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Cláudia Trevisan

27.julho.2012 21:05:00

Londres começou onde Pequim terminou

Quando a abertura da Olimpíada de Pequim terminou na noite do dia 8 de agosto de 2008, uma das perguntas insistentes era: será que Londres conseguirá repetir a grandiosidade do espetáculo dirigido pelo cineasta Zhang Yimou? Eu assisti à representação de 2008 ao vivo e estava no grupo de céticos quanto à possibilidade de qualquer país repetir a precisão, criatividade e exuberância dos chineses. Mas apesar da devastadora crise europeia, os ingleses conseguiram realizar um espetáculo com frescor, no qual se destacou a individualidade de seus escritores, artistas, personagens, inventores e músicos e suas instituições _da monarquia ao sistema público de saúde, passando pelos táxis pretos e Bond, James Bond.

A coreografia de Zhang Yimou teve um caráter marcial, de movimentos absolutamente sincronizados, no qual o coletivo predominava. Falava-se das invenções chinesas, mas não de seus inventores. O tempo histórico era o glorioso passado imperial, com uma narrativa praticamente desprovida de individualidade. Quase nada posterior ao século XVIII foi exaltado no gramado do Ninho de Pássaros, o estádio olímpico chinês. Sob o comando do cineasta Danny Boyle, a abertura de Londres começou onde a de Pequim acabou: com a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX, que consolidou o poderio do Império Britânico, diante do qual o antigo Império do Meio sucumbiu nas duas Guerras do Ópio.

A cerimônia de abertura da Olimpíada de 2008 ignorou a humilhação histórica da China pelo Ocidente e teve a função de apresentar o país como a potência emergente do século XXI, candidata a maior rival dos Estados Unidos. A Inglaterra deixou há muito a posição de potência mundial e acaba de perder para o Brasil a posição de sexta maior economia do mundo. Mas a cerimônia de abertura da Olimpíada de Londres mostrou que os britânicos possuem algo ainda não conquistado pelos chineses: uma cultural popular universal, com músicos e escritores de influência global. O espetáculo também não teve censura moralista. A extravagante Amy Winehouse foi lembrada ao lado de Sex Pistols, David Bowie , New Order, Queen, Rolling Stones e The Beatles. A história da música pop foi costurada por um romance juvenil, que terminou com uma explosão de beijos apaixonados.

Com toda sua pujança econômica, a China ainda não conseguiu criar uma cultura contemporânea influente nem construir o soft power que os dirigentes comunistas tentam conquistar com Institutos Confúcios e expansão global da TV estatal CCTV. O espetáculo de Londres mostrou que soft power não é fruto da ação do Estado, mas resultado da ação de indivíduos com liberdade para criar sem controle da censura que ainda impera na China.

Comentários (16)| Comente!

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16 Comentários Comente também
  • 28/07/2012 - 00:33
    Enviado por: Aleochi Carvalho

    Parabéns Cláudia, essa foi sem dúvidas a melhor definição da real intenção de autopropaganda que os jogos carregam para os países sedes.

    Concordo plenamente.

    Abraços do Rio 2016!

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  • 28/07/2012 - 00:56
    Enviado por: Victor Costa

    Cláudia, parabéns pelo texto. Até então não tinha lido qualquer post do seu blog, no entanto acredito ter tê-lo conhecido da melhor forma possível. Me impressionou a qualidade da sua análise, a concisão dos seus argumentos, senso crítico perfeito. Parabéns. Você redige maravilhosamente bem.

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  • 28/07/2012 - 02:27
    Enviado por: Fey

    Foi exatamente oque pensei a o assitir a abertura dos jogos também.
    Os países sedes de últimos eventos esportivos – fora a China – mostram que essas aberturas devem ser uma celebração da liberdade, do esporte, da espontaneidade, e não uma desmonstração de poderio econômico, ou de sincronia militar como era comum até o meio dos anos 1990.

    O mundo agradece. Num presente onde existem atletas e treinadores se nacionalizando em outros países para poder ter uma chance de competir nas Olimpíadas, e com torcedores apoiando essa internacionalização, não me parece haver mais espaço nas sociedades verdadeiramente livres, a idéia de nacionalismo exarcebado e ufanista de épocas até o fim da Guerra Fria.

    Não são só cantores, atores, e histórias que geram o softpower, até mesmo o Austin Mini é um símbolo inglês que conquista a simpatia mundial sem a pretenção de demonstrar a capacidade tecnológica máxima inglesa de um Aston Martin ou Jaguar.

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  • 28/07/2012 - 05:38
    Enviado por: Messias

    Cláudia, me permita discordar da sua opinião. Achei uma apresentação simples, bem aquem da de Pequin. Pelos 90 bilhões gastos só na apresentação, segundo jornais, era de se esperar algo grandioso, típico da realeza britânica. Pelo contrário, achei pouca criatividade no salto da rainha, no Mr. Been, etc.

