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Cláudia Trevisan

Shigeo Sasaki com o neto e os bisnetos em abrigo na cidade de Morioka

A casa de Shigeo Sasaki, 84, ficava 15 metros acima do nível do mar, o que dava ao ex-pescador a crença de que estaria livre de tsunamis. Quando o alerta de evacuação foi dado depois do terremoto que atingiu o Japão na sexta-feira, Sasaki observou o mar de sua janela por longos minutos, até se convencer de que a ameaça era real.

Antes de fugir, decidiu mover o carro para um lugar mais alto e disse para sua mulher subir a montanha por uma trilha que começava ao lado da casa _ambos se encontrariam no topo. Cinco minutos depois, Sasaki escutou o estrondo das ondas e voltou correndo, mas foi barrado pelo avanço da água.

“Quando subi de novo a montanha, olhei para trás e não vi mais minha casa. Olhei por todos os ângulos, mas ela não estava mais lá.” Sasaki também não viu sua mulher, Setsuo, 82, com quem estava casado havia 65 anos.

Durante três dias, o ex-pescador ficou sem saber se seus filhos, netos e bisnetos continuavam vivos. Resgatado por helicóptero da montanha onde se refugiou com outras 50 pessoas, ele foi levado para um abrigo, no qual o neto Masanori Nukamori o encontrou.

A família vivia em Kamaichi, uma das inúmeras cidades da costa da região de Iwate que se dedicam à pesca. Sasaki nasceu lá e já havia visto dois tsunamis, mas nada comparável ao que enfrentou há uma semana.

Nukamori e a mulher, Sayaka, têm quatro filhos, de 1, 4, 6 e 7 anos. Quando o terremoto ocorreu, o casal e os dois filhos mais novos foram para o refúgio construído em uma das montanhas de Kamaichi. Sayaka se preparava para buscar os outros filhos na escola quando as ondas gigantescas se aproximaram e todos correram para o alto da colina.

“Eu vi muita gente na água, mas não podia fazer nada. As pessoas estavam misturadas com entulho, carros, pedaços de casas”, lembrou Nukamori em um dos abrigos de Morioka, capital de Iwate, uma das regiões mais duramente atingidas pelo tsunami.

O casal e os dois filhos passaram a noite no refúgio, com aproximadamente 1.000 pessoas. Fazia frio, não havia eletricidade e as crianças choravam. Todos estavam em choque.

No dia seguinte, foram para um abrigo de refugiados e, no outro, Nukamori encontrou os outros dois filhos. Até então, casal não sabia se eles haviam sobrevivido ao tsunami.

A casa da família foi varrida do mapa. “Todas as nossas memórias, as fotos, os desenhos que as crianças fizeram, as recordações dos aniversários, tudo deixou de existir”, lamentou Nukamori.

O menino Shonosuke Yoshida, 10, estava na escola no momento do terremoto e foi levado com os demais estudantes para o alto de uma montanha. De lá, ele viu a água arrastar tudo o que estava pela frente, inclusive a casa onde vivia com seus pais, Kazuya e Kanako Yoshida. O menino tinha certeza de que eles estavam mortos.

No fim da tarde do dia seguinte, Kanako finalmente conseguiu chegar ao abrigo e encontrou o filho. “Quando ele me viu, arregalou os olhos”, conta a mãe. “A maioria das crianças viu suas casas serem destruídas. Alguns pais apareceram depois para buscá-las, mas outros, não”, disse Kazuya.

Hino Yoshiki, 52, estava na empresa de refrigeração de peixe em que trabalhava em Kesennuma quando o tsunami chegou. Outras pessoas que não tiveram tempo de chegar às montanhas se refugiaram no local, onde passaram a noite.

No dia seguinte, Yoshiki foi resgatado de helicóptero e levado a um abrigo em Morioka, onde está até hoje. Casado e pai de três filhos, ele ainda não falou com ninguém de sua família, mas disse ter recebido a notícia de que estão bem, instalados em algum abrigo de Kesennuma. Só não sabe se sua casa ainda existe.

