Quando aceitou incorporar o sistema oficial de censura a seu site chinês, em 2006, o Google estava de olho no que em breve seria o maior mercado de internautas do mundo _três anos mais tarde, a China ultrapassou os Estados Unidos e assumiu a liderança no universo de pessoas conectadas. Atualmente são 340 milhões, mais do que toda a população norte-americana. Mas como muitos outros em Washington, o Google também acreditava que a integração econômica da China ao mundo, o aumento do acesso à internet e a emergência de algo equivalente a uma classe média levariam inevitavelmente à redução da censura e à gradual abertura política do país. Nada disso aconteceu e, desde 2008, os controles sobre o fluxo de informação se intensificaram.
O Google pagou um alto preço em termos de imagem ao se submeter aos limites da censura imposta por Pequim. Agora, corria o risco de ver ativistas de direitos humanos chineses que usam o Gmail serem expostos por hackers que entraram em seu sistema no mês passado. De acordo com nota divulgada pela empresa na terça-feira, esse grupo foi o principal alvo do “sofisticado cyber ataque” de que foi vítima.
O principal concorrente global do Google, o Yahoo!, viveu um pesadelo de relações públicas em 2005 por sucumbir às pressões do governo chinês para revelar a identidade de um usuário de seu serviço de e-mail. Graças à colaboração do Yahoo!, o jornalista chinês Shi Tao foi condenado a 10 anos de prisão, sob acusação de divulgar “segredos de Estado” _ele havia usado seu e-mail para enviar a um amigo nos Estados Unidos cópia de um documento do Partido Comunista que havia sido divulgado dentro da China.
O Google também sofreu um desgaste de imagem ao aceitar a censura, mas não conseguiu o retorno comercial que desfruta em outros países. Quatro anos depois de criar seu site de busca em chinês, a companhia se mantém em um distante segundo lugar em um mercado dominado por seu principal concorrente local, Baidu. O governo de Pequim privilegia os sites chineses e os limites para o Google atuar no país são cada vez mais estreitos. Nesse cenário, talvez o maior site de buscas do mundo tenha mais a ganhar realizando uma ofensiva que o coloca como defensor global da liberdade de expressão do que enfrentando o desgaste de se manter em um país autoritário que representa menos de 2% de seu faturamento total.
Mais um exemplo de que o mundo dos negócios faz muito fuzuê para um país que pode trazer mais prejuízos doque lucros para muitos investidores estrangeiros atravéz de muito jogo político enojante.
No mundo das comunicações o governo chinês usa o artifício de “proteção contra sites pornográficos e ataques cibernéticos” para reprimir movimentos independentes de direitos humanos. O próprio oficial do partido comunista fala que as companhias de web devem seguir a “diciplina da propaganda” (propaganda para quem?).
Não é apenas um mal que afeta uma única empresa de um único país. A Embraer do Brasil mesmo amarga um mal negócio após terem concordado em trasferir parte da sua produção de aviões ERJ 145 numa joint venture com uma companhia estatal chinesa. Em apenas alguns anos as vendas da joint venture caíram, o governo chinês bloqueia as licenças para vender os únicos jatos com encomenda garantida produzidos em São José dos Campos, muda as regras do contrato, e agora exige que os modelos mais rentáveis ERJ 170 e 190 sejam produzidos lá ou não tem negócio.
Há quem argumente que eles estão apenas sendo protecionistas, mas existe um clara diferença entre ser protecionista dentro das regras de contrato, e a maneira suja como eles tem feito. Mesmo assim as companhias estrangeiras continuarão a investir seus recursos naquele país sob o velho argumento dos bilhões de consumidores em potencial. Um pote de ouro sem dúvida, mas pode provar ser uma miragem se o governo chinês e suas empresas sugarem primeiro todo know-how dos estrangeiros, e quebrarem acordos para própria vantagem.
tá! criticar a China é fácil!
mas e o Estadão e os 167 dias de censura?
Viva a liberdade! Em algum momento o mercado deve dar lugar a liberdade!
Interessante, já que não vale a pena comercialmente vista-se a roupa de defensor da liberdade e saia da China.
Como será que os executivos do google calculam a taxa de retorno para a venda da liberdade de expressão ? O prejuízo deve estar sendo grande mesmo porque ao que tudo indica os princípios não tem muito valor para eles, não?
Concordo com a Fey: a China é uma faca de dois gumes.
Fey,
Parabéns pelo comentário. Eu já venho há algum tempo conversando sobre esse assunto com alguns amigos. A China é dita como a fábrica do mundo, todo tipo de industria está implantando suas fábricas, conhecimento, know-how para esse país, que possui um legado histórico não muito bom sobre patentes e outras coisas. Penso que o mundo deve pensar melhor sobre as decisões, essa euforia pode custar muito caro no futuro. Lembro, o caso da Cisco, Iphone(Apple), sapatos brasileiros, softwares, automóveis e agora a Google. O mundo está deslumbrado com a produção barata dos manufaturados e serviços. Esse cenário faz me lembrar aqueles velhos ditados: o barato pode custar caro, é melhor cortar o m… pela raiz, está dando asas a c…” Abraços e obrigado o Estadão pelo liberdade de expressão com respeito.
[...] de bloquear o Gmail • Google sozinho contra a China • Fora da China, Google também censura • Cláudia Trevisan: O Google e a censura chinesa • China ordenou ataques ao Google, dizem documentos do WikiLeaks • Google planeja crescimento [...]
Estou trabalhando a pouco mais de ano na China e de 3 meses para cá tenho tido minha vida dificultada pelas diversas restrições que tem sido impostas na internet.
Antes tinhamos a opção de se comunicar com o Brasil pela ferramenta “talk” do Gmail (muito mais eficiente e leve que o Skype), agora temos que recorrer ao “famoso” mas de péssima qualidade Skype, que dia ninguém ouve e dia ninguem vê nada… Lamentável para o chinês mas principalmente para a legião de estrangeiros vivendo na China de maneira honesta e longe de qualquer tipo de “subversão”.
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