Quando a abertura da Olimpíada de Pequim terminou na noite do dia 8 de agosto de 2008, uma das perguntas insistentes era: será que Londres conseguirá repetir a grandiosidade do espetáculo dirigido pelo cineasta Zhang Yimou? Eu assisti à representação de 2008 ao vivo e estava no grupo de céticos quanto à possibilidade de qualquer país repetir a precisão, criatividade e exuberância dos chineses. Mas apesar da devastadora crise europeia, os ingleses conseguiram realizar um espetáculo com frescor, no qual se destacou a individualidade de seus escritores, artistas, personagens, inventores e músicos e suas instituições _da monarquia ao sistema público de saúde, passando pelos táxis pretos e Bond, James Bond.
A coreografia de Zhang Yimou teve um caráter marcial, de movimentos absolutamente sincronizados, no qual o coletivo predominava. Falava-se das invenções chinesas, mas não de seus inventores. O tempo histórico era o glorioso passado imperial, com uma narrativa praticamente desprovida de individualidade. Quase nada posterior ao século XVIII foi exaltado no gramado do Ninho de Pássaros, o estádio olímpico chinês. Sob o comando do cineasta Danny Boyle, a abertura de Londres começou onde a de Pequim acabou: com a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX, que consolidou o poderio do Império Britânico, diante do qual o antigo Império do Meio sucumbiu nas duas Guerras do Ópio.
A cerimônia de abertura da Olimpíada de 2008 ignorou a humilhação histórica da China pelo Ocidente e teve a função de apresentar o país como a potência emergente do século XXI, candidata a maior rival dos Estados Unidos. A Inglaterra deixou há muito a posição de potência mundial e acaba de perder para o Brasil a posição de sexta maior economia do mundo. Mas a cerimônia de abertura da Olimpíada de Londres mostrou que os britânicos possuem algo ainda não conquistado pelos chineses: uma cultural popular universal, com músicos e escritores de influência global. O espetáculo também não teve censura moralista. A extravagante Amy Winehouse foi lembrada ao lado de Sex Pistols, David Bowie , New Order, Queen, Rolling Stones e The Beatles. A história da música pop foi costurada por um romance juvenil, que terminou com uma explosão de beijos apaixonados.
Com toda sua pujança econômica, a China ainda não conseguiu criar uma cultura contemporânea influente nem construir o soft power que os dirigentes comunistas tentam conquistar com Institutos Confúcios e expansão global da TV estatal CCTV. O espetáculo de Londres mostrou que soft power não é fruto da ação do Estado, mas resultado da ação de indivíduos com liberdade para criar sem controle da censura que ainda impera na China.
Há duas semanas estive na casa em o ativista cego chinês Chen Guangcheng morou desde a infância, na vila rural Dongshigu, de 450 habitantes. O despojamento do lugar contrasta com a celebridade mundial conquistada por Chen graças a suas denúncias de abortos forçados cometidos contra mulheres da região, sua posterior prisão, a fuga para a Embaixada dos Estados Unidos em Pequim e, finalmente, a mudança para Nova York, onde ele é pesquisador convidado da New York University.
O ativista vivia com a mulher, Yuan Weijing, e a filha do casal, Chen Kesi, na casa de sua mãe, Wang Jin Xiang, de 78 anos. A matriarca da família Chen me recebeu junto com o filho mais velho, Chen Guangfu, 55, um típico camponês chinês, de mãos calejadas e rosto queimado.
Como todas as moradias do campo, a casa tem um pátio interno, que seve para armazenagem de colheitas e criação de animais _no caso de Wang Jin Xiang, são galinhas. Não há chuveiro e o banheiro é uma casinha com um buraco no chão onde não há descarga.
Até poucas semanas, a casa era cercada por dezenas de seguranças e ninguém podia entrar no local, nem mesmo familiares. Chen e sua mulher foram impedidos de sair por 19 meses. Sua filha de 6 anos só pôde ir à escola depois de pressão de entidades de defesa de direitos humanos. A matriarca Wang é que saia para comprar comida. Mas era vigiada o tempo todo por quatro guardas e não podia visitar seus outros filhos.
No período de prisão domiciliar de Chen, toda a pequena vila foi ocupada por seguranças, que impediam a entrada no local de qualquer estranho. Eles se foram há algumas semanas, mas Dongshigu continua a ser monitorada por quatro agentes de “combate à pobreza”.
Aí vão as fotos da casa de Chen Guangcheng:
O pátio interno

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A mãe do ativista, seu filho mais velho, Chen Guangfu, e o neto deste, Chen Fu Bin, na sala (que também é quarto)

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Chen Guangfu mostra a escada que Chen Guangcheng subiu para pular o muro de sua casa

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Depois de pular, Chen Guangcheng caiu neste corredor, que o levou à casa vizinha, de onde saltou mais quatro muros
O que traz mais conforto: a ideia freudiana de que nossos traumas estão relacionados a fatos da infância que podem ser superados ou a concepção de que nossa personalidade é moldada pelos astros e, em certa medida imutável? Depois de anos de psicanálise, sucumbi e fiz meu primeiro mapa astral, elaborado por um site e me entregue por e-mail. Confesso que encontrei um certo alento em sua leitura: o eventual desânimo emocional que se abate sobre mim é resultado do excesso de água e ar e da falta de fogo na conjunção astral do meu nascimento. Fazer o quê? A promessa da astrologia é a de que podemos nos conhecer melhor e evitarmos as armadilhas de nossa imutável natureza.
