada pelo caça chinês J-10 mostra o disparo de um míssel durante um vôo e a subsequente destruição de outro jato, que explode de maneira espetacular no ar. Talvez excessivamente espetacular. Alguns atentos integrantes da legião de 457 milhões de internautas chineses identificaram a semelhança entre a explosão e uma cena de “Top Gun” e o caso se espalhou pelos fóruns online e microblogs do país.

 Apesar do enorme constrangimento provocado pela revelação, a CCTV não se desculpou nem se manifestou sobre o assunto. Apenas retirou a reportagem de seu site. Mas antes disso, ela já havia sido copiada por internautas. A situação é mais embaraçosa porque a China está em uma campanha contra a publicação de noticias supostamente falsas, que já levou ao afastamento de jornalistas por falhas muito menos graves e é vista por entidades em defesa dos direitos humanos como mais um instrumento a serviço da censura e do controle da informação.

 Aqui vocês podem ver a comparação entre o filme e a reportagem da CCTV feita pelo Wall Street Journal.

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