Sidney Rittenberg é um desses personagens cuja trajetória pode ser lida como o roteiro de um épico hollywoodiano. Primeiro norte-americano a se filiar ao Partido Comunista da China, em 1946, ele participou do último estágio da guerra que levou à vitória de Mao Tsé-tung em 1949, foi um entusiasta da Revolução Cultural (1966-1976) e amargou quase 16 anos na mais célebre prisão política de Pequim, a maior parte dos quais em uma solitária.
A primeira de suas duas detenções ocorreu em 1949, quando ele viajava à capital chinesa para celebrar a vitória dos comunistas sobre os nacionalistas. Acusado por Joseph Stalin de ser um espião dos Estados Unidos, Rittenberg terminou na prisão, de onde só sairia em 1955, depois da morte do ditador soviético.
O gringo revolucionário havia chegado à China em 1944, como soldado dos Estados Unidos _nos dois anos anteriores, ele havia estudado chinês em uma academia do Exército. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Rittenberg decidiu permanecer na China como integrante do programa das Nações Unidas de combate à fome. O país estava imerso no caos e na pobreza, dirigido por um governo nacionalista incompetente e corrupto.
Nos Estados Unidos, Rittenberg havia atuado como organizador sindical e sido filiado ao Partido Comunista. Na China, ele acabou entrando em contato com os líderes revolucionários na principal base comunista da época, Yan’an, onde Mao Tsé-tung e seus companheiros de armas viviam em casas escavadas nas montanhas de terra arenosa. Rittenberg decidiu abraçar a história quando ela cruzou seu caminho e aceitou o convite para ficar em Yan’an e construir uma “ponte” entre os comunistas chineses e os norte-americanos. Mas impôs uma condição: ser aceito como membro do partido.
No recém-lançado documentário The Revolutionary, dirigido pelo norte-americano Irv Drasnin, Rittenberg narra o primeiro encontro com Mao Tsé-tung como a visão de uma “fotografia saída da história”. Segundo o norte-americano, o líder que ele conheceu em Yan’an era um ouvinte atento que desejava uma sociedade democrática e pluralista, bem diferente do ditador megalomaníaco que ele reencontraria nos anos 60.
Mas a arrogância de Mao depois da conquista do poder não impediu Rittenberg de se tornar um inflamado participante da Revolução Cultural, que ele vê hoje como uma versão chinesa do Holocausto. O movimento esgarçou o tecido social do país ao máximo, com o enfrentamento violento entre diferentes grupos e a morte de milhões de pessoas nas mãos dos Guardas Vermelhos.
Na irracionalidade que tomou contra da China, quase ninguém estava a salvo e Rittenberg acabou preso em 1968, junto com outros estrangeiros que viviam no país, supostamente por criticar aspectos do Partido Comunista. Sua mulher, a chinesa Wang Yulin, foi enviada a um campo de trabalhos forçados, onde ficou por três anos. Ele só seria libertado em 1977, no ano seguinte à morte de Mao. O sinal de que sua prisão estava chegando ao fim veio em outubro de 1976, quando a viúva de Mao, Jiang Qing, passou a ocupar uma cela na mesma detenção, em razão dos crimes cometidos durante a Revolução Cultural pelo seu Bando dos Quatro. “Quando ela entrou, eu tive certeza de que logo sairia.”
Aí vão algumas fotos:
Mao Tsé-tung autografa o seu Livro Vermelho para Sidney Rittenberg no portão diante da praça Tiananmen

A casa onde Mao Tsé-tung vivia na base comunista de Yan’an

O interior da casa onde vivia Zhou Enlai, o primeiro premiê da República Popular da China; as casas de Yan’an eram escavadas nas montanhas da região

A foice e o martelo dourados e gigantescos dão o tom do cenário solene do Grande Palácio do Povo onde delegados do Partido Comunista se reuniram na quinta-feira para iniciar o mais importante congresso da organização em uma década. A estética soviética, a uniformidade dos atores e a linguagem que inclui “camaradas”, “centralismo-democrático” e “marxismo-leninisno” mostraram aos eventuais desavisados que o segundo maior PIB do mundo continua regida por um partido único que mudou muito pouco desde sua chegada ao poder, há 63 anos.
Formalidade e simbolismo regeram a abertura do evento, no qual todos os detalhes foram milimetricamente ensaiados, incluindo a coreografia das moças que servem água para o chá. O Partido Comunista da China detesta surpresas e adora a demonstração pública de homogeneidade, apesar das ferozes disputas de bastidores nas quais se engalfinham suas diferentes facções. Os 2.268 delegados e os 371 atuais ocupantes do Comitê Central permaneceram em silêncio absoluto na uma hora e quarenta minutos que Hu Jintao dedicou à leitura do “Relatório ao 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China”. Diante de cada um, havia uma cópia do documento e era possível ouvir o som das páginas viradas ao mesmo tempo pelos que ocupavam o plenário.
“A fé dos comunistas no marxismo, socialismo e comunismo é a sua alma política e os sustenta em todos os desafios”, afirmou Hu, que dirige a China há dez anos, período no qual o país experimentou um aumento acentuado da desigualdade social.
