A Coreia do Sul é mergulhada em pobreza e violações brutais de direitos humanos, os moradores de Nova York têm de sair às ruas com colete à prova de balas para se proteger da violência urbana e a ideologia juche criada por Kim Il-sung é estudada de maneira fervorosa ao redor do planeta.
O retrato do mundo e da Coreia do Norte apresentado nos jornais, rádios e TVs oficiais do país é um exercício de permanente glorificação da dinastia Kim, demonização dos “imperialistas” norte-americanos e seus “fantoches” sul-coreanos e exaltação do militarismo e da suposta superioridade da peculiar versão local do socialismo.
Notícias internacionais são escassas e costumam dar destaque a catástrofes naturais, como tufões e terremotos, e ao impacto negativo da intervenção dos Estados Unidos em crises internacionais. As experiências de Iugoslávia, Iraque e Líbia são usadas para demonstrar o que pode ocorrer com países desprovidos de armas poderosas e servem para justificar a defesa da construção de um arsenal nuclear pela Coreia do Norte. A propaganda oficial sustenta que, sem ele, o país poderá ser invadido e dominado pelos norte-americanos.
O risco de um conflito armado é sempre apresentado como iminente, o que é usado para justificar o desproporcional investimento militar em um país que está entre os mais pobres do mundo.
Também é o álibi para explicar a ausência de acesso à informação fora dos canais oficiais de propaganda, apresentada como uma maneira de proteger a população da perniciosa influência inimiga. Norte-coreanos não têm internet, não usam e-mails e não têm ideia do que sejam Facebook e Twitter.
No universo em que habitam, a kimilsungia é a flor mais sagrada do mundo e kimjongilia, a mais famosa. Na primavera, os meios oficiais trazem textos quase diários sobre exposições das flores em vários países. Segundo a máquina de propaganda de Pyongyang, a kimjongilia floresce nos cinco continentes e “atrai a admiração da humanidade com seu charme”.
Os representantes das três gerações de líderes da família Kim são apresentados como estadistas respeitados internacionalmente. Na quarta-feira, a agência oficial de notícias KCNA disse que “todo o mundo” enviou “calorosas congratulações” a Kim Jong-un para cumprimentá-lo pelo aniversário de um ano da nomeação para os cargos de primeiro-secretário do Partido dos Trabalhadores e primeiro-presidente da Comissão de Defesa Nacional. “Mais de 12 mil veículos de comunicação de todo o mundo competiram entre si para dar ampla publicidade a suas incessantes inspeções do front e orientações práticas nas mais diferentes áreas”, declarou o texto.
Na mitologia construída pela propaganda oficial, Kim Il-sung (1912-1994), seu filho Kim Jong-il (1941-1911) e o neto Kim Jong-un, de 30 anos, são apresentados como líderes oniscientes e onipresentes, que guiam os norte-coreanos em tarefas tão distintas como a plantação de batatas e a fabricação de foguetes.
O ponto alto da visita a qualquer instituição ou empresa é a relação das orientações escritas recebidas de cada um dos Kim e o registro das datas em que visitaram o local pessoalmente. Em todos os lugares há quadros, mosaicos ou fotos e de Kim Il-sung e Kim Jong-il, que também aparecem nos broches que os norte-coreanos levam do lado esquerdo do peito.
A glorificação da Coreia do Norte e da dinastia Kim é acompanhada pela apresentação sombria do mundo exterior, em especial dos Estados Unidos e da Coreia do Sul. Sob o título “O pior deserto de direitos humanos”, os veículos oficiais divulgaram em março relatório do governo de Pyongyang que apontou a suposta situação “medonha” em que vivem os vizinhos do Sul. “Mais de 7 milhões de famílias, que representam 45% do total, estão vivendo uma existência da mão para a boca, sem moradia permanente, e inúmeras pessoas enfrentam uma vida de privações em lugares que dificilmente podem ser chamados de lares”, sustentou a propaganda norte-coreana.
Separados em 1945 em uma zona de influência socialista no Norte e outra capitalista no Sul, os dois lados da península percorreram trajetórias díspares.
A Coreia do Sul é um dos países mais tecnologicamente avançados do mundo e possui um PIB per capital de US$ 31 mil, quando calculado de acordo com a Paridade do Poder de Compra (PPP), que leva em conta os preços domésticos. A Coreia do Norte não divulga estatísticas econômicas, mas a cifra é estimada em US$ 1.800.
Kim Jong-il acreditava que a diluição ideológica havia sido a principal razão para o fim da União Soviética e decidiu intensificar a doutrinação para sustentar o regime. Mas o contato com o mundo exterior começa a abrir brechas na propaganda monolítica, com a entrada clandestina de DVDs sul-coreanos e chineses. O que não se sabe é como os norte-coreanos vão reagir quando souberem que a realidade fora do país não corresponde à imagem construída pelo regime.
