ir para o conteúdo
 • 

Cláudia Trevisan

Tradicionalmente pessimista em relação à China, o norte-americano Michael Pettis acredita que o país vai desacelerar de maneira “dramática” depois de 2013, para inimagináveis 3%. Mas mesmo que isso não ocorra, ele afirma que haverá queda na demanda por commodities não-alimentícias, em razão do inevitável processo de correção dos profundos desequilíbrios da economia chinesa, que se manifestam no excessivo investimento e anêmico consumo. Para o Brasil, a mudança é crucial, já que pode afetar as vendas de minério de ferro, o principal produto de exportação nacional, com embarques de US$ 18,38 bilhões nos primeiros seis meses de 2011 _quase metade dos quais destinados à China. A cifra correspondeu a 15,6% das vendas totais do país, bem à frente do segundo colocado, o petróleo, com 8,50% no mesmo período.

Segundo Pettis, o boom de investimentos que alimenta a expansão chinesa aprofunda os desequilíbrios e é insustentável em razão do alto endividamento que gera. “Todos os países com crescimento milagroso amparado em investimentos tiveram um problema de dívida, sem exceção”, ressalta o economista, que apresentará sua visão do relacionamento Brasil-China no congresso internacional que a BM&FBovespa realiza nesta semana em Campos do Jordão. Caso o consumo realmente cresça e leve ao aumento da demanda por comida, isso poderá amenizar o impacto sobre o Brasil, que poderia expandir suas exportações de commodities alimentícias, diz Pettis. A seguir, trechos da entrevista, concedida em um café no bairro universitário de Pequim:

Qual seu cenário para a China?
Eu acredito que a China vai desacelerar de maneira dramática, para 3%. Mesmo que o crescimento fique em 9%, no que eu não acredito, o ritmo do investimento vai ter de diminuir de maneira significativa e ser substituído pela expansão no consumo, no processo de rebalanceamento da economia.
Se houver a substituição do investimento pelo consumo, isso terá grande impacto sobre o Brasil. Quando os chineses consumirem, eles vão comprar roupas, ir a restaurantes, consumir serviços de saúde e construir menos metrôs e prédios. Eu acredito que a demanda total vai cair muito, mas mesmo que ela permaneça a mesma, ela vai mudar de bens de investimentos para bens de consumo. Portanto, a demanda por commodities não-alimentícias, como minério de ferro e cobre, vai cair de qualquer maneira.

Qual o horizonte de tempo desse cenário?
A maioria dos economistas acredita que não veremos mudança significativa até que a nova geração de líderes assuma o poder, em 2013. Mas a transformação ocorrerá quando eles alcançarem consenso sobre a necessidade de realizá-la, o que pode demorar mais tempo. Quanto mais eles demorarem, mais difícil será o ajuste, porque o nível de endividamento será mais elevado. Nós todos esperamos que ocorra rapidamente, porque será menos doloroso, mas quando ele ocorrer o crescimento vai desacelerar de maneira significativa.

O agravamento da crise nos EUA e na Europa aumentou a pressão sobre a China para reequilibrar sua economia?
Sim. Nos anos 70, os Estados Unidos e a Europa tiveram uma crise e o Brasil, não. Graças à reciclagem de petrodólares houve um enorme aumento dos investimentos e um boom no preço de ativos, o que atrasou o ajuste no Brasil. Mas isso se tornou insustentável quando os níveis de endividamento ficaram muito altos. Nós vamos ver a mesma coisa [na China]. Essa conversa sobre descolamento dos BRICS não faz sentido. É a mesma conversa que existia nos anos 70, de que os LDC [países menos desenvolvidos, na sigla em inglês] estavam se descolando. Eles não estavam. O impacto da crise nos países ricos foi retardado em razão do enorme boom em investimentos.

Mas por que a China vai desacelerar?
Porque o que está promovendo o crescimento também está agravando os desequilíbrios. O consumo está aumento muito lentamente, porque o rápido crescimento é gerado por transferências das famílias, por meio de baixos salários, baixa taxa de juros e moeda depreciada. Isso reduz o consumo e subsidia o crescimento, gerando dois grandes desequilíbrios. O primeiro é o fato de o consumo ser muito baixo em relação ao PIB e estar no patamar mais baixo que já vimos na história, de 34%. O crescimento chinês está sendo sustentado pelo superávit comercial _e com o mundo em uma situação difícil ele não pode continuar a crescer_ e investimento, mas o investimento tem sido mal alocado. Isso significa que a dívida está crescendo, o que gera um problema de sustentabilidade.
Por quanto tempo a China pode sustentar o aumento do débito? Eu não sei. Talvez 4 a 5 anos, no máximo, mas no fim eles estão caminhando para o mesmo problema de dívida que o Brasil enfrentou em 1981 e o Japão, no início dos anos 90. Os níveis de endividamento eram muito altos e não foi possível manter o modelo de crescimento baseado no investimento.

