China e Estados Unidos vivem uma relação de dependência econômica e desconfiança política que parece aumentar a cada dia, mas isso não impede que o mundo acadêmico dos dois países esteja cada vez mais integrado. A Universidade de Stanford acaba de se transformar na primeira instituição de ensino norte-americana a ter uma sede dentro da Universidade de Pequim, uma das mais tradicionais da China.
A Stanford investiu US$ 7 milhões na construção de um edifício de 36 mil metros quadrados, que será o quartel general para seus programas de pesquisas no país. O centro também terá missão de estimular a ida de estudantes americanos para a China. Segundo dados de Washington, o número de alunos chineses matriculados em escolas nos Estados Unidos é dez vezes maior que o de norte-americanos em instituições chinesas.
A China ultrapassou a Índia e se tornou a principal origem de alunos estrangeiros em escolas e universidades norte-americanas. No ano passado, eram 157.558 o equivalente a 22% dos estudantes internacionais. Só em Stanford há cerca de 1.000 alunos chineses atualmente e nos últimos dez anos eles lideraram o ranking do número de estrangeiros na instituição.
Em 2010, o presidente Barack Obama lançou projeto que prevê o envio de 100 mil estudantes para a China no período de quatro anos, com o objetivo de equilibrar o fluxo acadêmico entre os dois países. “A necessidade de os americanos ganharem exposição e entenderem a China é clara: talvez não exista nenhuma relação no mundo mais importante ou complexa do que a entre Estados Unidos e China em termos de garantia da paz e segurança globais”, diz texto do Departamento de Estado sobre o projeto.
A Stanford está longe de ser um caso isolado. Várias universidades norte-americanas têm programas de cooperação com instituições chinesas. A Yale atua junto com a Universidade de Pequim e a Columbia tem laços com a Tsinghua, onde se formou o atual presidente chinês, Hu Jintao. A Johns Hopkins é parceira da Universidade de Nanjing no Hopkins-Nanjing Center for Chinese and American Studies. A Missouri State University está na província de Lioning, no nordeste chinês, para citar apenas alguns exemplos.
No Brasil, há pouquíssimas instituições de pesquisa dedicadas ao estudo da China, país que é nosso maior parceiro comercial e dono do segundo maior PIB do mundo. Também há poucos estudantes de chinês e, apesar de crescente, o número de brasileiros em instituições de ensino na China é minúsculo. Está na hora de mudar.
Cada dia fica mais claro o tipo de Estado de Direito que os líderes chineses pretendem implementar no país: qualquer um que não desafie a permanência do Partido Comunista no poder. O Ministério da Justiça acaba de divulgar o novo juramento que deve ser realizado por todos os que se credenciarem como advogados ou renovarem seu registro a partir de agora. Entre as promessas que devem ser realizadas está a de “defender a liderança do Partido Comunista e do sistema socialista”. É difícil saber como essa parte do juramento será conciliada com a que aparece em seguida: “Proteger a Constituição e a autoridade da lei”. Os advogados que atuam na área de direitos humanos e defendem críticos do regime sustentam que seus clientes apenas exerceram garantias previstas na Constituição, entre as quais está a liberdade de expressão.
A íntegra do juramento é uma pérola de politização de uma profissão que tem entre seus princípios básicos a defesa dos cidadãos contra abusos do Estado: “Eu prometo desempenhar a sagrada missão de trabalhador da lei dentro do socialismo com características chinesas, ser leal ao país e ao seu povo, defender a liderança do Partido Comunista e do sistema socialista e proteger a Constituição e a autoridade da lei”. Segundo nota divulgada no site do Ministério da Justiça, o objetivo do novo juramento estabelecer “firmemente” entre os advogados a fé no sistema socialista com características chinesas e melhorar a qualidade de sua “ideologia política”.
Dizimada no período posterior à Revolução Comunista de 1949, a prática da advocacia foi restaurada em 1979, no início do processo de abertura econômica iniciado por Deng Xiaoping. Afinal, é difícil fazer negócios e receber investimentos estrangeiros sem o mínimo de previsibilidade legal. Mas o número de advogados na China é mínimo se comparado à população de 1,35 bilhão de pessoas: 200 mil, menos de um terço dos cerca de 720 mil existentes no Brasil.
Advogado do artista Ai Wei Wei, Liu Xiaoyuan considera o novo juramento “impróprio”, para dizer o mínimo. “Nós não temos responsabilidade direta em relação ao governo ou ao partido. Nossa prioridade é seguir a Constituição e as leis. O governo deveria ter em mente as características profissionais da advocacia e não tachar tudo com uma marca política”, afirmou.
