O governo de Pequim finalmente reconheceu o que era evidente na pesada nuvem esbranquiçada que assombra a cidade há dias: a capital chinesa enfrenta uma crise de poluição, que só será solucionada com o corte de emissões. A posição oficial parece ter colocado fim ao debate que mobilizou os internautas locais nas últimas semanas, sintetizado por uma ótima rima em inglês: “fog or smog?”, algo como “neblina ou poluição?”.
Enquanto os dados oficiais indicavam um grau leve poluição na semana passada, a medição independente feita pela Embaixada dos Estados Unidos em Pequim _e divulgada no Twitter_ acusava um grau “perigoso” de contaminação. A diferença é que os norte-americanos detectam partículas iguais ou inferiores a 2,5 micrômetros, que são extremamente finas e penetram mais profundamente nos pulmões. As autoridades locais medem apenas as que têm tamanho de 2,5 a 10 micrômetros.
Para quem vive há quase quarto anos em Pequim é alarmante saber que a incidência de câncer de pulmão na cidade aumentou 60% na última década, ainda que o percentual de fumantes tenha se estabilizado. A principal vilã é a poluição, que está nos piores níveis desde 2008. Na semana passada, a densa névoa levou ao fechamento de estradas e ao cancelamento ou atraso de centenas de voos.
O debate chegou ao jornal oficial China Daily, editado pelo Conselho de Estado, sob o título “Exposição à poluição é perigo severo”. Zhong Nanshan, da Academia Chinesa de Engenharia, disse que se nada for feito, a poluição poderá substituir o fumo como principal fator de risco para o câncer de pulmão. Shi Yuankai, vice-presidente do Hospital do Câncer da Academia Chinesa de Ciências Médicas, concorda: “Mesmo que consigamos estabilizar a taxa de fumo no país, o câncer de pulmão deve continuar a crescer por 20 a 30 anos e a poluição do ar deverá ser o principal responsável”.
Depois disso, passei a considerar seriamente a possiblidade de comprar um purificador de ar, mas ele não resolve a situação quando estou fora de casa, já que está longe de ser algo portátil. Para me proteger da poluição, teria que usar máscara. O problema é como sair de casa sem parecer uma versão humanizada de Darth Vader _as que têm eficácia contra a poluição são uns trambolhos pretos que cobrem quase todo o rosto. Apesar do choque estético, vejo um número cada vez maior de pessoas nas ruas da cidade com o monstrengo.
O título do post não é meu, mas de artigo de autoria do professor chinês Yan Xuetong, publicado no The New York Times no fim de novembro. Entre os mais respeitados acadêmicos do país, Yan discorreu sobre um tema que ocupa cada vez mais a elite governante de Pequim: como vencer a disputa global por influência que inevitavelmente travarão com os Estados Unidos.
Subjacente à discussão está a ideia de soft power, expressão criada pelo norte-americano Joseph Nye para designar o tipo de influência que não é baseado no poder das armas _o hard power_ e que permite a um país conquistar corações e mentes ao redor do globo. O conceito fundamental é fazer com que os outros queiram o que vocês quer, pelo simples poder de atração de seu modelo ou de suas ideias.
A China já é a segunda maior economia do mundo e investe há anos na modernização do Exército de Libertação Popular. Mas ainda que consiga projeção militar e econômica, o país carece de um modelo que possa servir de inspiração para o restante do mundo, enquanto os norte-americanos possuem um ideário claro que reúne Estado de Direito, liberdade individual e liberalismo econômico _ainda que nem sempre o respeite fora de suas fronteiras.
Em sua tentativa de criar as bases para o desenvolvimento do soft power Made in China, Yan retornou à filosofia clássica chinesa fundada por Confúcio, pensador que o Partido Comunista combateu durante décadas por identificá-lo com os traços retrógrados da sociedade local. Para Yan, o caminho para a China ganhar a disputa com os Estados Unidos é o exercício da autoridade “benevolente” ou “humana”, conceito vago, mas que segundo ele implica justiça social, combate à corrupção e criação de uma sociedade harmônica _você pode ler o artigo aqui.
O problema na tese de Yan é que ela não aponta para a criação de um modelo com regras claras aplicáveis a todos, incluindo aos detentores do poder. Eu levantei esse ponto em uma discussão realizada na semana passada com outros dois jornalistas em Pequim, que você pode ouvir neste podcast podcast. A receita de Yan parece se basear na autoridade moral dos ocupantes do poder, sem nenhuma ênfase nos mecanismos de controle do exercício do poder e de proteção do indivíduo contra o governo. Sem isso, será difícil a China construir um sistema que possa competir com a ideia de Estado de Direito da tradição ocidental.
Para ele, o confronto entre os dois países é inevitável: “Se a história é um guia, a ascensão da China de fato coloca um desafio para a América. Poderes emergentes buscam ganhar mais autoridade no sistema global, e poderes decadentes raramente caem sem luta. E dadas as diferenças entre os sistemas políticos chinês e americano, pessimistas podem até acreditar que existe uma alta possibilidade de guerra”.
