Presente nas primeiras páginas e nas chamadas dos principais jornais e TVs do mundo, a saga do ativista cego Chen Guangcheng é virtualmente desconhecida na China. Não há menção ao caso na imprensa, que é controlada pelo Estado, e tentativas de comentar o assunto na internet esbarram na muralha da censura. Na versão chinesa do twitter, chamada de weibo, todas as palavras que podem fazer alusão a ele e sua espetacular fuga são bloqueadas. A lista inclui os óbvios CGC (as iniciais de seu nome) e “homem cego”, além de criações destinadas a burlar os censores, como “Abing” (um célebre músico cego), “The Shawshank Redemption” (filme estrelado por Tim Robbins sobre a espetacular fuga de uma prisão americana) e “UA898” (de acordo com rumores aparentemente infundados, esse seria o número do voo que teria levado Chen para os EUA).
Eu conversei há pouco com um amigo chinês relativamente bem informado, graduado em uma das principais universidades do país e ligeiramente crítico ao governo chinês. Ele não tinha ideia de que Chen Guangcheng havia escapado da estrita vigilância em que era mantido em sua casa havia 19 meses. Na verdade, mal sabia quem era Chen Guangcheng, um homem cuja história é fonte de inspiração para a comunidade de ativistas na China.
Nem mesmo moradores da vila Dongshigu, onde ele era mantido isolado, sabiam de sua fuga, empreendida no dia 22 de abril. “Eu não escutei nada sobre isso. Não é possível que ele tenha conseguido escapar”, disse à Agência France Presse um camponês que não quis se identificar. “[As autoridades] construíram um muro de concreto ao redor da sua casa e há câmeras de segurança em todos os lugares.”
Chen aproveitou segundo de distração dos guardas que o vigiavam dia e noite e pulou o muro em um noite sem lua. Depois disso, caminhou durante horas, nas quais caiu centenas de vezes, até encontrar He Peirong, a mulher que o levou até Pequim.
Cego desde a infância, Chen só se alfabetizou depois dos 20 anos e se formou como massagista e acupunturista, duas das poucas atividades reservadas na China aos cegos, que são proibidos de frequentar a universidade. Mas ele desafiou o destino que lhe era reservado, assistiu aulas da Faculdade de Direito como ouvinte e se tornou um advogado autodidata. Suas primeiras ações foram voltadas à defesa dos direitos de cegos e deficientes. Logo, Chen despertou a ira das autoridades locais da província de Shandong ao expor uma série de casos de abortos e esterilizações realizados à força, algo proibido pela legislação que rege a política de filho único na China.
Sua atuação levou ao afastamento de alguns dos responsáveis pelos casos, mas Chen também foi punido. Em um julgamento que advogados e ativistas afirmam ter sido totalmente manipulado, ele foi condenado a quatro anos e três meses de prisão por “destruição propriedade” e “distúrbio do tráfego”. Cumpriu a pena até o fim, mas continuou preso em sua casa, em uma decisão que não tinha amparo na lei ou em qualquer ordem judicial.
Agora, o ativista está sob proteção de diplomatas dos Estados Unidos em Pequim. Segundo a entidade norte-americana ChinaAid, ele poderá deixar a China em breve e se tornar um exilado político nos EUA.
É difícil encontrar um caso que traduza de maneira tão dramática a inexistência do Estado de Direito na China quanto o de Chen Guangcheng, o ativista cego mantido encarcerado em sua casa durante os últimos 19 meses, vigiado dia e noite por uma legião de capangas pagos pelos líderes locais do Partido Comunista, até fugir de maneira espetacular no último dia 22. A detenção não era fruto de uma condenação judicial nem se baseava em qualquer dispositivo legal. Chen estava preso por ser inconveniente em sua defesa de outras vítimas de abusos de poder, entre as quais mulheres obrigadas a abortar e a realizar operações de esterilização em nome da política de filho único. Sua mulher, Yuan Weijing, que nunca foi acusada de nenhum crime, também estava confinada com seu marido. A filha de 6 anos do casal ficou meses sem poder frequentar a escola. Quando foi autorizada a sair de casa, passou a ser acompanhada o tempo todo por policiais à paisana.