No palco elevado do plenário onde ficaram os integrantes do Comitê Central e do Politburo, a conformidade do guarda-roupa também era evidente. Todos os homens usavam camisas claras e ternos negros, com exceção dos militares e dos representantes de minorias étnicas, que exibiam roupas típicas para demonstrar a suposta “autonomia” que desfrutam sob o regime de partido único. No mesmo dia em que os delegados se reuniam em Pequim, quatro tibetanos, três dos quais adolescentes, se imolaram no oeste do país para protestas contra as políticas chinesas.
Quase todos os delegados tinham gravatas vermelhas e cabelos pretos, graças ao extenso uso da versão local de Grecin 2000. Aos 86 anos, o ex-presidente Jiang Zemin, optou pelo acaju enquanto o branco foi assumido por alguns dos demais veteranos aposentados que dividiram a mesa central com os membros do Politburo _oficialmente com 25 integrantes, o grupo está desfalcado desde março, quando Bo Xilai perdeu os cargos que ocupava no partido. O ex-chefe da megacidade de Chongqing está preso desde então e aguarda julgamento sob acusação de corrupção e abuso de poder. Se o seu ex-braço direito Wang Lijun não tivesse protagonizado uma fuga desesperada ao Consulado dos Estados Unidos em Chengdu, havia uma grande probabilidade de Bo Xilai estar sentado na mesa do Politburo na quinta-feira.
Aí vão as fotos que mostram o clima dentro e fora do Grande Palácio do Povo, um edifício de arquitetura soviética localizado na praça Tiananmen, a poucos metros da Cidade Proibida e do mausoléu que guarda o corpo de Mao Tsé-tung:
Integrantes do Politburo e do Comitê Central no palco do plenário do Grande Palácio do Povo

.
Funcionárias que servem água para o chá fazem ensaio geral antes da chegada dos participantes do congresso

.
Os 2.268 delegados do congresso no plenário com cópias do discurso lido pelo secretário-geral do partido, Hu Jintao

.
O ex-presidente Jiang Zemin (no centro, de cabela acaju) ao lado de seu sucesso, Hu Jintao (no centro, à esquerda)

.
O Grande Palácio do Povo, onde é realizado o congresso do Partido Comunista que definirá a maior mudança no comando do país em uma década

.
A saída de delegados do congresso na praça Tiananmen

.
O toque kitsch: vaso de “flores” ornamenta a praça Tiananmen para a realização do congresso

Os 2.270 delegados do 18º Congresso do Partido Comunista da China se reúnem em Pequim a partir de quinta-feira para chancelar os nomes dos dirigentes que comandarão a segunda maior economia do mundo na próxima década, escolhidos em uma opaca e feroz negociação de bastidores que opõe facções e famílias da elite política do país. Listas com os prováveis integrantes do órgão máximo de comando do partido continuam a circular na China, refletindo a disputa entre conservadores e reformistas e entre futuros, atuais e antigos líderes da organização.
“Eu nunca vi uma situação tão confusa antes, pelo menos não nos últimos 30 anos”, disse ao Estado o analista político independente Zhang Lifan. “A definição da data do congresso foi adiada várias vezes, não há ainda uma decisão final [sobre os nomes] e uma série de escândalos e incidentes políticos aconteceram antes da transição” ressaltou. Apesar da falta de transparência e indefinição, já está decidido que o país será comandado nos próximos dez anos pela dupla Xi Jinping e Li Keqiang, os representantes da “quinta geração de líderes” que serão o presidente e o primeiro-ministro da China, respectivamente.
Os dois assumirão o governo de um país mais poderoso e complexo que o recebido em novembro de 2002 pelos atuais ocupantes dos cargos, Hu Jintao e Wen Jiabao. Naquela época, a China era a sexta maior economia do mundo. Hoje, é a segunda, atrás apenas dos Estados Unidos. No mesmo período, o número de usuários da internet saltou de 46 milhões para 540 milhões, entre os quais quase 300 milhões possuem microblogs semelhantes ao twitter _bloqueado pela censura local.
A década Hu-Wen registrou a maior média de crescimento da China desde o início do processo de abertura, em 1978, quando a prosperidade econômica se transformou na principal fonte de legitimidade do partido. Mas também viu o brutal aumento dos conflitos e da instabilidade social. O número de protestos “de massa” chegou a 180 mil em 2010, quatro vezes o total registrado dez anos antes, segundo estimativa do professor da Universidade Tsinghua Sun Liping citada pelo jornal oficial Global Times.
Manifestações de caráter ambiental também aumentaram. Na semana retrasada, milhares de moradores da cidade de Ningbo, na próspera costa leste, saíram às ruas para demandar o cancelamento da expansão de uma empresa petroquímica considerada poluidora pela comunidade local. Depois de dias de protestos e choques com a polícia, o governo anunciou no domingo a suspensão do projeto. Além do aumento da instabilidade social, a conjunção de crise mundial, interrupção das reformas econômicas e distorções provocadas pelo megapacote de estímulo lançado pelo governo em 2008 ameaçam o crescimento, que neste ano ficará no mais baixo patamar desde 1990.