No último mês, os norte-americanos levaram a disputa por influência aos países vizinhos da China, em uma tentativa de garantir sua presença na região economicamente mais dinâmica do mundo e contrabalançar a ascensão chinesa. A ofensiva foi tema de reportagem minha que o Estado publicou ontem.
Mesmo em um país onde o governo defende abertamente a censura e o controle da imprensa, é chocante a afirmação do novo presidente da poderosa rede estatal de televisão CCTV, Hu Zhanfa, de que os jornalistas são “operários da propaganda”. Segundo ele, os que se consideram “profissionais” são vítimas de um erro fundamental sobre suas próprias identidades.
O governo chinês investe milhões de dólares no desenvolvimento e internacionalização de seus meios de comunicação, mas é cada vez mais claro que a independência jornalística não integra os planos do Partido Comunista. “ A primeira responsabilidade e ética profissional do pessoal de mídia deve ser entender o seu papel de maneira clara e ser um bom porta-voz”, afirmou Zhanfa, em declarações reproduzidas pela agência oficial de notícias Xinhua. Apesar de terem sido divulgadas em maio, as posições só ganharam destaque ontem, quando um link para o texto da Xinhua foi publicado no Weibo, a popular versão chinesa do Twitter, com cerca de 200 milhões de usuários.
O post gerou uma onda de críticas a Zhanfa, com milhares de internautas atacando a inexistência de uma imprensa independente na China. Grande parte da população do país vê com descrédito o que é veiculado nos meios oficial e confia mais no que lê na internet. O novo presidente da CCTV se encarregou de agravar a falta de credibilidade. Zhanfa ressaltou que os veículos de comunicação devem ser dirigidos por políticos _leia-se membros do Partido Comunista_ e que os jornalistas que não cumprirem seu papel de “porta-vozes” nunca irão longe.
O número oficial de pobres na China saltou de 27 milhões para 128 milhões com a decisão do governo de elevar a linha da pobreza na zona rural para um rendimento anual de US$ 361,00, o que equivale a quase US$ 1,00 ao dia. Essas pessoas poderão a partir de agora receber ajuda governamental. Mesmo com a mudança, a estatística de pobres ainda está abaixo da estimativa de organismos internacionais. O Banco Mundial usa o patamar de US$ 1,25 ao dia e calculou em 2009 que havia 254 milhões de chineses com rendimento igual ou inferior a esse valor.
O aumento da desigualdade é um dos principais problemas da China e fonte de crescente tensão social. O país que pregava o igualitarismo nos anos de Mao Tsé-tung hoje possui um índice Gini superior ao dos Estados Unidos, o porta-voz do mundo capitalista. O indicador mede a desigualdade de renda dentro de um país e no ano passado estava em 0,47 na China, pouco acima do 0,45 dos norte-americano. No Brasil, o índice é de 0,56, um dos piores do mundo.
A nova linha da pobreza chinesa vale apenas para os moradores da zona rural, que representam cerca de metade da população do país. Pelo critério anterior, apenas 2,8% dos habitantes do campo eram considerados pobres, percentual inferior ao registrado em países desenvolvidos, disse Wang Sangui, professor da Universidade do Povo da China. Nos Estados Unidos, o percentual oficial de pobres é de 15% da população, em razão de uma “linha de corte” bem mais elevada: rendimento anual de US$ 22.314 para uma família de quatro pessoas, o equivalente a uma renda diária individual de US$ 15,28.
O problema da desigualdade foi agravado neste ano pela alta da inflação, que atingiu em julho 6,5%, o mais alto patamar em três anos. O índice desacelerou desde então, mas ainda ficou em desconfortáveis 5,5% no mês passado. A alta no preço dos alimentos é o principal fator a pressionar o indicador, o que torna a inflação ainda mais aguda para os pobres. No mês de outubro, os alimentos ficaram em média 11,9% mais caros. Em julho, a alta de preços nesse segmento havia sido de 14,8% _só a carne de porco, a mais consumida no país, teve inflação de 57% naquele mês.
A nova “linha de corte” chinesa representa um aumento de 92% em relação ao patamar que estava em vigor desde 2009. O universo dos que poderão receber auxílio do governo vai quase quintuplicar, mas os recursos do fundo de combate à pobreza terão aumento de apenas 21% neste ano, para 27 bilhões de yuans (US$ 4,29 bilhões). Se esse valor fosse integralmente dividido pelos 128 milhões de pobres, cada um receberia US$ 33,50.
No Brasil, a “linha de corte” é R$ 70,00 ao mês, o que representa renda anual de US$ 454,00 e diária de US$ 1,24. Com isso, o número de pobres no país é de 16,27 milhões, o equivalente a 8,5% da população. Na China, o novo universo de pobres representa 9,5% dos 1,34 bilhão de habitantes. O presidente Hu Jintao afirmou na terça-feira que a tendência de aumento da desigualdade será revertida e que todos os chineses terão suas necessidades básicas atendidas até 2020. “O acesso à educação compulsória, assistência médica básica e habitação será garantido.”
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