O Palácio do Sol é o centro do fervoroso culto à personalidade dos líderes da família Kim, a dinastia que comanda a Coreia do Norte há três gerações. Visto como um lugar sagrado, o edifício abriga os corpos embalsamados de Kim Il-sung e Kim Jong-il, em salas cujas proporções fazem os mausoléus de Mao Tsé-tung, em Pequim, e de Vladimir Lenin, em Moscou, parecerem casas de bonecas.
Ir ao local é um ritual quase religioso, que centenas de norte-coreanos realizam diariamente. As visitas são organizadas por entidades estatais e ninguém pode entrar no palácio sem prévia autorização oficial. Domingo é o único dia em que estrangeiros são aceitos, desde que obtenham com antecedência o sinal verde do Ministério das Relações Exteriores.
Grupos de norte-coreanos chegam ao mausoléu em ônibus e fazem filas antes de começar a peregrinação dentro do imenso edifício, onde Kim Il-sung morou e trabalhou até morrer, em 1994. Com a morte de seu filho, em dezembro de 2011, o local foi remodelado para abrigar os corpos de ambos e reaberto um ano mais tarde.
As paredes de pé direito altíssimo são cobertas de mármore, enquanto lustres de cristal iluminam os amplos salões, em contraste com a pobreza na qual vive a maioria da população. Os visitantes entram no palácio por um esteira rolante, que percorre quase 200 metros ao som do clássico norte-coreano “O presidente Kim Il-sung e o líder Kim Jong-il estarão eternamente conosco”.
A esteira seguinte atravessa um corredor decorado com fotos de Kim Il-sung desempenhando as mais diversas funções _inspeções de fábricas, visitas a escolas, reuniões com militares e encontros com dirigentes estrangeiros. Imagens semelhantes de Kim Jong-il ocupam o trecho subsequente. Por fim, há um corredor com fotografias de pai e filho juntos. O atual líder, Kim Jong-un aparece em algumas delas ao lado de seu pai.
Vestidos com suas melhores roupas, os norte-coreanos caminham em silêncio. Ao fim da peregrinação pelas fotos, são levados a um salão decorado com estátuas brancas dos Kim mortos. O ritual exige que se postem diante delas e realizem uma reverência acentuada.
Depois de passar por jatos de ar para a retirada de poeira, os norte-coreanos podem finalmente entrar no salão onde está Kim Il-sung, imerso em uma penumbra de tons avermelhados. Todos têm de realizar três reverências: uma diante do corpo e duas nas laterais. A mesma coreografia é repetida perante Kim Jong-il, instalado em outra sala de cenário idêntico.
A peregrinação continua em salões dedicadas a condecorações recebidas por cada um dos Kim de dirigentes estrangeiros, que têm a função de apresentar à população o suposto prestígio internacional da dinastia. Em uma das fotos que decoram as paredes, Kim Il-sung aparece ao lado de Hafez al-Assad, pai do atual ditador sírio, Bashar al-Assad.
A exibição é completada com a apresentação, em salas separadas, dos vagões de trem utilizados pelos líderes em seus deslocamentos. Painéis eletrônicos mostram o número de viagens realizadas e o total de quilômetros percorridos. Avesso a voar, Kim Jong-il usou o trem 1.567 vezes, nas quais viajou 334 mil quilômetros.
Do lado de fora, centenas de civis e soldados norte-coreanos trabalhavam ontem no jardim do Palácio do Sol, dentro dos preparativos para a celebração dos 101 anos de nascimento de Kim Il-sung, no dia 15 de abril. Na mitologia criada pela propaganda oficial, ele é o “presidente eterno”.
Capital do país que está no centro da mais recente crise geopolítica mundial, Pyongyang espanta pela quantidade de pessoas nas ruas, a maioria vestida com cores escuras. Símbolo do imperialismo norte-americano, o jeans azul está ausente do guarda-roupa, ainda que seja visto em algumas crianças.
A impressão que se tem na cidade é a de que os norte-coreanos estão constantemente caminhando, de casa para o trabalho, do trabalho para casa. O transporte coletivo é precário em razão da escassez de energia e combustíveis e os pés acabam sendo um dos mais utilizados meios de locomoção. À diferença de outros países asiáticos, as bicicletas são relativamente raras.
As ruas também estão tomadas por brigadas de trabalho, que trocam o gramado dos canteiros das calçadas, tampam buracos no asfalto ou restauram monumentos nos dias que antecedem a maior data nacional, o 15 de abril, que marca o nascimento de Kim Il-sung, o fundador da Coreia do Norte venerado como um semideus.
A seguir, imagens do cotidiano de Pyongyang:
Soldados trabalham na plantação de tulipas no Palácio do Sol, o gigantesco mausoléu que abriga os corpos embalsamados de Kim Il-sung e seu filho Kim Jong-il