Mas eles têm dinheiro, não? Na década passada a China saneou seus bancos e retirou de seus balanços os créditos irrecuperáveis. Eles não podem fazer a mesma coisa agora?
Como eles fizeram isso? Com enormes transferências das famílias. No ano 2000, o consumo representava 46% do PIB, o que é bastante baixo, mas não sem precedentes. No ano passado, o percentual estava em 34% do PIB. Há uma relação entre as duas coisas. Quando eles retiraram dinheiro das famílias para sanear os bancos, eles reduziram o consumo. Mas agora o consumo das famílias já está tão baixo que não pode ser reduzido mais ainda.
Como eles vão limpar os bancos? Eles podem continuar a tirar dinheiro das famílias, mas se fizerem isso a China vai ficar ainda mais desequilibrada e mais dependente do superávit comercial _o que o mundo não pode absorver_ e de investimentos. Mas se o investimento está sendo mal alocado, quanto mais rapidamente ele cresce, mais rapidamente a dívida cresce. Eles podem continuar fazendo isso até que tenham um problema de endividamento, e isso vai ocorrer. Todos os países com crescimento milagroso amparado em investimentos tiveram um problema de dívida, sem exceção.

O que isso significa para países como o Brasil, que dependem da China em razão da exportação de commodities?
Mesmo que o crescimento chinês continue elevado, a taxa de investimento vai cair de maneira dramática e isso vai provocar queda no preço de commodities não-alimentícias. Se o consumo se expandir, o consumo de alimentos vai aumentar, na medida em que as pessoas terão mais dinheiro para comprar comida. Não há dúvida de que a demanda por commodities não-alimentícias vai cair de maneira acentuada nos próximos 4 a 5 anos. A grande questão é o que acontecerá com as commodities alimentícias. Se a China conseguir manter elevadas taxas de consumo, os alimentos não serão afetados de maneira dramática. Mas se a taxa de consumo também desacelerar, isso também afetará o preço dos alimentos. O Brasil exporta os dois tipos de commodities. As não-alimentícias serão afetadas dramaticamente e as alimentícias podem ou não ser afetadas.

Qual é a disposição da China de fazer o rebalanceamento, considerando o fato de que os desequilíbrios se agravaram nos últimos dois anos com a resposta do país à crise de 2008?
É muito difícil fazer o ajuste, porque ele significa menos crescimento e historicamente a maioria dos países não faz o ajuste enquanto podem adiá-lo. E quando você não pode mais adiar? Quando tem uma crise da dívida. Isso é o que ocorreu com a União Soviética, o Brasil, o Japão, os países do milagre asiáticos, todos os que tiveram rápido crescimento sustentado por investimentos. Eles mantiveram isso por muito tempo, até que uma crise da dívida os forçou a parar. O que esperamos é que a China pare antes da crise da dívida.

Muita gente acredita que as regras econômicas não se aplicam à China, que o país é diferente e pode fazer coisas que outros não conseguiriam. Por que a China precisa mudar agora se conseguiu manter seu modelo por tanto tempo?
Essa é uma velha crença. Nos anos 80 havia a crença de que o Japão não seguia ‘regras econômicas ocidentais’, seja lá o que isso signifique. Todo mundo ‘sabia’ que até o fim do século o Japão seria a maior economia do mundo. O debate não era se isso ocorreria, mas quando ocorreria. Nos anos 60 e 70, todo mundo ‘sabia’ que o Brasil nunca iria parar. Havia crescimento, crescimento, crescimento. Aconteceu a mesma coisa com os países do milagre asiático ou os Estados Unidos nos anos 20. Ninguém na década de 20 acreditava que os Estados Unidos teriam uma pequena recessão, muito menos a Grande Depressão.

