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Cláudia Trevisan

03.março.2010 23:57:37

Ai, eles ainda estão vivos…

“Ai, eles ainda estão vivos…” Quando minha assistente Wendy deu o alerta, já era tarde. Os camarões haviam sido deixados em nossa mesa, atravessados por palitos de madeira ao longo de todo o corpo. Ainda mexiam as pernas e a cabeça, o que fazia com que alguns literalmente pulassem no prato. O pior é que não podíamos abreviar sua agonia imediatamente. A água onde deveríamos colocá-los ainda não havia começado a ferver. Ficamos alguns minutos assim, tentando não olhar para os camarões, enquanto os garçons deixavam na mesa cogumelos, verduras, tiras de carne, tofu e wanton, a versão local do cappelletti. Era o início de nosso “hot pot”, uma espécie de fondue chinês, no qual ingredientes escolhidos entre uma infinita variedade são jogados em uma panela com água fervente temperada.

Logo que sentamos, o maitre nos informou que os camarões eram oferta da casa. Só não avisou de que a tarefa de matá-los seria terceirizada do cozinheiro para nós. Os chineses gostam de peixes e frutos do mar realmente frescos e muitos restaurantes têm tanques nos quais os animais são mantidos vivos até o momento em que devem ser preparados. Alguns peixes são cozidos tão rapidamente que chegam à mesa ainda abrindo e fechando a boca. Como o “hot pot” é feito pelos clientes, servir os camarões vivos é a melhor maneira de mostrar que eles acabaram de ser retirados do tanque. Depois de uma breve discussão comigo mesma sobre se deveria ou não comê-los, decidi que sim e os coloquei na água assim que ela começou a ferver.

O sabor era ótimo, mas confesso que a experiência foi perturbadora, o que reafirmou minha convicção de que não posso experimentar outro prato célebre chinês: “camarões bêbados”, no qual os animais não são apenas servidos vivos _eles são comidos vivos. Os camarões chegam à mesa mergulhados em uma travessa cheia de “baijiu”, a aguardente chinesa. Os comensais devem pescá-los com seus palitos, arrancar a cabeça do camarão e colocá-los na boca, com as pernas ainda em movimento. Os mais destemidos mastigam o camarão inteiro, com a cabeça e as antenas.

Pela curta narrativa acima já deu para perceber que os chineses têm uma relação totalmente diferente com animais que os ocidentais. Já pensei muito sobre as razões e uma das hipóteses é a onipresença que a vida rural ainda tem na China. Metade da população ainda vive no campo e os que estão na cidade iniciaram sua vida urbana há pouco tempo. Um exemplo: acabei de pegar um vôo para Pequim em Hangzhou, uma das mais ricas cidades da China. Enquanto esperava, os alto-falantes anunciaram que alguém havia esquecido um saco de laranjas na entrada para os portões de embarque e que poderia retirá-lo na segurança. Quem no Brasil viaja de avião com um saco de laranjas? Na China, muita gente. E alguns descascam as laranjas durante o vôo.

Em 1978, quando teve início o processo de abertura, 82% da população vivia em vilas rurais, onde geladeiras ainda eram objeto de luxo. Por fim, os chineses passaram ao longo de sua história por vários períodos de fomes devastadoras, que provocaram a morte de milhões de pessoas. A mais recente delas foi durante o Grande Salto Adiante (1958-1962), a desastrada tentativa de Mao Tsé-tung de industrializar o país em velocidade recorde. A brutal queda na produção agrícola fez com que cerca de 30 milhões de chineses morressem de fome.

Aí vão as fotos dos camarões e do “hot pot”:

Camarões vivos em espetos - Cláudia Trevisan/AE

Camarões vivos em espetos – Cláudia Trevisan/AE

 

Ingredientes do "hot pot" - Cláudia Trevisan/AE

Ingredientes do "hot pot" – Cláudia Trevisan/AE

 

Os camarões cozidos - Cláudia Trevisan/AE

Os camarões cozidos – Cláudia Trevisan/AE

Tanques de peixes e frutos do mar - Cláudia Trevisan/AE

Tanques de peixes e frutos do mar – Cláudia Trevisan/AE

comentários (20) | comente

20 Comentários Comente também
  • 05/03/2010 - 10:17
    Enviado por: Rafael

    Oi Cláudia!

    Recentemente a China está debatendo sobre a proibição do consumo de carne de cachorro. É um tema interessante a ser explorado já que representa um duelo entre a China tradicional (que consome tudo que anda, rasteja e voa – segundo um ditado de Hong Kong) e uma parcela cada vez mais rica da população, a classe média que está absorvendo hábitos ocidentais de adotar um cachorro de estimação.

    De qualquer modo, o tema “comida” na China é um tópico que une pessoas do Norte e do Sul, rico e pobre, trabalhadores e executivos, comunistas e ateus, enfim, a China toda.

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    • 05/03/2010 - 16:25
      Enviado por: Cláudia Trevisan

      Rafael, o debate sobre carne de cachorro reflete bem o conflito entre tradição e modernidade. Pequim tem um número cada vez maior de cachorros de estimação, mas acho que ainda vai demorar para que o hábito de comê-los seja extinto. Se for extinto.

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  • 05/03/2010 - 12:20
    Enviado por: Glúon

    ________________

    Papo de leitoras
    ________________

    - Gostou deste post?
    - Adorei, a Cláudia está agora em uma nova fase.
    - Como assim?
    - Procurando Nemo, né?