A vida de advogados como Liu Xiaoyuan se tornou mais difícil a partir do começo de 2011, quando chamada anônima na internet convocou chineses para manifestações semelhantes às que derrubaram regimes autoritários em países árabes. As demonstrações nunca chegaram a ocorrer, mas dezenas de ativistas foram detidos, entre os quais vários advogados que atuam na defesa de direitos civis. Apesar de ter se intensificado desde então, a repressão é anterior à fracassada tentativa de realizar uma Revolução do Jasmim na China. Um caso extremo é o do advogado Gao Zhisheng, que desapareceu em abril de 2010, depois de ter documentado vários casos de violações dos direitos humanos no país. “Nos últimos anos, o controle sobre os advogados se tornou mais severo, porque há ‘vozes discordantes’ dentro desse grupo e nós não somos tão obedientes”, ressaltou Liu. “Eu não acredito que o juramento terá efeito na prática. A defesa da lei continuará a ser a prioridade dos advogados.”
Não foi apenas Bo Xilai que caiu em desgraça dentro do Partido Comunista. A campanha de resgate de símbolos maoístas que ele liderou na megacidade de Chongqing _com ramificações no restante da China_ também foi abatida depois de seu afastamento, na semana passada. A censura bloqueou na internet todos os principais sites da “nova esquerda”, como Utopia e a Bandeira de Mao, enquanto moradores de Chongqing que costumavam se reunir em praças para cantar canções revolucionárias foram instruídos pela polícia a abandonar o hábito para não “incomodar” os vizinhos.
Bo Xilai perdeu o cargo de secretário-geral do Partido Comunista em Chongqing no dia 15 de março. Logo depois, um dos principais intelectuais da “nova esquerda”, Sima Nan, teve bloqueada sua conta no weibo, a versão local do twitter, que é inacessível dentro da China por causa da censura.
“Essa é uma questão de liberdade de expressão”, disse à Rádio Ásia Livre o advogado de Chongqing Zhen Jianwei. “Cantar canções revolucionárias e participar de demonstrações são maneiras de expressar opiniões”, ressaltou. Mas as autoridades de Pequim prezam pouco o respeito à liberdade de expressão, especialmente se ela é exercida por adversários de ocupantes do poder. A ironia é que a censura agora atinge músicas consagradas pelo próprio Partido Comunista e seu líder máximo, Mao Tsé-tung.
Depois da queda de Bo Xilai, a maior preocupação dos líderes em Pequim é consolidar uma imagem de unidade dentro do Partido, nos meses que antecedem o congresso da organização que consagrará a transferência do poder a uma nova geração no fim do ano. O ex-todo-poderoso de Chongqing estava em campanha aberta para entrar no clube de nove pessoas que representam o poder máximo na China, reunidas no Comitê Permanente do Politburo. Mas ele exagerou na dose de autopromoção, em um Partido que preza a discrição e o segredo, e foi agressivo demais na promoção do “modelo de Chongqing” e sua inspiração neomaoísta, que ecoa a Revolução Cultural (1966-1976) que Pequim gostaria de esquecer.
O Partido Comunista da China se prepara para a transição de poder a uma nova geração de líderes incerto sobre o rumo a seguir e envolto em uma feroz disputa interna, que ficou evidenciada pela queda na semana passada do ex-chefe de Chongqing, Bo Xilai, que era o mais ostensivo candidato ao órgão máximo de comando do país. As divisões provocam paralisia das reformas pró-mercado que integraram a China à globalização e estagnação ou retrocesso nas mudanças políticas, depois de três anos de endurecimento da repressão aos críticos do governo.
A dramática defesa de reformas políticas feita pelo primeiro-ministro Wen Jiabao em entrevista coletiva na quarta-feira reflete a dificuldade de promoção da agenda dentro de um Partido cindido internamente. Menos de um ano antes de terminar seu mandato, o premiê afirmou que a inação pode levar a China a reviver “tragédias” semelhantes à Revolução Cultural (1966-1976), o movimento comandado por Mao Tsé-tung que provocou milhões de mortes, levou ao fechamento de escolas e universidades, promoveu a perseguição de líderes do Partido Comunista e intelectuais e deixou a sociedade chinesa à beira da ruptura.
O afastamento de Bo Xilai representa um duro golpe para ala à esquerda do Partido, que estava cada vez mais unida em torno do “modelo de Chongqing”, a receita que privilegia o papel do Estado na economia, busca redução das desigualdades e resgata as canções vermelhas maoístas que estiveram em voga na Revolução Cultural.