A família foi vítima de agressões físicas, danos materiais e tortura psicológica, sem que nenhuma autoridade do governo central se dignasse a intervir no caso. A mulher de Chen foi espancada até ficar inconsciente e teve ossos da face quebrados. O ativista ficou na cama durante dias para se recuperar das agressões. Chen havia sido condenado em 2006 a quatro anos e três meses de prisão sob a acusação ridícula de “reunir uma multidão para atrapalhar o trânsito”. Na época em que os fatos teriam ocorrido ele era mantido em sua casa, na sua primeira prisão domiciliar. Como todos os julgamentos de caráter político na China, não lhe foi garantido o direito de defesa e o processo se desenrolou sem nenhuma transparência.
Chen cumpriu a pena até o fim, mas não ganhou a liberdade e foi colocado em outra prisão, sua própria casa, isolado do mundo exterior. Sua espetacular fuga e a busca de abrigo na Embaixada dos Estados Unidos revelam a ausência de canais confiáveis para receber as demandas dos que se sentem injustiçados por abusos de poder. As vozes dissidentes da China são sufocadas, até que não encontram outra expressão além de um grito desesperado.
A desconfiança em relação ao Estado chinês não se restringe aos dissidentes e críticos do regime. Wang Lijun, o ex-braço direito do ex-todo-poderoso chefe do Partido Comunista em Chongqing, Bo Xilai, também se refugiou em uma representação diplomática dos Estados Unidos quando se convenceu de que sua vida estava em perigo. “Só há um lugar 100% seguro na China, a Embaixada dos Estados Unidos”, disse Hu Jia, ativista que já ficou três anos e meio na prisão sob acusação de subversão, mas não abandonou a crítica ao governo chinês.
Hu Jia foi um dos integrantes da rede subterrânea que ajudou Chen Guangcheng a fugir. O ativista aproveitou segundos de distração dos guardas para pular o muro de sua casa e caminhou durante horas na noite sem lua. A escuridão é constante na vida de Chen, cego desde a infância. Na caminhada que durou horas, ele caiu dezenas de vezes, atravessou obstáculos, cruzou um rio, até se encontrar, molhado e ferido na perna, com He Peirong, uma chinesa de sorriso luminoso que liderava havia mais de um ano uma campanha por sua libertação. Guo Yushan também ajudou a levar o ativista a Pequim, onde ele passou alguns dias em casas de diferentes pessoas antes de ser colocado sob a proteção de autoridades dos Estados Unidos. Agora, He, Guo e Hu Jia estão detidos. Como Chen Guangcheng era mantido em prisão domiciliar sem base legal, é difícil saber de que crime serão acusados, caso as autoridades queiram dar um verniz de legalidade a seu confinamento.
Abaixo estão fotos de alguns dos “perigosos subversivos” temidos pela segunda maior economia do mundo:
He Peirong, que liderou campanha pela libertação de Chen Guangcheng e ajudou o ativista a fugir da prisão domiciliar

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Chen Guangcheng e o ativista e amigo Hu Jia, em foto tirada na semana passada em Pequim

Apesar da queda na taxa de juros, a redução nos prazos de financiamento deverá conter a expansão do mercado automobilístico brasileiro em 2012, que fechará com vendas semelhantes às do ano passado, avaliaram ontem os representantes das duas montadoras chinesas com maior presença no país.
“Para o consumidor brasileiro, prazo é mais importante que os juros”, disse ontem Luis Curi, CEO da Chery Brasil, que está em Pequim para participar da Auto China 2012, a maior exibição de carros do país, que acontece a cada dois anos. Sergio Habib, presidente da JAC no Brasil, concorda: “As taxas caíram, mas o prazo diminuiu, o que aumentou as parcelas que os consumidores devem pagar a cada mês”.
