A China perdeu a boa vontade de governos ocidentais e elevou ao máximo a desconfiança de multinacionais em relação ao país, graças a táticas que contornam as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a políticas industriais que estimulam o roubo de tecnologia estrangeira.
“Os negociadores comerciais dos Estados Unidos e da Europa estão fartos e eu vejo conflitos à frente”, diz James McGregor, consultor, empresário e escritor que vive há 25 anos na China. Ex-presidente da Câmara Americana de Comércio na China, ele acaba de lançar o livro No Ancient Wisdom, No Followers – The Challenges of Chinese Authoritarian Capitalism (Sem Antiga Sabedoria, Sem Seguidores – Os Desafios dos Capitalismo Autoritário Chinês), no qual sustenta que o modelo local dominado por gigantescos monopólios estatais é incompatível com as regras da OMC.
McGregor mostra que as estatais se beneficiam de uma montanha de subsídios, são fonte de enriquecimento da elite do Partido Comunista e instrumento de manutenção da estabilidade política. Mas o consultor sustenta que a China tem que resgatar suas reformas e ampliar o espaço do setor privado para continuar a crescer.
“Sou otimista porque se eles não fizerem mudanças e não revitalizarem as reformas, eles serão conhecidos como aqueles que mataram o milagre econômico chinês”, afirma, em relação à geração de líderes que começará a assumir o poder no próximo mês.
A seguir, trechos da entrevista:
Estado – Quando a China entrou na OMC, em 2001, havia a expectativa de que o poder do Estado na economia diminuiria, o que não ocorreu. A China trapaceou o mundo?
James McGregor - Essa era a trajetória em que a China estava e a trajetória mudou, mas muitas pessoas não notaram. O Partido Comunista decidiu fortalecer as empresas estatais, em parte por razões econômicas, em parte para preservar o poder político e em parte porque os atuais líderes pensam de maneira diferente dos anteriores [que estavam no poder até 2003].
Zhu Rongji [primeiro-ministro de 1998 a 2003] e Jiang Zemin [presidente de 1993 a 2003] seguiam o modelo de Deng Xiaoping de fortalecer as empresas privadas. Quando eles assumiram o poder, o setor estatal era um caos e perdia muito dinheiro. Eles demitiram 50 milhões de trabalhadores das estatais no período de dez anos entre o princípio dos anos 90 e dos anos 2000.
O partido criou a Comissão de Administração e Supervisão de Ativos de Propriedade do Estado [SASAC na sigla em inglês] e começou transformar as estatais em corporações com ações e trouxeram o governo para ser o oligarca.
Quando falo de estatais, estou falando das grandes estatais ligadas ao governo central, que hoje são 117. Esses são os grandes monopólios, alguns dos quais com milhões de empregados e milhões de dólares em faturamento.
O partido indica os principais dirigentes dessas empresas e elas são estruturadas quase como o exército e se reportam mais ao partido do que ao governo [na China, o Exército de Libertação Popular é uma organização do Partido Comunista e não do Estado].
Estado – Isso é o que o sr. chama de capitalismo autoritário?
James McGregor - Sim. Esses grandes monopólios são dirigidos por pessoas apontadas pelo partido, que têm status de ministros ou vice-ministros. Um dia eles são dirigentes desses grandes conglomerados, no outro estão governando uma província ou ocupam uma posição no gabinete. São todos integrantes da nomenclatura do partido.
Há um estudo revelador feito por Mao Yushi, um economista de 83 anos fundador do Instituto Unirule, que identifica os subsídios dados às empresas estatais _terra de graça ou barata, eletricidade barata, descontos nas taxas de juros etc. Se os subsídios forem removidos, essas grandes estatais que supostamente têm lucros imensos, na verdade perdem dinheiro.
Mas a China nunca estaria onde está hoje sem esses companhias. No Brasil ou nos Estados Unidos, nós estamos há 20 anos falando de nossa infraestrutura falida e é difícil fazer qualquer coisa a respeito.
Os bancos estatais dão dinheiro a outras estatais e os planejadores dizem ‘vamos construir seis anéis viários, cinco aeroportos e duas estações de trem nessa cidade’. Eles fizeram isso em todo o país e é impressionante. Isso levou a China ao lugar onde está hoje, mas não a levará ao próximo passo.
Estado – Por que não?
James McGregor - Eles chegaram a um ponto crítico e a única maneira de fazer o país avançar é voltar a Deng Xiaoping, que tirou esse país do buraco com empresas privadas. Não sou um ideólogo para quem empresas privadas solucionam tudo. Mas se olharmos para os números, vemos que a China tem que mudar para continuar avançando.
Isso também vem sendo dito pelo governo chinês, mas o problema é que essas vozes não são as mais fortes, porque os dirigentes das estatais se transformaram em um grupo político poderoso no partido.
O que o escândalo de Bo Xilai nos mostrou? A [agência de notícias] Bloomberg fez uma grande trabalho que revelou como integrantes de sua família e da família de sua mulher [Gu Kailai] têm centenas de milhões de dólares porque ocuparam posições nos conselhos de várias empresas estatais.
O caso Bo Xilai revela como a elite do partido pode usar as estatais para enriquecer. Ele também mostra como o partido usa as estatais para manter a estabilidade política.
