O governo de Pequim finalmente reconheceu o que era evidente na pesada nuvem esbranquiçada que assombra a cidade há dias: a capital chinesa enfrenta uma crise de poluição, que só será solucionada com o corte de emissões. A posição oficial parece ter colocado fim ao debate que mobilizou os internautas locais nas últimas semanas, sintetizado por uma ótima rima em inglês: “fog or smog?”, algo como “neblina ou poluição?”.
Enquanto os dados oficiais indicavam um grau leve poluição na semana passada, a medição independente feita pela Embaixada dos Estados Unidos em Pequim _e divulgada no Twitter_ acusava um grau “perigoso” de contaminação. A diferença é que os norte-americanos detectam partículas iguais ou inferiores a 2,5 micrômetros, que são extremamente finas e penetram mais profundamente nos pulmões. As autoridades locais medem apenas as que têm tamanho de 2,5 a 10 micrômetros.
Para quem vive há quase quarto anos em Pequim é alarmante saber que a incidência de câncer de pulmão na cidade aumentou 60% na última década, ainda que o percentual de fumantes tenha se estabilizado. A principal vilã é a poluição, que está nos piores níveis desde 2008. Na semana passada, a densa névoa levou ao fechamento de estradas e ao cancelamento ou atraso de centenas de voos.
O debate chegou ao jornal oficial China Daily, editado pelo Conselho de Estado, sob o título “Exposição à poluição é perigo severo”. Zhong Nanshan, da Academia Chinesa de Engenharia, disse que se nada for feito, a poluição poderá substituir o fumo como principal fator de risco para o câncer de pulmão. Shi Yuankai, vice-presidente do Hospital do Câncer da Academia Chinesa de Ciências Médicas, concorda: “Mesmo que consigamos estabilizar a taxa de fumo no país, o câncer de pulmão deve continuar a crescer por 20 a 30 anos e a poluição do ar deverá ser o principal responsável”.
Depois disso, passei a considerar seriamente a possiblidade de comprar um purificador de ar, mas ele não resolve a situação quando estou fora de casa, já que está longe de ser algo portátil. Para me proteger da poluição, teria que usar máscara. O problema é como sair de casa sem parecer uma versão humanizada de Darth Vader _as que têm eficácia contra a poluição são uns trambolhos pretos que cobrem quase todo o rosto. Apesar do choque estético, vejo um número cada vez maior de pessoas nas ruas da cidade com o monstrengo.
O título do post não é meu, mas de artigo de autoria do professor chinês Yan Xuetong, publicado no The New York Times no fim de novembro. Entre os mais respeitados acadêmicos do país, Yan discorreu sobre um tema que ocupa cada vez mais a elite governante de Pequim: como vencer a disputa global por influência que inevitavelmente travarão com os Estados Unidos.
Subjacente à discussão está a ideia de soft power, expressão criada pelo norte-americano Joseph Nye para designar o tipo de influência que não é baseado no poder das armas _o hard power_ e que permite a um país conquistar corações e mentes ao redor do globo. O conceito fundamental é fazer com que os outros queiram o que vocês quer, pelo simples poder de atração de seu modelo ou de suas ideias.
A China já é a segunda maior economia do mundo e investe há anos na modernização do Exército de Libertação Popular. Mas ainda que consiga projeção militar e econômica, o país carece de um modelo que possa servir de inspiração para o restante do mundo, enquanto os norte-americanos possuem um ideário claro que reúne Estado de Direito, liberdade individual e liberalismo econômico _ainda que nem sempre o respeite fora de suas fronteiras.
Em sua tentativa de criar as bases para o desenvolvimento do soft power Made in China, Yan retornou à filosofia clássica chinesa fundada por Confúcio, pensador que o Partido Comunista combateu durante décadas por identificá-lo com os traços retrógrados da sociedade local. Para Yan, o caminho para a China ganhar a disputa com os Estados Unidos é o exercício da autoridade “benevolente” ou “humana”, conceito vago, mas que segundo ele implica justiça social, combate à corrupção e criação de uma sociedade harmônica _você pode ler o artigo aqui.
O problema na tese de Yan é que ela não aponta para a criação de um modelo com regras claras aplicáveis a todos, incluindo aos detentores do poder. Eu levantei esse ponto em uma discussão realizada na semana passada com outros dois jornalistas em Pequim, que você pode ouvir neste podcast podcast. A receita de Yan parece se basear na autoridade moral dos ocupantes do poder, sem nenhuma ênfase nos mecanismos de controle do exercício do poder e de proteção do indivíduo contra o governo. Sem isso, será difícil a China construir um sistema que possa competir com a ideia de Estado de Direito da tradição ocidental.
