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Cláudia Trevisan

A chamada por reformas radicais na China feita pelo Banco Mundial em conjunto com pesquisadores ligados ao governo de Pequim evidencia a percepção de que o ímpeto reformista que marcou os primeiros 25 anos da abertura do país foi gradualmente abandonado pela geração de líderes que chegou ao poder em 2003. Na opinião de muitos analistas, Hu Jintao e Wen Jiabao colheram os frutos de mudanças realizadas em décadas anteriores, entre as quais a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, que pavimentou o caminho para o país se tornar o maior exportador do mundo em 2010.

O grande salto da China rumo à globalização foi dado no período de Jiang Zemin e Zhu Rongji, o reformista que foi primeiro-ministro de 1998 a 2003. Além do ingresso na OMC, Zhu comandou o radical processo de reestruturação das estatais no fim da década de 90, que levou ao fechamento de milhares de grupos deficitários e levou à demissão de milhões de trabalhadores. Também deu início ao saneamento do sistema financeiro, que levou à abertura de capital das grandes instituições e à injeção de US$ 600 bilhões nos bancos estatais para livrá-los de uma montanha de créditos podres.

A crise que chacoalhou o mundo em 2008 fortaleceu a posição dos que resistem a mudanças adicionais, na medida em que colocou em xeque a receita de liberalização e desregulamentação prescrita pelo Ocidente. Os setores chineses que defendem o status quo acreditam que o Estado e o Partido Comunista devem sua posição proeminente na economia, que foi ampliada a partir de 2008 com o megapacote de estímulo que Pequim lançou para combater os efeitos da crise global.

As gigantescas empresas estatais dominam os setores considerados estratégicos pelo governo_ como petróleo, telecomunicações, eletricidade e aviação civil_ e seus dirigentes não aceitarão facilmente perder a posição privilegiada que ocupam hoje. Além disso, muitos dirigentes estão convencidos de que a debacle dos países ocidentais explicitou a superioridade do modelo chinês de capitalismo de Estado e são contra reformas que o transformem de maneira significativa.

O processo de tomada de decisões na China também deve dificultar qualquer tentativa de transformação pelos próximos dois anos e possivelmente em um período ainda mais longo. Apesar de serem a face visível do governo, o presidente e o primeiro-ministro não tomam decisões de maneira isolada e dependem do apoio de distintos grupos dentro do Partido Comunista, em uma árdua tarefa de construção de consensos.

O maior símbolo das limitações impostas aos líderes máximos do país é Wen Jiabao, o primeiro-ministro que é visto como um reformista, mas que conseguiu implementar muito pouco de sua agenda de mudanças nos nove anos desde que assumiu o cargo. Agora, é pouco provável que consiga qualquer avanço no ano que lhe resta como primeiro-ministro.
As recomendações do Banco Mundial e de pesquisadores do governo chinês pode ser vista em inglês aqui. E aqui está minha reportagem sobre o assunto publicada hoje no Estado.

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Poucos países possuem a mesma capacidade da China para desenvolver uma ampla rede de trens de alta velocidade. A maioria deles corre o risco de construir projetos que não trarão o retorno financeiro esperado, afirma o Banco Mundial em estudo sobre esse segmento do setor ferroviário chinês divulgado no mês passado.

Segundo os autores do texto, os governos que buscam o desenvolver linhas de alta velocidade devem considerar “a quase-certeza de copiosos e contínuos suportes orçamentários” da dívida criada para esse fim. Nações em desenvolvimento devem ter no mínimo 20 milhões de passageiros/ano com significativo poder de compra só para cobrir as despesas de operação e os custos financeiros do projeto. Para a recuperação do capital investido, o número deve ser o dobro, diz o documento.

Além disso, o estudo ressalta que as estimativas de movimento de passageiros costumam ser superestimadas. “Projetos de alta velocidade raramente alcançaram as projeções feitas por seus promotores e, em alguns casos, consideravelmente abaixo delas.”

O governo brasileiro afirma que o Trem de Alta Velocidade (TAV) que deverá ligar as cidades de Campinas, São Paulo e Rio terá movimento de 32,6 milhões de passageiros por ano e prevê que a cifra subirá a 46,1 milhões em 2024. A linha terá extensão de 518 km de extensão e consumirá investimento estimado em R$ 33 bilhões.

Os economistas do Banco Mundial que realizaram o estudo sustentam que o custo de construção de um sistema de alta velocidade só pode ser recuperado por meio do uso intensivo da capacidade criada. Outro risco é o atraso na conclusão das obras, o que cria pesado custo financeiro antes que o fluxo de caixa do projeto tenha início. “Internacionalmente, muitas linhas tiveram problemas e tiveram que reestruturar a dívida ou buscar recursos adicionais do governo.”

A China tem condições especiais, que permitiram a rápida expansão da malha de trens de alta velocidade, ressalta o Banco Mundial. Entre elas, estão a alta densidade populacional do leste do país, o rápido crescimento da renda e a proximidade entre muitas cidades com grande população.