“Os novos líderes terão que implantar reformas porque há uma enorme pressão nesse sentido dentro e fora do partido”, declarou ao Estado o analista político Chen Ziming. Em sua opinião, o governo terá de fortalecer o combate à corrupção, que é uma das principais fontes de insatisfação popular em relação ao partido. A pesquisa Pew Global Attitudes, realizada nos meses de março e abril em vários países do mundo, mostrou que 50% dos chineses consideram a corrupção como um grave problema _o percentual era de 39% em 2008.
Outra preocupação é o aumento da desigualdade social, que já está entre as maiores do mundo. Dados oficiais indicam que a renda dos moradores das cidades é 3,5 vezes a dos habitantes da zona rural, onde vive quase metade do 1,3 bilhão de chineses. Mas na avaliação de Chen Ziming, a disparidade não poderá ser resolvida sem a reforma do sistema de registro de residência _chamado de hukou_ que limita a mobilidade de pessoas e impede que os camponeses tenham os mesmos direitos sociais dos habitantes das cidades.
A paranoia dos líderes de Pequim com a segurança durante o congresso marcado para a próxima semana atingiu patamares risíveis: os mais recentes aparatos potencialmente subversivos são bolas de pingue-pongue ou balões, que podem ser usadas por inimigos do Estado para disseminar mensagens “reacionárias”. Para evitar que isso ocorra, motoristas de táxis foram conclamados a considerar suspeitos passageiros que carreguem “qualquer tipo de bola”, segundo reprodução da orientação enviada às empresas de acordo com posts colocados no twitter.
Na eventualidade de os clientes terem outros métodos de propagação de “mensagens reacionárias”, os motoristas devem impedir que elas deixem o veículo, que deverá estar com portas trancadas e janelas fechadas. Os taxistas terão que ativar os botões de segurança que retiram dos passageiros o controle sobre esses dispositivos. Os que têm carros desprovidos de vidros elétricos devem remover as manivelas fixadas às portas.
“Fique atento a passageiros que pretendam espalhar mensagens com balões que tenham slogans ou bolas de pingue-pongue que tragam mensagens reacionárias”, diz o memorando distribuído aos taxistas, que batizou a política de “disseminação zero”.
Os motoristas também foram ordenados a checar periodicamente o interior e o exterior de seus carros para se certificar de que “violadores da lei” não tenham deixado ou afixado “mensagens reacionárias”.
A internet é outra vítima da paranoia do Partido Comunista. A censura se intensificou nos últimos dias e a velocidade de navegação se reduziu a passos de tartaruga. Sites como o gmail.com estavam inacessíveis ontem sem o uso de VPN _ou Virtual Private Network, o mecanismo que permite que os internautas escapem do bloqueio dos censores chineses. Que preguiça…
2012 é o ano que os líderes chineses seguramente gostariam de apagar do calendário. Poucos períodos recentes viram uma torrente tão grande de escândalos desabar sobre a cúpula do Partido Comunista, com efeitos devastadores sobre sua já reduzida autoridade moral. Não bastasse o efeito corrosivo da corrupção e dos privilégios da casta governante, o modelo econômico que transformou o país na segunda maior economia do mundo começa a dar sinais de esgotamento. O crescimento do PIB em 2012 deverá ficar em torno de 7,5%, o mais baixo índice desde 1990.
A mais recente revelação, feita sexta-feira pelo The New York Times, atingiu o primeiro-ministro Wen Jiabao, o dirigente que possui o que pode ser considerado como o mais próximo de “carisma” na cúpula governante. Fruto de um ano de investigação e baseada em documentos de empresas e órgãos de regulação, a reportagem sustenta que a família do premiê acumulou uma fortuna de US$ 2,7 bilhões desde 1992. O enriquecimento se acelerou de maneira visível a partir de 1998, quando Wen se tornou vice-primeiro-ministro da China _ele ocupa o cargo atual desde 2003.
O jornal mostra que as conexões com o governo e o partido ajudaram sua família a expandir negócios em áreas tão distintas quanto o comércio de joias, seguros, resorts, telecomunicações e projetos de infraestrutura. O NYT diz que não há nada em nome de Wen, mas a fortuna detida entre outros por sua mulher, mãe, filho e cunhado seria suficiente para colocar o grupo no 443º na lista dos mais ricos do mundo da Forbes. No domingo, dois advogados que dizem representar a família do premiê publicaram nota na qual refutam as afirmações do jornal. “As chamadas ‘riquezas ocultas’ de membros da família de Wen Jiabao mencionadas na reportagem do New York Times não existem”, afirmaram.
Antes do primeiro-ministro, o futuro dirigente máximo da China, Xi Jinping, havia sido alvo de uma investigação da agência de notícias Bloomberg, que descobriu investimentos do valor de US$ 400 milhões de pessoas integrantes de sua família. De novo, não havia nada no nome de Xi. Os dois veículos estão sendo punidos pelas autoridades chinesas. O site da Bloomberg está bloqueado há quatro meses e o do NYT, desde sexta-feira, quando a reportagem foi publicada.
O ano começou com a revelação de um caso explícito de corrupção pelas próprias autoridades chinesas, que decidiram afastar em fevereiro o então ministro das Ferrovias, Liu Zhijun, que ocupava o cargo desde 2003. Nesse período de quase dez anos, ele comandou o multibilionário processo de expansão da rede de trens de alta velocidade na China e embolsou propinas estimadas em 1 bilhão de yuans (R$ 324,7 milhões).