Três meses depois que Bo Xilai foi afastado do comando de Chongqing ele ainda era muito popular na cidade, porque havia usado dinheiro do governo central para se transformar em um campeão dos pobres.
O que o governo fez? Setenta e cinco estatais fizeram contratos de US$ 50 bilhões em Chongqing para uma série de projetos, o equivalente a US$ 12 mil por residente, para mostrar que o governo central está preocupado com eles. Como você abre mão disso? Como quebrar esse poder?
Estado – O sr. diz que o sistema chinês é incompatível com as regras da OMC. Por que?
James McGregor - A primeira razão é que a OMC e disfuncional. A OMC foi criada para substituir o GATT, que era comandado pelos Estados Unidos e alguns outros países, existiu durante a Guerra Fria e gerenciava um sistema de comércio que tratava basicamente de produtos cruzando fronteiras, suas regulações e tarifas.
O mundo é muito mais complicado agora. Há cadeias globais de suprimento, propriedade intelectual, investimentos transnacionais. Em 2001, a China entrou na OMC e a Rodada de Doha foi lançada com o objetivo de modernizar as regras para que elas contemplassem essas novas questões, mas a rodada não chegou a lugar nenhum.
Ao mesmo tempo, a China entrou da OMC e percebeu que era um organismo disfuncional e eles foram capazes de jogar com isso.
A OMC foi construída basicamente para empresas privadas e na China existe um
capitalismo autoritário com empresas estatais e um sistema legal que não é independente. Se alguém quiser iniciar um caso na OMC, precisa de provas e não consegue obter as provas aqui. É um sistema muito incompatível com a OMC.
Além disso, a China está levando práticas locais para a arena internacional. A maneira com que a China atua na OMC lembra muito a maneira com que as grandes estatais lidam com joint-ventures com empresas estrangeiras na China. Quando há um contrato, as cláusulas que são favoráveis ao lado chinês são aplicadas, as que são contrárias são ignoradas.
E isso é o que está ocorrendo na OMC e com as promessas que a China fez. Se elas são convenientes, eles podem cumpri-las. Se não são, eles as ignoram.
Estado – O sr. também menciona o uso de intimidação.
James McGregor - A China diz para países menores ‘não se metam conosco, não iniciem processos’. A China diz a empresas ‘não se envolvam com a OMC porque senão vocês terão dificuldades em fazer negócios aqui’. Não é porque a China é venal. Eles estão apenas fazendo negócios como fazem negócios aqui. Essa é a maneira como tratam empresas aqui.
E todo mundo tem medo da China. As empresas têm medo de dizer coisas negativas em relação à China porque acham que seus negócios podem ser afetados. Governos também estão preocupados porque é um mercado em crescimento.
Estado – O problema é que empresas estrangeiras vêm para a China e recebem o ‘tratamento chinês’, mas empresas chinesas que vão ao exterior se beneficiam do Estado de Direito, de regras transparentes e um Judiciário independente. Parece um jogo desequilibrado.
James McGregor – Sou um grande defensor de investimentos chineses na Europa, nos Estados Unidos e em outros lugares. Na América nós precisamos de capital e a China agora tem capital. Quando a China precisou de capital, a América tinha capital. Ao mesmo tempo, não há reciprocidade entre a maneira como fazemos as coisas na América e o que ocorre na China. Alguns defendem que devemos ter essa reciprocidade, mas se fizermos isso, vamos realmente explodir tudo. Eu não tenho respostas e vou deixar isso para os responsáveis por políticas públicas.
Estado – Se a China não se adapta ao sistema atual da OMC e é o maior exportador do mundo, um dos dois tem de mudar, não?
James McGregor – Sim, a China tem uma contradição. Ao se aproveitar do fato de a OMC ser disfuncional, ela pode levar a OMC a ser totalmente irrelevante. Mas o problema é que a China é a grande beneficiária do sistema atual. A China precisa de um comércio global bem regulado, porque é um grande exportador e importador. Eles puderam se beneficiar do sistema e, ao mesmo tempo, contornar o sistema.
Estado – Como a China é capaz de contornar o sistema e ao mesmo tempo se beneficiar dele, a melhor saída para Pequim é que nada mude.
James McGregor - O problema é que eles perderam a boa vontade [da comunidade internacional]. Os negociadores comerciais dos Estados Unidos e da Europa _e eu falo com muitos deles_ estão fartos e eu vejo conflitos à frente. O que está acontecendo não é sustentável.
Estado – Quão grande é a desconfiança em relação à China?
James McGregor – Enorme e é triste ver isso para alguém que vive aqui há tanto tempo quanto eu. Quando cheguei aqui, o mundo tinha uma forte boa vontade em relação à China. Estados Unidos e Europa abriram seus mercados para mercadorias chinesas, nossos governos e associações empresariais vieram à China, realizaram uma série de treinamentos e ajudaram a China a construir seus sistema legal de comércio, o sistema de proteção ambiental etc. Essa boa vontade deixou de existir.
Estado – Quais são as principais fontes da desconfiança?