Segundo eles, os financiamentos de até 60 meses que aqueceram as vendas até o ano passado deixaram de existir. O máximo agora são 48 meses. As marcas que os dois executivos representam também foram afetadas pelo aumento do IPI sobre carros importados anunciado pelo governo no ano passado. Ambos abandonaram as estimativas otimistas de aumento de vendas que tinham anteriormente, mas ainda esperam resultados melhores que os de 2011. Curi cortou sua projeção de 60 mil para 30 mil unidades, um aumento de 20% em relação ao ano passado. Habib esperava vender 50 mil carros e agora conta com algo entre 30 mil e 35 mil _comparados a 27 mil em 2011.
Zhou Bi Ren, presidente da Chery International, disse que o Brasil é um mercado prioritário para a empresa, que aposta em outros países em desenvolvimento, como Irã, Rússia, Venezuela, Iraque, Ucrânia e Egito. “Nós somos uma companhia nova e começamos com os países em desenvolvimento, mas esperamos em breve entrar na Europa e na América do Norte”, afirmou.
O executivo chinês não quis comentar o aumento do IPI, mas ressaltou que a decisão foi adotada de maneira “súbita” pelo governo brasileiro. A empresa espera a conclusão de sua fábrica em Jacareí (SP) para aumentar sua fatia no mercado doméstico. Para manter as vendas, a Chery decidiu não aumentar os preços, apesar de o IPI equivaler a um Imposto de Importação de mais de 50%. Mas por isso, não poderá ser muito agressiva na expansão das vendas dos carros importados da China. “Se eu vendo menos, eu perco menos”, observou Curi.
A fábrica deverá estar concluída em setembro de 2013 e começará a produzir 50 mil veículos/ano, até atingir a capacidade máxima de 150 mil unidades/ano em 2015. A JAC espera iniciar a construção de sua planta em outubro e novembro e espera produzir em 2014. “Quem quiser vender no Brasil, tem que ter fábrica”, ressaltou Habib.
Mesmo com o aumento de custo decorrente do IPI, as duas empresas planejam lançar novos modelos no mercado brasileiro neste ano. A Chery começará a vender em setembro o hatch Celer, que já chegará com motor flex e custará entre R$ 37 mil e R$ 39 mil. As novas apostas da JAC serão o J2, um carro menor que os comercializados hoje pela montadora no Brasil, e um VUC (veículo urbano de carga), que é um caminhão pequeno, que pode circular nas cidades.
Recém-chegadas ao mercado nacional, as duas empresas têm fatia inferior a 1% das vendas totais, mas esperam elevar o percentual em pouco tempo. A Chery, maior exportadora de carros da China, acredita que chegará a 3% em 2015, quando o mercado brasileiro poderá atingir a marca de 5 milhões de unidades/ano. Com a fábrica para 100 mil carros/ano, a JAC espera conquistar de 2% a 2,5% das vendas totais.
Quando Kim Jong-il morreu, em dezembro, o mundo foi surpreendido com imagens de norte-coreanos em um luto desesperado. Pessoas choravam compulsivamente, se atiravam no chão e gritavam, desconsoladas. As cenas se repetiram durante dias e muitos no Ocidente se perguntavam se as lágrimas eram genuínas ou resultado do temor de represálias do regime a quem não demonstrasse pesar suficientemente profundo.
Depois de uma semana na Coreia do Norte, eu me arrisco a dizer que as lágrimas eram genuínas. A família Kim tem um status quase divino no país e é venerada como responsável por tudo o que a população possui. Pai de Kim Jong-il e fundador do país, Kim Il-sung liderou a guerra contra a brutal ocupação japonesa, que durou de 1910 e 1945. Nesse período, os colonizadores adotaram uma política de supressão da cultura, da língua e da identidade coreanas. Os nomes coreanos foram abolidos, a língua local passou a ser o japonês e os coreanos tiveram que adotar a religião shintoísta do Japão. Terminada a Segunda Guerra Mundial, a Coreia foi dividida no paralelo 38 e Kim Il-sung passou a comandar o norte em 1948.