Para ele, o confronto entre os dois países é inevitável: “Se a história é um guia, a ascensão da China de fato coloca um desafio para a América. Poderes emergentes buscam ganhar mais autoridade no sistema global, e poderes decadentes raramente caem sem luta. E dadas as diferenças entre os sistemas políticos chinês e americano, pessimistas podem até acreditar que existe uma alta possibilidade de guerra”.
No último mês, os norte-americanos levaram a disputa por influência aos países vizinhos da China, em uma tentativa de garantir sua presença na região economicamente mais dinâmica do mundo e contrabalançar a ascensão chinesa. A ofensiva foi tema de reportagem minha que o Estado publicou ontem.
Mesmo em um país onde o governo defende abertamente a censura e o controle da imprensa, é chocante a afirmação do novo presidente da poderosa rede estatal de televisão CCTV, Hu Zhanfa, de que os jornalistas são “operários da propaganda”. Segundo ele, os que se consideram “profissionais” são vítimas de um erro fundamental sobre suas próprias identidades.
O governo chinês investe milhões de dólares no desenvolvimento e internacionalização de seus meios de comunicação, mas é cada vez mais claro que a independência jornalística não integra os planos do Partido Comunista. “ A primeira responsabilidade e ética profissional do pessoal de mídia deve ser entender o seu papel de maneira clara e ser um bom porta-voz”, afirmou Zhanfa, em declarações reproduzidas pela agência oficial de notícias Xinhua. Apesar de terem sido divulgadas em maio, as posições só ganharam destaque ontem, quando um link para o texto da Xinhua foi publicado no Weibo, a popular versão chinesa do Twitter, com cerca de 200 milhões de usuários.
O post gerou uma onda de críticas a Zhanfa, com milhares de internautas atacando a inexistência de uma imprensa independente na China. Grande parte da população do país vê com descrédito o que é veiculado nos meios oficial e confia mais no que lê na internet. O novo presidente da CCTV se encarregou de agravar a falta de credibilidade. Zhanfa ressaltou que os veículos de comunicação devem ser dirigidos por políticos _leia-se membros do Partido Comunista_ e que os jornalistas que não cumprirem seu papel de “porta-vozes” nunca irão longe.
O número oficial de pobres na China saltou de 27 milhões para 128 milhões com a decisão do governo de elevar a linha da pobreza na zona rural para um rendimento anual de US$ 361,00, o que equivale a quase US$ 1,00 ao dia. Essas pessoas poderão a partir de agora receber ajuda governamental. Mesmo com a mudança, a estatística de pobres ainda está abaixo da estimativa de organismos internacionais. O Banco Mundial usa o patamar de US$ 1,25 ao dia e calculou em 2009 que havia 254 milhões de chineses com rendimento igual ou inferior a esse valor.
O aumento da desigualdade é um dos principais problemas da China e fonte de crescente tensão social. O país que pregava o igualitarismo nos anos de Mao Tsé-tung hoje possui um índice Gini superior ao dos Estados Unidos, o porta-voz do mundo capitalista. O indicador mede a desigualdade de renda dentro de um país e no ano passado estava em 0,47 na China, pouco acima do 0,45 dos norte-americano. No Brasil, o índice é de 0,56, um dos piores do mundo.
A nova linha da pobreza chinesa vale apenas para os moradores da zona rural, que representam cerca de metade da população do país. Pelo critério anterior, apenas 2,8% dos habitantes do campo eram considerados pobres, percentual inferior ao registrado em países desenvolvidos, disse Wang Sangui, professor da Universidade do Povo da China. Nos Estados Unidos, o percentual oficial de pobres é de 15% da população, em razão de uma “linha de corte” bem mais elevada: rendimento anual de US$ 22.314 para uma família de quatro pessoas, o equivalente a uma renda diária individual de US$ 15,28.
O problema da desigualdade foi agravado neste ano pela alta da inflação, que atingiu em julho 6,5%, o mais alto patamar em três anos. O índice desacelerou desde então, mas ainda ficou em desconfortáveis 5,5% no mês passado. A alta no preço dos alimentos é o principal fator a pressionar o indicador, o que torna a inflação ainda mais aguda para os pobres. No mês de outubro, os alimentos ficaram em média 11,9% mais caros. Em julho, a alta de preços nesse segmento havia sido de 14,8% _só a carne de porco, a mais consumida no país, teve inflação de 57% naquele mês.