Qual sua visão da economia mundial?
Bastante negativa. Não há fonte de demanda em nenhum lugar, a não ser por excesso de investimentos. E excesso de investimento não pode ser uma fonte saudável ou sustentável de crescimento. O excesso de investimento exacerba o ajuste inevitável. Nós temos 4 ou 5 anos muito difíceis pela frente.

As reservas internacionais de US$ 3,2 trilhões não podem ajudar a China a enfrentar uma eventual crise de dívida?
As pessoas que não entendem nada de reservas internacionais as veem como uma grande fortaleza. Quem entende, as veem como um dos problemas fundamentais da economia chinesa. O Banco do Povo da China não é rico e está provavelmente quebrado. Ele não detém reservas, ele compra reservas e as paga emprestando dinheiro. Ele tem US$ 3,2 trilhões em reservas, mas também tem US$ 3,2 trilhões em dívida. Quanto mais rapidamente as reservas crescem, mais difícil é administração da política monetária e mais excesso de investimento ocorre.

E há alguma maneira de a China parar de acumular reservas?
Sim, abrindo mão do superávit em conta corrente, o que eles não querem fazer. O superávit em conta corrente é alto porque a China produz mais do que consome. E a China consome pouco porque a renda das famílias é baixa, em parte por causa da moeda depreciada, em parte por causa do baixo ritmo de crescimento dos salários, mas principalmente pela baixa taxa de juros. Isso transfere recursos dos poupadores, que são as famílias, para emprestadores, que são as empresas estatais, os empreendedores imobiliários, os construtores de infraestrutura etc. Há muitas coisas que eles podem fazer, mas tudo isso diminui o crescimento. A razão pela qual a China está crescendo é a transferência das famílias que subsidiam o rápido crescimento.

A pressão pela valorização do yuan está crescendo e um número sem precedentes de acadêmicos chineses está pedindo mudanças no câmbio. Isso pode ocorrer?
O debate se arrasta há anos. As pessoas que entendem as razões do desequilíbrio na China sustentam há anos que os juros precisam subir e a moeda precisa se apreciar. Mas há setores muito poderosos da economia que resistem, como o setor exportador e os devedores. Quando existem distorções na economia por longo prazo, os setores que se beneficiam dessas distorções se tornam cada vez mais poderosos e são os que mais resistem à sua eliminação das distorções. É uma problema em todos os países. Os acadêmicos sabem há muito tempo que é necessário apreciar o valor da moeda, mas há oposição política muito forte dos que se beneficiam da moeda desvalorizada.

O ajuste chinês é necessariamente ruim para o Brasil?
Depende do horizonte de tempo. No curto prazo será muito ruim. Mas o que aconteceu nos últimos 10 a 20 anos no Brasil é o que o Brasil gastou grande parte dos anos 70 e 80 tentando reverter, que é a crescente dependência de commodities. Acreditava-se que o excesso de dependência das commodities era uma das fontes de fragilidade dos países em desenvolvimento e houve um esforço para diversificar além das commodities e criar uma fonte de crescimento mais equilibrada.
Se eles estavam certos _e eu acredito que estavam_, a queda no preço das commodities vai forçar o Brasil a reduzir o peso das commodities, o que será muito doloroso, mas necessário. A menos que você acredite que desta vez as pessoas que dizem que o preço das commodities nunca vai cair estão certas. E elas disseram isso muitas vezes nos últimos 200 anos e sempre estiveram erradas.

Muitos também dizem que a natureza das commodities mudou, que elas agregam tecnologia e estão mais sofisticadas.
Sempre disseram isso nos booms de commodities. Você não pode ter um boom de commodity sem pessoas dizendo ‘desta vez é sustentável’. O fato de que estão dizendo agora não muda nada. Nos últimos 200 anos, o preço médio de commodities sempre foi o mesmo. Nos anos 70, o preço real das commodities provavelmente era ligeiramente maior do que o atual.

comentários (20) | comente

Os US$ 3,2 trilhões de reservas internacionais acumuladas pela China se transformaram em um peso para o país, em razão de seu tamanho gigantesco e das poucas opções de investimentos disponíveis, afirma Li Xiangyang, diretor do Instituto de Estudos da Ásia-Pacífico da Academia Chinesa de Ciências Sociais, centro de pesquisas ligado ao governo. “O volume é tão grande que não importa onde e no que a China planeje investir, o risco será sempre muito grande”, disse Li em entrevista. O dilema chinês de como administrar essa montanha de dinheiro se tornou mais intenso depois que a agência de notícias Standard & Poors rebaixou a nota de crédito dos Estados Unidos, no último dia 5. “Nós sabemos dos riscos, mas não temos escolha, observou Li, em relação ao grande volume de títulos do Tesouro norte-americano detidos pela China _US$ 1,16 trilhão, o que coloca Pequim na condição de maior credor de Washington.