    ___________________________________________________

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  • 05/03/2010 - 15:22
    Enviado por: Camila Tardin

    Olá Cláudia,
    Sempre que posso dou uma espiada no seu blog. Achei muito interessante esse costume alimentar dos chineses. Não sei se eu teria a mesma coragem que vc, mas quando vivemos em outra cultura penso que perdemos certos receios para aprendermos um pouco mais com as diferenças né?
    Um abraço.
    Bom trabalho.

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    • 05/03/2010 - 16:42
      Enviado por: Cláudia Trevisan

      Oi Camila, viver em outras culturas exige respeito às diferenças e flexibilidade. Tento sempre me lembrar de que eu é que estou no país deles e não o contrário.

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  • 05/03/2010 - 15:52
    Enviado por: Pamela Strutzel

    Oi Cláudia! Há pouco tempo deixei um post pra vc sobre isso (quando fiquei super sensibilizada sobre como os chineses tratam os animais) depois de ter lido o seu livro. Me sinto exatamente da mesma maneira que vc e como logo estarei na China a trabalho, espero que não sirvam camarões semi-vivos no jantar de negócios hahah Um grande abraço!

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    • 05/03/2010 - 16:43
      Enviado por: Cláudia Trevisan

      Pamela, você com certeza viverá situações estranhas, mas como disse na resposta a seu primeiro comentário, não deixe de vir!

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  • 05/03/2010 - 16:19
    Enviado por: Guima

    Olá, Claudia.

    E o livro ai? O que é que os chineses andam lendo? Como são as livrarias ai na China?

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    • 06/03/2010 - 05:37
      Enviado por: Cláudia Trevisan

      Guima, há livrarias enormes, com pessoas sentadas nos corredores folheando e lendo livros. Além dos títultos de escritores chineses, o que faz sucesso são livros de administração norte-americanos, escritos por CEOs, com segredos de sucesso nos negócios. E Harry Potter é um estrondo, como em qualquer lugar do mundo.

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  • 05/03/2010 - 16:42
    Enviado por: WELL

    Ainda bem que você não pediu um “Hot dog”, vai que sobra para você a missao de mergular o vira-latas na água quente, mas, cultura é cultura.

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  • 06/03/2010 - 21:36
    Enviado por: Riccardo(California,USA)

    Ah um tempinho atras visitei a cidade de Taipei no Taiwan e la tinha uma Feira (nos Domingos) chamada “Snake Alley” uma feira do jeitao das feiras do Brasil mais com a grande diferenca que os produtos a venda eram animais vivos para consumos alimentares,principalmente as cobras que eram cortadas ainda vivas e o suco delas eram botados num copo e vendidas como um elixir para dar vitalidade sexual, um tipo de VIAGRA natural.

    Nossa eu estou TRAUMATIZADO ate hoje.

    A respeito dos “cachorros quentes” quando a Coreia teve as Olimpiadas eles proibiram as vendas dos cachorros nos restaurantes na cidade de Seoul.

    Beleza.

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    • 07/03/2010 - 01:52
      Enviado por: Cláudia Trevisan

      Riccardo, imagino seu choque. Nas Olimpíadas de Pequim, também foi proibida a venda de carne de carrocho na cidade. Ela não é tão comum como na Coreia, mas existe.

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  • 06/03/2010 - 21:51
    Enviado por: Riccardo(California,USA)

    Me lembra do ditado.

    Frances come Cavalo
    Coreano come Cachorro
    E Chines come o resto

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  • 08/03/2010 - 22:05
    Enviado por: Lyna

    Às vezes eu juro que dá vontade de virar vegetariana e só comer hambúrguer de soja (eu adoro picanha, mas francamente, desistiria para sempre dela se tivesse que matar a vaca!! :) ))

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    • 09/03/2010 - 10:13
      Enviado por: Cláudia Trevisan

      Morri de rir, Lyna. Também adoro picanha e certamente desistiria dela se tivesse que matar a vaca. Principalmente se isso tivesse que ser feito na mesa do restaurante…

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  • 12/03/2010 - 13:07
    Enviado por: Martin

    Cláudia,

    Sou vegetariano e vejo-o como uma opção. Minha esposa, por exemplo, é carnívora. Vejo, contudo, como degradante o fato das pessoas não se preocuparem mais com a forma com que os animais são tratados e, principalmente, mortos. Um tratamento digno (vida, transporte e morte dignos – esta indolor) são algo que todos deveriam (entendo mesmo como um dever) exigir. Foie gras, kobe beef e animais cozidos ou mastigados vivos? Não seria isso colocar o paladar acima de qualquer costume civilizatório? Mas gostaria de agradecer pelas informações postadas. Informar é compartilhar, portanto, muito grato.

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  • 12/03/2010 - 18:11
    Enviado por: Chi Qo

    Acho que prefiro pratos menos frescos como sushi…
    Embora digam que grandes mestres do sushi japonês trabalham tão rápido que se um peixe vivo lhes cai nas mãos, são capazes de servir o sushi enquanto a cabeça do peixe ainda abre e fecha a boca…

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  • 12/03/2010 - 18:12
    Enviado por: Chi Qo

    p.s. Acho que há uma exceção… Posso ser chamado de bárbaro, mas adoro ostras! Gosto delas sem limão para sentir melhor o gosto!!!

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