Idolatrado como pai pelos norte-coreanos e com status de semideus, ele é a principal fonte de legitimidade da dinastia comunista que chegou a sua terceira geração em dezembro, com a morte de Kim Jong-il e a chegada de seu filho Kim Jong-un ao poder. Para a população, as figuras dos líderes se confundem na imagem do fundador do país, cujo centenário foi celebrado no domingo. A figura de Kim Il-sung, por sua vez, se confunde com a própria ideia da nação norte-coreana, cuja existência é atribuída a ele. As mesmas qualidades são atribuídas aos três Kims: benevolência, dedicação extremada à população, espírito revolucionário e sabedoria ilimitada. Os norte-coreanos acreditam piamente que seus líderes têm conhecimento de tudo _seja estratégia militar, ciência, política, filosofia, criação de patos ou plantação de maçãs.
O vínculo com a família Kim é alimentado pela propaganda, a disciplina, a repressão e a estrutura social. A partir do início da adolescência, todos usam no peito botoms com as imagens de Kim Il-sung e Kim Jong-il. Nas casas e locais de trabalho, é obrigatório ter fotos dos dois líderes e o sistema educacional exalta as supostas qualidades excepcionais dos Kims. A informação é extremamente controlada e a maioria esmagadora dos norte-coreanos sabe muito pouco _ou nada_ sobre o que ocorre fora do país. A propaganda apresenta os Kim como os melhores líderes do mundo e usa um inesgotável repertório de adjetivos superlativos para se referir aos três.
Kim Il-sung tem status quase divino e é venerado como pai dos norte-coreanos, no que alguns sociólogos classificam como um sentimento religioso. O guia que me acompanhou na minha passagem pelo país tem 55 anos e não conteve as lágrimas quando perguntei como havia sido a morte de Kim Il-sung, ocorrida há 18 anos. “Foi muito duro, para mim e minha família”, disse.
O caráter fechado e militarizado da Coreia do Norte tem origem nas duas ideologias professadas por Kim Il-sung e Kim Jong-il: Juche e Songon. A primeira prega a autosuficência da Coreia do Norte, que deveria ser capaz de construir o país e desenvolver sua tecnologia com seus próprios recursos e capacidades _o contraponto máximo à globalizacão. O outro princípio é “o Exército em primeiro lugar”, que coloca o investimento nas Forças Armadas no topo das prioridades do país.
A população não paga impostos na Coreia do Norte, mas tem acesso à moradia, educação e assistência médica gratuitos, o que alimenta o caráter paternalista do regime. Muitos dos edifícios, fábricas e equipamentos públicos são apresentados como um “presente” dos Kim, ainda que tenham sido construídos com dinheiro do Estado, cuja receita do é decorrente das empresas estatais e de outros negócios controlados pelo governo.
O aniversário de Kim Il-sung é a principal data comemorativa da Coreia do Norte e é chamada de “Dia do Sol”. Nos dias que antecederam o centenário, a TV estatal transmitiu de maneira ininterrupta imagens históricas de Kim Il-sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un, reforçando a ideia de continuidade entre os três integrantes do regime hereditário.
A adoração pela família ficou evidente em quatro manifestações de massa que presenciei desde que cheguei a Pyongyang, no dia 7 de abril. É importante dizer que a cidade concentra a elite norte-coreana, beneficiada por sua proximidade com o poder, e está distante da pobreza extrema do campo. Em todos os eventos, os participantes prometeram dar sua vida para defender Kim Jong-un, que assumiu o comando da potência nuclear com apenas 29 anos.