A saída para reduzir a dependência chinesa dos investimentos em dólares é mudar o modelo de desenvolvimento do país, com redução das exportações, aumento das importações e impulso à demanda doméstica. Outra medida defendida por Li é o abandono do uso do dólar como moeda de reserva global e restrições à capacidade do Federal Reserve de emitir moeda. Li acredita que a solução do dilema das reservas não está na apreciação rápida do yuan, que traria riscos consideráveis para o setor exportador. “Na história da China, nós sempre atingimos nossos objetivos gradualmente e não de maneira apressada.”

A seguir, trechos da entrevista:

As reservas internacionais se transformaram em um peso para a China?
Em certo sentido, elas são um peso. Em primeiro lugar, a segurança das reservas internacionais piorou. O volume é tão grande que não importa onde e no que a China planeje investir, o risco será sempre muito grande. Se as reservas são usadas para comprar moedas como dólar ou euro, a cotação dessas moedas sobe. Se forem usadas na compra de produtos como petróleo, o preço do petróleo também tem alta. Se a China comprar ou vender alguma coisa no mercado global, o preço vai subir ou cair.
Em segundo lugar, para evitar riscos financeiros, a China deveria diversificar seus investimentos em diferentes moedas, mas a grande quantidade de reservas faz com que o país tenha poucas opções e enfrente mais riscos. A mudança entre diferentes moedas também é muito difícil, porque grandes movimentos podem levar a flutuações no mercado internacional de moedas. Se a China vende dólares e compra euros, o dólar vai se desvalorizar e o euro, se apreciar.
Em terceiro lugar, o grande volume de reservas pressiona a inflação. De julho de 2010 até agora, as reservas aumentaram em US$ 800 bilhões e isso piorou a inflação doméstica. No modelo atual, o banco central tem que emitir renminbi [outro nome do yuan] para comprar moeda estrangeira das empresas [o que eleva a quantidade de dinheiro em circulação na economia].

Que lições a China tirou da crise em torno do aumento do teto da dívida dos Estados Unidos?
No curto prazo, ainda que a China tenha percebido o risco de tantos papeis da dívida norte-americana, é impossível mudar o grande percentual de ativos em dólares no total das reservas. Ficou claro depois dessa crise que os Estados Unidos podem sacrificar o interesse de seus credores em razão de interesses políticos. Portanto, a China enfrenta riscos ainda maiores. A elevação do limite de endividamento dos Estados Unidos indica que o dólar vai se depreciar e que a segurança dos ativos em dólar detidos pela China vai diminuir. A China está em um dilema. Nós sabemos dos riscos, mas não temos escolha.
O problema poderia ser resolvido por dois caminhos. Primeiro, nós precisamos reformar o sistema monetário internacional e reduzir a dependência do dólar. Isso significa que temos que mudar o cenário no qual o dólar funciona como uma moeda internacional, além de restringir a capacidade do Federal Reserve de emitir essa moeda internacional.
Segundo, nós precisamos diminuir o superávit comercial da China. Só dessa maneira nós podemos diminuir a dependência do dólar.

Mas é possível mudar o sistema monetário internacional em pouco tempo? Qual moeda deveria substituir o dólar?
É impossível resolver esse problema em curto prazo. É uma tarefa de longo prazo. A discussão em anos recentes é sobre o fortalecimento dos Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional e gradual redução da dependência do dólar. Essa é a razão pela qual eu acredita que o caminho é a redução do superávit primário e mudança do modelo de crescimento.

A China conseguirá deixar de acumular reservas sem mudar o sistema de câmbio que força o banco central a comprar dólares para evitar a apreciação do yuan?
Nós queremos reformar o regime de câmbio, mas não agora. O que podemos fazer é diminuir o superávit primário e controlar o fluxo de capital especulativo. Na história da China, nós sempre atingimos nossos objetivos gradualmente e não de maneira apressada.

