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Cláudia Trevisan

22.julho.2008 02:19:53

Restauração ou destruição?

dashilan

É difícil acreditar que isso seja possível, mas a rua acima, fotografada ontem, terá de estar impecável dentro de dez dias, a tempo de receber os primeiros turistas que chegarão a Pequim para a Olimpíada. Mais antiga via comercial da cidade, com cerca de 600 anos de existência, Dashilan é objeto de um dos mais polêmicos projetos de restauração realizados pelo governo chinês, que levantou debates acalorados sobre a maneira adequada de preservar o passado.

Muitos dos edifícios foram reconstruídos, supostamente para recuperar a aparência que tinham quando eram novos. Os que já estão prontos exibem cores vivas e parecem tão perfeitos que poderiam estar em uma obra de hiper-realismo. Dashilan tem a mais antiga loja de seda, a mais antiga farmácia de medicina tradicional chinesa e mais antiga sapataria de Pequim, onde os sapatos ainda são costurados à mão. Todas elas foram fechadas temporariamente para o trabalho de renovação.

A rua fica em uma região chamada Qianmen, que na época do império estava fora da muralha que cercava Pequim, ao sul da Cidade Proibida. O bairro era o local onde os viajantes se hospedavam e reunia os teatros, grupos de acrobacia, restaurantes e bordéis. À noite, muitos dos mandarins do império escapavam pelo portão Qianmen para freqüentar os bordéis da região.
No século passado, Qianmen, como quase todos os bairros de Pequim, empobreceu e viveu um processo de degradação. As casas foram transformadas em cortiços, camelôs tomaram conta das ruas e os edifícios ficaram sem manutenção.

Há dois anos, o governo anunciou um plano de restauração da área, que incluiu a destruição de muitas das casas antigas e a recuperação dos edifícios de valor históricos relevante. Para seus críticos, o projeto criará uma espécie de Disneylândia ou parque temático onde os turistas terão uma mostra totalmente artificial de como era a vida na velha Pequim. Os defensores afirmam que a região estava degradada e que os elementos de valor históricos serão preservados.

Na sexta-feira, fui a uma palestra de dois arquitetos italianos e a questão da preservação do passado foi discutida. Na opinião de ambos, os chineses têm uma concepção diferente da ocidental, que privilegia a manutenção dos monumentos históricos em sua condição original, como as ruínas romanas e gregas. Para os chineses, preservar é reconstruir os edifícios como eles eram originalmente, da maneira mais perfeita possível.

Para minha surpresa, os arquitetos não tinham uma visão totalmente negativa do modelo chinês. Para eles, a opção Ocidental está longe do ideal e a cidade onde vivem, Roma, estaria “congelada” pela obsessão de preservar o passado. O melhor caminho, disseram, é um meio-termo entre os dois extremos.

Alguns dos prédios já restaurados:
prédio pronto

prédio pronto

comentários (15) | comente

15 Comentários Comente também
  • 22/07/2008 - 11:28
    Enviado por: MANOEL CARVALHO

    RECEBI UM DIA DESSES UM E-MAIL QUE ME DEIXOU MUITO NERVOSO, ERA SOBRE A CHINA, DIZIA QUE NA CHINA AS CRIANÇAS RECÉM NASCIDAS NÃO JOGADAS NAS RUAS E, QUE OS ANIMAIS SÃO MALTRATADOS (ESPANCADOS ATÉ A MORTE), TUDO ISSO PARA SATISFAZER A CRUELDADE DESSE “POVO”.
    GOSTARIA DE SABER ATÉ QUE PONTO ISSO É VERDADE?

    GRATO E BOM DIA

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  • 22/07/2008 - 16:38
    Enviado por: Lucas Silva

    O ideal é seguir a sugestão dos arquitetos italianos. Através de um meio termo, para ser possível preservar os monumentos históricos com a ajuda da tecnologia disponível

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  • 22/07/2008 - 17:51
    Enviado por: Isabelle Moreira Lima

    claudia, sen-sa-cio-nal. amei o blog. ótima a nova fase.
    avisa quando vier por aqui!
    beijo grande,
    isabelle.