A nova “linha de corte” chinesa representa um aumento de 92% em relação ao patamar que estava em vigor desde 2009. O universo dos que poderão receber auxílio do governo vai quase quintuplicar, mas os recursos do fundo de combate à pobreza terão aumento de apenas 21% neste ano, para 27 bilhões de yuans (US$ 4,29 bilhões). Se esse valor fosse integralmente dividido pelos 128 milhões de pobres, cada um receberia US$ 33,50.
No Brasil, a “linha de corte” é R$ 70,00 ao mês, o que representa renda anual de US$ 454,00 e diária de US$ 1,24. Com isso, o número de pobres no país é de 16,27 milhões, o equivalente a 8,5% da população. Na China, o novo universo de pobres representa 9,5% dos 1,34 bilhão de habitantes. O presidente Hu Jintao afirmou na terça-feira que a tendência de aumento da desigualdade será revertida e que todos os chineses terão suas necessidades básicas atendidas até 2020. “O acesso à educação compulsória, assistência médica básica e habitação será garantido.”
A monja budista Palden Choestso tinha 35 anos quando tirou a própria vida para protestar contra a política chinesa para as regiões habitadas por tibetanos no país. No dia 3 de novembro, ela ateou fogo a seu corpo e gritou “longa vida ao dalai lama” e “deixem o dalai lama voltar ao Tibete”, de acordo com relatos transmitidos por testemunhas a entidades pró-Tibete sediadas no exterior. Palden morreu no mesmo local onde o monge Tsewang Norbu, 29, havia se imolado em agosto, na cidade de Tawu, província de Sichuan.
Desde março, 11 monges ou ex-monges tibetanos atearam fogo a seus corpos, uma forma extrema de protesto político que está sendo cada vez mais utilizada pelos tibetanos. Só em outubro foram 7 casos. Das 11 pessoas que se imolaram neste ano, 6 morreram e o paradeiro das demais é desconhecido, segundo as mesmas entidades.
Antes de 2011, o único episódio de imolação entre os tibetanos na China havia sido registrado em fevereiro de 2009 e envolveu um monge chamado Tabe, que sobreviveu às queimaduras. A primeira mulher a se imolar antes de Palden foi a também monja Tenzin Wangmo, 20 anos, que morreu no dia 17 de outubro. Todos os casos ocorreram em áreas habitadas por tibetanos na província de Sichuan, vizinha ao Tibete. O centro dos protestos é o mosteiro Kirti, onde vivem 2.500 monges na cidade de Aba, que foi ocupada por forças militares e paramilitares depois da imolação de março e vive sob um não declarado estado de sítio. Há barreiras policiais nas estradas que levam à região e jornalistas são impedidos de chegar ao local. Apenas dois conseguiram furar o bloqueio nas últimos meses.
No mês passado, painel da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre liberdade religiosa manifestou preocupação com as medidas de segurança impostas em Aba, que incluem constante presença de policiais dentro e fora dos monastérios e monitoramento das atividades religiosas. Segundo o grupo, as ruas estão ocupadas por integrantes da tropa de choque, soldados armados com fuzis automáticos e caminhões militares. “Essas medidas restritivas não apenas limitam a liberdade religiosa ou de crença, mas exacerbam as tensões existentes e são contraproducentes”, declarou Heiner Bielefeldt, relator especial sobre liberdade religiosa e de crença da ONU. Bielefeldt avaliou que as medidas de segurança agravaram ainda mais a tensão entre a população tibetana e Pequim. “A intimidação da comunidade leiga e monástica deve ser evitada e o direito da comunidade monástica e toda a comunidade de praticar sua religião deveria ser totalmente respeitado pelo e garantido pelo governo chinês”, ressaltou.
Além de aumentar a repressão na região, as autoridades chinesas reagiram com acusações ao dalai lama, a quem classificam de separatista e “terrorista disfarçado”. Na quinta-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Hong Lei, responsabilizou os tibetanos no exílio pelas imolações. “Os grupos ‘pró-independência’ do Tibete elogiaram esses suicídios e até defenderam sua imitação”, declarou Hong, em briefing regular com a imprensa. “O que eles estão fazendo desafia a moral humana e eles nunca vão conseguir o que querem. Os budistas chineses sabem que o suicídio deve ser condenado. Pessoas de comunidades religiosas acreditam que a vida deve ser valorizada e que eles devem seguir a verdadeira doutrina do budismo”, acrescentou o porta-voz.
