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Cláudia Trevisan

26.janeiro.2010 05:36:38

A feira de solteiros

O temor dos pais chineses de que seus filhos não casem nem se reproduzam é tanto que muitos assumem a tarefa de achar pretendentes, principalmente se os rebentos continuam sem namorar depois dos 25 anos, idade na qual já deveriam estar pensando em constitutir sua própria família. Os que não encontram candidatos entre os filhos de seus amigos podem aderir a um mecanismo mais explícito e eficaz, a “feira de solteiros”, que ocorre em vários parques de Pequim.

A pequena multidão da foto acima é formada por pais e mães que no último domingo buscavam ativamente pretendentes para se casar com seus filhos e filhas. O local é o parque Zhongshang, localizado ao lado da Cidade Proibida. Há uma versão para a meia idade nas terças-feiras, na qual viúvos, separados ou os que não casaram quando eram jovens procuram namorados para si próprios _e não para os filhos.

A sociedade chinesa passou por transformações vertiginosas nas últimas três décadas, mas o casamento continua a ser considerado essencial, e ter filhos e netos _ainda que apenas um_ é a expressão máxima da felicidade.

Os caçadores de genros e noras vão à feira munidos de pequenos cartazes escritos à mão, nos quais apresentam seus filhos e descrevem o perfil do parceiro(a) que procuram. O alvo são os pais de outros solteiros, que também vão à feira em busca de genros ou noras. A maioria dos “anúncios” que vi trazia altura, peso, data de nascimento, formação escolar e, em alguns casos, salário. Os privilegiados que possuem registro de residência em Pequim _o que lhes dá acesso a uma série de serviços da capital_ tratam de ressaltar a informação no texto.

Os cartazes são colocados no chão, perto do pai ou da mãe. Os interessados analisam as “ofertas” e, caso gostem do perfil, iniciam negociações diretas com a outra parte. Alguns pais preferem pendurar os cartazes no corpo ou na bolsa e circular pela feira, à busca de interlocutores. Quando há empatia, os dois lados avançam para a etapa seguinte, na qual há troca de fotos dos candidatos e discussões para organização de um possível encontro entre ambos.

É raro, mas há casos em que o próprio interessado comparece à feira para promover seus atributos. No domingo, vi pelo menos três homens na faixa dos 30 carregando cartazes em busca de namoradas. Também vi um que fazia perguntas aos pais de uma garota. Quando conversei sobre o assunto com um amigo chinês ele me disse que o anúncio mais eficaz que já viu trazia quatro caracteres: 车 (che), 房(fang), 貌 (mao) e 款 (kuan), que podem ser traduzidos por carro, casa, beleza e dinheiro.
Aí vão mais fotos da “feira”:

Cartazes com descrição dos solteiros

Interessados analisam perfil dos candidatos

O anúncio de cima é de um homem de 30 anos, 1,70m de altura, mestrado, emprego em multinacional, salários de 200 mil yuans por ano (US$ 29 mil), que possui apartamento e carro. Ele procura uma parceira que tenha mais ou menos 27 anos, 1,65m de altura, bonita, com educação universitária e emprego estável.
O cartaz que está abaixo é de uma mulher de 28 anos, 1,61m, que trabalha como tradutora de coreano em uma multinacional. Ela quer um homem do norte da China, que trabalhe em Pequim e tenha formação universitária

Mulher analisa um dos anúncios da feira

Cartaz da foto de cima anuncia um homem de 40 anos, 1,75m de altura, engenheiro aeroespacial, com salário mensal superior a 10 mil yuans (US$ 1.500) e dono de quatro apartamentos. O texto ressalta que o pai é aposentado e a mãe é editora da agência oficial de notícias Xinhua, com vencimentos razoáveis, o que tira do filho a responsabilidade de sustentá-los. O anúncio informa ainda que o irmão mais jovem do pretendente vive no Canadá com a mulher e que a irmã mais jovem está nos Estados Unidos, casada com um norte-americano “branco”. Todos são engenheiros e ganham cerca de US$ 150 mil por ano.

Outra panorâmica da feira

comentários (13) | comente

13 Comentários Comente também
  • 26/01/2010 - 11:54
    Enviado por: Glúon

    _______________________

    Entreouvindo em Brasília
    _______________________

    - Ô Amorim, recebi esse currículo aqui pra ser o vice da Dilma.
    - E qual é a dúvida, presidente Lula?
    - São esses danados dos caracteres chineses…
    - Mas o que está escrito aí ao lado?
    - Che, fang, mao e kuan.
    - Bem, isso quer dizer: carro, casa, beleza e dinheiro.
    - E que símbolo esquisito é esse aqui ao lado da grana?
    - Ah, esse aí é o PMDB, né?