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Kumagi Hiro, 83, vivia em Kesennuma

Kumagi Hiro, 83, é uma ótima contadora de histórias e a descrição do que ela viveu nas 24 horas que se seguiram ao tsunami no Japão parece o roteiro de um filme catástrofe hollywoodiano, com explosões, fuga e resgate espetacular.

Dona de uma pequena pousada para pescadores à beira mar, Kumagi tinha acabado de almoçar quando sentiu o mais forte terremoto de sua vida. Ela e a filha, Sachiro, correram para o carro na esperança de chegar a um lugar alto antes que as ondas do esperado tsunami inundassem a cidade.

As ruas estavam tomadas por outros carros também em fuga e as duas perceberam que não conseguiriam escapar a tempo. Como muitos outros moradores de Kesennuma, elas abandonaram o carro na rua e correram.

Mãe e filha conseguiram entrar em um dos poucos edifícios altos da cidade _uma fábrica de refrigeração de peixe_ onde outras 19 pessoas buscaram abrigo. Quando o tsunami acabou, o prédio foi envolto por um cenário apocalíptico, com incêndios no combustível que vazou dos navios e se misturou com o mar. “Eu vi uma mulher na água, gritando por ajuda, mas não pude fazer nada.”

Logo começaram as explosões dos botijões de gás que provocaram novas labaredas. “Estávamos cercados de água e fogo e as explosões pareciam fogos de artifício. Eu achei que estivesse morrendo”, contou Kumagi ao Estado ontem.

O frio dentro do lugar era insuportável e não havia banheiro, comida ou água. O primeiro problema foi resolvido com o uso de baldes que estavam no local. Mas os outros dois não tiveram solução. Kumagi e os demais ficaram sem comer nem beber.

Quando amanheceu, eles puderam ver a devastação provocada pelo tsunami e o incêndio, que ainda continuava em vários locais. Grande parte da cidade simplesmente deixou de existir, transformada em uma interminável pilha de entulho e carros.

Não havia como sair do prédio e Kumagi e os companheiros começaram a acenar toalhas para os helicópteros que sobrevoavam a cidade. Só às 17h30 um deles parou sobre o local e começou a içar os sobreviventes, quando já estava totalmente escuro.

Kumagi e a filha foram levadas a um abrigo perto do aeroporto de Iwate, onde à noite viram na TV as cenas que haviam protagonizado, como se estivessem assistindo a um filme de ficção. “Ficamos felizes por estarmos vivas.”

Desde segunda-feira, mãe e filha estão em um abrigo de Morioka, capital de Iwate, uma das províncias mais devastadas pelo tsunami. Matsugo Kuramoto, que administra o local, diz que as condições são em geral melhores que as dos locais para refugiados nas áreas afetadas, na costa.

Em Morioka há energia, aquecimento e água, o que falta em muitos outros lugares. O abrigo também pode servir três refeições por dia, o que também não é a regra nas regiões mais castigadas pelo tsunami.

A vida de Kumagi e Sachiro está em suspenso, assim como a dos quase 500 mil japoneses espalhados por abrigos na costa leste do país. O tsunami destruiu a casa e a pousada que Kumagi tinha havia 44 anos. As duas perderam tudo o que tinham e não têm ideia de quanto tempo viverão em refúgios provisórios.

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Olhando da janela do que restou de sua casa, Kaiokoyo Tanaka, 66, traça um mapa da destruição humana que a cerca. Trezentos metros rua acima, sua irmã mais velha foi arrastada pelas ondas. A mais nova pereceu em um bairro vizinho. Do outro lado da rua, uma jovem de 27 anos morreu e, na casa ao lado, uma mulher de 87 anos sucumbiu ao tsunami que arrasou a costa nordeste do Japão há dez dias.