James McGregor – A habilidade chinesa de manipular a seu favor uma OMC disfuncional e as políticas industriais tecnológicas, como a de inovação doméstica, pela qual as empresas estatais receberam ordens para pegar tecnologias estrangeiras e ‘reinovar’, ‘assimilar’, ‘coinovar’ e depois competir globalmente com as mesmas multinacionais que são suas parceiras dentro da China.
Estado – Pode-se falar em roubo de tecnologia?
James McGregor – É do que se trata. A política de inovação doméstica é um plano para o roubo de tecnologia. Eu não acredito que isso era o que os líderes queriam. Eles realmente queriam encontrar uma maneira para a China inovar. Mas quando isso chegou nas mãos dos burocratas, se transformou no uso de coerção contra as multinacionais.
Antes, os CEOs de multinacionais adoravam a China. Os trabalhadores não criavam problemas, a imprensa não podia criar problemas, eles recebiam terra, eletricidade. Aqui eles eram reis. Mas um dia a China mudou e começou a dizer ‘faça isso, faça aquilo, dê para nós a sua tecnologia’. Eu vi isso acontecer basicamente entre 2006 e 2009.
A China não esperava ser a potência que é hoje tão rapidamente. E isso implica responsabilidades. O mundo espera que a China, na condição de líder, tenha políticas mais magnânimas, que sejam boas para o mundo e não apenas para a China. E a China não sabe como fazer isso.
Estado – As multinacionais reclamam, mas continuam a investir na China. Algo deve valer a pena.
James McGregor - Elas vêm porque é um mercado em crescimento. Elas estão condenadas se vêm e condenadas se não vem. Eles têm que vir, mas estão preocupado com a maneira como as coisas funcionam aqui e com a possibilidade de perder seus mercados globalmente. Isso não é sustentável. Se você está fazendo negócios com alguém e é mal tratado, mas faz o negócio porque precisa do faturamento, assim que você tiver uma vantagem, você vai sair. A China tem de lembrar que precisa de amigos em tempos difíceis.
Estado – Qual sua expectativa em relação à nova liderança chinesa?
James McGregor – Sou otimista porque se eles não fizerem mudanças e não revitalizarem as reformas, eles serão conhecidos como aqueles que mataram o milagre econômico chinês. E em um país que dá atenção à história como este, nenhum líder quer ser vinculado a esse legado.
Eu acredito que haverá reformas, porque eles não têm escolha. Eles têm que reformar para manter a economia em crescimento.
Estado - A falta de confiança dos chineses em relação ao governo também parece estar em alta, não?
James McGregor - Seria óbvio pensar que depois de anos de tremendo progresso, o povo chinês estaria feliz e gratos pelo que aconteceu. E isso não é o que vejo nas pessoas que conheço, dos trabalhadores aos extremamente ricos. Eu acredito que eles estão cansados do sistema e acho que o sistema social e econômico avançou muito mais que o político.
Mas nunca vi ninguém ganhar dinheiro apostando contra a China. Eu era repórter aqui no começo dos anos 90, quando a inflação estava em 25% e todo mundo dizia que o país iria quebrar. Eles superaram isso, superaram a Crise Asiática e a Crise Global. E esse é um partido que na Revolução Cultural [1966-1976] e no Grande Salto Adiante [1958-1962] destruir a economia e o sistema social chinês, se manteve no poder e fez muita gente rica depois. Eles são sobreviventes e têm sua própria maneira de fazer as coisas.
O isolado e repressivo regime de Mianmar deu início no fim de 2010 a um sucessão de reformas que surpreendeu a oposição e analistas, dentro e fora do país. O ícone da resistência ao regime, Aung San Suu Kyi, foi libertada depois de sete anos de prisão domiciliar, centenas de presos políticos ganharam liberdade e a censura foi drasticamente reduzida.
Mas a Constituição promulgada em 2008 depois de controvertido referendo busca garantir a manutenção dos militares no Parlamento e no governo mesmo depois de uma eventual democratização. A reforma do texto é defendida por todos os grupos de oposição.
A Liga Nacional pela Democracia (NLD) de Aung San Suu Kyi considera a Carta ilegítima, enquanto outros grupos sustentam que o texto contém dispositivos não democráticos. A Constituição reserva 25% das 664 cadeiras das duas casas do Parlamento a militares nomeados pelo Comandante em Chefe dos Serviços de Defesa, uma nova figura que não está submetida ao presidente e que poderá assumir o poder do Estado em situação de emergência que possa levar à desintegração do país.
Mianmar vive a mais longa guerra civil do mundo, iniciada há 60 anos, e que hoje envolve dezenas de grupos armados ligados a distintas etnias.
Apesar dos dispositivos draconianos, as instituições começam a funcionar. “O Parlamento está reunido pela primeira vez e discute o Orçamento do próximo ano fiscal, algo inédito na história recente do país”, aponta o embaixador José Carlos da Fonseca, que instalou a primeira representação diplomática do Brasil em Mianmar em outubro de 2010, às vésperas das eleições legislativas gerais e da libertação de Aung San Suu Kyi. “Nós chegamos na hora certa.”
O pleito de abril tem o objetivo de preencher 48 dos 664 cadeiras que ficaram vagas com a transferência de parlamentares para o ministério do governo nominalmente civil que assumiu o comando do país em março.