“Eu acredito que a queda de Bo Xilai vai fazer com que o processo de reformas avance e a direção será ‘à direita’”, opinou o professor do Departamento de Política da Universidade do Povo, Zhang Ming. Segundo ele, a etapa inicial da abertura chinesa foi inspirada pelo ocidente, com regras pró-mercado e integração ao comércio global. Em anos recentes, o país começou a retroceder aos princípios maoístas, movimento que teria sido estancado com a queda de Bo Xilai. “O ‘modelo de Chongqing’ era um erro”, afirmou Zhang.
Mas outros acreditam que a queda do líder da “nova esquerda” não significa a remoção das resistências às reformas liberalizantes no mercado e na política. “O apelo do sistema que privilegia a presença do Estado na economia vai além de Bo Xilai e do modelo de Chongqing”, observou o economista norte-americano Patrick Chovanec, professor da Universidade Tsinghua, para o qual a última grande reforma realizada pela China foi a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001. “Não está claro qual caminho a China seguirá no futuro”, ressaltou.
“As reformas morreram”, afirma o analista político independente Chen Zemin. O ímpeto mudancista perdeu fôlego em meados da década passada e sofreu um revés com a crise financeira de 2008, da qual a China saiu relativamente ilesa graças a um pacote de estímulo que ampliou o poder do Estado na economia e fortaleceu as empresas controladas pelo governo.
Parte dos líderes comunistas se convenceu de que o modelo de capitalismo de Estado chinês é superior ao falido capitalismo ocidental, que até então era a fonte inspiradora das reformas que pregavam abertura e desregulamentação da economia.
A expectativa de mudanças na área política se reduziu a partir de 2008 e 2009, quando conflitos étnicos chacoalharam o Tibete e Xinjiang, respectivamente. O cenário piorou ainda mais em 2011, depois de convocação anônima de protestos semelhantes aos ocorridos na Revolução do Jasmim dos países árabes. O Partido Comunista reagiu com uma onda repressiva que levou à detenção de dezenas de ativistas políticos e a condenação de alguns deles a penas de até dez anos de prisão sob acusação de subversão.
A resposta da China à crise global fortaleceu ainda mais as gigantescas empresas estatais, que empregam milhões de pessoas, atuam nas mais diversas áreas, recebem a maior parte do crédito bancário barato e realizaram os investimentos que garantiram o crescimento do país enquanto o mundo desenvolvido agonizava.
O slogan que passou a identificar esse movimento é guo jin, min tui, ou o Estado avança e o setor privado recua. “Há um sentimento entre investidores estrangeiros e empresários locais de que as regras do jogo estão cada vez mais favoráveis às empresas estatais, às custas de todos os demais”, avalia Chovanec.
Apesar do sucesso no combate aos efeitos da crise, o próprio governo reconhece que o modelo de desenvolvimento têm que mudar para ser sustentável. Mas as propostas de reformas enfrentam oposição feroz em segmentos importantes do Partido Comunista e das estatais que se fortaleceram nos últimos anos e ainda não está claro quem vencerá a disputa.
Poucas vezes os chineses puderem ver as entranhas da disputa de poder na cúpula comunista como no episódio que levou à queda de Bo Xilai, o ex-todo-poderoso chefe do Partido Comunista na megacidade de Chongqing. Afastado na manhã de hoje, Bo estava em campanha aberta para assumir no fim do ano uma das nove cadeiras do Comitê Permanente do Politburo, o grupo que de fato manda na China.
Apesar de não estar claro se ele está sob investigação, tudo indica que a ex-estrela em ascensão é a mais nova vítima do caráter seletivo das acusações de corrupção no país, usadas pelos momentaneamente mais poderosos para atingir seus adversários políticos. Ambicioso ao extremo e dono de um estilo personalista que destoa do caráter coletivo de liderança que prevalece hoje em Pequim, Bo provocava desconforto em muitos caciques, entre os quais o primeiro-ministro Wen Jiabao, que usou entrevista coletiva que concedeu ontem para criticá-lo.
Além do estilo, o ex-chefe de Chongqing incomodava por promover uma campanha de resgate do maoísmo e das canções vermelhas que estiveram em voga na Revolução Cultural (1966-1976), período que o premiê classificou ontem de “tragédia” e que muitos chineses gostariam de esquecer. Filho de um herói revolucionário, Bo integra o poderoso grupo de “pequenos príncipes”, do qual também faz parte o provável futuro presidente da China, Xi Jinping.
