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Cláudia Trevisan

03.março.2009 05:01:55

A internet com características chinesas

Com 300 milhões de usuários, a maior população online do mundo, a internet é um dos fenômenos mais instigantes e de difícil compreensão para quem observa a China de hoje. Sua expansão é promovida e celebrada pelo mesmo governo que bloqueia inúmeras páginas e blogs, na tentativa de manter fora do alcance dos chineses temas “sensíveis” como o conflito no Tibete, a independência de Taiwan ou pressões por uma democracia pluripartidária.

As autoridades de Pequim mantêm um exército estimado em 30 mil censores para “filtrar” as informações a que seus internautas têm acesso, mas é cada vez maior o espaço ocupado por discussões online que seriam impensáveis há poucos anos. Os chineses participam de milhares de fóruns e debatem com paixão os problemas que assolam o país _da crescente desigualdade de renda ao aumento da poluição. A China tem um número estimado entre 30 milhões e 50 milhões de blogs, que vão do estilo “esta é minha vida” aos que defendem mudanças políticas radicais. Neste último caso, os posts costumam cair na rede da censura, mas são colocados no minuto seguinte em outro endereço, em uma corrida interminável.

A grande incógnita é saber se a internet levará necessariamente à democratização da sociedade chinesa ou se será um instrumento de legitimação do Partido Comunista. Os donos do poder em Pequim têm sido agressivos e rápidos na tentativa de transformar a internet em uma arma que funcione a seu favor, com o uso cada vez mais freqüente da rede na identificação de demandas da sociedade e na comunicação com a população. A imprensa oficial chinesa se refere à população online como “wang min”, algo como “internauta cidadão” ou “netizen” em inglês, um termo que reflete a ideia de que a rede seria um canal de expressão da cidadania.

No sábado, o primeiro-ministro Wen Jiabao participou de um chat com milhares de internautas (“wang min”) durante duas horas, nas quais falou sobre corrupção, aumento da desigualdade social, problemas na área de saúde, desemprego, habitação, mercado acionário e até culinária. Claro que os temas “sensíveis” estavam ausentes, mas o debate foi bem menos restrito que o chat realizado no ano passado pelo presidente Hu Jintao. Nada menos que 90 mil perguntas foram apresentadas durante as duas horas.

Entre os pontos que mais me surpreenderam no diálogo de Wen com os internautas foram as críticas feitas à decisão do primeiro-ministro de doar de seu bolso 10 mil yuans para ajudar no tratamento de uma criança que tem leucemia. Ao invés de receber afagos por seu bom coração, Wen foi atacado pelas falhas do serviço público de saúde na China. Para os internautas, é melhor ter um bom sistema do que um bom primeiro-ministro. “Eu notei as severas críticas que dizem que um bom sistema importa mais do que um bom premiê e entendi os argumentos”, escreveu Wen. “A China tem mais de 4 milhões de crianças com leucemia. O tratamento para cada uma delas custa mais de 100 mil yuans. Mas nenhuma empresa de seguro-saúde na China aceitaria o reembolso de uma despesa médica tão alta”, admitiu.

Wen Jiabao afirmou que a corrupção só pode ser combatida com limites ao exercício do poder e sustentou que os governados têm o direito de criticar os governantes _ele só não mencionou que a prática também está sujeita a limites. Ao falar do aumento da desigualdade social, Wen Jiabao citou um de seus autores prediletos, o escocês Adam Smith (1723-1790), considerado o pai do liberalismo econômico e autor da teoria da “mão invisível” como o mais eficaz instrumento de regulação do mercado. “Se a riqueza em uma sociedade é concentrada nas mãos de um pequeno número de pessoas, isso vai contra a vontade popular e a sociedade estará fadada a ser instável”, disse Wen, fazendo referência à “Teoria dos Sentimentos Morais”, obra escrita por Smith antes de a “A Riqueza das Nações”.

Em discurso a dirigentes comunistas há dois anos, o presidente Hu Jintao conclamou os camaradas a aprenderem a usar a internet e a usarem a rede para “aperfeiçoar a arte da liderança”. O jornal oficial do Partido Comunista, “Diário do Povo”, realiza desde o fim de janeiro uma pesquisa online para saber quais os tópicos de interesse dos “netizens” em preparação à reunião anual do Congresso Nacional do Povo, que começa na quinta-feira. Até o dia 2 de março, 300 mil pessoas haviam escolhido entre as 20 opções possíveis e os 10 assuntos campeões eram proteção do meio ambiente, combate à corrupção, segurança de remédios e de alimentos, reforma do sistema de saúde, distribuição de renda, emprego, habitação, educação, seguridade social e sistema Judiciário. A opção “democracia” não estava incluída entre os 20 itens da versão em chinês do jornal, apesar de aparecer na versão em inglês.

