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Por que torci (e torcerei) pela Argentina

Cláudia Trevisan

quinta-feira 10/07/14

Foi o silêncio mais estridente que já presenciei. Era a manhã do dia 12 de junho de 2002 e eu havia acabado de acordar de um sono que começara antes do jogo entre Argentina e Suécia do outro lado do mundo, transmitido na madrugada de Buenos Aires. Assim que abri os olhos, soube que a [...]

Foi o silêncio mais estridente que já presenciei. Era a manhã do dia 12 de junho de 2002 e eu havia acabado de acordar de um sono que começara antes do jogo entre Argentina e Suécia do outro lado do mundo, transmitido na madrugada de Buenos Aires. Assim que abri os olhos, soube que a Argentina estava fora da Copa na qual havia chegado como favorita. A cidade estava muda. Não havia vozes, motores de carros, buzinas, portas se abrindo e fechando. Nada parecia existir além das paredes do apartamento em que eu vivia, na esquina das ruas Libertad e Posadas.

A eliminação ainda na primeira fase do Mundial realizado no Japão e na Coreia do Sul era mais um capítulo do calvário que os argentinos amargavam havia meses. O país enfrentava uma crise econômica de proporções épicas, que havia levado à queda de cinco presidentes em 12 dias, provocado o maior default de dívida da história e forçado a desvalorização do peso. O empobrecimento da nação que havia sido uma das mais prósperas da região era visível no aumento do número de catadores de lixo que transitavam pelas ruas.

Talvez seja a memória daquela distante derrota. Talvez a surpresa com que percebi que os argentinos tinham uma percepção muito mais positiva do Brasil e dos brasileiros do que a que nós tínhamos deles. Talvez seja o meu profundo afeto pelos argentinos. O fato é que não consegui torcer pela Holanda.

Vi o jogo sem som enquanto escrevia um texto sobre a ata da última reunião do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos (não consigo imaginar tema mais estrangeiro à Copa do Mundo). Semianalfabeta em assuntos do futebol, eu havia sido convencida por meus amigos entendidos de que a Argentina não tinha chance de chegar à final. Seria inevitável um confronto com o Brasil pelo terceiro lugar. O suposto mundial “americano” terminaria com uma disputa entre europeus.

Mas na medida em que o jogo avançava e o placar continuava 0×0, fui dominada por um entusiasmo incontrolável por los hermanos. Não foi uma torcida premeditada e racional. Foi espontânea, explosiva. Até queria torcer para a Holanda, mas não me convenci. Dei gritos, pulei na cadeira, cruzei os dedos e festejei quando Sergio Romero defendeu dois pênaltis. Vi no Facebook de minha amiga Marcia Carmo, que mora em Buenos Aires, o relato de que a cidade explodia em gritos. E lembrei do silêncio de 12 anos atrás.

Torci pela Argentina ontem e torcerei pela Argentina no domingo. Só que agora será uma torcida deliberada, premeditada e assumida desde o início.