    _______________________________________________________

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  • 26/01/2010 - 13:36
    Enviado por: antonio ximenes

    Reportagem inusitada, rica em detalhes e merecedora de crédito de bom jornalismo. A Cláudia é craque. Na China, o mar parece não estar para peixe em se tratando de amor com afeto.A frieza das relações humanas, como se observa nesta feira de solteiros, é preocupante. O que diriam Albert Camus, Sartre e outros existencialistas ?

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  • 26/01/2010 - 16:14
    Enviado por: Helena Fang

    Sou filha de chineses e nascida aqui no Brasil há
    mais de 50 anos. Os chineses mudaram muito mas uma coisa que não muda é esse “negócio” de casamento. Realmente é um “negócio”. São os pais que escolhem ou expõem o pretendente. É estranho,porque pra eles não existe o namoro, o amor , apenas o acasalamento pra procriar. É assim que a mulher era vista e acho que ainda é,
    apesar de todos os progressos. Sou solteira, formada em Matemática, tenho uma brilhante carreira profissional, mas mesmo assim sou mal vista, pelo fato de ser solteira. O artigo cita que
    devem ter pelo menos um filho para se ter a felicidade máxima, mas não cita que tem ser filho
    homem , não mulher. Filha mulher ainda é uma desgraça e solteira pior ainda. Mesmo aqui no
    Brasil.

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  • 26/01/2010 - 16:51
    Enviado por: tinkerbells

    Ué, os chineses têm irmãos? E a política de filho único, obrigatória no país??

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  • 26/01/2010 - 21:37
    Enviado por: Marcio La La

    Gostei da piada acima. O problema lá é que os filhos tem que cuidar dos pais. E também lá é todo mundo igual. Na descrição tem só o peso e a altura. O resto é tudo igual. Lá a agualdadde chegou pra valer.

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  • 26/01/2010 - 22:58
    Enviado por: Fey

    Marcio La La,

    Tenho certeza que pros chineses, todos os brasileiros parecem iguais também.

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  • 26/01/2010 - 22:59
    Enviado por: LI Zhaohui

    Os chineses são muito tradicionais, e o as tradicionais são muito interessantes.
    Raramente eu vou por uma ferias qualquer,as vezes pra promover meu livro, eu vou pro feirias do livro.

    http://li-zhaohui.zip.net/

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  • 27/01/2010 - 01:17
    Enviado por: claudiatrevisan

    tinkerbells, a política de filho único foi adota em 1979. Quem nasceu antes disso tem irmãos.
    Helena, obrigada pelo seu depoimento.
    Fey, vc tem toda a razão.
    Cláudia Trevisan

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  • 27/01/2010 - 10:18
    Enviado por: Camila Tardin

    Olá Cláudia,
    É a primeira vez que entro no seu blog. Adorei suas observações sobre essa feira de solteiros. E fiquei impressionada como, em pleno século XXI, os chineses ainda tenham que usar estratégias como esta para arranjar parceiros para os filhos. Só vendo mesmo para crer… Uma cultura que devemos respeitar, mas que não deixa de ser um tanto curiosa, né?
    Abraço
    Camila

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  • 27/01/2010 - 12:38
    Enviado por: karoline

    Muito interessante a reportagem , é importante saber dos outros tipos de cultura.
    Qto aos chineses infelizmente eles tem uma cultura um pouco ignorante não gostam só de filhos homens !!!! agora precisam de mulher p/ que haja as outras gerações mas mesmo assim a felicidade só é plena se tiverem filhos homens … Se nascer só homens bem feito … somos todos iguais… só assim eles saberam dar valor no ser humano e na mulher tbm como tal.

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  • 27/01/2010 - 17:14
    Enviado por: ana.a

    A matéria é ótima, a Claudia, como sempre, abrangendo todo o assunto.
    Quanto ao mérito, cultura local deve ser respeitada por mais estranho que possa nos parecer.
    Essa história de filho único e homem é ddifícil de ser engolida por nós.mas vá lá que seja…eles são assim.

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  • 05/03/2010 - 10:13
    Enviado por: Rafael

    Parabens pela ótima matéria. Vejo que você já está bem submersa à cultura chinesa. Aproveite esse período aí que a China é realmente um lugar fascinante de conhecer!

    Uma sugestão para entender melhor o que se passa na vida dos Chineses imigrantes é um livro que atualmente estou lendo. Não sei se já há tradução ao Português, mas, ele se chama “Factory Girls”. A autora é Leslie T. Chang, que escreve no Wall Street Journal.

    Parabéns de novo!

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  • 19/03/2011 - 12:17
    Enviado por: limfulin

    e porque ninguem entendi as japonesas chinesas do brasil . naõ conhece seus sentimentos. naõ sabi o que elas quer de vc ou di muma pessoa para ter um Relacionamento muito serio. porque todos brincaõ com sentimentos delas mesmas que sejaõ maes solteiras. basta entender o que elas querem de vcs . e gostaria de conhecer japonesas no brasil lindas com sentimentos abertos . obrigado camilo@39lopezhotmail.com .

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