Só nas redondezas de onde ela vivia, na cidade de Otsuchi, 50 pessoas morreram e 100 estão desaparecidas. Enquanto ela fala com a reportagem do Estado, seu sobrinho, filho da irmã mais velha, chega ao local. Além da mãe, Haga Toshioki também perdeu a mulher.

Os três estavam em casa no momento que em o tsunami atingiu Otsuchi. Não fugiram por imaginar que viviam longe o bastante da praia para serem ameaçados pelas ondas gigantes. Haga só lembra de submergir na água e acordar quando a tempestade havia passado, levando a mãe e a mulher.

“Eu vivo como se estivesse na escuridão. Só posso pensar em comer e dormir. Não tenho a menor ideia do que vou fazer a partir de agora”, diz.

Mais da metade da cidade de Otsuchi desapareceu sob a violência do tsunami. De seus 15.000 habitantes, 6.200 estão em abrigos montados nas escolas e templos da cidade. O número de mortos ainda é desconhecido. Ontem, foi encontrado o corpo do prefeito, Koki Kako, arrastado pelas ondas quando realizava uma reunião de emergência logo depois do terremoto de 9,0 graus na escala Richter, o mais forte da história do Japão.

Moradores caminham pelo que antes eram suas ruas, contemplam os escombros de suas antigas casas e tentam resgatar objetos que carreguem parte da memória do que viveram antes da tragédia, como fotos ou altares nos quais prestavam homenagem a seus ancestrais.

Kawasaki Nao, 18, busca a avó de 72 anos, que desapareceu com o tsunami. Já esteve em todos os abrigos e necrotérios de Otsuchi, mas não a encontrou _viva ou morta. Ontem, ela remexia nos escombros da casa, da qual havia conseguido resgatar algumas fotografias e uma caixa na qual estava a aliança de casamento dos avós.

O pescador Kamaishi Susumu olhava com incredulidade para o entulho em que se transformou a casa de 80 anos de história que havia pertencido a seu pai. Além de não ter onde morar, Kamaishi acredita que nunca mais voltará a pescar. “O barco se foi e a associação de pescadores foi destruída. Tudo acabou.”

A casa de Ishihiro, que se identificou apenas pelo sobrenome, ficava do outro lado da rua, a cerca de 100 metros de onde ele encontrou seus escombros, ainda reconhecíveis. Sua mulher foi arrastada pelo tsunami e ontem ele resgatava roupas e objetos pessoais da casa onde eles viveram juntos por décadas.

Koko Matsuhashi, 70, vai todos os dias ao lugar onde antes existia sua casa, na esperança de encontrar algo que contenha parte da memória do que viveu. Já localizou o altar dos ancestrais e agora busca fotos de família. “Eu não tenho nada. Não sei ainda o que vou fazer e penso apenas no presente.”

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A rota da destruição na costa japonesa é impressionante. O cenário de devastação se repete em todas as cidades da costa de Iwate, uma das três províncias mais afetadas pelo tsunami. Milhares de pessoas perderam parentes, amigos, casas e os registros do que havia sido suas vidas até então _fotos, cartas e objetos de valor sentimental.

Hoje estive em Otsuchi, que teve metade de suas construções varridas pelas ondas. De sua população de 15.000 habitantes, 6.200 estão desabrigados e um número desconhecido, mortos, incluindo o prefeito, cujo corpor foi localizado há poucas horas.

Aí vão algumas imagens:

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Ontem estive em Miyako, uma das cidades da costa japonesa devastadas pelo tsunami que atingiu o país há oito dias. Quase um quinto da população local de 55 mil pessoas perdeu suas casas e está em abrigos provisórios montados em escolas. Em muitos deles, não há aquecimento, eletricidade nem água e o suprimento de comida é limitado. A maioria dos refugiados ainda não tomou banho e continua com a mesma roupa que usava quando o desastre ocorreu.

