A já baixa credibilidade da rede estatal chinesa CCTV foi abalada ainda mais na semana passada, quando reportagem sobre um novo jato do Exército de Libertação Popular foi ilustrada com imagens do filme “Top Gun”, o sucesso hollywoodiano de 1986 que transformou Tom Cruise em uma celebridade global.
A cena que supostamente seria protagonizada pelo caça chinês J-10 mostra o disparo de um míssel durante um vôo e a subsequente destruição de outro jato, que explode de maneira espetacular no ar. Talvez excessivamente espetacular. Alguns atentos integrantes da legião de 457 milhões de internautas chineses identificaram a semelhança entre a explosão e uma cena de “Top Gun” e o caso se espalhou pelos fóruns online e microblogs do país.
Apesar do enorme constrangimento provocado pela revelação, a CCTV não se desculpou nem se manifestou sobre o assunto. Apenas retirou a reportagem de seu site. Mas antes disso, ela já havia sido copiada por internautas. A situação é mais embaraçosa porque a China está em uma campanha contra a publicação de noticias supostamente falsas, que já levou ao afastamento de jornalistas por falhas muito menos graves e é vista por entidades em defesa dos direitos humanos como mais um instrumento a serviço da censura e do controle da informação.
Aqui vocês podem ver a comparação entre o filme e a reportagem da CCTV feita pelo Wall Street Journal.
Protagonista da mais espetacular história de emergência econômica de tempos recentes, a China desafiou os inúmeros analistas que nos últimos anos previram que seu desenfreado crescimento seria reduzido por uma inevitável crise financeira. Nenhum deles acertou e a China saiu fortalecida do terremoto que atingiu o mundo em 2008, graças ao peso do Estado e da generosa oferta de crédito que deu origem a milhares de projetos de infraestrutura em todo o país.
Mas um número crescente de observadores começa a se convencer de que a China não poderá escapar para sempre da lógica econômica tradicional e viverá cedo ou tarde uma turbulência financeira, a exemplo do que ocorreu com outros países emergentes no passado. A mais recente indicação nesse sentido veio de uma pesquisa da Bloomberg com 1.000 de seus clientes que são investidores, operadores do mercado e analistas.
A China enfrentará uma crise dentro de cinco anos, na opinião de 45% dos entrevistados, enquanto outros 40% acreditam que a tempestado virá depois de 2016. Só 7% afirmaram ter confiança de que o país escapará ileso das distorções que ameaçam sua economia.
É paradoxal, mas o pessimismo aumentou com a divulgação do bom resultado do PIB de 2010, que acelerou sua expansão no quarto trimestre, apesar das medidas de contenção adotadas pelo governo. Os analistas viram na expansão de 10,3% no ano uma indicação de que a economia está crescendo além de sua capacidade, o que poderá exigir ações mais pesadas para redução de sua velocidade.
O temor é que a pisada no freio seja muito brusca e provoque um pouso nada suave da segunda maior economia do mundo, com impacto sobre o restante do mundo, incluindo o Brasil. No curto prazo, a maioria dos analistas acredita que o país evitará turbulências e crescerá em 2010 a um invejável ritmo próximo de 9%.
Mas há uma minoria que vê distorções preocupantes, provocadas pela inundação do mercado por dinheiro farto e barato, que alimenta o crescimento, mas também infla bolhas cada vez maiores, especialmente no mercado imobiliário. Mesmo com restrições para compra de imóveis, os preços continuam a subir e o governo prevê que ficarão em média 12% mais altos em 2011.
Entre os céticos está o norte-americano Patrick Chovanec, professor da universidade de maior prestígio na China, a Tsinghua, onde estudou o presidente Hu Jintao. “O crescimento chinês é mais frágil do que parece, porque está baseado em políticas insustentáveis”, disse ele ao Estado em texto publicado domingo, que você pode ler aqui.
Nos últimos dois anos, a quantidade de dinheiro em circulação na economia aumentou em 50% e atingiu a espetacular cifra de US$ 11 trilhões, quase o dobro do tamanho do PIB. O efeito colateral é o aumento do preço dos ativos e da inflação, que ameaça sair do controle. O grande desafio de Pequim em 2011 é segurar os preços sem dar uma freada brusca. A questão colocada por Chovanec é até quando isso será sustentável.
Além da pompa e circunstância com que Hu Jintao foi recebido na semana passada em Washington, um fato mais corriqueiro evidenciou o novo peso da China no cenário global: a filha mais nova de Barack Obama, Sasha, está estudando mandarim. Aparentemente pouco significativa, a informação reforçou a aura de potência emergente que cerca a China e indicou que muitas outras mudanças virão com sua proeminência econômica. Por enquanto, são os líderes comunistas chineses que enviam seus filhos para estudar nos Estados Unidos _a filha de Xi Jinping, provável sucessor de Hu Jintao, frequenta a Universidade de Harvard.