A tentativa do governo de transformar a internet em um mecanismo de comunicação com a população e de resposta às demandas dos cidadãos é o principal elemento que leva alguns estudiosos a sustentarem que a rede não levará à democratização e ao pluripartidarismo na China. Pelo contrário. Rebecca MacKinnon, professora da Universidade de Hong Kong, cunhou o termo “cyber-tarianism” para delinear um dos possíveis cenários para o futuro da internet no país, um cenário no qual o governo usa a rede para identificar as inquietações da população, atendê-las quando possível e, assim, reduzir o risco de instabilidade social. Nele, o regime de partido único comandado pelos comunistas não é ameaçado e os cidadãos têm a percepção (real ou ilusória) de participar de alguma maneira do processo decisório. Outro cenário é o de uma “cyber-ocracy”, na qual comunidades poderiam usar a internet para se organizar em torno de questões de seu interesse (agradeço à minha amiga Janaína Silveira por me enviar um texto sobre o assunto).

Muitos continuam a acreditar que a rede levará de maneira inevitável à democratização da sociedade chinesa, na medida em que amplie o acesso à informação e o espaço público para o debate de idéias. Mas ainda é muito cedo para saber quem está certo.

Abaixo, a foto de Wen Jiabao durante o chat, distribuída pela agência oficial de notícias Xinhua:

comentários (10) | comente

10 Comentários Comente também
  • 03/03/2009 - 13:58
    Enviado por: William Peixoto

    Cláudia,

    Parabéns pelo trabalho na China. Seus texto são atrativos e oferem boas informações a respeito de tantos aspectos do gigante asiático que tanto me assusta.

    O controle da imprensa, feito também pela internet, é só mais um dos males do regime do partido único chinês. Até quando o PCC conseguirá se manter no poder? Até quando a liberdade será relegada aos chineses?

    Grato

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  • 03/03/2009 - 15:39
    Enviado por: Roberto Vomero Monaco

    Claúdia:
    Parabéns, mais uma vez, pela qualidade da investigação jornalística, que conjuga com o indispensável equilíbrio, levantamento de campo e fontes qualificadas. Assim, o seu velho amigo Tatuí, quer cumprimentá-la, em especial porque o tema é de uma atualidade imensa e, portanto, os riscos de abordá-la são inversamente proporcionais às “certezas convencionais”. O dilema democratização versus cooptação vai propiciar teses universitárias e mobilizar corações e mentes pelo mundo inteiro.
    Beijos do velho
    Tatuí

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  • 03/03/2009 - 18:12
    Enviado por: MaGioZal

    A internet não vai causa a democratização da China, assim como a imprensa escrita, o rádio e a televisão também não o fizeram — muito pelo contrário.

    Apesar do visual moderno, a China nos intestinos do seu poder continua autoritária e até mesmo maoísta como sempre foi. Nunca houve perestrioka ou glasnost por lá, e a tentativa de reforma por parte dos estudantes nos anos 80 foi literalmente esmagada pelos tanques. A China moderna de hoje é filha direta da Revolução Cultural e do Massacre da Praça da Paz Celestial.

    Mesmo com seus chips, mesmo com seus filmes, mesmo com suas cidades gigantes, mesmo com sua suposta competência empreendedora (montar fábricas sem sindicatos seve ser fácil, né?), nada na China supera o poder do Partido Comunista, que controla o país com patas de ferro há 60 anos.

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  • 04/03/2009 - 05:13
    Enviado por: claudiatrevisan

    Meus caros, obrigada pelos comentários! Em outro exemplo do uso da internet a seu favor, o governo chinês anunciou que pela primeira vez os integrantes do Congresso Nacional do Povo vão participar de chats com os cidadãos durante a sessão deste ano, que começa amanhã e dura nove dias. As conversas com internautas ocorrerão em dez portais e a primeira está marcada para amanhã. “O país tem a maior população online do mundo, de 300 milhões de pessoas, e suas vozes estão jogando um papel mais relevante na sociedade”, afirmou o vice-presidente do people.com.cn, o portal do jornal oficial do Partido Comunista. “Os chatrooms vão mostrar uma imagem mais responsável e democrática do governo”, ressaltou.
    Cláudia Trevisan

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  • 04/03/2009 - 05:13
    Enviado por: claudiatrevisan