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Civis e soldados trabalham na construção do jardim do Palácio do Sol, considerado um lugar sagrado na Coreia do Norte

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Mutirões trabalham na troca da grama que margeia as calçadas de Pyongyang

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Famílias se reúnem em piquenique no feriado do Dia dos Mortos, 5 de abril

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O novo skyline de Pyongyang, com o conjunto de prédios que os estrangeiros apelidaram de “Dubai”

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Cartaz da Koryolink,a empresa de celulares que é uma joint venture entre a egípcia Orascom e a estatal norte-coreana de telecomunicações; números locais não fazem nem recebem chamada do exterior

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Vitrine da Loja de Departamentos número 1, localizada nas proximidades da praça Kim Il-sung

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Interior de novo supermercado no bairro “Dubai”, frequentado por estrangeiros e norte-coreanos que têm acesso a dólares, euros e yuans

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Fila no ponto de ônibus

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Crianças patinam na praça Kim Il-sung, onde são realizados as grandiosas paradas militares do país
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De Pyongyang, Coreia do Norte
Inaugurada em um megaevento que reuniu 150 mil pessoas em Pyongyang há quase um ano, a estátua de Kim Jong-il passou por uma repaginação seis meses mais tarde para alteração de seu guarda-roupa.
A versão original do monumento apresentava o líder morto em dezembro de 2011 com um sobretudo semelhante ao usado por seu pai, Kim Il-sung, representado na estátua ao lado.
Mas os norte-coreanos provavelmente tiveram dificuldade em identificar seu “querido líder” dentro do sobretudo, mesmo que mais curto que o usado por seu pai, o “grande líder”.
Kim Jong-il não era visto em público com esse tipo de casaco e preferia uma japona com características únicas, de tecido levemente brilhante e quase sempre bege. O equivoco estilístico foi corrigido e Kim Jong-il agora está vestido com sua roupa predileta.
As estátuas estão no monte Mansudae, visto como um local sagrado pelos norte-coreanos. Todos os dias, muitos vão fazer reverência diante das imagens do fundador da dinastia que governa o país desde 1948, Kim Il-sung, e de seu filho, Kim Jong-il, pai do atual líder, Kim Jong-un.
Quando a reportagem do Estado esteve no local nesta semana, dois casais de noivos subiram a longa escadaria que leva às estátuas e fizeram reverências que certamente estarão em seus álbuns de casamento _um fotógrafo os acompanhava para registrar a cena.
Apesar de ser chamada de “entrevista coletiva”, o encontro que o novo primeiro-ministro da China, Li Keqiang, teve ontem com a imprensa não tem nenhuma semelhança com eventos que recebem o mesmo nome em países democráticas. Os jornalistas que se dirigiram ao líder comunista foram definidos previamente e as perguntas que apresentaram tiveram que ser aprovadas com antecedência de dias pelo governo.
Os temas foram aqueles que as autoridades de Pequim queriam abordar e incluíram crescimento econômico, reformas, combate à corrupção, degradação ambiental e relações com os Estados Unidos, Rússia, Taiwan e Hong Kong.Li Keqiang sorriu, gesticulou e falou com a confiança de quem sabia o script que seria seguido de ponta a ponta, não apenas por ele, mas também pelos jornalistas que estavam na plateia.