O primeiro evento foi a inauguração do mosaico com o rosto de Kim Jong-il colocado ao lado do de seu pai no centro da cidade. Cerca de 100 mil pessoas ocupavam a grande área em frente às imagens, carregando flores artificiais cor-de-rosa. Muitas ainda choravam a morte do líder que agora é “eterno”. No dia 11, o Partido dos Trabalhadores o nomeou como seu “eterno secretário-geral”. Dois dias mais tarde, ele se tornou o “eterno presidente” da Comissão Nacional de Defesa, organismo que está no topo da estrutura de poder do país.
Para acomodar os vivos e os mortos, os dirigentes decidiram criar novas denominações para os cargos de Kim Jong-un, que foi nomeado primeiro-secretário-geral do Partido dos Trabalhadores e primeiro-presidente da Comissão Nacional de Defesa.
O último megaevento ocorreu na noite do dia 16, quando cerca de 50 mil pessoas ocuparam a praça Kim Il-sung para dançar em homenagem a seu novo “comandante supremo”, Kim Jong-un, que não estava presente.
Aí algumas imagens do que vi:
Norte-coreana chora na inauguração de estátua de Kim Jong-il

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Norte-coreanos durante inauguração de estátua de Kim Jong-il

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Soldados participam de evento em homenagem a Kim Il-sung

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Militares e civis aplaudem Kim Jong-un (na tribuna) depois do defile militar que celebrou no centenário de seu avô, Kim Il-sung, no dia 15 de abril

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Estudantes comemoram nas ruas centenário de Kim Il-sung

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Norte-coreanos cantam canções revolucionárias à espera de show de fogos de artifício que celebrou centenário de Kim Il-sung

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Concerto em celebração ao centenário com a imagem de Kim Il-sung entre soldados; abaixo, Kim Jong-un e, em seguida, Kim Il-sung e Kim Jong-il

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Milhares de pessoas dançam na praça Kim Il-sung para celebrar a nomeação de Kim Jong-un aos cargos máximos de comando do país

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Os norte-coreanos são desplugados do mundo: não têm internet nem TV a cabo e seus celulares não podem fazer ligações para o exterior. A informação é rigorosamente controlada e a propaganda oficial apresenta a dinastia estalinista fundada por Kim Il-sung como a responsável por tudo de bom que acontece no país. Segundo a versão oficial dos fatos, a fome que matou estimadas 2 milhões de pessoas nos anos 90 e pode matar mais agora é consequência de desastres naturais e não da má-gestão e isolamento do país.
No lugar da rede mundial de computadores, os cidadãos comuns usam uma intranet, na qual só podem acessar sites norte-coreanos. A internet é reservada a alguns privilegiados, a diplomatas estrangeiros e jornalistas em visita ao país autorizadas pelo governo. Para viabilizar o trabalho do grupo de repórteres que está em Pyongyang, o governo montou uma sala de imprensa com internet no hotel onde estamos hospedados. Não temos internet no quarto. Como todos os estrangeiros que entram no país, fomos obrigados a deixar nossos celulares no aeroporto.
Os jovens norte-coreanos não sabem o que é facebook ou twitter, não escutam rock, não vão a danceterias nem jogam videogames. Como todos no país, levam na roupa botoms com a imagem de Kim Il-sung, que é venerado como um semi-deus pela propaganda oficial. Quando visitamos a universidade Kim Il-sung na quarta-feira, muitos dos estudantes que estavam diante de computadores na biblioteca liam na tela obras de Kim Il-sung. Essa é a universidade de elite do país, para onde são enviados os melhores estudantes. Kim Il-guang, 30, disse que um de seus websites preferidos na intranet é o dedicado à ideologia Juche concebida, claro, por Kim Il-sung. Ela é o extremo oposto da globalização e prega a auto-suficiência da Coreia do Norte em todos os campos.
Mas o país está longe de andar com as próprias pernas. Durante o período soviético, a Coreia do Norte recebeu generosa ajuda da ex-União Soviética e fazia parte do bloco comunista que se opôs aos americanos na Guerra Fria. Com o desmantelamento da URSS, a economia da Coreia do Norte começou a se desestruturar e um misto de má-gestão, isolamento e desastres naturais levaram à grande fome dos anos 90.