Em março, poucas semanas depois da queda do ministro, foi a vez de Bo Xilai perder seu cargo e ver sua ascensão política chegar ao fim. O então líder da megacidade de Chongqing, começou a cair em desgraça em fevereiro, quando o seu ex-braço direito Wang Lijun se refugiou no Consulado dos Estados Unidos em Chengdu. Lá ele entregou a diplomatas norte-americanos provas que implicavam a mulher de Bo no assassinato do empresário britânico Neil Heywood, que apareceu morto em um hotel de Chongqing em novembro. Bo foi expulso do partido e aguarda julgamento sob acusação de corrupção e abuso de poder.
O presidente Hu Jintao também foi atingido de maneira indireta por escândalos no início de setembro, quando veio à tona a informação de que o filho de seu chefe de gabinete havia morrido em um acidente com uma Ferrari em março. Funcionários públicos na China têm salário anual de alguns poucos milhares de dólares e seria impossível para o assessor de Hu obter de maneira legítima os recursos para comprar uma Ferrari para seu filho de 23 anos.
Na época do acidente, a censura bloqueou referências ao fato na imprensa e na internet, levantando a suspeita de que a vítima seria filho de alguém da cúpula do partido. A informação só foi revelada em setembro, quando o chefe de gabinete de Hu perdeu o cargo.
O sinólogo Kerry Brown, diretor-executivo do China Studies Center da Universidade de Sidney, disse em entrevista publicada hoje no Estado que há um crescente grau de cinismo em relação à elite dirigente na sociedade chinesa. “Se o partido não pode governar a si próprio e conduzir seus atos de acordo com regras transparentes, que direito ele tem de comandar a sociedade?”, perguntou.
O Brasil do ano 2012 se parece muito mais do que deveria com episódios de Mad Men, a série de TV norte-americana ambientada no início dos anos 60, na qual os negros que aparecem são ascensoristas, empregadas domésticas e garçons. Se você mora em São Paulo, tente lembrar quantas vezes vocês já foi a um restaurante dos Jardins ou da Vila Madalena e viu um negro sentado em uma mesa e não distribuindo cardápios ou recebendo pedidos? Nós vivemos em um apartheid social não declarado, no qual a Constituição e as leis proíbem qualquer forma de discriminação, mas a realidade reflete o abismo econômico-social que separa brancos e negros.
Mad Men se passa no período de luta pelos direitos civis e do histórico discurso de Martin Luther King Jr. “Eu tenho um sonho”. Até os anos 60, vários Estados Unidos americanos possuíam leis que separavam brancos e negros em escolas, transporte público e banheiros, por exemplo. O Brasil não teve uma política institucional de segregação, mas o fato é que a elite e a classe média do país viveram quase sempre em ambientes “brancos”, nos quais os negros desempenham o papel de serviçais.
O salto que os Estados Unidos deram dos anos de apartheid de Mad Men à eleição de Barack Obama para presidente se deve em grande parte à política de ação afirmativa, que criou cotas para negros nas universidades e no serviço público, além de estimular a diversidade racial nas empresas. A ideia costuma enfrentar uma avalanche de críticas no Brasil, mas é inegável que os negros carregam um herança histórica pesada, que os coloca em posição de desvantagem na disputa com brancos por um lugar ao sol.
Tratar a todos como se estivessem em condições iguais de concorrer só agrava as distorções, em um círculo vicioso que reproduz a desigualdade e a injustiça. E as universidades norte-americanas são a melhor resposta para os que acreditam que a política de cotas compromete a qualidade do ensino. Décadas depois da adoção da política de ação afirmativa, elas continuam entre as melhores do mundo.
No Brasil, a muralha que os negros devem transpor se torna ainda mais alta em razão da má-qualidade do ensino público de primeiro e segundo graus. As escolas particulares são o terrenos dos brancos e o trampolim para que eles conquistem vagas nas universidades públicas, de melhor qualidade e gratuitas, em uma das mais perversas distorções que favorecem as elites no Brasil. Eu estudei Direito na Universidade de São Paulo e no meu ano havia cerca de 400 alunos _200 na parte da manhã e 200 à noite. A maioria esmagadora era de brancos. A situação melhorou desde que me formei, em 1986, mas a composição dos alunos das universidades continua a anos luz do perfil racial da população.
O Estado de hoje traz reportagem segundo a qual o percentual de negros entre 18 e 24 anos que frequentam a universidade quadruplicou entre 1997 e 2011, mas continua em nível baixo, de 8,8%. Entrevistado pelo jornal, Vincent Lukas Gonçalves, 19, é o primeiro de sua família a frequentar uma universidade, com bolsa do ProUni: “Tem três negros na minha sala: eu, outro bolsista do ProUni e um garoto que trabalha na PUC e por isso também tem bolsa. Falam em inclusão, mas eu não vejo essa mudança. Um, dois, isso não é inclusão”.
