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O Capitalismo Vermelho e a fragilidade dos bancos chineses

Cláudia Trevisan

06 março 2011 | 12:38

A explosão de empréstimos para estimular o crescimento da economia chinesa em 2009 e 2010 vai inevitavelmente levar ao surgimento de créditos podres, que exigirão uma nova onda de capitalização dos bancos dentro de dois a três anos. A afirmação é de Carl Walter, um dos autores de Red Capitalism (Capitalismo Vermelho), trabalho que apresenta um retrato devastador do sistema financeiro comandado por Pequim.

O subtítulo do livro antecipa o recado que Walter e Fraser Howie dão em suas 256 páginas: O frágil alicerce financeiro da extraordinária ascensão da China. “Os bancos chineses estão totalmente encapsulados dentro de um sistema de moeda não-conversível, no qual o risco é controlado pelo Partido e não pelo mercado”, disse Walter ao Estado.

Submetidos aos interesses políticos dos líderes comunistas, essas instituições coletam depósitos da população chinesa e os utilizam para conceder empréstimos generosos às gigantescas estatais, que muitas vezes não pagam o que devem.

Red Capitalism é o livro que a presidente Dilma Rousseff escolheu para ler antes de sua primeira visita oficial a Pequim, no próximo mês.  Com experiência de 20 anos no setor financeiro na China, Walter participou de várias aberturas de capital e emissão de bônus de empresas e bancos do país. Atualmente, ele é diretor-gerente do J.P.Morgan na China.

Fluente em mandarim, Walter realizou mestrado em economia na Universidade de Pequim em 1979-1980 e possui doutorado pela Universidade de Stanford.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Em seu livro o sr. diz que os bancos chineses parecem sólidos, mas são frágeis e nesse sentido são um reflexo da China.

Os bancos chineses parecem fortes, mas eles têm apenas dez anos de idade. Quando começou sua reestruturação, em 1998, eles estavam quebrados, como o próprio governo admitia. Eles tiveram IPOs bem sucedidos e ainda deveriam estar no processo de emergir como instituições.

Depois da Revolução de 1949, esses bancos não tiveram a chance de se tornar instituições, eles nunca tiveram um momento de paz para isso. Nos primeiros anos eles tentaram estudar o modelo soviético, depois veio o Grande Salto Adiante e em seguida a Revolução Cultural [1966-1976], quando não havia sistema bancário. Foi só depois de 1978 que os bancos se tornaram um sistema relativamente independente.

E apenas em 1998 eles começaram a se tornar instituições financeiras, mais do que utilidades receptoras de depósitos que financiam o que quer que o governo queira. Quando eu digo governo, eu quero dizer o Partido [Comunista]. Estou falando governo para ser simpático. Não se pode esperar que instituições de dez anos sejam particularmente fortes.

Mas a crise financeira global deixou a impressão de que o modelo chinês é superior ao ocidental.

Correto. E um dos mais famosos líderes do sistema bancário chinês, Ma Weihua, do China Merchants Bank, disse claramente por que: não sofremos com a crise porque estamos isolados da crise. Nós estamos atrás de uma moeda não-conversível e nós operamos em um sistema financeiro no qual os estrangeiros têm apenas 1,77% dos ativos. Não há como esse sistema ser afetado.

Os bancos chineses estão totalmente encapsulados dentro de um sistema de moeda não-conversível, no qual o risco é controlado pelo Partido e não pelo mercado.

Quando houve a reestruturação dos bancos, no início dos anos 2000, havia a expectativa de que eles abririam o sistema para as instituições estrangeiras. A percepção, em 1997 e 1998, de que o sistema financeiro era um pilar muito frágil no qual o governo se assentava, levou os dirigentes anteriores, [o ex-presidente] Jiang Zemin e [o ex-primeiro-ministro] Zhu Rongji, a implantarem reformas para fortalecer os bancos e afastar o risco sistêmico que existia naquele momento.

O governo dizia que 40% dos empréstimos dados pelos bancos eram ruins. A gestão anterior elaborou um pacote amplo de reformas para remover os bancos do centro do sistema financeiro. Elas previam a criação de um mercado de renda fixa, a liberalização da taxa de juros, mudanças no mercado de câmbio e melhoria da regulação.

Não dá para arrumar só os bancos. Tudo isso foi colocado em movimento, mas a maior parte foi interrompida em 2007. O novo governo falou ‘depois dos bem sucedidos IPOs do BOC [Bank of China], CCB [China Construction Bank] e ICBC [Industrial and Commercial Bank of China], tudo está ótimo!’

‘Por que precisamos dos bancos estrangeiros?’

Sim, e em 2008 disseram ‘o modelo estrangeiro não funciona e nós estamos bem’. As instituições financeiras estrangeiras não podem competir com as chinesas, porque os bancos chineses não calculam o custo do capital. Eles não se importam! Os bancos estrangeiros não podem fazer isso, porque têm que ter retorno sobre o capital.

Os bancos chineses não sabem precificar o risco, porque têm taxas de juros fixas para depósitos, taxa de juros fixas para empréstimos e estão totalmente submetidos ao Estado.

Parte do projeto de reforma dos bancos era que BOC, CCB e ICBC tivessem investidores estrangeiros estratégicos. O Bank of America investiu no CCB e gastou bastante tempo tentando melhorar a gestão de risco, as auditorias e o funcionamento corporativo. A intenção era ensinar o banco como ser um banco.

Mas aí veio o governo e disse, ‘Meu Deus, vamos ter um estímulo econômico. Emprestem!’. O que eles aprenderam nos anos anteriores desapareceu em 2009 e 2010.