A queda de Bo começou a ser desenhada como um roteiro de filme de espionagem da Guerra Fria, no qual a China ocuparia o lugar da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. No dia 6 de fevereiro, seu ex-braço direito Wang Lijun se refugiou no Consulado dos Estados Unidos em Chengdu, capital da província de Sichuan que fica a quatro horas de carro de Chongqing. Não se sabe se ele pediu asilo político ou se usou o local para buscar proteção contra Bo e negociar uma rendição diretamente às autoridades de Pequim.
Wang havia sido colocado sob investigação sob acusação de corrupção e acredita-se que tinha (e tem) informações que comprometeriam seu ex-chefe. Depois de passar a noite no consulado, Wang finalmente saiu escoltado por autoridades enviadas por Pequim e voou direto para a capital, onde está em um “tratamento ao estilo de férias”, nas palavras da imprensa oficial.
O resultado mais imediato da queda de Bo é seu afastamento da disputa para escolha dos integrantes do Comitê Permanente do Politburo, durante congresso do Partido Comunista em outubro ou novembro. Dois nomes já estão definidos _Xi Jinping, que deverá assumir o lugar de Hu Jinato, e Li Keqiang, provável sucessor de Wen Jiabao. A disputa para as sete vagas restantes está em ebulição. Outra vítima é o “modelo de Chongqing”, com sua ênfase no papel do Estado na economia, busca de redução das desigualdades sociais e nostalgia maoísta, além da campanha contra o crime organizado que era liderada justamente por Wang Lijun, o que se refugiou no Consulado dos EUA.
O grande vitorioso é Wang Yang, o chefe do Partido Comunista que é o patrono do “modelo de Guangdong”, mais liberal tanto do ponto de vista econômico quanto político. Wang Yang defende a retração do Estado e o avanço do setor privado e governa a província que tem a imprensa mais independente da China _ainda que sujeita à censura. A grande dúvida, que só o tempo responderá, é se a queda de Bo fortalecerá a facção do Partido favoráveis à retomada do processo de reformas, incluindo as políticas, à qual pertence o primeiro-ministro Wen Jiabao.
O governo chinês decidiu usar a velha propaganda maoísta para tentar combater a crise moral que assolada o país, cujo maior símbolo é o caso da menina de 2 anos ignorada por mais de uma dezena de pessoas em outubro quando agonizava na rua depois de ter sido atropelada na cidade de Foshan, na sulista província de Guangdong. Finalmente socorrida por uma catadora de lixo, Wang Yue morreu no hospital e desencadeou um movimento nacional de questionamento dos valores que sustentam a sociedade chinesa depois de três décadas de crescimento tórrido sob o slogan “enriquecer é glorioso”.
Para combater a aparente crise moral do país, o governo ressuscitou Lei Feng, um soldado morto em 1962 e transformado pela máquina de propaganda de Mao Tsé-tung em símbolo de altruísmo e sacrifício desinteressado. Cinquenta anos depois de sua morte, o Partido Comunista tenta resgatar a figura do soldado de biografia impecável, mas a ofensiva propagandística tem efeitos limitados, em uma sociedade cada vez mais informada, como mostra reportagem do The New York Times. A ofensiva também é recebida com cinismo por muitos desiludidos pelo grau de corrupção que envolve integrantes do Partido, para os quais uma dose do espírito de Lei Feng seria apreciada.
O texto do NYT cita um internauta que reflete a reação de parte da população à campanha oficial, que elegeu 5 de março como “O Dia de Aprender com Lei Feng”: “Seus filhos migraram para fora do país, mas você me pede para aprender com Lei Feng na China. Eu tenho câncer por causa do leite venenoso que eu bebi, mas você me pede para aprender com Lei Feng”, escreveu o chinês que assina online como “Notebook”.
Os filhos de vários dirigentes comunistas estudam no exterior e toda a família de alguns deles vive fora da China. Dentro do país, a população enfrenta inúmeros casos de alimentos contaminados, como o leite misturado com melamina que matou seis crianças e deixou outras 300 mil doentes em 2008.
A mesmo tempo em que tenta corrigir a crise moral com propaganda maoísta, o governo aperta o cerco às versões chinesas do Twitter, que se transformaram em um dos principais instrumentos de crítica aos desmandos, corrupção e abuso de poder e se mostram muito mais efetivos na construção de uma sociedade melhor do que Lei Feng.
2013
2012
2011
2010
2009
2008