Não houve nenhuma palavra sobre as mais de cem imolações de tibetanos em protesto contra políticas chinesas para a região nem sobre os violentos conflitos entre camponeses e chefes locais do Partido Comunista em razão da expropriação ilegal de terras.
O Japão foi outro grande ausente da entrevista, apesar do recrudescimento recente do conflito entre os dois países em torno das ilhas que os chineses chamam de Diaoyu e Tóquio, de Senkaku. Mas Li Keqiang tocou no tema de maneira indireta, ao mencionar a determinação da China de proteger a “a integridade territorial do país”.
Das 11 perguntas apresentadas, 5 vieram de veículos oficiais chineses. As outras 6 questões foram apresentadas por jornalistas de Hong Kong, Taiwan, Cingapura, Rússia, França e Estados Unidos. Funcionários do Ministério das Relações Exteriores se sentaram ao lado dos profissionais escolhidos para se dirigir ao primeiro-ministro, o que permitia sua identificação pelo “mestre de cerimônias” em meio aos braços que se levantavam. Para os desavisados, parecia uma entrevista coletiva de verdade.
Além do credenciamento para o Congresso Nacional do Povo, os jornalistas tinham que ter um convite especial para participar da entrevista. Nenhum foi entregue a profissionais do The New York Times, que em outubro publicou reportagem segundo a qual a família do ex-primeiro-ministro Wen Jiabao acumulou fortuna de US$ 2,7 bilhões nos dez anos em que ele permaneceu no poder.
Com severa poluição do ar, da água e do solo, os chineses vivem imersos em uma sucessão de escândalos ambientais e de saúde pública. Ainda assim, a imagem de 3.300 porcos em decomposição no rio que corta a maior cidade do país é candidata às páginas de realismo fantástico de Mo Yan, o escritor que venceu o Prêmio Nobel de Literatura no ano passado.
Os corpos dos animais começaram a aparecer na sexta-feira no Huangpu, em um trecho que está a 70 km de um dos principais cartões postais do país, no qual o rio separa o Bund, na antiga de Xangai, do despudoradamente iluminado centro financeiro de Pudong.
O rio é uma das principais fontes de água para os 23 milhões de habitantes da cidade, que enfrentam o óbvio temor de contaminação. “Nós temos que agir rapidamente para remover todos [os porcos] em razão do risco de poluição da água”, disse Xu Rong, responsável pela área ambiental do distrito de Songjiang, que concentra as operações de retirada dos animais do rio. “Por enquanto, a qualidade da água não foi afetada, mas temos que remover os porcos o mais rapidamente possível para que seus corpos não apodreçam na água.”
Ainda não se sabe o que matou os animais nem como seus corpos foram despejados no rio. A hipótese mais provável é que tenham sido vítimas de alguma doença comum na imensa população suína do país, que soma 470 milhões de animais, a maior do mundo.
Teste realizado em amostra da água do Huangpu indicou a presença de circovírus porcino, um vírus que é inofensivo para os humanos. Autoridades de Xangai disseram que estão realizando testes frequentes na água utilizada na cidade, para detectar a eventuais ameaças à saúde pública.
Reportagens veiculadas no início de março em jornais da província de Zhejiang, vizinha de Xangai, registraram a morte de milhares de porcos desde o início do ano. Em uma só localidade, 10 mil animais haviam morrido em janeiro e outros 8.300 em fevereiro. “Mais de 300 porcos morrem a cada dia em nossa vila e nós quase não temos espaço para nos desfazer dos porcos mortos”, disse um camponês de uma vila de Jianxing.
