O bloqueio do Twitter pela censura chinesa não impediu o surgimento de um efervescente universo de microblogs, que reúne algo entre 300 milhões e 400 milhões de usuários e se tornou a principal plataforma de disseminação de informação e de discussão de temas tabus em um país que emprega milhares de censores para definir o que sua população pode ou não saber. Agora esse território semi-livre enfrenta a mais nova ofensiva das autoridades de Pequim para tentar controlar o que é divulgado online: a exigência de que todos os usuários de microblogs _ou weibo em chinês_ se registrem com seus nomes e números de identidade verdadeiros, o que têm o claro objetivo de restringir sua liberdade de comentar assuntos considerados “sensíveis” aos olhos dos censores.
O governo determinou em dezembro que todos os novos usuários de microblogs devem se registrar com seus nomes verdadeiros e deu às empresas prazo até 16 de março para converter as atuais contas anônimas em contas com nome e identidade. O executivo-chefe do portal Sina, Charles Chao, disse que as regras poderão ter efeito “negativo” sobre o weibo da empresa, o mais popular do país, com 300 milhões de usuários.
Segundo ele, mais de 40% dos novos adeptos do serviços não forneceram sua identidade, o que impede que publiquem posts, mas permitem que leiam o que está online. Chao avalia que será “difícil” cumprir o deadline de 16 de março para acabar com o anonimato dos usuários e não descartou a adoção de novas medidas restritivas no futuro.
A maioria dos que já estão registrados parece estar aguardando para ver se a regra é mesmo para valer. Na China, como no Brasil, há leis que não pegam e muitos acreditam que essa é uma delas, pelo grande número de pessoas que afeta. Mas a determinação é um termômetro do nervosismo das autoridades chinesas com uma plataforma de informação que foge ao total controle dos censores, ainda que esteja sujeita a seu escrutínio. Várias palavra e temas são bloqueados e mensagens consideradas ofensivas são deletadas.
O weibo é uma plataforma de crítica a uma série de problemas crônicos da sociedade chinesa, como a corrupção e o abuso de poder, e uma fonte de informação vista como mais confiável que a desacreditada mídia oficial. A grande dúvida agora é por quanto tempo poderá sobreviver em seu formato atual.
A chamada por reformas radicais na China feita pelo Banco Mundial em conjunto com pesquisadores ligados ao governo de Pequim evidencia a percepção de que o ímpeto reformista que marcou os primeiros 25 anos da abertura do país foi gradualmente abandonado pela geração de líderes que chegou ao poder em 2003. Na opinião de muitos analistas, Hu Jintao e Wen Jiabao colheram os frutos de mudanças realizadas em décadas anteriores, entre as quais a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, que pavimentou o caminho para o país se tornar o maior exportador do mundo em 2010.
O grande salto da China rumo à globalização foi dado no período de Jiang Zemin e Zhu Rongji, o reformista que foi primeiro-ministro de 1998 a 2003. Além do ingresso na OMC, Zhu comandou o radical processo de reestruturação das estatais no fim da década de 90, que levou ao fechamento de milhares de grupos deficitários e levou à demissão de milhões de trabalhadores. Também deu início ao saneamento do sistema financeiro, que levou à abertura de capital das grandes instituições e à injeção de US$ 600 bilhões nos bancos estatais para livrá-los de uma montanha de créditos podres.
A crise que chacoalhou o mundo em 2008 fortaleceu a posição dos que resistem a mudanças adicionais, na medida em que colocou em xeque a receita de liberalização e desregulamentação prescrita pelo Ocidente. Os setores chineses que defendem o status quo acreditam que o Estado e o Partido Comunista devem sua posição proeminente na economia, que foi ampliada a partir de 2008 com o megapacote de estímulo que Pequim lançou para combater os efeitos da crise global.
As gigantescas empresas estatais dominam os setores considerados estratégicos pelo governo_ como petróleo, telecomunicações, eletricidade e aviação civil_ e seus dirigentes não aceitarão facilmente perder a posição privilegiada que ocupam hoje. Além disso, muitos dirigentes estão convencidos de que a debacle dos países ocidentais explicitou a superioridade do modelo chinês de capitalismo de Estado e são contra reformas que o transformem de maneira significativa.
O processo de tomada de decisões na China também deve dificultar qualquer tentativa de transformação pelos próximos dois anos e possivelmente em um período ainda mais longo. Apesar de serem a face visível do governo, o presidente e o primeiro-ministro não tomam decisões de maneira isolada e dependem do apoio de distintos grupos dentro do Partido Comunista, em uma árdua tarefa de construção de consensos.
O maior símbolo das limitações impostas aos líderes máximos do país é Wen Jiabao, o primeiro-ministro que é visto como um reformista, mas que conseguiu implementar muito pouco de sua agenda de mudanças nos nove anos desde que assumiu o cargo. Agora, é pouco provável que consiga qualquer avanço no ano que lhe resta como primeiro-ministro.