Apesar do otimismo com as reformas a consultora Susanne Kempel ressalta que as leis utilizadas pelo regime para perseguir os opositores continuam em vigor. “Ainda há muito a ser feito.”
Aqui e aqui você pode ler as reportagens de Mianmar na semana passada, publicadas ontem no Estado.
Não há nenhum indício de que a China esteja prestes a experimentar algo semelhante ao que ocorre no Egito, mas os dirigentes comunistas não parecem estar tão seguros disso. A censura bloqueou o uso das palavras “Egito” e “Cairo” em posts e fóruns de discussão na internet e as notícias sobre a rebelião popular foram cuidadosamente editadas pela agência oficial Xinhua, cujos textos foram reproduzidos pela imprensa do país.
Principal tema dos jornais de quase todo o mundo, os protestos no Egito foram tratados de maneira discreta nas publicações chinesas e poucas vezes chegaram às primeiras páginas. O foco não eram as causas da insatisfação, mas o caos social e econômico provocado pela tomada das ruas pelos egípicios.
Os dirigentes chineses vivem assombrados pelo fantasma dos protestos na Praça Tiananmen, em 1989, que terminou em um sangrento massacre por tanques do Exército, no qual centenas de pessoas morreram. O paralelo se tornou especialmente constrangedor ontem, depois que o Exército egípicio anunciou que não reprimiria a marcha de um milhão na Praça Tahrir.
Depois das décadas de tumulto vividas com a Revolução Comunista (1949) e a Revolução Cultural (1967-1977) os chineses passaram a temer o caos de maneira especial e a cobertura dos protestos no Egito explora esse aspecto da psique nacional. O texto da Xinhua reproduzido ontem pela imprensa chinesa dá mais espaço para os egípicos que reclamam da desordem do que para os manifestantes que pedem a renúncia de Hosni Mubarak.
E no sábado, o jornal “Global Times”, ligado ao Partido Comunista, trouxe editorial com o título “Revoluções coloridas não trarão democracia verdadeira”. O texto fala das diferenças entre países ocidentais e grande parte da Ásia e da África para justificar a não-adoção da democracia representativa. “Em geral, a democracia tem um forte apelo em razão dos modelos bem sucedidos do ocidente. Mas se esse sistema pode ser aplicado a outros países é uma questão em aberto, na medida em que mais e mais exemplos de fracasso emergem.”
Além da pompa e circunstância com que Hu Jintao foi recebido na semana passada em Washington, um fato mais corriqueiro evidenciou o novo peso da China no cenário global: a filha mais nova de Barack Obama, Sasha, está estudando mandarim. Aparentemente pouco significativa, a informação reforçou a aura de potência emergente que cerca a China e indicou que muitas outras mudanças virão com sua proeminência econômica. Por enquanto, são os líderes comunistas chineses que enviam seus filhos para estudar nos Estados Unidos _a filha de Xi Jinping, provável sucessor de Hu Jintao, frequenta a Universidade de Harvard.
O que não se sabe é quanto tempo vai perdurar o clima de bons amigos que envolveu a passagem de Hu Jintao por Washington, na qual o líder chinês atingiu o objetivo de ser tratado e visto como um igual ao lado de Obama. Nenhuma das divergências que opõem os dois lados foi resolvida ou amenizada e não há dúvida de que os conflitos voltarão a emergir. O relacionamento bilateral chegou ao mais baixo patamar da última década no ano passado, com ataques de lado a lado _ainda que publicamente a voz de Pequim tenha soado alguns tons acima da de Washington.
Em seus pronunciamentos, Hu Jintao disse esperar “respeito” aos “interesses fundamentais” da China, que incluem Tibete e Taiwan. Na prática, é um apelo para que líderes norte-americanos não se encontrem mais com o dalai lama _o que Obama fez há um ano_ e que o país deixe de vender armas e dar apoio material ao governo de Taiwan. É altamente improvável que alguma das duas coisas ocorra e será interessante ver como os chineses reagirão quando se considerarem “desrespeitados”.
As demandas de Washington também não serão facilmente aceitas por Pequim. Mesmo que se acelere em relação a 2010, o ritmo de apreciação do yuan continuará muito mais lento do que gostariam os norte-americanos _os mais otimistas prevêem valorização de 6%, o dobro da de 2010. E mesmo que venha a adotar uma retórica mais dura, a China não colocará o regime da Coreia do Norte contra a parede.
Mas é possível que a visita e seus desdobramentos permitam que ambos os países lidem melhor com suas divergências, com menos estridência de Pequim e mais tolerância dos norte-americanos em relação a um modelo político e econômico que desafia os seus valores. Uma coisa é certa: a versão chinesa do “the book is on the table” será cada vez mais disseminada. Quem quiser, pode começar a praticar: “shu zai zhuozi shang”.
Depois de um ano marcado por uma sucessão de conflitos que foram da venda de armas a Taiwan a crises na península coreana, Estados Unidos e China tentam a partir de hoje reconstruir a confiança mútua, durante visita à capital norte-americana do presidente Hu Jintao, a primeira realizada no governo de Barack Obama.