Os que não perderam casas e negócios tentavam retomar suas vidas, retirando a lama e limpando o que podiam. Aí vão algumas das fotos: 

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Antes de ver a água, Setsuko Otomo ouviu o som aterrorizante das ondas gigantescas que se aproximavam. Quando levantou o olhar, postes e casas se moviam no horizonte e ela soube que tinha que correr o mais rápido possível. O tsunami estava em seu encalço, a uma distância de aproximadamente 20 metros, e engoliu muitos dos que também tentavam se salvar da avalanche de água que devastou Rikuzentakata.

Pouco sobrou da cidade que tinha 24 mil habitantes antes do desastre de sexta-feira, transformada em um mar de lama e entulho que se estende por quase dez quilômetros.

Vestígios do que antes eram casas aparecem soterrados nos pedaços de madeira, ferro e concreto, em meio do qual há centenas de carros. O prefeito Futoshi Toba parecia em estado de choque quando visitou ontem um dos abrigos para refugiados, no qual estão 1.000 pessoas. Ele disse que não saber ainda o número de mortos em sua cidade, entre os quais está sua mulher.

Rikuzentakata já havia sido vítima das ondas gigantes há 50 anos, no que ficou conhecido como o Tsunami do Chile, porque foi provocado por terremoto no país latino-americano. Seus moradores sabiam que o desastre voltaria a ocorrer e levantaram um muro de cinco metros de altura na praia para barrar seu avanço.

O que ninguém esperava é que o tsunami fosse tão violento e veloz. As ondas de até 10 metros ultrapassaram facilmente a barreira e arrastaram tudo pelo caminho. “Quando falamos em tsunami pensamos em água, mas o que veio foram os destroços das casas destruídas”, recordou Isitsu Katsuo.

Junto com a mulher, Yamamoto, e suas duas filhas, Isitsu também escapou correndo da avalanche. “Eu vi pessoas atrás de mim sendo arrastadas pela água. É um milagre que nós estejamos vivos”, disse ela, chorando. 

Sato Hidomi morava a 15 minutos de carro da costa de Rikuzentakata e acreditava que sua família estava a salvo da ameaça de um tsunami. Quando viu a espuma levantada pelo avanço da água, pensou que se tratava de fumaça gerada por incêndios. Ela só percebeu o que estava acontecendo quando as pessoas começaram a abandonar os carros nos quais tentavam sair da cidade e correr.

A única pessoa que estava na casa além dela era sua mãe, de 72 anos. As duas se juntaram aos outros na fuga desesperada, mas Sato chegou sozinha à montanha que fica nas proximidades de sua casa. Sua mãe desapareceu, provavelmente levada pelas ondas. Ontem ela continuava a busca por seu corpo no necrotério da cidade. “Nós perdemos tudo, mas não fomos apenas nós. Todos os que estão aqui perderam tudo”, disse Sato.

Funcionário de uma empresa que fabrica molho de soja, Yamaguchi Ko se abrigou em um lugar alto da cidade logo depois do terremoto de 9,0 graus na escala Richter, o mais violento já sofrido pelo Japão.

De lá, assistiu ao avanço das ondas, que arrastaram o edifício onde ele trabalhava e os carros que estavam estacionados ao redor. Logo depois, viu a água chegar à sua casa, que desapareceu sob a violência do tsunami. “O som da água era estrondoso e vinha de 360 graus. Parecia que eu estava em filme”, lembrou ontem no abrigo, no qual está com a mulher, os pais e a filha.

O refúgio foi instalado no ginásio de esportes de uma escola secundária, onde no momento do terremoto os estudantes ensaiavam sua cerimônia de graduação.

Mao Kanno, de 14 anos, é uma das alunas do local e jogava cartas com quatro amigas na tarde de ontem. Nada sobrou do lugar onde elas viviam. Os pais de Mao estão bem, mas seus avós desapareceram sob as águas.

Um desabrigado que se identificou apenas pelo sobrenome, Abe, sobreviveu porque se refugiou no prédio da prefeitura, um dos únicos a resistir à violência do tsunami. Os que estavam lá tiveram foram para o teto do edifício de quatro andares, para escapar da água que subia rapidamente.