Agora, eles enfrentam uma nova onde de falta de alimentos, que tentam amenizar atraindo doações internacionais _o Brasil vai enviar 5.000 toneladas de feijão ao país. O World Food Program estima que 6 milhões dos 24 milhões de norte-coreanos receberão menos comida do que necessitam em 2001, em parte como consequência do inverno severo. Isso significa que um quarto da população de 24 milhões de pessoas corre o risco de inanição.
Cheguei à Coreia do Norte no sábado à noite e quase tudo o que vi do até agora pela janela de ônibus ou trem. O mais fechado regime do mundo decidiu se abrir temporariamente para a imprensa internacional com dois objetivos: tentar convencer o mundo de que o lançamento de satélite previsto para esta semana não é um teste disfarçado de míssil e mostrar as imagens de unidade nacional que vão marcar no domingo as celebrações do centenário de nascimento do fundador do país, Kim Il-sung.
Nós não podemos andar livremente em Pyongyang nem sair do hotel sozinhos para uma inocente caminhada nas redondezas. Todos os jornalistas são acompanhados de funcionários do Ministério das Relações Exteriores, que atuam como intérpretes, mas que também têm a função de controlar nossos movimentos. O grupo é levado de ônibus ou trens para lugares pré-determinados e só vê o que o governo decide mostrar.
Mas as janelas nos revelam muito do quotidiano da Coreia do Norte, ainda que não tenhamos chance de interagir com as pessoas que passam por elas. No domingo, o grupo de jornalistas foi levado a uma viagem de cinco horas de trem até a estação de lançamento de satélites que fica 200 km ao norte de Pyongyang. O trajeto cortou parte da zona rural, onde vive quase 40% da população. O que se via da janela era uma paisagem árida, castigada por um dos mais severos invernos da história recente. Quase não há árvores e os moradores se espalham em vilas coletivas nas quais as casas têm arquitetura quase idêntica. Máquinas agrícolas são inexistentes e até tratores são uma raridade. O trabalho é feito com as mãos ou com a ajuda de bois, que carregam o arado.
No trajeto de volta, o que se revelou foi a escuridão absoluta do interior do país, que eu já havia visto em fotos de satélites que mostram a Coreia do Norte como uma mancha negra, com exceção de Pyongyang, em contraste com a luminosa vizinha Coreia do Sul. Mas é chocante ter a visão real e microscópica daquela imagem. A falta de eletricidade é um dos mais graves problemas do país, que afeta o quotidiano das pessoas e dificulta o funcionamento da economia.
O principal impacto da falta de energia sobre os moradores de Pyongyang é a precariedade do transporte público, em razão da escassez de diesel para os ônibus e eletricidade para os troleibus. Nos pontos, as filas são quilométricas e muitos preferem usar os pés para se locomover. As calçadas estão cheias de pessoas que caminham para o trabalho, escola e de volta para casa.
Aí vão algumas das fotos que tirei pelas janelas:

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Mais célebre entre os ativistas chineses atingidos pela onda de repressão que tomou conta do país a partir do ano passado, o artista Ai Weiwei tem um talento único para subverter as punições a que é submetido. Seu mais recente gesto foi escancarar sua intimidade com a instalação de webcams em diferentes áreas de sua casa, incluindo a cama onde dorme. As imagens são transmitidas 24 horas por dia no site weiweicam.com. O gesto ironiza a vigilância a que está sujeito faz com que as 15 câmeras de vigilância instaladas na rua de sua casa percam a relevância.