    Tatuí, adorei te encontrar aqui. Apareça sempre! Beijo grande e saudades.
    Cláudia Trevisan

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  • 04/03/2009 - 05:43
    Enviado por: Marcelo Falcao

    Cara Claudia:
    acho que não entendi direito, mas se o governo atender os desejos da parcela da população que possui acesso à internet, isso não seria de alguma forma uma democratização?
    Desconsiderando que a gigantesca maioria não é “cidadão da rede”, defina, por favor, democracia.
    Vivo em Xangai, e peço que considerem que a maioria da população chinesa ainda está – na pirâmide de Maslow – nos andares de baixo.
    Espero ver um dia democracia por aqui, mas me permito a pergunta: E se esta vier via Internet?

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  • 04/03/2009 - 06:19
    Enviado por: claudiatrevisan

    Caro Marcelo, o ponto que você levanta é extremamente interessante. Quando falo de democracia eu me refiro ao modelo ocidental de democracia, no qual há separação de Poderes, liberdade de imprensa, pluripartidarismo, eleições livres e leis (em tese iguais para todos) que regulam as relações entre os cidadãos e entre estes e o Estado. Também há limites definidos para a atuação do Estado e instrumentos pelos quais os cidadãos podem se defender de arbitrariedades do Poder Púlbico. Nada disso existe na China. Mas isso não impede que o governo seja bem mais eficiente que outros eleitos de maneira democrática na solução dos problemas que afligem a população. Na semana passada eu tive uma conversa com um professor da Universidade de Tsinghua, e ele observou que justamente por não contarem com a legitimação do voto, os governantes de Pequim buscam a legitimação na forma de uma administração que responda às demandas da população, que são imensas. Como você observou, a maioria dos chineses ainda está no andar de baixo. Os prefeitos chineses são avaliados por metas (geralmente de crescimento) e sua promoção na hierarquia do Partido Comunista depende de sua performance, em um sistema parecido ao de uma empresa privada. Talvez esteja em gestação um novo sistema, que concilie a existência de um governo autoritário de partido único com participação popular via internet. Caberá aos chineses decidirem o que melhor responde aos seus anseios e necessidades. Cláudia Trevisan

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  • 04/03/2009 - 10:08
    Enviado por: Marcelo Falcao

    Cara Cláudia:
    Fica já o convite para conversar aqui no “Little Brazil” de Xangai, que é a nossa comunidade “quebra-barraco” brasileira a próxima vez que vier para estes lados.

    Na sua resposta ao meu comentário, me atrevo a fazer duas lembranças:
    1) Pela sua definição também não há democracia de fato no Brasil.
    2) Há um certo grupo de políticos no Brasil que jura que democracia é a tal gestão pareticipativa, ou o nome que tiver, que é tão ou mais exclusora que a gestão via internet dos chineses.

    De mais a mais, tomara que a liberdade abra suas asas sobre todos nós, e que um estado de direito prevaleça e seja acessível para todos.
    Fato é que a Internet ainda vai mudar mais o mundo, e se eu conseguisse prever como, iria vender um montào de livros contando…

    Muito obrigado pelo bate-papo, esperamos poder comprimentá-la por aqui.

    Atenciosamente

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  • 05/03/2009 - 10:30
    Enviado por: claudiatrevisan

    Marcelo, irei com prazer ao “Little Brazil” em Xangai. O debate em torno da democracia “real” e “formal” é interminável. O grande drama brasileiro é a escandalosa desigualdade social. Mas com todos os defeitos e atropelos, nós temos separação de Poderes, imprensa livre, Judiciário independente e liberdade de associação e manifestação. Isso não é pouco. Mas concordo em que nossa democracia é muito mais “formal” do que “real”. Cláudia Trevisan

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  • 06/03/2009 - 03:20
    Enviado por: erica

    Nao vou nem me aventurar a fazer um comentario do ponto de vista politico – nao entendo nada do assunto.
    Agora como usuaria e entusiasta da internet, achei beeem legal a promocao desses chats com os governantes. Fiquei imaginando se permitiram que o Obama fizesse algo desse tipo, parace bem o estilo dele, mas se pra manter o Blackberry jah foi dificil…

    Aproveitando que eh meu primeiro comentario aqui, embora jah leia ha um tempinho, queria te parabenizar tambem, teus textos sao otimos.
    Desculpa a falta de acentos, ainda nao configurei o teclado do trabalho =)

    p.s.: tambem acho um maximo a tecnica chinesa de fazer macarrao (tema do post anterior) e tambem jah filmei o momento em que os fios – quase magicamente – se formam.

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