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  • 28/07/2012 - 09:58
    Enviado por: Patricia

    Gostei muito de ler sua analise, enriquceu minha visao sobre o evento. Como historiadora me chamou muito a atencao a valorizacao do ser humano e das suas relacoes, profissionais, pessoais e politicas, enfocadas nas diferentes cenas. Tambem a forma como a tecnologia foi usada, ao mesmo tempo que tao presente sempre sem ser um foco maior da que o ser humano. A mistura das cenas reais com cenas virtuais, uma rainha de paraquedas.

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  • 28/07/2012 - 15:09
    Enviado por: Herlan

    Suas interpretações podem ser válidas no que tange a representação cultural desses países, naquilo que eles queriam passar como mensagem ao mundo.
    Mas em relação a cultura chinesa de maneira comparativa a Inglesa, devemos levar em consideração que é muito mais fácil difundir uma cultura mundialmente quando se tem o Inglês como idioma oficial, diferentemente do Mandarim.

    Agora no quesito efeitos visuais, complexidade de apresentação, surpresas e etc, Londres deixou muito a desejar. Pareceu tudo muito simples, nada de muito surpreendente. O tempo de apresentação foi compacto também…O destaque na minha opinião ficou para a sessão em que se relembrou as músicas que marcaram época pra toda uma geração. Do resto, até a abertura dos jogos panamericanos no Rio foram melhores.

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  • 28/07/2012 - 19:15
    Enviado por: LuizCamargo

    Cada civilização, cada povo, cada nação com suas peculiaridades, suas glórias, suas lutas, vitórias e derrotas, como nós, individualmente, em que ninguém se acha mau, mas, no fundo, faz questão de esconder seus defeitos. Quem fez melhor? Não dá para saber, as culturas são diferentes e, mesmo quem as conhece, sabe que tudo é questão de gosto.

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  • 31/07/2012 - 16:24
    Enviado por: João Carlos

    Londres 2012 – “Record fica em 2º lugar com a festa; audiência é inferior às de Pequim e Atenas”.

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    • 04/08/2012 - 12:37
      Enviado por: Rodrigo

      Se a Globo tivesse transmitido a abertura, seguramente a audiência seria a maior da história. Londres é uma cidade com imenso apelo no imaginário popular brasileiro, muitas ligações econômicas, etc. A transmissão por uma emissora novata e vinculada a uma igreja de carater extremamente duvidoso reduz muito o apelo dessas olimpíadas na TV aberta. Hoje a internet já está muito mais sofisticada, a maioria das pessoas prefere assistir nas novas mídias, muita gente já pode pagar tv a cabo ou por assinatura…

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  • 02/08/2012 - 08:20
    Enviado por: Carlos

    Cláudia, devo dizer que voce tem uma certa razão. Digo certa porque abertura dos jogos olimplicos, as olimpíadas assim como consurso de miss universo só servem para uma coisa. Fazer propaganda de regimes e de governos. Mostrar a “superioridade” racial, etc etc… Assim como o regime comunista chines aproveitou pra fazer uma grande propaganda do regime e da nação, nós, pessoas inteligentes ou não fechamos os olhos para o que nos desagrada e desfrutando da beleza que é a competição.
    Quer um exemplo de que estas intituições estão mais a serviço de um povo, raça etc… ?
    Não preciso dizer que se os concursos de misses fazem nos transparecer que a raça branca é a mais bela do planeta e que tem as melhores proporções sem levar em consideração que cada centenas de raças que temos no mundo , cada um tem uma particularidade em termos de proporções. Quando vejo na tevê estas idiotices eu já desligo ou troco de canal pois isto é como um jogo de cartas marcadas.

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  • 04/08/2012 - 12:23
    Enviado por: Rodrigo

    Fantástica a sua análise, Cláudia. è por essas e outras que eu não consigo parar de ler o seu blog. Parabéns!

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  • 05/08/2012 - 21:35
    Enviado por: Brasil

    Concordo plenamente com a historiadora:
    Como a de Pequim não foi tão completa e suficientemente convincente e tb não foi melhor que a de Londre, a de Rio de Janeiro será melhor que a de Londre,’ O Rio de Janeiro ira começar onde Londre terminar ‘.

    Com toda a nossa inconfundivel criatividade e `jeitinho brasileiro`,temos certeza e total capacidade de mostrar para o mundo que seremos melhor ainda que os ingleses e tambem dos chineses,.. faremos a nossa historia,…

    Qto em relação a participação do Brasil na Olimpiada de Londre,só tenho que lamentar que o Brasil,uma superpotencia de esporte na `America Latina`,e por falta de sorte, o Brasil caiu de 4º. Lugar nos primeiros dias para 29º.lugar atualmente, temos só até agora 1 de ouro ( um pouco de consolo é claro, não estamos muito longe do superpoderoso Japão, com 2 de ouro ) , enqto A China 30,USA 28,Englaterra 16. Mas tudo bem, pensamento positivo e se Deus quiser é claro ( Cristo Redentor irá nos abençoar ) ,em 2016 com certeza teremos mais sorte que a de em Londre.

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  • 05/08/2012 - 23:05
    Enviado por: Sandra

    Por favor….vão até o Youtube e vejam 5 minutos de Pequim!

    Depois venham escrever aqui….

    Nunca vi algo tão lindo, tecnológico e imensamente artístico quanto Pequim!

    Vergonha para Londres!

    Fato!

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