“Quando eu fui preso, ninguém sabia onde eu estava. Minha família, meus amigos, meus colegas, ninguém tinha nenhuma informação. Por isso eu quis que as pessoas me vissem nesse momento especial. Elas podem me ver até quando estou dormindo e constatar que não estou em perigo”, disse Ai Weiwei ao Estado na tarde de ontem, em entrevista que foi captada por uma das webcams colocadas em sua mesa de trabalho:

Ai Weiwei usou a instalação das câmeras para marcar o aniversário de um ano de sua detenção, ocorrida em 3 de abril de 2011 no aeroporto de Pequim. O artista passou 81 dias desaparecido, sem contato com sua família. Mas o governo não o acusou de subversão, à diferença de outros ativistas presos no ano passado. O suposto crime de Ai Weiwei foi a sonegação de impostos. No dia 1˚ de novembro, o artista recebeu notificação para pagar o equivalente a US$ 2,4 milhões em tributos atrasados e multas.
A cobrança desencadeou uma onda de solidariedade ao artista, que em 15 dias arrecadou US$ 1,4 milhão em doações de 30 mil chineses, em uma claro gesto político de desafio ao governo. A “vaquinha” foi suficiente para o depósito de US$ 1,3 milhão necessário para apresentação de recurso contra a decisão.
No dia 18 de novembro, as autoridade chinesas abriram nova frente de ataque a Ai Weiwei e passaram a investigá-lo sob acusação de pornografia, em razão de uma foto na qual ele e quatro mulheres aparecem nus. Na época, o artista sustentou que “nudez não é pornografia”. Nos dias seguintes ao da acusação, mais de cem chineses publicaram fotos de si próprios nus ou seminus em site dedicado à defesa do artista, em outro exemplo de contestação política.
O governo chinês prendeu seis pessoas, fechou 16 sites e suspendeu os comentários nos dois grandes serviços de microblogs do país, cada um dos quais com cerca de 300 milhões de usuários, na maior ofensiva de controle das versões locais do twitter desde que eles ganharam popularidades, nos últimos dois anos.
As medidas são uma resposta aos rumores que circularam na internet na semana retrasada, segundo os quais Pequim havia sido palco de uma tentativa de golpe de Estado, com tanques nas ruas e troca de tiros em Zhongnanhai, o complexo onde vivem e trabalham os líderes máximos chineses.
Os boatos estão relacionados à queda do ex-chefe do Partido Comunista na megacidade de Chongqing, Bo Xilai, e à disputa de poder dentro da organização nos meses que antecedem à troca de comando que ocorrerá no fim deste ano. Bo era um dos principais candidatos ao Comitê Permanente do Politburo, formado pelos nove homens que de fato mandam no país, mas foi afastado no dia 15 de março. Não há nenhuma informação oficial sobre seu paradeiro, as causas de sua queda e seu futuro.
De acordo com os comentários que circularam online, a tentativa de golpe teria sido orquestrada por Zhou Yongkang, o principal aliado de Bo entre os atuais nove integrantes do Comitê Permanente do Politburo. Zhou é responsável pelas forças de segurança e esteve ausente de uma reunião da comissão que preside no dia 22 de março, uma semana depois do afastamento de Bo Xilai, o que estimulou as especulações sobre choques sísmicos na cúpula do Partido Comunista.
Os comentários circularam amplamente online, mas nada nas ruas de Pequim indicava que algo de anormal estivesse ocorrendo. O policiamento continuava o mesmo, não havia nenhum sinal de tanques e analistas afirmaram que os boatos eram fabricados. Nenhuma autoridade desmentiu os rumores, mas eles perderam força depois que Zhou Yongkang participou de atividades públicas no dia 26 de março.
Os usuários podem publicar posts nos microblogs, mas comentários sobre informações veiculadas por outros internautas estão suspensos até terça-feira. Os usuários que tentam realizar comentários são informados de que os serviços estavam contaminados com “muitos rumores e informação destrutiva e ilegal” e que a interrupção é necessária para realização de uma “limpeza”.
A decisão foi anunciada tarde da noite de sexta-feira. A agência de notícias Xinhua afirmou ontem que o Departamento Estatal de Informação na Internet concluiu que os 16 sites fechados haviam espalhado rumores de que “veículos militares haviam entrado em Pequim” e que algo de errado estava ocorrendo na cidade.
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