O sr. disse que também é necessária a mudança no modelo de crescimento. O que isso significa?
Nos últimos seis meses, o crescimento das importações foi maior que o das exportações. No longo prazo, nós precisamos de tempo para mudar o modelo de crescimento baseado nas exportações. O 12˚ Plano Quinquenal [2011-2015] prevê o aumento do consumo doméstico. Todas as províncias elevaram o valor do salário mínimo e os investimentos na seguridade social aumentaram. Tudo isso cria um ambiente favorável ao aumento do consumo doméstico.
Se a China continuar a acumular reservas, existem opções viáveis de investimento além dos títulos do Tesouro norte-americano?
Esse é o dilema que enfrentamos agora. Nós queremos diversificar nossos investimentos, mas as opções são limitadas. Não temos escolha. No fim de 2010, por exemplo, o Japão ficou preocupado porque a China estava comprando seus títulos e provocando sua apreciação.

Por que é tão difícil para a China mudar seu regime cambial?
Por causa do modelo econômico tradicional. Nos últimos 30 anos, a China realizou sua abertura por meio das exportações e as exportações se tornaram um dos principais fatores de desenvolvimento do país. Se nós mudamos de maneira radical o regime de câmbio, a economia vai sofrer um baque severo, especialmente no momento em que as perspectivas para o futuro do mercado financeiro e a economia globais são bastante negativas.
A China conseguirá manter seu alto ritmo de crescimento em meio à desaceleração da economia global?
Esse é o maior desafio que o governo chinês enfrenta. A inflação em alta requer medidas de aperto monetário, mas as previsões para a economia global são pessimistas. Os responsáveis pela política econômica estão tentando encontrar um equilíbrio entre o crescimento e o combate à inflação.

comentários (13) | comente

A crise da dívida norte-americana deu um sentido de urgência ao projeto de reestruturação da economia chinesa e colocou no centro do debate a questão da apreciação do yuan, que deixou de ser um tabu e passou a ser defendida abertamente por inúmeros economistas, incluindo vários ligados ao governo.
A mudança no câmbio é considerada essencial para colocar fim ao processo de acumulação de reservas pela China, que já gerou uma montanha de US$ 3,2 trilhões, valor que supera todo o PIB brasileiro. A administração desses recursos se tornou delicada depois da redução da nota de crédito dos Estados Unidos pela agência de classificação de risco Standard & Poors, no dia 5 de agosto, e a perspectiva de desvalorização persistente da moeda norte-americana.

Pequim é o maior credor de Washington, com pelo menos US$ 1,16 trilhão em títulos do Tesouro. Analistas estimam que 70% dos US$ 3,2 trilhões de reservas estão investidos em ativos denominados em dólar, cujo valor relativo seria reduzido na hipótese de depreciação da moeda. Com o agravamento da crise da dívida na Europa, há poucas opções seguras e líquidas para a China aplicar sua crescentes reservas. A saída é reduzir seu ritmo de acumulação. Para que isso aconteça, é necessário que o banco central restrinja as compras de dólares, euros ou ienes que entram no país, movimento pelo qual evita a apreciação do yuan. A moeda mais valorizada diminuiria o superávit comercial, em razão da queda nas exportações e aumento das importações, o que também amenizaria a pressão sobre o banco central provocada pela entrada de recursos externos no país.

A especulação em torno do aumento no ritmo de valorização do yuan ganhou força no fim da semana, depois de o banco central ter empurrado a cotação em relação do dólar para patamares recordes por três dias seguidos. Na sexta-feira, o yuan chegou a alcançar 6,3890 por US$ 1,00, encerrando uma semana na qual a apreciação foi a maior desde que o governo voltou a permitir a alta da moeda, em meados de 2010. O Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, publicou texto na sexta-feira no qual cita “analistas” para dizer que a China aceitará uma apreciação mais rápida do yuan, medida que também levaria à redução no fluxo de capital especulativo para o país e facilitaria o combate da inflação.

A grande questão é o ritmo no qual a valorização ocorrerá. Tudo indica que Pequim manterá a opção pelo gradualismo, ainda que menos lento. O problema é que isso pode funcionar como estímulo para o aumento do fluxo de capital especulativo, já que os investidores apostariam na apreciação futura do yuan. Nesse cenário, as reservas continuariam a se acumular, pois haveria elevação da quantidade de recursos externos que entram na China. Outro dado que esquentou o debate foi o inesperado superávit comercial de US$ 31,5 bilhões de julho, o maior em dois anos. Para muitos, ele é um indício de que a China tem espaço para apreciar sua moeda mais rapidamente.