Vocês devem estar se perguntando o que este post está fazendo em um blog sério sobre a China. Mas é domingo e faz um calor implacável em Pequim. O filósofo alemão Max Weber associou a modernidade ao processo de “desencantamento do mundo”, no qual a racionalidade e a ciência são as bases para a explicação do que ocorre ao nosso redor. Com o passar dos anos, eu pareço estar vivendo um caminho inverso, de encantamento. Talvez o fato de morar há quatro anos na China ajuda _psicanálise é um conceito alienígena no país e, mesmo que não fosse, seria impossível uma terapia em mandarim. Não que eu tenha abandonado interpretações freudianas de nossas complexidades emocionais. Só agreguei outras possíveis tentativas de entendimento do imbróglio. Passei da racionalidade psicanalítica ao fluxo da natureza taoísta, ao absoluto estado de consciência do budismo e agora experimento o semi-fatalismo da astrologia.
A leitura do meu mapa astral provocou alguns espantos, principalmente nos trechos em que a posição dos planetas parece colocar fim a dúvidas existenciais e profissionais. De acordo com os astros, posso esquecer eventuais questionamentos sobre a escolha do meu ganha-pão: “A casa ativada pelo seu Mercúrio pessoal é a décima, Claudia. Isso sugere que a sua atividade profissional envolverá assuntos referentes ao intelecto, à comunicação, à escrita”. Mesmo os mais céticos entre os seres humanos se sentiriam reconfortados em ver que fizeram escolhas alinhadas com os desígnios astrais, ainda que eles fossem desconhecidos no momentos em que as decisões foram tomadas.
O mapa também é mais implacável do que eu esperava e não se exime ao apontar os lados sombrios do “analisado”. No meu caso, a falha original é o excesso de água e ar e a falta de fogo. “Quando há falta de fogo num mapa, algumas manifestações são possíveis: em muitos casos, há o risco de surtos de depressão, acessos de desânimo, e uma intensa melancolia. Algumas pessoas com problemas de fogo até mesmo parecem ser muito divertidas e de fato o são mas, quando as observamos atentamente, é fácil perceber que elas não estão nunca satisfeitas, não estão felizes, como se achassem tudo tedioso.” Se tivesse lido o mapa há 20 anos, talvez tivesse economizado alguns milhares de reais em intermináveis sessões de psicanálise….A sugestão da astrologia para compensar a ausência do fogo é a prática de artes marciais ou um “estilo dinâmico de dança”, que finalmente pareço ter encontrado em algo chamado “Nia”.
Bom domingo a todos!
Os gigantescos bancos estatais chineses responderam por 29% dos lucros globais do setor no ano passado, em uma demonstração do impacto devastador da crise na Europa sobre as instituições financeiras da região e da mudança tectônica dos eixos da economia rumo ao Oriente. Em 2007, a participação do país asiático no resultado total era de apenas 4,6%, segundo a revista britânica The Banker, que divulgou ontem seu anuário sobre a indústria em 2011.
Bancos chineses ocuparam as três primeiras posições no ranking das 1.000 instituições que registraram os maiores lucros no ano passado. O Industrial and Commercial Bank of China, o maior do mundo em ativos, ficou no topo, com US$ 43,2 bilhões, seguido do China Construction Bank (US$ 34,8 bilhões) e do Bank of China (US$ 26,8 bilhões). Com lucros de US$ 26,7 bilhões, o norte-americano J.P. Morgan ficou em quarto lugar. O HSBC registrou ganhos de US$ 21,9 bilhões e foi o líder na Europa.
“Enquanto os bancos europeus contabilizam os custos da crise da dívida soberana na zona do euro, a China está liderando os mercados emergentes para uma nova era de dominação bancária”, disse a publicação.
Mas os lucros das instituições chinesas decorrem menos de sua eficiência do que de um sistema perverso que beneficia os bancos e lhes garantem generosas margens de ganho, enquanto penaliza os depositantes. Os bancos chineses são quase todos estatais e operam em um ambiente pouco transparente e protegido de concorrência externa.
Os ganhos são garantidos por juros controladas pelo governo, em um modelo que reprime a remuneração dos depósitos das famílias e estimula a expansão do crédito, principalmente para outras empresas estatais. Em 2011, os clientes receberam 3,40% no ano para entregar seu dinheiro aos bancos, índice que ficou abaixo da inflação de 5,4% _ou seja, perderam. Já os bancos cobraram pelo menos 6,56% sobre os empréstimos que realizaram. Esse modelo sustentou o boom de investimentos que garantiu a China continuar a crescer enquanto a maior parte do mundo agonizava nos últimos três anos. Parte significativa do crescimento chinês foi subsidiado pelas famílias, cuja poupança não foi remuneradas da maneira devida.