O caso dos porcos flutuantes é um dos principais tópicos de discussão no weibo, a versão chinesa do twitter, que é proibido no país. Alguns internautas usaram o tema para criar paródias do cartaz do filme Life of Pi, o estrondoso sucesso do taiwanês Ang Lee. Com vocês, Life of Pig, do artista Du Shi Xiong:
Ir a Moscou foi uma dessas experiências que subvertem as expectativas ou, para lembrar o grande Cazuza, dessas em que nossas ideias não correspondem aos fatos. Imaginava encontrar uma cidade sombria, de tecido social esgarçado, dominada por mafiosos e ainda em uma cambaleante recuperação da hecatombe que foi o fim da União Soviética. Muitos dos problemas continuam lá, mas a cidade tem uma vibração que reflete o aquecimento econômico e a expansão da classe média registrados nos anos posteriores a 2009, no auge da crise financeira global.
Sei que Moscou não é o retrato de toda a Rússia e que o ritmo de atividade é inferior ao esperado, mas a sensação é crescimento, mesmo sob as temperaturas negativas do inverno implacável. O país tem a maior renda per capita dos BRICS, o grupo ao qual também pertencem Brasil, Índia, China e África do Sul, e exibe a maior classe média em termos percentuais. Segundo o Sberbank, maior instituição financeira da Rússia, 55% da população do país são formados por pessoas com renda anual entre US$ 6.000 e US$ 15.000. O índice é de 30% no Brasil, 20% na China e 11% na Índia. A fatia da população com alto poder aquisitivo também é superior: 15% dos russos possuem renda anual acima de US$ 50.000, o triplo dos 5% registrados no Brasil _na China, o percentual é de 2% e, na Índia, de 1%.
A Rússia possui ainda uma população educada, com um índice de alfabetização de 99,6%, comparados a 88,6% no Brasil. O país cultiva sua herança cultural, o que é evidente nos concertos e nos nomes de praças, monumentos, cafés e restaurantes, que homenageiam ícones literários e musicais, como Tchaikovsky, Mayakovsky, Pushkin e Tchekhov, para mencionar só alguns nomes da exuberante criatividade russa.
Não estou fazendo uma apologia à Rússia de hoje. A máfia não acabou, os oligarcas e endinheirados continuam a ser os grandes beneficiados do abundante petróleo e a pobreza está longe de
desaparecer. A criminalidade continua a ser um problema, mas é bem menos mortal que a existente nas cidades brasileiras. Segundo o Escritório das Nações Unidas para Crimes e Drogas, houve 10,2 homicídios intencionais para cada grupo de 100 mil habitantes na Rússia em 2010, metade dos 21,0 registrados no Brasil no mesmo período. Ainda mais impressionante é o fato de que a proporção de assassinatos na Rússia vem caindo ano a ano desde 2004, quando estava em 18,9 (não há dados anteriores). O índice brasileiro diminuiu apenas de maneira marginal quando comparado aos 22,5 homicídios por 100 mil habitantes existentes em 2003.
Moscou não é uma cidade fácil para forasteiros. Os táxis são caríssimos e não têm taxímetro _tudo tem que ser negociado. Mas há uma saída: é só levantar a mão que um carro estaciona para fazer as vezes de táxi. O preço também tem de ser negociado, mas sai bem mais barato que os táxis com plaquinha no capô. O metrô é uma aventura, com os nomes das estações escritos em alfabeto cirílico _nada em alfabeto romano. Mas vale a pena pela beleza de algumas das estações.
Para quem quiser ler mais sobre a Rússia, aqui vão os links de reportagens minhas publicadas domingo no Estadão.
Abaixo, algumas fotos de Moscou.
A Catedral da Assunção, no Kremlin