Dong Tao, economista-chefe para a Ásia (menos Japão) do Credit Suisse, afirma que os líderes chineses adotaram a decisão de internacionalizar o yuan depois da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. No início de 2009, o presidente do banco central, Zhou Xiaochuan, defendeu a substituição do dólar como moeda de reserva global e ampliação do uso do yuan fora das fronteiras do país. Essa mudança reduziria a dependência da China _e do mundo_ dos investimentos em dólar. Mas para que isso ocorra, o yuan tem de ser uma moeda conversível, o que é impossível dentro do regime de câmbio atual, determinado pelo banco central. Mas Dong ressalta que a mudança não pode ser feita rapidamente e continuará a obedecer ao ritmo ditado pelo governo chinês.

Zhang Lei, analista da Minsheng Securities em Xangai, defende a mudança no regime cambial como medida necessária para reduzir a pressão da acumulação de reservas e acelerar a transformação do modelo de desenvolvimento do país, com redução dos investimentos e aumento do consumo. Em entrevista ao Estado na semana passada, o diretor do Centro de Pesquisa em Reservas Internacionais da Universidade Central de Finanças e Economia de Pequim, Li Jie, afirmou que o rebaixamento dos EUA pela Standard & Poors colocou em xeque a arquitetura econômica internacional que prevaleceu na última década, pela qual a China poupava e os Estados Unidos gastavam. O câmbio desvalorizado era um dos elementos da equação, que permitia aos chineses exportarem para os norte-americanos, acumularem reservas e usarem esses recursos para financiar o déficit de Washington. “Esse modelo podia ser mantido enquanto os Estados Unidos provessem o mundo com débito seguro, mas isso deixou de existir”, disse Li, para quem a apreciação do yuan é essencial para mudança desse cenário.

comentários (34) | comente

A crise em torno do endividamento norte-americano e o rebaixamento da nota do país pela Standard & Poors evidenciaram a necessidade de a China transformar seu modelo de crescimento, o que implica mudança no regime de câmbio e apreciação do yuan, disse o diretor do Centro de Pesquisa em Reservas Internacionais da Universidade Central de Finanças e Economia de Pequim, Li Jie.
“Nós não podemos mais continuar a acumular reservas”, ressaltou Li. Para isso, a China tem de reduzir seu superávit externo, com aumento das importações e queda das exportações.
A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual o impacto da decisão da S&P para a China?
O maior impacto é sobre as reservas internacionais. A China é o país com o maior volume de títulos norte-americanos. Com o rebaixamento da dívida, deve haver elevação dos juros sobre a dívida americana, o que reduzirá o valor dos títulos detidos pela China. Eles vão em direções opostas.
Outro aspecto é o investimento futuro das reservas chinesas. O modelo de crescimento chinês depende das exportações e gera a acumulação de reservas. Se não mudarmos esse modelo, as reservas continuarão a aumentar e não há nenhum ativo financeiro líquido o bastante, grande o bastante e seguro o bastante no qual esses recursos podem ser investidos. Nós não podemos mais continuar a acumular reservas.

O que significa a mudança no modelo de crescimento?
Importar mais e reduzir o tamanho das exportações.

É possível fazer isso sem alterar o sistema de câmbio?
Não. O regime cambial tem de ser reformado, para permitir rápida apreciação do renminbi [outro nome do yuan]. Nós temos feito uma apreciação gradual, mas ela não é suficiente. Com a crise da dívida, nós temos que mudar isso.
Uma apreciação gradual pode deteriorar ainda mais o problema da acumulação de reservas, pois estimula a entrada de capital especulativo no país. A magnitude da apreciação tem que ser grande o bastante para desestimular esse fluxo de capital.

Há disposição política em Pequim para uma apreciação do renminbi?
Existe o temor de perda de empregos no setor exportador, mas esse modelo não é mais sustentável. Não há onde investir as reservas. Os Estados Unidos não podem mais sustentar um modelo baseado no consumo.