As recomendações do Banco Mundial e de pesquisadores do governo chinês pode ser vista em inglês aqui. E aqui está minha reportagem sobre o assunto publicada hoje no Estado.
O Partido Comunista da China está imerso no mais grave escândalo político de anos recentes, que ameaça inviabilizar a pretensão do comandante supremo de Chongqing, Bo Xilai, de ascender à cúpula dirigente do país no processo de sucessão que ocorrerá no fim deste ano. A crise também pode colocar em xeque o chamado “modelo de Chongqing” de desenvolvimento e seu coquetel que enfatiza consumo doméstico, investimentos em alta tecnologia e pitadas ideológicas esquerdistas que envolvem a reabilitação do culto a Mao Tsé-tung.
Como todas as disputas de poder dentro do Partido, o caso é tratado com absoluta falta de transparência pelo governo e a imprensa oficial, mas é impossível sonegar as informações do público em um país com 500 milhões de internautas, a maioria dos quais ávidos usuários de microblogs que estão fascinados pelos ingredientes de suspense e intriga do terremoto que atingiu Bo.
O estopim da crise foi a queda de Wang Lijun, ex-todo poderoso chefe de segurança pública e braço direito de Bo até o dia 2 de fevereiro, quando perdeu o cargo e foi transferido para uma área relacionada à educação e cultura. No dia 6 de fevereiro, Wang viajou quatro horas de carro de Chongqing a Chengdu, capital de Sichuan, e se refugiou por dez horas no Consulado dos Estados Unidos. O Departamento de Estado norte-americano confirmou o fato, mas não revelou o que foi discutido e afirmou que Wang deixou o local por vontade própria.
Não se sabe se o ex-assessor de Bo pediu asilo político ou usou o porto seguro do consulado para negociar uma “rendição” às autoridades de Pequim, por temer ser assassinado. Mas ele escolheu um momento delicado, na véspera da visita aos Estados Unidos do vice-presidente Xi Jinping.
A versão mais confiável do episódio é a de que Wang passou a ser investigado por corrupção e escreveu uma carta à Comissão Central de Inspeção Disciplinar do Partido relatando supostas irregularidades cometidas por Bo, depois do que passou a temer por sua vida. Wang passou a noite no consulado, que no dia seguinte foi cercado por 70 carros da polícia de Chongqing despachados pelo prefeito da cidade, Huang Qifan, provavelmente por ordem de seu chefe, Bo, que é o secretário-geral do Partido no município.
De acordo com vários relatos divulgados na internet e por analistas políticos, Pequim enviou um emissário ao local, acompanhado por agentes de segurança. Depois de confronto entre os dois lados sobre quem deveria prendê-lo, Wang finalmente teria se entregue às autoridades do governo central e sido transferido para a capital.
O governo de Chongqing divulgou uma nota na qual afirma que o ex-chefe da segurança sofreu exaustão por excesso de trabalho e iniciou um “tratamento no estilo de férias”. “Depois desse escândalo, Bo tem poucas chances em sua campanha para chegar ao Comitê Permanente do Politburo”, disse ao Estado o analista político Chen Ziming, fazendo referência ao grupo de nove pessoas que detém o poder supremo na China.
Sete dos nove integrantes do colegiado vão se aposentar no Congresso do Partido Comunista marcado para setembro, que tem a missão de definir os substitutos. Os outros dois nomes são conhecidos desde 2007, quando foi realizado o Congresso anterior: Xi Jinping, provável futuro presidente da China, e Li Keqiang, apontado como futuro primeiro-ministro.
A partir de Chongqing, Bo empreendeu uma agressiva campanha para se credenciar para uma das sete vagas. Um dos pilares da ofensiva foi o combate à máfia e ao crime organizado que levou a milhares de prisões e deu projeção nacional a Bo. Como chefe de segurança, Wang ocupou papel central nesse movimento, que atingiu seu antecessor no cargo.
Extremamente personalista e adepto da publicidade, Bo tem um estilo de liderança que contrasta com a discrição dos atuais donos do poder em Pequim. Ela também se choca com o modelo de liderança colegiada instalado na era pós-Deng Xiaoping, que deixou para trás o governos de homens fortes, como Mao Tsé-tung e o próprio Deng.
O isolado e repressivo regime de Mianmar deu início no fim de 2010 a um sucessão de reformas que surpreendeu a oposição e analistas, dentro e fora do país. O ícone da resistência ao regime, Aung San Suu Kyi, foi libertada depois de sete anos de prisão domiciliar, centenas de presos políticos ganharam liberdade e a censura foi drasticamente reduzida.
Mas a Constituição promulgada em 2008 depois de controvertido referendo busca garantir a manutenção dos militares no Parlamento e no governo mesmo depois de uma eventual democratização. A reforma do texto é defendida por todos os grupos de oposição.
A Liga Nacional pela Democracia (NLD) de Aung San Suu Kyi considera a Carta ilegítima, enquanto outros grupos sustentam que o texto contém dispositivos não democráticos. A Constituição reserva 25% das 664 cadeiras das duas casas do Parlamento a militares nomeados pelo Comandante em Chefe dos Serviços de Defesa, uma nova figura que não está submetida ao presidente e que poderá assumir o poder do Estado em situação de emergência que possa levar à desintegração do país.