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Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha

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A Praça Vermelha

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Estação de metrô Praça da Revolução

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Estação de metrô Mayakovskaya

“Muito insalubre” foi a melhor classificação dada nos últimos quatro dias ao ar respirado pelos 20 milhões de moradores de Pequim, entre os quais eu me incluo. Ontem, a medição oscilou entre “perigoso” e “além do índice”, patamar que supera o pior cenário possível visualizado pelos cientistas que elaboraram a escala, que vai de 0 a 500. Às 6h de ontem, o indicador estava em 517. No dia 12 de janeiro, alcançou inacreditáveis 755.
Para quem está imerso na nuvem que envolve a cidade, é quase como participar de uma versão árida de Blade Runner: a persistente chuva está ausente, mas a noite nunca dá totalmente lugar para o dia, que chega e vai sem mostrar o céu. É um cenário claustrofóbico, em um mundo que parece ter sido construído com pé direito extremamente baixo.
Em uma resposta emergencial, o governo de Pequim determinou ontem o fechamento temporário de 103 fábricas extremamente poluentes e ordenou que 30% da frota de carros oficiais deixasse de circular. As medidas paliativas ficarão em vigor pelo menos até amanhã, quando espera-se que o vento e a neve reduzam a quantidade de partículas no ar.
A poluição não é novidade no país mais populoso do mundo, no qual a queima de carvão responde por 70% das fontes de energia. Mas havia a expectativa de que a situação melhorasse com o tempo e não se agravasse. Pelo menos essa era uma das promessas das Olimpíadas de 2008, quando os governantes se gabaram do aumento no número de dias de céu azul na cidade.
O carvão é o mais poluente dos combustíveis fósseis e o consumo da China equivale quase ao total do restante do mundo somado. Segundo dados do governo norte-americano, foram 3,8 bilhões de toneladas em 2011, comparadas a 4,3 bilhões de toneladas de todos os outros países juntos. No ano 2000, a China consumiu 1,5 bilhão de toneladas de carvão, enquanto o restante do mundo queimou 3,8 bilhões de toneladas. Apesar da retórica oficial e do descontentamento da população, nada indica que a dependência da China em relação ao carvão vá diminuir de maneira significativa.
Além disso, as bicicletas estão desaparecendo das ruas e dando lugar a milhões de carros, no que é o maior mercado para a indústria automobilística desde o fim da década passada. Os abastados tentam se proteger instalando purificadores de ar em suas casas e escritórios e usando máscaras com filtros. Mas a maioria tem de navegar sem proteção ou com precárias máscaras cirúrgicas nesse cenário desprovido de horizonte. Aí vão algumas fotos tiradas perto do meio-dia:
Sidney Rittenberg é um desses personagens cuja trajetória pode ser lida como o roteiro de um épico hollywoodiano. Primeiro norte-americano a se filiar ao Partido Comunista da China, em 1946, ele participou do último estágio da guerra que levou à vitória de Mao Tsé-tung em 1949, foi um entusiasta da Revolução Cultural (1966-1976) e amargou quase 16 anos na mais célebre prisão política de Pequim, a maior parte dos quais em uma solitária.
A primeira de suas duas detenções ocorreu em 1949, quando ele viajava à capital chinesa para celebrar a vitória dos comunistas sobre os nacionalistas. Acusado por Joseph Stalin de ser um espião dos Estados Unidos, Rittenberg terminou na prisão, de onde só sairia em 1955, depois da morte do ditador soviético.
O gringo revolucionário havia chegado à China em 1944, como soldado dos Estados Unidos _nos dois anos anteriores, ele havia estudado chinês em uma academia do Exército. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Rittenberg decidiu permanecer na China como integrante do programa das Nações Unidas de combate à fome. O país estava imerso no caos e na pobreza, dirigido por um governo nacionalista incompetente e corrupto.
Nos Estados Unidos, Rittenberg havia atuado como organizador sindical e sido filiado ao Partido Comunista. Na China, ele acabou entrando em contato com os líderes revolucionários na principal base comunista da época, Yan’an, onde Mao Tsé-tung e seus companheiros de armas viviam em casas escavadas nas montanhas de terra arenosa. Rittenberg decidiu abraçar a história quando ela cruzou seu caminho e aceitou o convite para ficar em Yan’an e construir uma “ponte” entre os comunistas chineses e os norte-americanos. Mas impôs uma condição: ser aceito como membro do partido.
No recém-lançado documentário The Revolutionary, dirigido pelo norte-americano Irv Drasnin, Rittenberg narra o primeiro encontro com Mao Tsé-tung como a visão de uma “fotografia saída da história”. Segundo o norte-americano, o líder que ele conheceu em Yan’an era um ouvinte atento que desejava uma sociedade democrática e pluralista, bem diferente do ditador megalomaníaco que ele reencontraria nos anos 60.
Mas a arrogância de Mao depois da conquista do poder não impediu Rittenberg de se tornar um inflamado participante da Revolução Cultural, que ele vê hoje como uma versão chinesa do Holocausto. O movimento esgarçou o tecido social do país ao máximo, com o enfrentamento violento entre diferentes grupos e a morte de milhões de pessoas nas mãos dos Guardas Vermelhos.
Na irracionalidade que tomou contra da China, quase ninguém estava a salvo e Rittenberg acabou preso em 1968, junto com outros estrangeiros que viviam no país, supostamente por criticar aspectos do Partido Comunista. Sua mulher, a chinesa Wang Yulin, foi enviada a um campo de trabalhos forçados, onde ficou por três anos. Ele só seria libertado em 1977, no ano seguinte à morte de Mao. O sinal de que sua prisão estava chegando ao fim veio em outubro de 1976, quando a viúva de Mao, Jiang Qing, passou a ocupar uma cela na mesma detenção, em razão dos crimes cometidos durante a Revolução Cultural pelo seu Bando dos Quatro. “Quando ela entrou, eu tive certeza de que logo sairia.”
Aí vão algumas fotos:
Mao Tsé-tung autografa o seu Livro Vermelho para Sidney Rittenberg no portão diante da praça Tiananmen