Isso significa que o modelo chinês baseado na poupança também não é mais sustentável, certo?
Nós temos discutido os desequilíbrios globais por longo tempo. Esse modelo podia ser mantido enquanto os Estados Unidos provessem o mundo com débito seguro [onde a poupança chinesa poderia ser investida], mas isso deixou de existir.
Toda a arquitetura econômica internacional tem que mudar. Esse é o momento para a China passar a consumir mais e os Estados Unidos pouparem mais.

comentários (4) | comente

A China emitiu nos últimos três dias sinais de que poderá permitir em breve a valorização do yuan em relação ao dólar, abandonando a cotação fixa que vigora há quase dois anos. Mas qualquer movimento será tímido e gradual. O assunto foi discutido hoje em reunião entre o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, e o vice-primeiro-ministro chinês Wang Qishan, responsáveis pelo Diálogo Estratégico Econômico entre os dois países. Geithner fez uma escala em Pequim na viagem de volta da Índia, onde estava em visita oficial.

A expectativa de mudança cambial levou os contratos futuros de yuan com prazo de 12 meses ao maior nível em 11 semanas. O valor projetado atingiu 6,6395 yuans por US$ 1,00, o que significa uma valorização de 2,9% em relação ao patamar atual.

A apreciação de 2,9% em um ano está bem distante do pelo menos 25% de apreciação que muitos congressistas norte-americanos consideram necessários para neutralizar o que consideram como vantagem indevida da China no comércio internacional.

Na terça-feira, o vice-diretor do Centro de Pesquisa em Desenvolvimento do Conselho de Estado, Ba Shusong, afirmou que a vinculação ao dólar em um patamar fixo foi uma medida transitória para enfrentar a crise financeira global e que o movimento de apreciação gradual seria retomado.

Segundo declarações de Ba divulgadas pelo Financial Times, as autoridades de Pequim deverão ampliar a banda na qual a moeda pode flutuar e permitir a sua apreciação lentamente. A China mudou seu regime de câmbio fixo em julho de 2005 e permitiu que o yuan valorizasse 20% em relação ao dólar até meados de 2008, quando interrompeu o movimento em razão da crise financeira global.

O primeiro indício de que a China pode estar pronta para mexer novamente no valor da moeda foi a decisão do Departamento do Tesouro norte-americano de adiar a divulgação de relatório que poderia classificar o país asiático de “manipulador do câmbio” _o que permitiria a imposição de barreiras na importação de produtos chineses para compensar a vantagem cambial.

O documento seria divulgado dia 15 de abril e o adiamento foi anunciado por Geithner no sábado, dois dias depois de os presidentes Barack Obama e Hu Jintao conversarem ao telefone durante uma hora. O recuo abriu caminho para Pequim manter as aparências e agir sem parecer que está cedendo à pressão externa, algo extremamente valorizado pelos dirigentes locais.

Geithner foi mais longe na terça-feira e declarou em entrevista a uma emissora de TV indiana que a decisão sobre a moeda é uma “escolha da China”. O secretário norte-americano ressaltou que a adoção de um regime de câmbio mais flexível atende aos próprios interesses do país asiático.

O adiamento da divulgação do relatório foi precedido da confirmação da presença de Hu Jintao na cúpula sobre segurança nuclear convocada por Obama para a próxima semana. Os dois presidentes terão encontro bilateral paralelo ao evento, no qual o norte-americano pretende levantar a questão da cotação do yuan.

“A administração vai continuara a pressionar a China a (…) definir o valor de sua moeda de uma maneira que seja mais baseada no mercado”, disse o secretário de imprensa da Casa Branca, Robert Gibbs nesta semana.

A maioria dos analistas espera que a China retome o movimento de apreciação do yuan em meados do ano, mas ninguém aposta em uma valorização expressiva no curto prazo. As previsões variam entre 4% e 6% até o fim de 2010. É pouco provável que uma apreciação nesse patamar neutralize as pressões dos congressistas norte-americanos para que o Tesouro tome providências em relação ao que consideram uma manipulação do câmbio para obtenção de vantagens comerciais, o que pode reacender o conflito entre os dois países.

comentários (3) | comente

O Banco Mundial elevou de 9,0% para 9,5% sua projeção de crescimento da China neste ano, ao mesmo tempo em que e defendeu a valorização do yuan em relação ao dólar e a elevação dos juros para conter expectativas inflacionárias, evitar a formação de bolhas de ativos e rebalancear a economia. Em sua avaliação trimestral sobre a China, a instituição ressaltou que a situação local é distinta à da maioria dos demais países e demanda uma política monetária mais apertada que a do ano passado, quando o volume de novos créditos dobrou em relação ao período anterior, para US$ 1,4 trilhão, o equivalente a 30% do PIB.