O que não se sabe é quanto tempo vai perdurar o clima de bons amigos que envolveu a passagem de Hu Jintao por Washington, na qual o líder chinês atingiu o objetivo de ser tratado e visto como um igual ao lado de Obama. Nenhuma das divergências que opõem os dois lados foi resolvida ou amenizada e não há dúvida de que os conflitos voltarão a emergir. O relacionamento bilateral chegou ao mais baixo patamar da última década no ano passado, com ataques de lado a lado _ainda que publicamente a voz de Pequim tenha soado alguns tons acima da de Washington.
Em seus pronunciamentos, Hu Jintao disse esperar “respeito” aos “interesses fundamentais” da China, que incluem Tibete e Taiwan. Na prática, é um apelo para que líderes norte-americanos não se encontrem mais com o dalai lama _o que Obama fez há um ano_ e que o país deixe de vender armas e dar apoio material ao governo de Taiwan. É altamente improvável que alguma das duas coisas ocorra e será interessante ver como os chineses reagirão quando se considerarem “desrespeitados”.
As demandas de Washington também não serão facilmente aceitas por Pequim. Mesmo que se acelere em relação a 2010, o ritmo de apreciação do yuan continuará muito mais lento do que gostariam os norte-americanos _os mais otimistas prevêem valorização de 6%, o dobro da de 2010. E mesmo que venha a adotar uma retórica mais dura, a China não colocará o regime da Coreia do Norte contra a parede.
Mas é possível que a visita e seus desdobramentos permitam que ambos os países lidem melhor com suas divergências, com menos estridência de Pequim e mais tolerância dos norte-americanos em relação a um modelo político e econômico que desafia os seus valores. Uma coisa é certa: a versão chinesa do “the book is on the table” será cada vez mais disseminada. Quem quiser, pode começar a praticar: “shu zai zhuozi shang”.
Ontem eu vivi um desses momentos chineses memoráveis: recebi notas falsas de um caixa eletrônico!!! A pirataria é generalizada por aqui e cópias quase perfeitas das notas de 100 yuans são muito mais comuns do que eu esperava. Mas jamais imaginei que elas pudessem ser distribuídas pelos próprios bancos, por meio dos caixas eletrônicos que operam.
Logo depois do saque, peguei um táxi e tive uma discussão com o motorista que recusou uma das notas. Achei que ele estava paranóico. Só me dei conta de que ele tinha razão quando pedi comida em um restaurante italiano perto de casa, paguei a conta e recebi uma ligação do gerente, dizendo que a nota era falsa e perguntando se eu poderia trocar por outra. Respondi sim.
Sei que o episódio é uma exceção. Já usei inúmeros caixas eletrônicos na China e nunca tive problemas. Mas é um sintoma de uma disfunção da qual muitos chineses reclamam e que gera uma insegurança em relação aos produtos e serviços que os consumidores e cidadãos recebem.
Disfunção que permitiu a venda de leite em pó falso ou contaminado que provocou a morte de crianças ou que deu margem à construção de escolas de má qualidade que ruíram no terremoto que abalou a província de Sichuan em 2008. Receber notas falsas de um caixa eletrônico não é nada perto disso…
Envoltos em uma disputa de âmbito global por influência econômica, política e militar, Estados Unidos e China embarcaram involuntariamente em uma nova corrida: qual das duas culturas produz as melhores mães do mundo? A polêmica começou na semana passada nas páginas do Wall Street Journal, que publicou artigo da americana de origem chinesa Amy Chua, no qual ela critica a indulgência de pais ocidentais e defende um estilo militar de educação, no qual os filhos são sujeitos a uma férrea disciplina e privados de qualquer possibilidade de escolha.
Professora de Direito da Universidade de Yale, Amy cita sua própria experiência na educação de duas filhas para sustentar que as chinesas são as melhores mães do mundo. No texto publicado pelo WSJ, ela apresenta uma lista do que suas adolescentes são terminantemente proibidas de fazer, o que inclui: assistir TV e jogar no computador, tirar notas inferiores a A, não ser a primeira aluna em qualquer disciplina além de teatro e ginástica, tocar outro instrumento que não violino e piano, não tocar piano e violino, namorar e participar de peças teatrais na escola.
O estilo chinês apresentado por Amy é implacável e provocou imediata reação de mães “ocidentais”. A receita completa está no seu livro Battle Hymn of the Tiger Mother (Hino de Batalha da Mãe Tigre), no qual afirma que os pais chineses fazem coisas que seriam inimagináveis e até legalmente questionável para os ocidentais. “As mães chinesas podem dizer para suas filhas, ‘ei gorda, emagreça’”, exemplifica.