Nos últimos dias, ambos os lados se esforçaram para minimizar as desavenças e ressaltar os laços que unem as duas maiores economias do mundo, protagonistas da que é considerada a mais importante relação bilateral do século XXI.
“Não há como negar que há algumas diferenças e temas sensíveis entre nós”, afirmou Hu em entrevista por escrito aos jornais Washington Post e Wall Street Journal, publicada domingo. “Nós temos que abandonar a mentalidade de soma-zero da Guerra Fria”, disse o presidente chinês, ressaltando que ambos os países têm a perder com a confrontação.
A mesma expressão havia sido utilizada na sexta-feira pela secretária de Estado Hillary Clinton, em discurso sobre as relações sino-americanas. “No século XXI não faz sentido aplicar a teoria de soma-zero do século 19 sobre como os grandes potências interagem”, declarou Clinton, depois de afirmar que os Estados Unidos não vêem a emergência da China como uma ameaça.
A secretária também lembrou que as economias e o futuro de ambos os países estão interligados. “Nós estamos no mesmo barco e ou remamos na mesma direção ou vamos, infelizmente, provocar turbulência e redemoinhos que vão impactar não apenas nossos dois países, mas muitas pessoas além de nossas fronteiras.”
No ano passado, ambos os lados discordaram sobre que rumo tomar em várias ocasiões, o que levou a relação bilateral a um dos mais baixos patamares da última década. Catapultada em 2010 ao segundo lugar no ranking das maiores economias do mundo, a China interpretou seu sucesso no enfrentamento da crise financeira global como evidência da superioridade de seu modelo econômico sobre o ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos.
A autoconfiança adquirida pelos líderes chineses se refletiu na avaliação de Hu de que o sistema monetário internacional dominado pelo dólar é “algo do passado”. Ao mesmo tempo, o líder chinês reconheceu que transformar o yuan em uma moeda de reserva internacional é um processo que ainda demandará muito tempo.
Na mesma entrevista, o presidente deu indicações de que rejeitará a pressão norte-americana por uma apreciação mais rápida do yuan em relação do dólar, ao afirmar que a mudança no câmbio não é o mecanismo adequado para o combate da inflação enfrentada atualmente pela China.
Todos os temas que provocaram atritos entre os dois países nos últimos meses estarão presentes nas conversas entre Obama e Hu, que permanecerá três dias nos Estados Unidos.
Do lado americano, além do patamar depreciado do yuan, a lista inclui o pleito para que a China contenha as ambições nucleares da Coreia do Norte, seja mais transparente em relação a seus investimentos militares e respeite os direitos humanos que os norte-americanos consideram universais.
A China vai reiterar sua oposição à venda de armas a Taiwan pelos Estados Unidos, exigir o respeito a sua integridade territorial e defender a não-interferência em assuntos que vê como internos, entre os quais estão o Tibete e o tratamento dado aos dissidentes políticos.
A divergência entre os dois países na questão dos direitos humanos se aprofundou em novembro, com a reação furiosa da China à entrega do Prêmio Nobel da Paz ao chinês Liu Xiaobo, elogiada pelos Estados Unidos.
É pouco provável que haja qualquer avanço concreto em relação a esses tópicos e os dois líderes vão se esforçar para ressaltar os pontos de cooperação entre seus países. Estados Unidos e China possuem uma enorme dependência econômica, fruto do comércio, investimentos e financiamento da dívida externa norte-americana por Pequim.
Mas a desconfiança mútua dificilmente desaparecerá. Maior potência global, os Estados Unidos vêem como um fator desestabilizador os crescentes investimentos militares do país asiático, enquanto muitos em Pequim acreditam que Washington tentará em algum momento bloquear a emergência chinesa.
Os chineses estão desenvolvendo o que seria o primeiro sistema de mísseis capaz de atingir navios e porta-aviões. Se tiverem sucesso, eles mudarão a correlação de forças no Pacífico, já que passarão a ter a capacidade de atingir a frota norte-americana estacionada na região.
Washington também viu com preocupação o primeiro teste de um caça chinês “invisível”, que não é detectado por radares, realizado há pouco mais de uma semana, no mesmo dia em que o secretário de Defesa norte-americano, Robert Gates, iniciava visita a Pequim.
Aí vai a lista dos principais conflitos entre os dois países desde o início de 2010:
Armas para Taiwan – Os Estados Unidos anunciam em janeiro a venda de US$ 6,4 bilhões em armas para Taiwan, a ilha que a China considera como integrante de seu território. Pequim reagiu com a suspensão da cooperação militar entre os dois países e a ameaça de imposição de sanções às empresas envolvidas na operação
Dalai lama – Apesar dos protestos de Pequim, o presidente Barack Obama recebeu o dalai lama em fevereiro na Casa Branca. O líder espiritual tibetano é considerado um separatista pelas autoridades chinesas
Google – O maior site de buscas do mundo, o norte-americano Google, anunciou em março o fechamento de seu site em chinês. A empresa afirmou que a decisão foi provocada pela intensificação da censura e pelo ataque de hackers que operam a partir da China
Coreia do Norte – Em maio, a Coreia do Sul acusou a Coreia do Norte de ter afundado dois meses antes o navio de guerra Cheonan, provocando a morte de 46 marinheiros. A China evitou condenar seu aliado e frustrou os EUA, que gostariam de uma ação mais incisiva de Pequim para controlar Pyongyang.