Há 50 anos, quando houve o Tsunami do Chile, Abe tinha 4 anos. Ele não se lembra de nada, mas sabe que a água quase na porta da prefeitura. Na sexta-feira, ela avançou quilômetros além da construção. Como quase todos os moradores de Rikuzentakata, Abe perdeu tudo o que tinha e sua mãe está desaparecida.

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O fogo ardeu por cinco dias na cidade portuária de Kesennuma e só foi extinto na noite de quarta-feira, deixando um cenário parecido a um imenso ferro-velho de metal retorcido e carros incendiados, que ganha tons surrealistas pela presença de um imenso navio estacionado no meio do entulho.

Marinheiros de barcos que se dedicam à pesca de atum, os homens de Kesennuma estão acostumados às tempestades no mar, mas jamais imaginaram que pudessem ver algo da proporção do tsunami que os atingiu na sexta-feira.

“Esperávamos que um dia algo grande fosse chegar, mas nunca pensamos que fosse ser tão devastador e tão extenso”, disse Hiroshi Sukuzi, um homem na casa dos 60 anos que agora vive com alguns vizinhos em um dos 93 abrigos provisórios criados para receber as 20 mil pessoas que perderam suas casas _o equivalente a mais de um terço da população de 73 mil habitantes.

Os moradores de Kesennuma enfrentaram o terremoto, o tsunami e o incêndio, que se sucederam em uma espaço de pouco mais de uma hora. O fogo começou logo depois de água avançar pela cidade, criando o cenário paradoxal de chamas em meio ao alagamento.

A origem foram os botijões de gás das casas, que foram explodindo um depois do outro. O combustível que vazou dos navios também alimentou o fogo, gerando um incêndio de proporções gigantescas, que os bombeiros não conseguiam extinguir: quando eles tinham sucesso em debelar um foco, um novo surgia em outro lugar.

Ontem, equipes de resgate vasculhavam os escombros em busca de corpos e moradores incrédulos olhavam para o que sobrou de suas casas.

Yoshida, de 74 anos, é um marinheiro aposentado que viajou o mundo em barcos de pesca e estava em Kesennuma há 50 anos, quando o Tsunami do Chile atingiu a cidade. Por isso, sabia que era preciso evacuar as casas rapidamente depois do terremoto.

Junto com outros de sua idade, Yoshida se encaminhava para o refugiou em um local alto quando decidiu voltar, apesar do enorme risco: ele não queria deixar para trás as fotos de família e os tabletes de madeira nos quais estão escritos os nomes de seus pais, utilizados em cerimônias para homenageá-los.

O ex-marinheiro só percebeu que o tsunami havia chegado quando sua casa começou a flutuar. Yoshida subiu para o segundo andar e manteve a calma enquanto a construção era levada pela água. “Eu peguei muita tempestade no mar e sabia que não iria morrer.” A casa foi parcialmente destruída, mas Yoshida sobreviveu e foi resgatado no dia seguinte.

Ontem sua mulher, Yasako Yoshida, enfrentou a parede de entulho que cobre a região onde viviam para ver o que havia sobrado no local onde antes estava sua casa. Resgatou uma pequena planta e uma bolsa com fitas coloridas, que usa para fazer artesanato.

Sentada em seu tatame no abrigo, Hume Ito conta que estava na fábrica de correias de transmissão para navios onde trabalha quando o terremoto ocorreu. Ela imediatamente saiu de carro, pegou os dois filhos na escola e se refugiou no santuário inaugurado no ano passado no alto de uma montanha.

O apartamento onde sua família vivia foi totalmente destruído pelo fogo, que teve origem em um reservatório de combustível. Localizada no porto, a empresa ainda está submersa. “A cidade está totalmente destruída”, disse seu pai, Mikio Ito, 75. “Eu nunca vi nada parecido.”