“Mesmo quando os pais ocidentais acreditam que estão sendo estritos, eles não chegam nem perto das mães chinesas. Meus amigos ocidentais que se consideram severos fazem seus filhos praticar com instrumentos musicais 30 minutos todos os dias. Uma hora no máximo. Para uma mãe chinesa, a primeira hora é a mais fácil. As horas dois e três são as mais difíceis”, sustenta Amy.
A boa educação é medida pelo sucesso dos filhos e este não depende de talento, aptidão ou inspiração, mas de disciplina, trabalho árduo e repetição, repetição, repetição, conseguida muitas vezes com insultos, ameaças e comportamento abusivo. “Para ser bom em qualquer coisa, você tem que trabalhar e as crianças nunca querem trabalhar por vontade própria e é por isso que é crucial passar por cima de suas preferências”, aconselha Amy. Segundo ela, a disciplina é a razão pela qual os pais chineses produzem tantos “azes da matemática e prodígios musicais”.
Apesar de controvertida, a receita encontrou aceitação entre os leitores. Em pesquisa online do WSJ, cujos resultados podem ser vistos aqui, 63% dos que votaram disseram que o estilo severo de educação oriental é melhor para os filhos, enquanto 34% optaram pela permissividade ocidental.
Em meio à disputa geopolítica que envolve os dois países, a questão do estilo de educação acabou ecoando o temor de muitos norte-americanos diante da ascensão chinesa. “A questão básica não é se nós amamos ou não os nossos filhos mesmo se eles não sejam estudantes honrados, mas se nós os amamos o bastante para dedicar tempo e esforços para encorajá-los a serem os melhores que puderem, o que fará com que sua nação seja a melhor que puder nesse mundo altamente competitivo”, escreveu o leitor Jack Alfred.
Não há dúvida de que os pais chineses gastam parcela muito maior de seu tempo do que os ocidentais para acompanhar os estudos dos filhos e supervisioná-los na realização das inúmeras tarefas de casa. Esse provavelmente foi um dos fatores que contribuíram para o fato de estudantes de Xangai terem ficado em primeiro lugar no Pisa, o exame internacional que avaliou alunos de segundo grau de 65 países em provas de leitura, ciências e matemática, cujos resultados foram divulgados em dezembro. Os chineses ficaram à frente dos países ricos, enquanto o Brasil amargou a 53ª posição.
Os que quiserem, podem ler aqui o texto de Amy publicado no WSJ. E aqui o artigo em defesa das mães ocidentais da escritora Ayelet Waldman.
Depois de um ano marcado por uma sucessão de conflitos que foram da venda de armas a Taiwan a crises na península coreana, Estados Unidos e China tentam a partir de hoje reconstruir a confiança mútua, durante visita à capital norte-americana do presidente Hu Jintao, a primeira realizada no governo de Barack Obama.
Nos últimos dias, ambos os lados se esforçaram para minimizar as desavenças e ressaltar os laços que unem as duas maiores economias do mundo, protagonistas da que é considerada a mais importante relação bilateral do século XXI.
“Não há como negar que há algumas diferenças e temas sensíveis entre nós”, afirmou Hu em entrevista por escrito aos jornais Washington Post e Wall Street Journal, publicada domingo. “Nós temos que abandonar a mentalidade de soma-zero da Guerra Fria”, disse o presidente chinês, ressaltando que ambos os países têm a perder com a confrontação.
A mesma expressão havia sido utilizada na sexta-feira pela secretária de Estado Hillary Clinton, em discurso sobre as relações sino-americanas. “No século XXI não faz sentido aplicar a teoria de soma-zero do século 19 sobre como os grandes potências interagem”, declarou Clinton, depois de afirmar que os Estados Unidos não vêem a emergência da China como uma ameaça.
A secretária também lembrou que as economias e o futuro de ambos os países estão interligados. “Nós estamos no mesmo barco e ou remamos na mesma direção ou vamos, infelizmente, provocar turbulência e redemoinhos que vão impactar não apenas nossos dois países, mas muitas pessoas além de nossas fronteiras.”
No ano passado, ambos os lados discordaram sobre que rumo tomar em várias ocasiões, o que levou a relação bilateral a um dos mais baixos patamares da última década. Catapultada em 2010 ao segundo lugar no ranking das maiores economias do mundo, a China interpretou seu sucesso no enfrentamento da crise financeira global como evidência da superioridade de seu modelo econômico sobre o ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos.
A autoconfiança adquirida pelos líderes chineses se refletiu na avaliação de Hu de que o sistema monetário internacional dominado pelo dólar é “algo do passado”. Ao mesmo tempo, o líder chinês reconheceu que transformar o yuan em uma moeda de reserva internacional é um processo que ainda demandará muito tempo.