Coreia do Norte 2 – A China volta a frustrar os norte-americanos em novembro, ao deixar de condenar o ataque da Coreia do Norte à ilha sul-coreana de Yeonpyeong. Para os chineses, os sul-coreanos iniciaram as provocações, ao realizar exercícios militares em área disputada pelas duas nações.
Yuan – O patamar desvalorizado do yuan em relação ao dólar é um ponto de permanente atrito nas relações entre os dois países e ganhou mais proeminência no ano passado em razão do aumento do desemprego nos Estados Unidos
Expansão militar – A China investe na modernização de suas Forças Armadas e desenvolve o que seria o primeiro sistema de mísseis capaz de atingir navios e porta-aviões. Com isso, teria a capacidade de atingir a frota norte-americana estacionada na região. Há pouco mais de uma semana, o país realizou o primeiro teste de seu caça “invisível”, que não é detectado por radares
Nobel da Paz – A China reagiu com fúria à entrega do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo, em novembro, evidenciando as diferenças ideológicas que a separam dos Estados Unidos. A questão dos direitos humanos estará presente na pauta de discussões entre Hu Jintao e Barack Obama
Estados Unidos e Japão deram início hoje ao maior exercício militar conjunto que já realizaram no leste asiático, para o qual a Coreia do Sul enviou observadores pela primeira vez. As atividades reforçam os laços dos norte-americanos com seus dois principais aliados na região, abalada pelo ataque da Coreia do Norte que provocou a morte de quatro sul-coreanos na semana passada.
Maior aliada de Pyongyang, a China criticou os exercícios militares que começaram, dois dias depois de os Estados Unidos terem encerrado quatro dias de treinamento bélico com a Coreia do Sul.
“A exibição de força não pode resolver o problema”, afirmou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Jiang Yu, em briefing com a imprensa. “Alguns estão brincando com facas e revólveres enquanto a China é criticada por propor o diálogo. Isso é justo?”, perguntou Jiang.
No domingo, Pequim propôs que a crise na península coreana fosse discutida em uma reunião de emergência do Grupo dos Seis, que reúne as duas Coreias, China, Estados Unidos, Japão e Rússia.
A proposta foi recusada pelos norte-americanos, japoneses e sul-coreanos, que terão na segunda-feira um encontro em Washington para analisar a situação na região. Iniciadas em 2003 por iniciativa da China, as negociações do Grupo dos Seis não trouxeram avanços em seu principal objetivo, que é o desmantelamento do programa nuclear norte-coreano.
O exercício militar conjunto entre Estados Unidos e Japão já estava previsto antes do ataque da Coreia do Norte à ilha de Yeongpyeong e foi planejado para marcar os 50 anos da “aliança de iguais” entre Washington e Tóquio, segundo o chefe de operações norte-americano, major William Vause.
Mas a crise na península coreana dá outra dimensão ao treinamento e serve como uma demonstração de força e solidariedade dos três países mais hostis à Coreia do Norte na região.
O Japão participará do exercício com 34 mil soldados, 40 navios de guerra e 250 aviões. Os norte-americanos terão o imenso porta-aviões George Washington, 10 mil soldados, 150 jatos e 20 navios.
Além de propor a retomada da negociação do Grupo dos Seis, interrompida desde 2009, a China atua para barrar resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) condenando o ataque da Coreia do Norte à Coreia do Sul, disse à agência de notícias Bloomberg o embaixador do Japão junto à instituição, Tsuneo Nishida. “Os chineses sempre foram resistentes”, observou o diplomata.
Pequim teve papel fundamental para impedir que a ONU criticasse Pyongyang pelo ataque que afundou o navio de guerra Cheonan em março, causando a morte de 46 soldados sul-coreanos. A Coreia do Norte nega que tenha disparado o torpedo que atingiu a embarcação.
Autoridades de Seul iniciaram uma ofensiva de informação ontem para tentar mudar a percepção de que a reação de Seul ao ataque foi lenta, insuficiente e ineficaz. O deputado Kwon Yong-se, do partido governista e presidente do Comitê de Inteligência da Assembléia Nacional, disse em entrevista que duas fotos de satélites em poder do serviço de inteligência mostram que a artilharia sul-coreana atingiu alvos militares no país vizinho e pode ter provocado “severas baixas humanas”.
A agência oficial de notícias Yonhap citou fonte não identificada do Exército que dá a mesma declaração. As imagens não foram apresentadas.
A Coreia do Sul demorou 13 minutos para reagir ao bombardeio da ilha Yeongpyeong, tempo considerado excessivo por especialistas militares ouvidos por um dos principais jornais sul-coreanos, o Chosun Ilbo. Segundo eles, os norte-coreanos precisavam de apenas sete minutos para recolher sua artilharia em locais seguros antes de um contra-ataque do sul.
Trinta anos depois da consagração de Kim Jong-il como futuro sucessor de seu pai, Kim Il-sung, a Coreia do Norte deverá ver na próxima semana a terceira troca de comando de seu totalitarismo hereditário, com a provável escolha de Kim Il-un como futuro líder supremo do país.