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Estive hoje em duas cidades devastadas pelo tsunami que atingiu o Japão sexta-feria. Em Rikuzentakata, 90% das casas foram arrastadas pelas ondas de até 10 metros de altura. A poucos quilômetros dali, um terço da população de Kesennema está desabrigada. O fogo que consumiu parte da cidade só foi controlado na noite de ontem. Neste momento, escrevo os textos que serão publicado no Estado de amanhã e que prometo colocar no blog.

Por enquanto, vão algumas das fotos que tirei. O impacto da destruição e das hitórias humanas é profundo:

Rikuzentakata

Lugar onde antes estavam as casas de Rikuzentakata

Casas de Kesennuma consumidas pelo fogo que só foi extinto ontem

Uma das inúmeras imagens surrealistas geradas pela tragédia (Kesennema)

Mesma imagem, sob a neve

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A onda de protestos contra regimes autoritários no mundo árabe e a tentativa anônima e fracassada de replicá-los na China levou o governo de Pequim a promover a maior onda de repressão a ativistas políticos e críticos do governo de anos recentes.

Desde o mês passado, pelo menos oito pessoas foram presas e acusadas de subversão ou incitamento à subversão, um dos mais graves crimes políticos do país, segundo levantamento realizado pelo Chinese Human Rights Defenders, entidade com sede em Hong Kong. Outras duas estão detidas à espera de apresentação de denúncia contra elas.

Além desse grupo, três advogados que atuam na área de direitos humanos estão desaparecidos, depois de terem sido levados de suas casas pela polícia pouco antes do dia 20 fevereiro, data escolhida pela convocação anônima para a primeira tentativa de protesto contra o governo.

Não se sabe qual a origem da mensagem em defesa da manifestação, que começou a circular em um site mantido por dissidentes nos Estados Unidos e propõe demonstrações todas as tardes de domingo em 35 cidades chinesas.

Nos últimos três domingos, a polícia ocupou os locais apontados nas convocações e nenhuma demonstração significativa ocorreu. 

“Esse é o mais sério movimento de repressão a ativistas políticos na China desde que começamos a fazer levantamentos dos casos de violação dos direitos humanos, há cinco anos”, disse ao Estado Wang Songlian, diretora do Chinese Human Rights Defenders.

Com militância de mais de uma década como advogado especializado em direitos humanos, Xu Zhiyong afirmou que nunca viu uma onda de repressão tão severa contra ativistas como a atual. A mesma opinião é compartilhada por Liang Xiaojun, defensor de um dos advogados que estão desaparecidos, Jiang Tianyong, que atuou em vários casos de perseguição religiosa. Os outros dois advogados são Tang Jitian e Teng Biao, que frequentemente lança mão da própria legislação chinesa para defender suas posições, quase sempre sem sucesso.

Na avaliação de Wang Songlian, a situação atual é bem mais grave que a da Olimpíada de 2008, quando a paranóia das autoridades chinesas em relação à segurança estava no auge. Também supera a perseguição que ocorreu em dezembro daquele ano, quando 303 intelectuais e ativistas chineses assinaram a Carta 08, documento em defesa de reformas democráticas e do fim do regime de partido único.

O idealizador do manifesto foi Liu Xiaobo, o vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2010. Preso em 2008, ele foi condenado no ano seguinte a 11 anos de prisão sob acusação de subversão. A onda atual ultrapassa ainda a registrada entre outubro e dezembro do ano passado, período de anúncio da escolha do ativista chinês para o Nobel da Paz e da entrega do prêmio. Naquela época, houve detenções temporárias de ativistas, mas não se registrou nenhum caso de acusação de subversão, observou Wang Songlian.  

O porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Philip Crowley, declarou na terça-feira que o governo de Washington manifestou às autoridades de Pequim “apreensão” em relação ao desaparecimento de ativistas e advogados de direitos humanos.

Segundo ele, a administração de Barack Obama está preocupada com a utilização de “punições extralegais” na China, eufemismo para prisões realizadas sem base na lei ou com origem em medidas judiciais.