Só no ano passado, as instituições financeiras chinesas emprestaram 7,5 trilhões de yuans_ o equivalente a US$ 1,2 trilhão_, um aumento de quase 16% em relação ao ano anterior. Os bancos chineses tiveram uma explosão de financiamentos desde 2009, em razão da agressiva política de estímulo ao crescimento adotada pelo governo chinês.
Analistas sustentam que muitos dos empréstimos concedidos nos últimos três anos não serão recuperados, já que financiaram investimentos de baixo ou nenhum retorno econômico. Mas o tamanho dos créditos podres não aparece nos balanços dos gigantescos bancos estatais.
Segundo a The Banker, a parcela dos lucros das instituições chinesas no total da indústria aumentou 41,6% em 2011 na comparação com o ano anterior, quando elas obtiveram 20,7% dos ganhos. Entre os 10 primeiros integrantes do ranking divulgado ontem, 4 são chineses.
O impacto da crise europeia ficou evidente na lista, que apresenta os 1.000 maiores bancos do mundo. No ano passado, 49 instituições passaram de lucros para prejuízo, 36 das quais estão baseadas na Europa. No levantamento de 2010, apenas 14 bancos viram seus ganhos transformados em perdas. A região é sede de 24 dos 25 maiores prejuízos de instituições que antes eram lucrativas.
Mas não foram só os chineses que ampliaram sua presença no ranking entre os países em desenvolvimento. A América Latina emplacou 62 instituições na lista de 1.000, com alta de 17% em relação anterior, na maior variação entre os mercados emergentes.
O novo governador de Hong Kong, C.Y. Leung, quebrou uma tradição e fez seu discurso de posse ontem em mandarim e não em cantonês, a língua falada na ex-colônia britânica, em uma metáfora da crescente influência da China continental no quotidiano político e social da ilha. Quando o território voltou ao domínio de Pequim, em 1997, seus moradores receberam a promessa de que as instituições locais permaneceriam intactas por um período de 50 anos. Entre elas, a liberdade de imprensa, a independência do Judiciário e uma tradição de governos livres de corrupção.
Quinze anos depois, a promessa parece cada vez mais distante da realidade. O mais importante jornal em língua inglesa de Hong Kong, o South China Morning Post, é dirigido desde fevereiro por Wang Xiangwei, acusado de praticar autocensura e de ter uma posição favorável a Pequim. Wang não é apenas o primeiro editor-chefe do jornal nascido na China continental. Ele foi editor do estatal China Daily e faz parte da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, um organismo de aconselhamento do governo em Pequim. Difícil imaginar como essas credenciais podem se conciliar com independência jornalística. O South China Morning Post tem uma forte tradição na cobertura de casos importantes de violação de direitos humanos e abusos de poder na China. Mas a determinação do jornal em manter sua linha editorial foi colocada em dúvida depois que Wang transformou em uma nota de roda pé uma reportagem sobre o suspeito “suicídio” de um veterano ativista dos protestos da praça Tiananmen, em 1989.
C.Y. Leung é visto como extremamente alinhado às diretrizes do Partido Comunista da China e sua posse coincidiu com uma manifestações de dezenas de milhares de pessoas nas ruas da ex-colônia britânica. Desde que a ilha retornou ao domínio chinês, o dia 1˚ de julho é marcado por demonstrações em defesa de temas como direitos humanos, liberdade de imprensa, eleições diretas e liberdade de expressão _instituições inexistentes no continente. A marcha de ontem reuniu 400 mil pessoas, segundo seus organizadores, o que seria o dobro do registrado no ano passado. A polícia estimou o número em 63 mil, enquanto a Universidade de Hong Kong avaliou a multidão em algo entre 98 mil e 112 mil pessoas.
Muitas delas gritavam slogans pedindo a renúncia de C.Y., em um reflexo da desconfiança em relação a seus laços com Pequim. O novo governador foi escolhido em março por um colégio eleitoral de 1.200 pessoas originárias de grupos profissionais e empresariais majoritariamente simpáticos à China.
Pequim prometeu aos 7 milhões de habitantes da ilha que eles poderão escolher seu governante em eleição direta em 2017, mas poucos acreditam o processo será realmente democrático. A maioria dos analistas acredita que o Partido Comunista permitirá o sufrágio universal, mas controlará o processo de escolha dos candidatos. Ou seja, os moradores de Hong Kong poderão votar em quem quiserem, mas o cardápio estará restrito às opções chanceladas por Pequim.
A alta adesão ao protesto de ontem é vista como um desafio a C.Y., que terá que superar a desconfiança popular para legitimar seu governo, em um momento de baixa avaliação dos laços entre a ilha e o continente. De acordo com pesquisa da Universidade de Hong Kong, só 37% dos habitantes de Hong Kong sentem hoje orgulho de terem se tornado cidadãos chineses, o mais baixo patamar desde 2001.
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