Na mesma entrevista, o presidente deu indicações de que rejeitará a pressão norte-americana por uma apreciação mais rápida do yuan em relação do dólar, ao afirmar que a mudança no câmbio não é o mecanismo adequado para o combate da inflação enfrentada atualmente pela China.
Todos os temas que provocaram atritos entre os dois países nos últimos meses estarão presentes nas conversas entre Obama e Hu, que permanecerá três dias nos Estados Unidos.
Do lado americano, além do patamar depreciado do yuan, a lista inclui o pleito para que a China contenha as ambições nucleares da Coreia do Norte, seja mais transparente em relação a seus investimentos militares e respeite os direitos humanos que os norte-americanos consideram universais.
A China vai reiterar sua oposição à venda de armas a Taiwan pelos Estados Unidos, exigir o respeito a sua integridade territorial e defender a não-interferência em assuntos que vê como internos, entre os quais estão o Tibete e o tratamento dado aos dissidentes políticos.
A divergência entre os dois países na questão dos direitos humanos se aprofundou em novembro, com a reação furiosa da China à entrega do Prêmio Nobel da Paz ao chinês Liu Xiaobo, elogiada pelos Estados Unidos.
É pouco provável que haja qualquer avanço concreto em relação a esses tópicos e os dois líderes vão se esforçar para ressaltar os pontos de cooperação entre seus países. Estados Unidos e China possuem uma enorme dependência econômica, fruto do comércio, investimentos e financiamento da dívida externa norte-americana por Pequim.
Mas a desconfiança mútua dificilmente desaparecerá. Maior potência global, os Estados Unidos vêem como um fator desestabilizador os crescentes investimentos militares do país asiático, enquanto muitos em Pequim acreditam que Washington tentará em algum momento bloquear a emergência chinesa.
Os chineses estão desenvolvendo o que seria o primeiro sistema de mísseis capaz de atingir navios e porta-aviões. Se tiverem sucesso, eles mudarão a correlação de forças no Pacífico, já que passarão a ter a capacidade de atingir a frota norte-americana estacionada na região.
Washington também viu com preocupação o primeiro teste de um caça chinês “invisível”, que não é detectado por radares, realizado há pouco mais de uma semana, no mesmo dia em que o secretário de Defesa norte-americano, Robert Gates, iniciava visita a Pequim.
Aí vai a lista dos principais conflitos entre os dois países desde o início de 2010:
Armas para Taiwan – Os Estados Unidos anunciam em janeiro a venda de US$ 6,4 bilhões em armas para Taiwan, a ilha que a China considera como integrante de seu território. Pequim reagiu com a suspensão da cooperação militar entre os dois países e a ameaça de imposição de sanções às empresas envolvidas na operação
Dalai lama – Apesar dos protestos de Pequim, o presidente Barack Obama recebeu o dalai lama em fevereiro na Casa Branca. O líder espiritual tibetano é considerado um separatista pelas autoridades chinesas
Google – O maior site de buscas do mundo, o norte-americano Google, anunciou em março o fechamento de seu site em chinês. A empresa afirmou que a decisão foi provocada pela intensificação da censura e pelo ataque de hackers que operam a partir da China
Coreia do Norte – Em maio, a Coreia do Sul acusou a Coreia do Norte de ter afundado dois meses antes o navio de guerra Cheonan, provocando a morte de 46 marinheiros. A China evitou condenar seu aliado e frustrou os EUA, que gostariam de uma ação mais incisiva de Pequim para controlar Pyongyang.
Coreia do Norte 2 – A China volta a frustrar os norte-americanos em novembro, ao deixar de condenar o ataque da Coreia do Norte à ilha sul-coreana de Yeonpyeong. Para os chineses, os sul-coreanos iniciaram as provocações, ao realizar exercícios militares em área disputada pelas duas nações.
Yuan – O patamar desvalorizado do yuan em relação ao dólar é um ponto de permanente atrito nas relações entre os dois países e ganhou mais proeminência no ano passado em razão do aumento do desemprego nos Estados Unidos
Expansão militar – A China investe na modernização de suas Forças Armadas e desenvolve o que seria o primeiro sistema de mísseis capaz de atingir navios e porta-aviões. Com isso, teria a capacidade de atingir a frota norte-americana estacionada na região. Há pouco mais de uma semana, o país realizou o primeiro teste de seu caça “invisível”, que não é detectado por radares
Nobel da Paz – A China reagiu com fúria à entrega do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo, em novembro, evidenciando as diferenças ideológicas que a separam dos Estados Unidos. A questão dos direitos humanos estará presente na pauta de discussões entre Hu Jintao e Barack Obama
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