O escritor Mo Yan é o primeiro chinês que não está preso nem exilado a ganhar um Prêmio Nobel e é o único escolhido a ser celebrado por Pequim. As premiações anteriores foram dadas a opositores do regime, que reagiu com fúria, especialmente na escolha do dissidente Liu Xiaobo para o Nobel da Paz de 2010.
Liu Xiaobo foi condenado a 11 anos de prisão em 2009, sob a acusação de subversão. Antes dele, o dalai lama, líder espiritual dos tibetanos, havia ganho o mesmo prêmio em 1989. O dalai lama deixou a China em 1959, vive exilado na Índia e é considerado um “separatista” pelo Partido Comunista. Se o Tibete pertence a China, como sustenta Pequim, o dalai lama é chinês, o que eleva a quatro a quantidade de Prêmios Nobel dados aos país. Mas só o anunciado ontem é “reconhecido” pelo governo.
Apesar de ser o primeiro “cidadão chinês” a ganhar o Nobel de Literatura _anunciado ontem_ Mo Yan não é o primeiro “escritor chinês” escolhido pela academia sueca. Gao Xinjian, 72, venceu o prêmio em 2000, mas não houve festa em Pequim _perseguido pelo regime, o autor se refugiou em Paris no fim dos anos 80 e se tornou cidadão francês em 1997. Escritos em chinês, seus livros são banidos no país onde nasceu e passou os primeiros 47 anos de sua vida.
A escolha de Gao Xinjian foi desprezada em artigo publicado há quatro dias pelo jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista. “Durante mais de cem anos, os nomes de autores chineses estiveram ausentes da lista de vencedores do Prêmio Nobel de Literatura”, disse a publicação, que descreveu Gao Xinjian como um “dissidente sino-francês que deixou a China em 1987”.
O texto dizia que a obra de Gao reflete valores ocidentais e é “altamente controvertida” dentro do país _o que ignora o fato de que ela é antes de mais nada desconhecida em razão da censura. Em contraposição, Mo Yan foi descrito como “uma dos mais lidos escritores na China e um típico autor chinês no sentido tradicional”.
Enquanto nós continuamos a lamentar que o aeroporto de Cumbica parece uma rodoviária (do interior), a China começa a construir o segundo mega aeroporto de Pequim, quatro anos depois de ter inaugurado o que já é um dos maiores terminais do mundo em área e volume de passageiros. O novo edifício está sendo levantado a cerca de 50 km ao sudoeste da praça Tiananmen, o coração político e turístico da capital. Quando estiver pronto, o terminal terá capacidade para 130 milhões de passageiros ao ano _o tráfego aéreo de todo o Brasil alcançou 180 milhões em 2011.
Isso significa que o novo aeroporto de Pequim receberá mais passageiros que a soma dos três de Nova York _La Guardia, JFK e Newark_, que transportaram 106 milhões de pessoas no ano passado. A primeira etapa ficará pronta em 2015 e o investimento total será de 80,3 bilhões de yuans (R$ 26 bilhões), mais que os R$ 33 bilhões estimados para o trem de alta velocidade entre Rio e Campinas.
O Terminal 3 do aeroporto foi inaugurado em 2008, na véspera da Olimpíada de Pequim, e no ano passado ficou em segundo lugar no ranking de maior tráfego aéreo, com 74 milhões de passageiros. O primeiro colocado foi o aeroporto de Atlanta, pelo qual passaram 90 milhões de pessoas em 2011.
Fieis à fama de bons planejadores, os dirigentes chineses anunciaram em 2008 que em breve construiriam um novo aeroporto na capital. Eles previam que a capacidade do gigantesco Terminal 3 estaria esgotada em poucos anos. A expectativa é o movimento chegue a 90 milhões em 2015, o que seriam 12 milhões além da capacidade para o qual foi projetado.
A desconfiança que marca o relacionamento entre a primeira e a segunda maiores economias do mundo foi escancarada ontem com relatório do Congresso norte-americano segundo o qual as fabricantes de equipamentos de telecomunicações Huawei e ZTE representam uma ameaça à segurança nacional e devem ser impedidas de fazer aquisições ou fusões no país. Depois de um ano de investigação, o Comitê Permanente sobre Inteligência concluiu que as duas empresas podem facilitar atos de sabotagem e espionagem por uma nação “já conhecida como uma das principais perpetradoras de cyber espionagem” do mundo, afirma o documento divulgado ontem. Huawei e ZTE atuam no Brasil, onde são grandes fornecedores de equipamentos para operadoras de telefonia.
A decisão representa um golpe econômico duríssimo para as duas corporações, que crescem rapidamente na Europa e em países em desenvolvimento, mas encontram uma muralha quase intransponível no maior mercado do mundo. Huawei e ZTE refutam as acusações e afirmam que as conclusões ignoraram evidências que apresentaram no processo de investigações.
Independentemente de quem tenha razão, uma coisa é certa: o modelo chinês de crescimento e expansão global que privilegia grandes estatais ou empresas com fortes vínculos com o Estado gera suspeitas crescentes no restante do mundo, onde se aprofunda a percepção de que Pequim joga um jogo com regras próprias.
Antes dos Estados Unidos, a Austrália já havia citado questões de segurança nacional para vetar a participação da Huawei na construção de uma rede de banda larga em todo o país _um projeto de US$ 36 bilhões.