Filho mais novo de Kim Jong-il, Kim Il-un tem menos de 30 anos e uma biografia virtualmente desconhecida fora da Coreia do Norte. Entre as poucas informações sobre sua vida está a de que frequentou uma escola na Suíça durante a adolescência.
O primeiro congresso do Partido dos Trabalhadores em três décadas estava marcado para o início de setembro, quando a chegada de delegados à capital Pyongyang chegou a ser noticiada pela agência oficial de notícias norte-coreana.
O encontro foi cancelado sem explicação e referências a ele desapareceram nos textos governamentais. Analistas apontam três possíveis razões para o adiamento: ausência de consenso sobre o processo sucessório, a frágil saúde de Kim Jong-il ou as enchentes que atingiram o país no fim de agosto e afetaram a já precária oferta de alimentos no país.
Com 68 anos, Kim Jong-il teria sofrido um derrame em 2008 e sua crescente debilidade física ficou visível em fotos tiradas durante visitas que realizou à China, a mais recente das quais em agosto.
Se Kim Il-un for realmente escolhido como sucessor de seu pai na próxima terça-feira, não está claro se ele assumirá imediatamente o poder ou ocupará outro cargo, durante um período de transição.
Kim Jong-il foi consagrado como sucessor em 1980, mas só chegou ao comando do país em 1994, depois da morte de seu pai, Kim Il-sung, o heroi da revolução norte-coreana. Em razão do precário estado de saúde do atual dirigente, Kim Il-un não terá o mesmo tempo de preparação para o cargo que seu pai, caso venha a ser apontado como futuro líder norte-coreano.
Também há dúvidas sobre o rumo que a Coreia do Norte adotará no terreno econômico depois da conclusão do processo sucessório. A expectativa de que haja algum movimento na direção de reformas foi alimentada pela reabilitação de Pak Pan Ju, 71, que era responsável pela área econômica e perdeu o posto há três anos por defender mudanças pró-mercado. Em 2002, ele fez parte de uma delegação que visitou a Coreia do Sul para estudar o sistema capitalista.
Pak voltou ao governo em agosto, ocupando um cargo de direção no Comitê Central do Partido dos Trabalhadores. Outro integrante da delegação de 2002, Pak Nam Gi, foi executado no começo deste ano depois que medidas que adotou como ministro das Finanças provocaram inflação e a brutal perda de valor da moeda local.
O período que antecedeu a sucessão foi marcado pelo tom belicoso de Kim Jong-il em relação à comunidade internacional, o que muitos analistas viram como uma estratégia para ganhar o apoio da linha dura do Exército a seu filho mais novo.
A Coreia do Norte abandonou as negociações sobre seu programa nuclear em abril de 2009, depois que o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) condenou o lançamento de um foguete pelo país, no que teria sido um teste para o transporte de mísseis balísticos intercontinentais. Pyongyang sustentou que havia lançado um satélite de comunicação.
No mês seguinte, a Coreia do Norte promoveu seu segundo teste nuclear em menos de três anos, em um aberto desafio ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que já havia condenado o anterior, realizado em 2006.
Há quatro meses, a Coreia do Sul acusou o Norte de ter afundado o navio de guerra Cheonan no dia 26 de março, provocando a morte de 46 marinheiros. Pyongyang negou a acusação e ameaçou declarar guerra ao país vizinho caso fosse alvo de sanções.
A hostilidade entre os dois lados da península coreana diminuiu nos meses seguintes, especialmente depois das enchentes que atingiram a região em agosto, que levaram o Sul a doar alimentos para o Norte.
Unificada durante 1.300 anos, até ser dividida por Estados Unidos e a ex-União das Repúblicas Soviéticas no fim da 2ª Guerra Mundial, a península coreana é uma relíquia dos tempos da Guerra Fria, cortada ao meio pela mais militarizada fronteira do planeta.
Os dois lados se enfrentaram em uma guerra devastadora entre 1950 e 1953, que deixou cerca de 3 milhões de pessoas mortas, feridas ou desaparecidas, número que correspondia a 10% da população da península na época. Desde então, vivem em estado de alerta permanente, que em várias ocasiões esteve prestes a se transformar em um novo conflito armado.
Os coreanos não tiveram participação nos debates que levaram à divisão do seu país, decidida pelas potências vencedoras da 2ª Guerra. Os soviéticos estabeleceram sua zona de influência ao norte do paralelo 38 _que até hoje separa a Coreia_, enquanto os norte-americanos ficaram no sul.
Nas quatro décadas anteriores, a península havia sido invadida e colonizada de maneira brutal pelo Japão, com a conivência de países ocidentais que colonizavam outras regiões da Ásia, incluindo os Estados Unidos.
Com a derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial, os vencedores se reuniram para decidir o que fazer com suas possessões coloniais, entre as quais estava a Coreia. A ideia original era que as zonas de influência soviética e norte-americana fossem temporárias, mas isso se tornou impossível com o agravamento da Guerra Fria.
Nos anos seguintes, o que era um país unificado se dividiu em duas parte totalmente díspares. Atualmente, as diferenças entre ambas constituem uma barreira muito mais poderosa que a fronteira militarizada.