Mianmar vive a mais longa guerra civil do mundo, iniciada há 60 anos, e que hoje envolve dezenas de grupos armados ligados a distintas etnias.
Apesar dos dispositivos draconianos, as instituições começam a funcionar. “O Parlamento está reunido pela primeira vez e discute o Orçamento do próximo ano fiscal, algo inédito na história recente do país”, aponta o embaixador José Carlos da Fonseca, que instalou a primeira representação diplomática do Brasil em Mianmar em outubro de 2010, às vésperas das eleições legislativas gerais e da libertação de Aung San Suu Kyi. “Nós chegamos na hora certa.”
O pleito de abril tem o objetivo de preencher 48 dos 664 cadeiras que ficaram vagas com a transferência de parlamentares para o ministério do governo nominalmente civil que assumiu o comando do país em março.
Apesar do otimismo com as reformas a consultora Susanne Kempel ressalta que as leis utilizadas pelo regime para perseguir os opositores continuam em vigor. “Ainda há muito a ser feito.”
Aqui e aqui você pode ler as reportagens de Mianmar na semana passada, publicadas ontem no Estado.
O estaleiro chinês Rongsheng Heavy Industries tem contrato de US$ 1,6 bilhão com a brasileira Vale para construção de 12 supercargueiros, dos quais apenas 1 já foi entregue. A utilidade dos demais foi colocada em xeque anteontem, quando o Ministério dos Transportes da China anunciou que os portos do país não poderão receber as embarcações contratadas pela mineradora brasileira.
Maior cargueiro do mundo, com capacidade de transporte de 400 mil toneladas, o navio foi concebido para atender principalmente o mercado chinês, destino de quase metade do minério de ferro exportado pelo Brasil.
O Ministério dos Transportes cedeu à pressão dos armadores chineses, segundo os quais há um excesso de navios no mercado e uma tendência de baixa no preço dos fretes, situação que se agravaria ainda mais com a entrada em operação dos megacargueiros da Vale.
Em entrevista concedida ao Estado antes do veto do Ministério dos Transportes, o vice-presidente da Associação de Proprietários de Navios da China (CSA, na sigla em inglês), Zhang Shouguo, afirmou que a Vale cometeu um “grande erro” ao decidir construir os navios e deveria cancelar as encomendas. “Eles devem esperar um momento mais apropriado”, declarou.
A mineradora anunciou a criação da frota de supercargueiros em 2008, antes do estouro da crise financeira que afetou o comércio global e a demanda por frete. O projeto da companhia prevê uma frota de 35 dessas embarcações, dos quais 16 serão contratados com exclusividade de armadores. Os restantes 19 serão operados diretamente pela própria Vale _a Rongsheng construirá 12 deles, enquanto a coreana Daewoo Shipbuilding & Marine Engineering é responsável pelos outros 7.
Segundo um funcionário da Rongsheng que se identificou apenas pelo sobrenome Zheng, a empresa não havia recebido até ontem nenhum pedido da Vale de cancelamento ou adiamento do contrato. Em sua avaliação, é pouco provável que a mineradora desista do acordo, porque o valor que já foi pago é muito alto.
O vice-presidente da CSA observou que a Vale cometeu um erro ao insistir na construção dos navios mesmo em meio à crise financeira mundial que reduziu a demanda por carga e provocou excesso de capacidade no setor. Zhang prevê que a situação vai permanecer inalterada pelo menos até o fim de 2013, o que inviabiliza a utilização dos novos cargueiros da Vale nos próximos dois anos. “Em 2008 havia demanda e o mercado estava aquecido, mas a situação é totalmente diferente agora”, ressaltou.
A decisão do Ministério dos Transportes da China de proibir o atracamento em portos do país de navios com capacidade superior a 300 mil toneladas atinge em cheio o investimento estratégico de US$ 2,35 bilhões feito pela Vale para atender o mercado asiático e, em especial, a China. Esse valor representa apenas os recursos destinados à construção dos navios que serão operados diretamente pela empresa e não inclui as 16 embarcações que serão alugadas por armadores para a empresa brasileira.
A Vale decidiu investir na construção do maior cargueiro do mundo para reduzir o custo do transporte do minério de ferro do Brasil para a China e compensar a vantagem de seus concorrentes australianos, que estão muito mais próximos do principal comprador do produto.
Com capacidade de transporte quase três vezes maior que os navios utilizados atualmente, o Valemax diminui o custo do frete em cerca de 30%, segundo avaliação de fonte do mercado. Mas isso não significa redução no preço do minério que será cobrado dos clientes chineses, já que o frete não é incorporado à sua cotação. Além dos armadores, as siderúrgicas chinesas também eram contra a utilização do supercargueiro, em razão do temor de perder poder na negociação de preços com a Vale.
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