“Considerando informações confidenciais e não-confidenciais, não se pode confiar que Huawei e ZTE sejam livres de influência de um Estado estrangeiro e, portanto, representem uma ameaça de segurança aos Estados Unidos e aos nossos sistemas”, ressaltou o relatório.
As suspeitas em relação às duas empresas são alimentadas por um modelo no qual o Partido Comunista tem uma presença tentacular na economia, por meio de “comitês” em todas as empresas, privadas, estatais ou estrangeiras. Também há uma política agressiva de apoio às “campeãs” nacionais, por meio de subsídios, crédito barato e um sistema jurídico-legal dominado pelo Partido Comunista, no qual multinacionais não têm chances de questionar práticas que consideram impróprias.
A Huawei não é uma estatal e tem uma trajetória espetacular, que a transformou em uma das maiores fabricantes mundiais de equipamentos de telecomunicações em duas décadas. Mas existem dúvidas sobre a natureza de suas relações com o partido, o governo e os militares. Seu fundador é Ren Zhengfei, um ex-integrante do Exército de Libertação Popular que criou a empresa em 1987 com um capital inicial de 21 mil yuans (US$ 3,33 mil ao câmbio de hoje).
Além de sugerir a proibição de fusões e aquisições, o comitê recomendou que o governo norte-americano exclua as duas empresas chinesas de sua lista de fornecedores, especialmente para sistemas “sensíveis”. Empresas privadas são “fortemente encorajadas” a considerar os riscos de segurança associados a realizar negócios com a ZTE e a Huawei e a buscar outros parceiros para seus projetos.
“Encontre outro fornecedor se você se preocupa com sua propriedade intelectual, se você se preocupa com a privacidade dos consumidores e se você se preocupa com a segurança nacional”, disse em entrevista o deputado republicano Mike Rogers, presidente do comitê.
A China perdeu a boa vontade de governos ocidentais e elevou ao máximo a desconfiança de multinacionais em relação ao país, graças a táticas que contornam as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a políticas industriais que estimulam o roubo de tecnologia estrangeira.
“Os negociadores comerciais dos Estados Unidos e da Europa estão fartos e eu vejo conflitos à frente”, diz James McGregor, consultor, empresário e escritor que vive há 25 anos na China. Ex-presidente da Câmara Americana de Comércio na China, ele acaba de lançar o livro No Ancient Wisdom, No Followers – The Challenges of Chinese Authoritarian Capitalism (Sem Antiga Sabedoria, Sem Seguidores – Os Desafios dos Capitalismo Autoritário Chinês), no qual sustenta que o modelo local dominado por gigantescos monopólios estatais é incompatível com as regras da OMC.
McGregor mostra que as estatais se beneficiam de uma montanha de subsídios, são fonte de enriquecimento da elite do Partido Comunista e instrumento de manutenção da estabilidade política. Mas o consultor sustenta que a China tem que resgatar suas reformas e ampliar o espaço do setor privado para continuar a crescer.
“Sou otimista porque se eles não fizerem mudanças e não revitalizarem as reformas, eles serão conhecidos como aqueles que mataram o milagre econômico chinês”, afirma, em relação à geração de líderes que começará a assumir o poder no próximo mês.
A seguir, trechos da entrevista:
Estado – Quando a China entrou na OMC, em 2001, havia a expectativa de que o poder do Estado na economia diminuiria, o que não ocorreu. A China trapaceou o mundo?
James McGregor - Essa era a trajetória em que a China estava e a trajetória mudou, mas muitas pessoas não notaram. O Partido Comunista decidiu fortalecer as empresas estatais, em parte por razões econômicas, em parte para preservar o poder político e em parte porque os atuais líderes pensam de maneira diferente dos anteriores [que estavam no poder até 2003].
Zhu Rongji [primeiro-ministro de 1998 a 2003] e Jiang Zemin [presidente de 1993 a 2003] seguiam o modelo de Deng Xiaoping de fortalecer as empresas privadas. Quando eles assumiram o poder, o setor estatal era um caos e perdia muito dinheiro. Eles demitiram 50 milhões de trabalhadores das estatais no período de dez anos entre o princípio dos anos 90 e dos anos 2000.
O partido criou a Comissão de Administração e Supervisão de Ativos de Propriedade do Estado [SASAC na sigla em inglês] e começou transformar as estatais em corporações com ações e trouxeram o governo para ser o oligarca.
Quando falo de estatais, estou falando das grandes estatais ligadas ao governo central, que hoje são 117. Esses são os grandes monopólios, alguns dos quais com milhões de empregados e milhões de dólares em faturamento.
O partido indica os principais dirigentes dessas empresas e elas são estruturadas quase como o exército e se reportam mais ao partido do que ao governo [na China, o Exército de Libertação Popular é uma organização do Partido Comunista e não do Estado].
Estado – Isso é o que o sr. chama de capitalismo autoritário?
James McGregor - Sim. Esses grandes monopólios são dirigidos por pessoas apontadas pelo partido, que têm status de ministros ou vice-ministros. Um dia eles são dirigentes desses grandes conglomerados, no outro estão governando uma província ou ocupam uma posição no gabinete. São todos integrantes da nomenclatura do partido.