O governo de Pequim também intensificou o controle sobre os correspondentes estrangeiros que atuam no país. Dezenas de jornalistas foram convocados para interrogatórios nas últimas duas semanas e receberam ameaças de cancelamento de seus vistos caso escrevessem sobre a tentativa de promover uma Revolução do Jasmim na China _entre eles, estava a correspondente do Estado em Pequim.

Regras mais liberais para atuação de correspondentes aprovadas na época da Olimpíada de 2008 foram suspensas. Entre as restrições restabelecidas está a exigência de autorização prévia das autoridades para a realização de entrevistas em locais públicos.

A polícia lançou mão de medidas mais concretas de intimidação, com o espancamento de um jornalista da Bloomberg no domingo retrasado e detenções provisórias de vários outros, muitas vezes com o uso de violência.

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O dalai lama anunciou ontem que pretende se afastar da liderança política do governo tibetano no exílio e transferir o poder a um sucessor eleito por seus seguidores. O religioso manterá o papel de líder espiritual, o qual só deverá chegar ao fim com sua morte.

“Desde os anos 1960, eu tenho repetidamente afirmado que os tibetanos precisam de um líder, eleito livremente pelo povo tibetano, para quem eu possa transferir o poder. Agora nós claramente chegamos ao momento de colocar isso em prática”, disse o dalai lama.

No comunicado, o líder religioso atacou as políticas chinesas para o Tibete e afirmou que a população da região vive em constante “medo e ansiedade”, sob a vigilância permanente de tropas do Exército de Libertação Popular.

O anúncio coincidiu com o aniversário de 52 anos do levante contra o domínio chinês que levou o religioso e milhares de tibetanos a fugirem para a Índia, onde criaram o governo no exílio na cidade de Dharamsala. Este mês também marca os três anos dos confrontos entre tibetanos e chineses da etinia han que levaram Pequim a intensificar a presença militar no Tibete.

O governo chinês suspendeu há poucos dias as viagens turísticas à região, na qual jornalistas estrangeiros só podem entrar depois de obter raras autorizações oficiais. “A realidade é que a contínua opressão do povo tibetano provocou amplo e profundo ressentimento contra a atual política oficial [da China para o Tibete]”, escreveu o dalai lama.

O líder religioso elogiou os movimentos não-violentos que levaram à queda de governos no mundo árabe e ressaltou que é cada vez maior o número de intelecutais chineses que pedem reforma e abertura política. “O premiê Wen Jiabao também expressou apoio a essas preocupações.”

A proposta do dalai lama de se afastar das funções políticas do governo no exílio será apresentada em reunião do Parlamento tibetano no dia 14 de março. No dia 20, os tibetanos que vivem fora da China elegerão um novo primeiro-ministro, que provavelmente assumirá o papel até agora ocupado pelo dalai lama.

A transferência da liderança política não significa que o vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1989 deixará de ter papel proeminente na condução dos tibetanos. O líder religioso avisou que não está se aposentando.

Com 76 anos, ele quer comandar a transferência de poder para uma nova geração e reduzir a possibilidade de interferência nesse processo por parte de Pequim.

De acordo com a tradição tibetana, o dalai lama quando morre reencarna em uma criança, que continua a exercer a liderança espiritual dos tibetanos sob esse título. O atual dalai lama é o 14º, em uma tradição que teve início há mais de 1.000 anos.

A China sustenta que deve ratificar a escolha do dalai lama feita pelos religiosos tibetanos. Recentemente, o líder tibetano lama afirmou que poderia decidir não reencarnar e transferir o poder político e espiritual a alguém eleito por seus seguidores.

Na segunda-feira, o governador do Tibete apontado por Pequim, Padma Choling, afirmou que o dalai lama tem que reencarnar, o que colocou o representante do Partido Comunista na curiosa posição de defender uma das mais místicas tradições tibetanas.

O temor do governo no exílio é que haja uma cisão no budismo tibetano, com um dalai lama escolhido por Pequim e outro pelos que estão no exílio.

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