Isolado, o norte vive uma situação econômica cada vez mais precária, com um terço da população subnutrida, segundo Daniel Pinkston, especialista em Coreia do Norte do International Crisis Group. “O país vive uma crise humanitária”, disse Pinkston ao Estadão.
A situação do país comandado por Kim Jong-il deve se agravar ainda mais com as sanções que deverão ser imposta em retaliação ao ataque que afundou o navio de guerra sul-coreano Choenan, no dia 26 de março, deixando 46 marinheiros mortos.
A Coreia do Sul sustenta que o torpedo que atingiu a embarcação partiu de um navio norte-coreano, o que é negado por Pyongyang. Na semana passada, Seul anunciou a suspensão de quase todo o comércio com o norte e a suspensão de ajuda humanitária, com exceção da destinada a crianças.
Enquanto no Norte internet e celulares são privilégio de poucos, o Sul vive em uma sociedade hiperconectada, com jovens ávidos pelos últimos lançamentos tecnológicos. Com um PIB per capita de US$ 19 mil, a Coreia do Sul caminha para entrar no clube dos países mais ricos do mundo.
A proposta de sanções contra o Irã apresentada ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) não afeta o relacionamento comercial entre a China e o Irã, que responde por 11% das importações de petróleo do país asiático, nem compromete os investimentos chineses na república islâmica. Com isso, o texto responde às exigências de Pequim para apoiar a quarta rodada de sanções defendida pelos países ocidentais, em especial os Estados Unidos.
De acordo com o analista Ma Xiaolin, que foi correspondente da agência oficial de notícias Xinhua no Oriente Médio de 1993 a 2002, a China sempre deixou claro que qualquer resolução teria que respeitar os seguintes princípios: não interromper o suprimento internacional de petróleo, não afetar o comércio e os negócios internacionais regulares nem prejudicar a vida dos cidadãos iranianos.
“Países que mantêm relações econômicas e comerciais regulares e legítimas com o Irã não podem ser punidos em razão da questão nuclear iraniana”, disse um diplomata chinês não identificado ao jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista da China.
Na opinião do mesmo diplomata, as condições impostas pela China foram contempladas na proposta de resolução, o que permitiu sua apresentação aos demais membros do Conselho de Segurança na terça-feira.
Outro diplomata citado pela agência oficial de notícias Xinhua afirmou que o acordo sobre as sanções foi obtido depois de 20 sessões de “dura barganha” entre os membros permanentes do Conselho de Segurança _China, Estados Unidos, Rússia, França e Inglaterra.
Além de garantir o comércio, o texto não afeta os investimentos nos setores de petróleo e gás do Irã realizados por empresas chinesas, que colocaram bilhões de dólares no país islâmico nos últimos anos.
Outra exigência de Pequim respeitada pela proposta é o veto ao uso _ou a ameaça de uso_ da força para solucionar a questão nuclear iraniana. A China sempre defendeu que o problema seja resolvido de maneira pacífica, observaram os analistas.
Wang Yong, diretor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim, afirmou que os princípios básicos que orientam a posição da China nesse tema são a oposição à posse de armas nucleares pelo Irã, a defesa do direito do uso pacífico da energia nuclear e a condenação do uso da violência.
O analista Ma Xiaolin afirma que as sanções, se aprovadas, serão “estritamente limitadas” a questões relacionadas a materiais nucleares e militares, além de afetar as atividades econômicas e financeiras da Guarda Revolucionária.
“Se a resolução for aprovada, ela vai evitar prejuízos à vida econômica do Irã _que é a produção e exportação de petróleo_ e à vida da população.”
Em sua avaliação, o acordo fechado no domingo por Irã, Brasil e Turquia foi uma tentativa frustrada de Teerã de evitar seu isolamento e a adoção de sanções. “O Irã correu para assinar o acordo antes que o Conselho de Segurança discutisse o esboço da quarta rodada de sanções.”
A declaração divulgada pelos três países prevê que o Irã enviará 1.200 quilos de urânio para a Turquia e receberá de volta 120 quilos de urânio enriquecido a 20%, grau suficiente para produção de eletricidade.
“Nós não podemos excluir a possibilidade de que o Irã possui mais urânio enriquecido nem de que o país não tenha relatado de maneiro honesta à Agência Internacional de Energia Atômica seu desenvolvimento nessa área”, ponderou Ma, para quem as sanções vão forçar o país a ser mais aberto e transparente em relação a seu programa nuclear.
Mas em sua opinião, o único caminho para resolver o impasse é o entendimento entre Washington e Teerã. “A maneira mais efetiva de solucionar a questão nuclear iraniana é os Estados Unidos abandonarem sua política hostil em relação ao Irã e tomarem a iniciativa de normalizar seu relacionamento com o país. Isso iria reduzir os temores iranianos, que são a principal razão para eles buscarem ter armas nucleares.”
O presidente Barack Obama defendeu em seus primeiros meses de governo uma política de “engajamento” em relação ao Irã, mas não obteve resposta positiva do governo de Teerã. É por isso que os norte-americanos passaram a defender a adoção de uma nova rodada de sanções contra o país.
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