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  • 22/07/2008 - 17:57
    Enviado por: Alvaro

    A China merece esse grande evento, que seja realmente uma grande festa para afastar um pouco da memória a recente tragédia vivida.

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  • 22/07/2008 - 19:08
    Enviado por: Filipe

    Concordo com o caminho do meio termo; adequando a cada situação. É necessário o cuidado de não se “inventar” um novo edifício histórico, longe de que realmente era. Quem esteve em Pequim nota que a pressão para arrumar a cidade gerou excessos de maquiagem, como cercar hutongs menos apresentáveis com muros e calçada jardinada. Na dimensão da obra realizada, isso é pouco, mas quando a festa acabar, a maquiagem fica? Em relação aos templos, acho certo, já que a beleza deles está diretamente relacionada à força das cores, que enfraquecem com o tempo.

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  • 22/07/2008 - 21:29
    Enviado por: Marcos de Luca Rothen

    é pelo jeito eles vão dar uma maquiada na cidade, sorte deles se algum dos beneficios continuar depois da Olimpiada como fizeram outros locais! A imagem que vai ficar deles é se conseguirem ter sucesso nos dias dos jogos!

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  • 22/07/2008 - 23:04
    Enviado por: André

    Cláudia, estou escrevendo de uma forma diferente – não é um comentário. Queria PARABENIZÁ-LA por este blog. Sua percepção e forma de descrever o cotidiano chinês são maravilhosos, muitíssimo interessantes. É uma pena que vejo tantos comentários de pessoas no mínimo ignorantes que não têm mente aberta o suficiente para admirar o seu trabalho fantástico. Estou adorando a sua cobertura da preparação de Pequim para as Olimpíadas! Um beijo!

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  • 23/07/2008 - 00:30
    Enviado por: Gustavo Penz

    Estimada Cláudia,

    Sinceramente, não entendo seus blogs! Até o momento, todos que li trazem, de alguma forma, uma imagem negativa da China.

    Sou brasileiro e moro em Pequim a quase um ano, acredito que a primeira coisa que é necessário entender quando se vem para a China é que os valores e princípios não são os mesmos.

    Julgá-los a partir de uma visão ocidentalizada e bitolada não é justo e muito menos correto.

    Sendo assim, espero que em algum de seus blogs você enalteca as realizações dos chineses.

    Posso te dizer com toda a certeza que nós brasileiro teríamos muito a aprender com este povo! Talvez o mais importante seria saber se posicionar independente da pressão de outros países.

    Abraço,

    Gustavo Penz

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  • 23/07/2008 - 09:44
    Enviado por: Douglas Soares

    Estamos vivenciando algo novo nesta olimpíada: inserção na China. Agora, muitas coisas que diziam poderão ser confirmadas ou, simplesmente, consideradas mitos ou mentiras. Além do aspecto econômico-financeiro, que impulsiona a China, há ainda alguns outros fatores que nos diferem dos orientais e um dos mais óbvios é a cultura. Sob esse signo, há várias nuances, não se trata somente de teatro, cinema, danças, culinária mas, sobretudo, refere-se a ponto de vista, forma de viver, maneiras de agir. Não devemos ser etnocêntricos e considerarmos que nós, ocidentais, somos os donos da verdade. Se a China tem condições de reconstruir os prédios da mesma maneira que eram no passado, que o façam. Estes prédios terão uma vida útil muito maior que se, simplesmente, reformarem um antigo edifício e os gastos com manutenção também serão reduzidos.
    este é o meu ponto de vista e espero ter contribuído com a discussão sobre o tema.

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  • 23/07/2008 - 11:47
    Enviado por: Rick

    Thanks for the interesting piece on the ‘restoration/destruction’ subject. It is indeed difficult for a visitor in China to determine to what extent a ‘restored’ landmark he is looking at bears any real resemblance to the original historical structure that was located on that same site! I have felt that many times travelling in China, including at world-famous structures like portions of the Great Wall, as well as at reconstructed city gates in more obscure parts of China.
    Might it be possible for you to show your readers another photo of the same street scene in about ten days time? It would be useful to give an impression of the feverish rate of change that is taking place in Beijing right now.