A instituição acrescenta que nem todos os países podem reunir a escala de construção e o esforço coletivo mobilizado em razão da decisão política e econômica do governo em desenvolver esse setor. Até 2013, a China deverá adicionar à sua malha de alta velocidade cerca de 7.000 km de linhas para trens que andam a 350 km/h. Com isso, sua rede de alta velocidade será de 13.000 km, número que vai supera a soma da malha do mesmo tipo existente no restante do planeta.

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O Banco Mundial elevou de 9,0% para 9,5% sua projeção de crescimento da China neste ano, ao mesmo tempo em que e defendeu a valorização do yuan em relação ao dólar e a elevação dos juros para conter expectativas inflacionárias, evitar a formação de bolhas de ativos e rebalancear a economia. Em sua avaliação trimestral sobre a China, a instituição ressaltou que a situação local é distinta à da maioria dos demais países e demanda uma política monetária mais apertada que a do ano passado, quando o volume de novos créditos dobrou em relação ao período anterior, para US$ 1,4 trilhão, o equivalente a 30% do PIB.

“A crise financeira mundial nos ensinou que a política monetária tem um papel central para evitar a criação de bolhas de ativos. A China tem condições de ter uma taxa de juros mais alta e a maior flexibilidade na taxa de câmbio ajudaria a reduzir o temor de aumento do fluxo de capitais para o país”, afirmou Louis Kuijs, economista-sênior do Banco Mundial em Pequim.

Depois da reforma do regime cambial em 2005, a China voltou a vincular a cotação de sua moeda ao dólar a partir de meados de 2008. Desde então, o yuan está estabilizado no patamar de 6,83 por US$ 1,00. A paridade com o dólar faz com que Pequim tenha que seguir a política monetária dos Estados Unidos, que está com juros extremamente baixos para enfrentar a queda na atividade econômica.

A China cresceu 10,7% no último trimestre de 2009 e fechou o ano com expansão de 8,7%, de longe o maior índice entre os grandes países. Apesar do aquecimento econômico, a China enfrenta restrições para elevar os juros, porque o movimento pode estimular a entrada de capitais no país, dificultando a manutenção do câmbio fixo. É por isso que o Banco Mundial defende a apreciação da moeda. “O fortalecimento da taxa de câmbio pode ajudar a reduzir as pressões inflacionárias e rebalancear a economia. Com o tempo, a maior flexibilidade cambial pode permitir que a China tenha uma política monetária independente das condições cíclicas dos Estados Unidos, o que é cada vez mais necessário”, observa o relatório trimestral divulgado ontem.

Pequim enfrenta pressão internacional crescente para apreciar sua moeda. Nesta semana, senadores norte-americanos apresentaram proposta de legislação que classifica a China como um país que manipula o câmbio para obter vantagens comerciais, o que abriria caminho para a imposição de sobretaxas na importação de seus produtos. Com isso, eles esperam neutralizar o que consideram como vantagem indevida das vendas chinesas.

Os críticos afirmam que a cotação do yuan é mantida artificialmente entre 20% e 40% abaixo do que seria o patamar correto, caso forças de mercados definissem o seu valor. A moeda depreciada aumenta a competitividade das exportações chinesas, na medida em que reduz os seus preços em dólares. O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, afirmou no domingo que o yuan não está depreciado e disse que seu valor será mantido em um patamar “estável”.

Os economistas do Banco Mundial não se referiram ao impacto do câmbio sobre as exportações e destacaram apenas os efeitos que uma moeda valorizada teria sobre a economia chinesa. “Se há inflação e fluxo de capitais, o fortalecimento da taxa de câmbio faz parte do arsenal para enfrentar esses problemas e também ajuda no objetivo de rebalancear a economia, na medida em que muda os preços relativos e cria incentivos para o consumo doméstico”, destacou Ardo Hansson, economista-chefe do Banco Mundial na China.

A instituição espera crescimento de 8,7% em 2011, mas ressalta que o país enfrenta riscos decorrentes da grande expansão monetária no ano passado. Os mais preocupantes são a alta do preço dos imóveis, que pode indicar uma bolha no setor, e a piora das finanças dos governos locais, em razão do grande volume de empréstimos contraídos em 2009 para construção de obras de infraestrutura.

Além de defender a alta dos juros, Kuijs ressaltou que o governo terá de ser estrito neste ano no cumprimento da meta de expansão do crédito em 7,5 trilhões de yuans (US$ 1 trilhão), para reduzir os riscos relacionados ao aumento da liquidez. O mercado imobiliário está “superaquecido”, na avaliação da instituição, e registrou alta de preços de 10,7% no mês de fevereiro, o mais elevado índice dos últimos dois anos.

Os economistas do Banco Mundial não consideram que a inflação seja um problema, apesar da alta de 2,7% no Índice de Preços ao Consumidor registrada em fevereiro. Segundo Kuijs, há capacidade ociosa no mundo, o que deve conter as remarcações de produtos manufaturados, enquanto as cotações das commodities não deverão ter elevação significativa em 2010 _o Banco Mundial prevê alta média de 5,3%, excluído o petróleo, cujo preço passaria de US$ 61,80 em 2009 para US$ 76,00 neste ano. (Este texto foi publicado na edição de hoje do jornal O Estado de S.Paulo)

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