A casa onde Mao Tsé-tung vivia na base comunista de Yan’an

O interior da casa onde vivia Zhou Enlai, o primeiro premiê da República Popular da China; as casas de Yan’an eram escavadas nas montanhas da região

A foice e o martelo dourados e gigantescos dão o tom do cenário solene do Grande Palácio do Povo onde delegados do Partido Comunista se reuniram na quinta-feira para iniciar o mais importante congresso da organização em uma década. A estética soviética, a uniformidade dos atores e a linguagem que inclui “camaradas”, “centralismo-democrático” e “marxismo-leninisno” mostraram aos eventuais desavisados que o segundo maior PIB do mundo continua regida por um partido único que mudou muito pouco desde sua chegada ao poder, há 63 anos.
Formalidade e simbolismo regeram a abertura do evento, no qual todos os detalhes foram milimetricamente ensaiados, incluindo a coreografia das moças que servem água para o chá. O Partido Comunista da China detesta surpresas e adora a demonstração pública de homogeneidade, apesar das ferozes disputas de bastidores nas quais se engalfinham suas diferentes facções. Os 2.268 delegados e os 371 atuais ocupantes do Comitê Central permaneceram em silêncio absoluto na uma hora e quarenta minutos que Hu Jintao dedicou à leitura do “Relatório ao 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China”. Diante de cada um, havia uma cópia do documento e era possível ouvir o som das páginas viradas ao mesmo tempo pelos que ocupavam o plenário.
“A fé dos comunistas no marxismo, socialismo e comunismo é a sua alma política e os sustenta em todos os desafios”, afirmou Hu, que dirige a China há dez anos, período no qual o país experimentou um aumento acentuado da desigualdade social.
No palco elevado do plenário onde ficaram os integrantes do Comitê Central e do Politburo, a conformidade do guarda-roupa também era evidente. Todos os homens usavam camisas claras e ternos negros, com exceção dos militares e dos representantes de minorias étnicas, que exibiam roupas típicas para demonstrar a suposta “autonomia” que desfrutam sob o regime de partido único. No mesmo dia em que os delegados se reuniam em Pequim, quatro tibetanos, três dos quais adolescentes, se imolaram no oeste do país para protestas contra as políticas chinesas.
Quase todos os delegados tinham gravatas vermelhas e cabelos pretos, graças ao extenso uso da versão local de Grecin 2000. Aos 86 anos, o ex-presidente Jiang Zemin, optou pelo acaju enquanto o branco foi assumido por alguns dos demais veteranos aposentados que dividiram a mesa central com os membros do Politburo _oficialmente com 25 integrantes, o grupo está desfalcado desde março, quando Bo Xilai perdeu os cargos que ocupava no partido. O ex-chefe da megacidade de Chongqing está preso desde então e aguarda julgamento sob acusação de corrupção e abuso de poder. Se o seu ex-braço direito Wang Lijun não tivesse protagonizado uma fuga desesperada ao Consulado dos Estados Unidos em Chengdu, havia uma grande probabilidade de Bo Xilai estar sentado na mesa do Politburo na quinta-feira.
Aí vão as fotos que mostram o clima dentro e fora do Grande Palácio do Povo, um edifício de arquitetura soviética localizado na praça Tiananmen, a poucos metros da Cidade Proibida e do mausoléu que guarda o corpo de Mao Tsé-tung:
Integrantes do Politburo e do Comitê Central no palco do plenário do Grande Palácio do Povo

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Funcionárias que servem água para o chá fazem ensaio geral antes da chegada dos participantes do congresso

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Os 2.268 delegados do congresso no plenário com cópias do discurso lido pelo secretário-geral do partido, Hu Jintao

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O ex-presidente Jiang Zemin (no centro, de cabela acaju) ao lado de seu sucesso, Hu Jintao (no centro, à esquerda)

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O Grande Palácio do Povo, onde é realizado o congresso do Partido Comunista que definirá a maior mudança no comando do país em uma década

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A saída de delegados do congresso na praça Tiananmen

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O toque kitsch: vaso de “flores” ornamenta a praça Tiananmen para a realização do congresso

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