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  • 23/07/2008 - 16:31
    Enviado por: Francisco Pinto Jr.

    Cláudia, parabéns.
    Gosto do modo seu de descrever o que viu, como viu, com sua interpretação. Você não está julgando nem pretendendo ter a palavra final.
    É exatamente através da heterogeinidade das opiniões que você pode transmitir uma sensação – melhor do que apenas palavras – da comoção de mudança fantástica por que a China e o mundo estão passando. E para meter a minha colher: vale o seu esforço de, através do confronto, e mesmo realçando conflitos, favorecer uma grande renovação de valores na própria China e no resto do mundo. Você está alimentando nossas reflexões. Isso é ótimo. Obrigado, muito obrigado pela ponte cultural.
    Francisco Pinto Jr.

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  • 26/07/2008 - 12:46
    Enviado por: Otavio

    …vamos imaginar que não ocorra mais terremostos e ondas gigantes, pelo menos até o término das competições…
    …mas, que logo a seguir ocorra algo de espanto em toda a história jamais visto?
    nada de furacões e vulcões em erupção, nada disso. Algo que seja pior do que o aquecimento global. o que faremos?
    estão sendo anunciadas grandes surpresas para o próximo ciclo.
    já nao se chama cometa halley… ou meteorito de huston.

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  • 28/07/2008 - 01:58
    Enviado por: Fey

    Não sou especialista em arquitetura ou história mas tenho um certo interesse amador nesses assuntos. Principalmente em se tratando de restaurações de patrimônios antigos.

    Sei que algumas restaurações principalmente do leste asiático não poderiam passar pelo mesmo processo ocidental nem que eles quisessem, por um motivo relativamente simples: muitos de suas estruturas são feitas de madeiras, com o tempo, elas apodrecem fazendo necessário a reconstrução senão inteira, pelo menos metade dos edifícios originais.

    Para tal, em alguns casos existem também manuscritos antigos escritos pelos mestres de obras a milênios atrás descrevendo tipos de madeira, pintura, detalhes, e procedimento usados para construir ou preservar tais obras. Sendo possível desse modo uma reconstrução extremamente fiel nos dias atuais.

    Haveria problema se com a aceleração de preparação para eventos como as Olimpíadas, esse processo fosse prejudicado com restaurações feitas as pressas sem estudar direito as condições originais. Se é esse o caso, já é outra história, mas em se tratando da metodologia, concordo com os especialistas, não há nada de errado des de que seja feito com cuidado.

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  • 29/07/2008 - 22:45
    Enviado por: claudiatrevisan

    Fey, você tem razão ao dizer que a maioria dos edifícios são de madeira e, por isso, não podem passar pelo mesmo processo ocidental de restauração. Mas mesmo monumentos que usam pedras, como a Grande Muralha, costumam ser “reconstruídos” para ter o mesmo aspecto de séculos atrás.
    Francisco, obrigada por seus comentários encorajadores.
    Rick, a idéia é mesmo voltar na mesma rua e ver qual foi o resultado. Amanhã devo colocar a foto no blog.
    Cláudia Trevisan

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  • 01/08/2008 - 15:51
    Enviado por: José Roberto

    Lá como cá é muito importante preservar. Mas, tanto lá como cá, a preservação passa longe de quem necessita de preservação da condição digna para se viver nesse planeta. Milhões são gastos na aparência, mas a liberdade e o mínimo necessário para se viver dignamente, passa longe do povo. Seria bom ver nas reportagens, de lá como nas de cá, as pessoas com todos os dentes e morando em casas e não favelas. Que bom seria ler uma notícia do fim da violência de cá e lá que as crianças possam nascer por opção do amor dos seus pais. Por que discutirmos se a rua mais antiga ficou ou não igual ou melhor. Vamos discutir se as pessoas ficarão melhor depois das olimpíadas.

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