Há um estudo revelador feito por Mao Yushi, um economista de 83 anos fundador do Instituto Unirule, que identifica os subsídios dados às empresas estatais _terra de graça ou barata, eletricidade barata, descontos nas taxas de juros etc. Se os subsídios forem removidos, essas grandes estatais que supostamente têm lucros imensos, na verdade perdem dinheiro.
Mas a China nunca estaria onde está hoje sem esses companhias. No Brasil ou nos Estados Unidos, nós estamos há 20 anos falando de nossa infraestrutura falida e é difícil fazer qualquer coisa a respeito.
Os bancos estatais dão dinheiro a outras estatais e os planejadores dizem ‘vamos construir seis anéis viários, cinco aeroportos e duas estações de trem nessa cidade’. Eles fizeram isso em todo o país e é impressionante. Isso levou a China ao lugar onde está hoje, mas não a levará ao próximo passo.
Estado – Por que não?
James McGregor - Eles chegaram a um ponto crítico e a única maneira de fazer o país avançar é voltar a Deng Xiaoping, que tirou esse país do buraco com empresas privadas. Não sou um ideólogo para quem empresas privadas solucionam tudo. Mas se olharmos para os números, vemos que a China tem que mudar para continuar avançando.
Isso também vem sendo dito pelo governo chinês, mas o problema é que essas vozes não são as mais fortes, porque os dirigentes das estatais se transformaram em um grupo político poderoso no partido.
O que o escândalo de Bo Xilai nos mostrou? A [agência de notícias] Bloomberg fez uma grande trabalho que revelou como integrantes de sua família e da família de sua mulher [Gu Kailai] têm centenas de milhões de dólares porque ocuparam posições nos conselhos de várias empresas estatais.
O caso Bo Xilai revela como a elite do partido pode usar as estatais para enriquecer. Ele também mostra como o partido usa as estatais para manter a estabilidade política.
Três meses depois que Bo Xilai foi afastado do comando de Chongqing ele ainda era muito popular na cidade, porque havia usado dinheiro do governo central para se transformar em um campeão dos pobres.
O que o governo fez? Setenta e cinco estatais fizeram contratos de US$ 50 bilhões em Chongqing para uma série de projetos, o equivalente a US$ 12 mil por residente, para mostrar que o governo central está preocupado com eles. Como você abre mão disso? Como quebrar esse poder?
Estado – O sr. diz que o sistema chinês é incompatível com as regras da OMC. Por que?
James McGregor - A primeira razão é que a OMC e disfuncional. A OMC foi criada para substituir o GATT, que era comandado pelos Estados Unidos e alguns outros países, existiu durante a Guerra Fria e gerenciava um sistema de comércio que tratava basicamente de produtos cruzando fronteiras, suas regulações e tarifas.
O mundo é muito mais complicado agora. Há cadeias globais de suprimento, propriedade intelectual, investimentos transnacionais. Em 2001, a China entrou na OMC e a Rodada de Doha foi lançada com o objetivo de modernizar as regras para que elas contemplassem essas novas questões, mas a rodada não chegou a lugar nenhum.
Ao mesmo tempo, a China entrou da OMC e percebeu que era um organismo disfuncional e eles foram capazes de jogar com isso.
A OMC foi construída basicamente para empresas privadas e na China existe um
capitalismo autoritário com empresas estatais e um sistema legal que não é independente. Se alguém quiser iniciar um caso na OMC, precisa de provas e não consegue obter as provas aqui. É um sistema muito incompatível com a OMC.
Além disso, a China está levando práticas locais para a arena internacional. A maneira com que a China atua na OMC lembra muito a maneira com que as grandes estatais lidam com joint-ventures com empresas estrangeiras na China. Quando há um contrato, as cláusulas que são favoráveis ao lado chinês são aplicadas, as que são contrárias são ignoradas.
E isso é o que está ocorrendo na OMC e com as promessas que a China fez. Se elas são convenientes, eles podem cumpri-las. Se não são, eles as ignoram.
Estado – O sr. também menciona o uso de intimidação.
James McGregor - A China diz para países menores ‘não se metam conosco, não iniciem processos’. A China diz a empresas ‘não se envolvam com a OMC porque senão vocês terão dificuldades em fazer negócios aqui’. Não é porque a China é venal. Eles estão apenas fazendo negócios como fazem negócios aqui. Essa é a maneira como tratam empresas aqui.
E todo mundo tem medo da China. As empresas têm medo de dizer coisas negativas em relação à China porque acham que seus negócios podem ser afetados. Governos também estão preocupados porque é um mercado em crescimento.
Estado – O problema é que empresas estrangeiras vêm para a China e recebem o ‘tratamento chinês’, mas empresas chinesas que vão ao exterior se beneficiam do Estado de Direito, de regras transparentes e um Judiciário independente. Parece um jogo desequilibrado.
James McGregor – Sou um grande defensor de investimentos chineses na Europa, nos Estados Unidos e em outros lugares. Na América nós precisamos de capital e a China agora tem capital. Quando a China precisou de capital, a América tinha capital. Ao mesmo tempo, não há reciprocidade entre a maneira como fazemos as coisas na América e o que ocorre na China. Alguns defendem que devemos ter essa reciprocidade, mas se fizermos isso, vamos realmente explodir tudo. Eu não tenho respostas e vou deixar isso para os responsáveis por políticas públicas.