“A crise financeira mundial nos ensinou que a política monetária tem um papel central para evitar a criação de bolhas de ativos. A China tem condições de ter uma taxa de juros mais alta e a maior flexibilidade na taxa de câmbio ajudaria a reduzir o temor de aumento do fluxo de capitais para o país”, afirmou Louis Kuijs, economista-sênior do Banco Mundial em Pequim.

Depois da reforma do regime cambial em 2005, a China voltou a vincular a cotação de sua moeda ao dólar a partir de meados de 2008. Desde então, o yuan está estabilizado no patamar de 6,83 por US$ 1,00. A paridade com o dólar faz com que Pequim tenha que seguir a política monetária dos Estados Unidos, que está com juros extremamente baixos para enfrentar a queda na atividade econômica.

A China cresceu 10,7% no último trimestre de 2009 e fechou o ano com expansão de 8,7%, de longe o maior índice entre os grandes países. Apesar do aquecimento econômico, a China enfrenta restrições para elevar os juros, porque o movimento pode estimular a entrada de capitais no país, dificultando a manutenção do câmbio fixo. É por isso que o Banco Mundial defende a apreciação da moeda. “O fortalecimento da taxa de câmbio pode ajudar a reduzir as pressões inflacionárias e rebalancear a economia. Com o tempo, a maior flexibilidade cambial pode permitir que a China tenha uma política monetária independente das condições cíclicas dos Estados Unidos, o que é cada vez mais necessário”, observa o relatório trimestral divulgado ontem.

Pequim enfrenta pressão internacional crescente para apreciar sua moeda. Nesta semana, senadores norte-americanos apresentaram proposta de legislação que classifica a China como um país que manipula o câmbio para obter vantagens comerciais, o que abriria caminho para a imposição de sobretaxas na importação de seus produtos. Com isso, eles esperam neutralizar o que consideram como vantagem indevida das vendas chinesas.

Os críticos afirmam que a cotação do yuan é mantida artificialmente entre 20% e 40% abaixo do que seria o patamar correto, caso forças de mercados definissem o seu valor. A moeda depreciada aumenta a competitividade das exportações chinesas, na medida em que reduz os seus preços em dólares. O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, afirmou no domingo que o yuan não está depreciado e disse que seu valor será mantido em um patamar “estável”.

Os economistas do Banco Mundial não se referiram ao impacto do câmbio sobre as exportações e destacaram apenas os efeitos que uma moeda valorizada teria sobre a economia chinesa. “Se há inflação e fluxo de capitais, o fortalecimento da taxa de câmbio faz parte do arsenal para enfrentar esses problemas e também ajuda no objetivo de rebalancear a economia, na medida em que muda os preços relativos e cria incentivos para o consumo doméstico”, destacou Ardo Hansson, economista-chefe do Banco Mundial na China.

A instituição espera crescimento de 8,7% em 2011, mas ressalta que o país enfrenta riscos decorrentes da grande expansão monetária no ano passado. Os mais preocupantes são a alta do preço dos imóveis, que pode indicar uma bolha no setor, e a piora das finanças dos governos locais, em razão do grande volume de empréstimos contraídos em 2009 para construção de obras de infraestrutura.

Além de defender a alta dos juros, Kuijs ressaltou que o governo terá de ser estrito neste ano no cumprimento da meta de expansão do crédito em 7,5 trilhões de yuans (US$ 1 trilhão), para reduzir os riscos relacionados ao aumento da liquidez. O mercado imobiliário está “superaquecido”, na avaliação da instituição, e registrou alta de preços de 10,7% no mês de fevereiro, o mais elevado índice dos últimos dois anos.

Os economistas do Banco Mundial não consideram que a inflação seja um problema, apesar da alta de 2,7% no Índice de Preços ao Consumidor registrada em fevereiro. Segundo Kuijs, há capacidade ociosa no mundo, o que deve conter as remarcações de produtos manufaturados, enquanto as cotações das commodities não deverão ter elevação significativa em 2010 _o Banco Mundial prevê alta média de 5,3%, excluído o petróleo, cujo preço passaria de US$ 61,80 em 2009 para US$ 76,00 neste ano. (Este texto foi publicado na edição de hoje do jornal O Estado de S.Paulo)

comentários (7) | comente

Arquivo

Blogs do Estadão