O sr. afirma que a explosão de empréstimos de 2009 e 2010 exigirá uma nova onda de capitalização dos bancos em dois a três anos.

Acabei de dizer que os bancos só emprestam para o setor estatal. Deveria ser crédito excelente, mas não é isso que ocorre.

Quando o governo saneou os bancos, entre 2000 e 2006, havia o equivalente a US$ 500 bilhões de créditos podres. Eles foram para as AMCs [Asset Management Companies], que recuperaram apenas 20% do valor.

Quando os Estados Unidos tiveram a crise de savings and loans nos anos 90, eles fecharam 1.400 companhias [que captavam poupança e davam empréstimos pessoais], tiveram US$ 500 bilhões em créditos podres e demoraram dez anos para recuperar 60% a 70% disso. Por que naquela economia você tem 60% a 70% de recuperação e nesta em que tudo é controlado pelo Estado você tem apenas 20%?

Porque o setor estatal não é um bom emprestador. Eles não pagam. Esses caras emprestaram o equivalente a US$ 1,2 trilhão ao ano nos últimos dois anos e tudo está indo para o governo. Você vai me dizer que não haverá créditos podres?

O ministério das Ferrovias está construindo linhas de trem rápido que são bonitas, mas ninguém as utiliza, porque não pode pagar. Portanto, não há retorno sobre o capital e eles não podem pagar os empréstimos e os bônus que financiaram as obras.

Cedo ou tarde, se você não tem um bom retorno sobre o seu investimento, o dinheiro morre e seu crescimento econômico diminui. Não estamos falando de um colapso dos bancos ou da economia ou da China. É mais um cenário como o Japão, no qual há uma desaceleração.

Segundo o livro, o modelo dos bancos chineses é intensivo em capital e exige periódicas injeções de recursos para se manter. Mas eles têm dinheiro. Qual é o problema?

Não, eles não têm dinheiro. O que eles têm são reservas internacionais em dólares. O banco central comprou esses dólares emitindo renminbi [outro nome da moeda chinesa]. Como você coloca esse dinheiro de volta na economia sem criar mais renminbi? É extremamente inflacionário. Quando o Bank of China e o China Construction Bank receberam reservas internacionais no momento da reestruturação, eles receberam dinheiro, mas depois o Banco do Povo da China [banco central] retirou o dinheiro de circulação vendendo títulos, para manter a inflação sob controle.

Os bancos já deixam no banco central 20% de depósito compulsório, porque querem evitar que a inflação dê um salto. A quantidade de dinheiro trancada no sistema é incrível.

A pressão inflacionária já é grande, porque o RMB [renminbi] é muito barato. Todos estão exportando loucamente, os dólares entram, eles imprimem mais RMB, depois tiram RMB do mercado. Por quanto tempo eles podem fazer isso? Eles têm quase US$ 3 trilhões em reservas!

Mas os bancos têm lucro.

Eles têm lucro porque têm taxas de depósitos excessivamente baixas para os depositantes e uma margem fixa para os empréstimos de no mínimo 300 pontos base, 3%. Como eles podem não fazer dinheiro? 

Você pode dizer que a capitalização desses bancos é imbatível no mundo. Mas lembre-se que apenas 20% de suas ações são listadas. Quando você calcula a capitalização de mercado, você considera o preço de mercado das ações e multiplica por todas as ações. No caso de J.P. Morgan, 100% das ações são listadas. Nos bancos chineses, só 20% são negociadas no mercado. Não dá para comparar.

Quem paga a conta?

É o povo chinês. Eles é que tornam isso possível. Quem põe dinheiro no banco perde dinheiro, por definição. Onde você vai por seu dinheiro? Vai usar para comprar uma casa, colocar no mercado acionário, arte, ouro, commodities. Aí você pode ter um retorno maior que a inflação.

Em 2004, Brasil disse que reconheceria a China como uma economia de mercado…

Que piada!

A China pode ser considerada uma economia de mercado?

Não. Mas eu acho que há duas economias aqui. A que é dinâmica e a que normalmente pensamos como parte da China é o setor não-estatal orientado para a exportação, que está na grande Xangai, em Zhejiang, sul de Jiangsu e Guangdong.

Setenta por cento do dinheiro vai para esses lugares e 70% das exportações saem desses lugares. Essa é a primeira economia, geograficamente pequena, que criou 100 milhões de empregos nos últimos dez anos e muito dinheiro.

Depois há a economia estatal, da qual estamos falando, e Pequim domina esse setor. Quando você chama a China de economia de mercado, onde está o mercado? As únicas coisas que são precificadas pelo mercado são imóveis, ações, ouro, antiguidades, commodities, mas o preço do capital não é precificado pelo mercado. É de graça.

Essas estatais que obtêm dinheiro de graça estão indo para o exterior, onde competem com outras companhias. Quão justa é essa concorrência?

Essas empresas são todas controladas pelo governo. Algumas estão listadas em bolsa ou têm subsidiárias que estão listadas. Mas elas não pagam dividendos para o governo. Elas obtêm empréstimos de graça e mantêm seus dividendos. Estão absolutamente capitalizadas.

E ainda pior. Quando Zhu Rongji acabou com os velhos ministérios industriais de inspiração soviética, em 1997 e 1998, todos os caras que estavam lá foram para as estatais e mantiveram seus nomes nas listas do Partido. Eles ainda são da nomenklatura do Partido, o que significa que têm enorme poder político.

Vários dirigentes de estatais estão no Comitê Central do Partido Comunista. Os dirigentes dos bancos não estão no Comitê Central. Se o chefe da PetroChina, que tem status de ministro e está no Comitê Central, diz para o ICBC ‘eu quero tal coisa’, você pensa que eles vão dizer não?