Estado – Se a China não se adapta ao sistema atual da OMC e é o maior exportador do mundo, um dos dois tem de mudar, não?
James McGregor – Sim, a China tem uma contradição. Ao se aproveitar do fato de a OMC ser disfuncional, ela pode levar a OMC a ser totalmente irrelevante. Mas o problema é que a China é a grande beneficiária do sistema atual. A China precisa de um comércio global bem regulado, porque é um grande exportador e importador. Eles puderam se beneficiar do sistema e, ao mesmo tempo, contornar o sistema.
Estado – Como a China é capaz de contornar o sistema e ao mesmo tempo se beneficiar dele, a melhor saída para Pequim é que nada mude.
James McGregor - O problema é que eles perderam a boa vontade [da comunidade internacional]. Os negociadores comerciais dos Estados Unidos e da Europa _e eu falo com muitos deles_ estão fartos e eu vejo conflitos à frente. O que está acontecendo não é sustentável.
Estado – Quão grande é a desconfiança em relação à China?
James McGregor – Enorme e é triste ver isso para alguém que vive aqui há tanto tempo quanto eu. Quando cheguei aqui, o mundo tinha uma forte boa vontade em relação à China. Estados Unidos e Europa abriram seus mercados para mercadorias chinesas, nossos governos e associações empresariais vieram à China, realizaram uma série de treinamentos e ajudaram a China a construir seus sistema legal de comércio, o sistema de proteção ambiental etc. Essa boa vontade deixou de existir.
Estado – Quais são as principais fontes da desconfiança?
James McGregor – A habilidade chinesa de manipular a seu favor uma OMC disfuncional e as políticas industriais tecnológicas, como a de inovação doméstica, pela qual as empresas estatais receberam ordens para pegar tecnologias estrangeiras e ‘reinovar’, ‘assimilar’, ‘coinovar’ e depois competir globalmente com as mesmas multinacionais que são suas parceiras dentro da China.
Estado – Pode-se falar em roubo de tecnologia?
James McGregor – É do que se trata. A política de inovação doméstica é um plano para o roubo de tecnologia. Eu não acredito que isso era o que os líderes queriam. Eles realmente queriam encontrar uma maneira para a China inovar. Mas quando isso chegou nas mãos dos burocratas, se transformou no uso de coerção contra as multinacionais.
Antes, os CEOs de multinacionais adoravam a China. Os trabalhadores não criavam problemas, a imprensa não podia criar problemas, eles recebiam terra, eletricidade. Aqui eles eram reis. Mas um dia a China mudou e começou a dizer ‘faça isso, faça aquilo, dê para nós a sua tecnologia’. Eu vi isso acontecer basicamente entre 2006 e 2009.
A China não esperava ser a potência que é hoje tão rapidamente. E isso implica responsabilidades. O mundo espera que a China, na condição de líder, tenha políticas mais magnânimas, que sejam boas para o mundo e não apenas para a China. E a China não sabe como fazer isso.
Estado – As multinacionais reclamam, mas continuam a investir na China. Algo deve valer a pena.
James McGregor - Elas vêm porque é um mercado em crescimento. Elas estão condenadas se vêm e condenadas se não vem. Eles têm que vir, mas estão preocupado com a maneira como as coisas funcionam aqui e com a possibilidade de perder seus mercados globalmente. Isso não é sustentável. Se você está fazendo negócios com alguém e é mal tratado, mas faz o negócio porque precisa do faturamento, assim que você tiver uma vantagem, você vai sair. A China tem de lembrar que precisa de amigos em tempos difíceis.
Estado – Qual sua expectativa em relação à nova liderança chinesa?
James McGregor – Sou otimista porque se eles não fizerem mudanças e não revitalizarem as reformas, eles serão conhecidos como aqueles que mataram o milagre econômico chinês. E em um país que dá atenção à história como este, nenhum líder quer ser vinculado a esse legado.
Eu acredito que haverá reformas, porque eles não têm escolha. Eles têm que reformar para manter a economia em crescimento.
Estado - A falta de confiança dos chineses em relação ao governo também parece estar em alta, não?
James McGregor - Seria óbvio pensar que depois de anos de tremendo progresso, o povo chinês estaria feliz e gratos pelo que aconteceu. E isso não é o que vejo nas pessoas que conheço, dos trabalhadores aos extremamente ricos. Eu acredito que eles estão cansados do sistema e acho que o sistema social e econômico avançou muito mais que o político.
Mas nunca vi ninguém ganhar dinheiro apostando contra a China. Eu era repórter aqui no começo dos anos 90, quando a inflação estava em 25% e todo mundo dizia que o país iria quebrar. Eles superaram isso, superaram a Crise Asiática e a Crise Global. E esse é um partido que na Revolução Cultural [1966-1976] e no Grande Salto Adiante [1958-1962] destruir a economia e o sistema social chinês, se manteve no poder e fez muita gente rica depois. Eles são sobreviventes e têm sua própria maneira de fazer as coisas.
2013
2012
2011
2010
2009
2008