Despois de um fracassado levante contra o domínio chinês em 1959, o dalai lama deixou o Tibete e se exilou na Índia, onde onde está instalado o chamado governo tibetano no exílio. Sua imagem é banida dentro da China e monges tibetanos são obrigados a frequentar classes de “educação patriótica”, nas quais devem renega-lo e prometer lealdade a Pequim. “O dalai lama é a mais importante figura religiosa para os tibetanos e esses monges manifestaram devoção a ele durante todas as suas vidas. Para alguns é preferível perder a vida do que ter que renegá-lo”, disse ao Estado Andrew Fischer, professor do Instituto de Estudos Sociais de Haia, na Holanda.
Em sua opinião, as imolações são provocadas por um sentimento de desespero e frustração em relação às políticas de Pequim para os tibetanos, que são agravadas pela extrema repressão imposta a Kirti. O monastério sediou fortes manifestações contra a China em 2008, logo depois de confrontos entre tibetanos e chineses han em Lhasa, capital do Tibete _os han são a etnia que representa 91,5% da população do país. No dia 16 de março daquele ano, 13 monges de Kirti foram mortos a tiros pelas forças de segurança chinesas. O primeiro monge a se imolar em 2011 foi Phuntsog, 21, que tirou sua vida no dia 16 de março, três anos depois dos protestos de 2008.
Os anos de crescimento chinês na casa dos 10% chegaram ao fim e o país entrará agora em uma fase de mais baixa expansão do PIB e taxas de inflação mais elevadas, na qual aumentarão os desafios para manter a economia nos trilhos, com problemas que vão do envelhecimento da população à necessidade de reformas sobre as quais não há consenso. Em linhas gerais, essa foi a conclusão de painel que reuniu analistas chineses e estrangeiros em Pequim na sexta-feira, durante conferência promovida pela revista britânica The Economist sobre as perspectivas para a China.
“Nós estamos no começo da transição do milagre econômico para um desenvolvimento normal”, afirmou Huang Yiping, economista-chefe para a Ásia do Barclays Capital, para quem o modelo baseado em alto nível de investimentos que prevaleceu nas últimas décadas não é mais sustentável. Patrick Chovanec, professor da Universidade de Tsinghua, também vê uma transformação “fundamental”, mas acredita que ela será mais turbulenta do que a prevista por Huang. “O inverno está chegando”, declarou o norte-americano, que não descarta a possibilidade de contração do PIB por curto período na próxima década, a exemplo do que ocorreu com o Japão nos anos de alta expansão da década de 60.
O crescimento vai desacelerar para o terreno de 7% a 8% na opinião de Arthur Kroeber, diretor da consultoria Dragonomics, que desenha um cenário pessimista para a próxima década em razão de mudanças na estrutura demográfica do país. “Um dos fatores que sustentaram o crescimento chinês foi o grande número de pessoas que trabalhavam em relação às que estavam aposentadas”, observou. Segundo ele, essa relação é de 5 para 1 atualmente. Em 20 anos, será de 2 para 1. “É uma enorme mudança demográfica que ocorrerá de maneira muito rápida.” A oferta de trabalhadores sofrerá um declínio severo, com redução em um terço do número de pessoas na idade de 15 a 24 anos, ressaltou.
Para manter o crescimento elevado, a China terá que fazer reformas que aumentem de maneira “dramática” a produtividade, mas Kroeber não vê sinais de que as autoridades de Pequim estejam dispostas a implementá-las. A perda do ímpeto reformista que marcou os últimos 30 anos do desenvolvimento chinês é um problema apontado com frequência por analistas céticos em relação ao futuro do país. Mesmo os otimistas ligados ao governo manifestam preocupação quando o assunto é o rumo que a China adotará no futuro. “Não há consenso sobre o tipo de economia de mercado moderna que nós aspiramos ser”, disse no mesmo debate Li Daokui, conselheiro do Comitê de Política Monetária do Banco do Povo da China e diretor do Centro para a China na Economia Mundial da Universidade Tsinghua.
O tema também foi discutido em painel sobre a transição de poder para a nova geração de líderes comunistas, prevista para o próximo ano. Jin Canrong, vice-reitor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade do Povo, observou que há intensa discussão sobre a necessidade de reformas, mas ausência de acordo sobre o caminho a seguir. “Há 30 anos, havia forte consenso no sentido de que deveríamos ir para o outro lado do rio, para a economia de mercado”, lembrou Jin, em referência à transformação iniciada por Deng Xiaoping no fim dos anos 70. “Sem consenso, não há como irmos em uma direção”, acrescentou o professor, para quem as diferentes facções do Partido Comunista acabarão chegando a uma forma de compromisso.
Entre as reformas econômicas, uma das mais mencionadas é a do setor financeiro, dominado por gigantescos bancos estatais que praticam juros artificialmente baixos ditados pelo governo e canalizam crédito para outras empresas estatais igualmente gigantescas. O setor é um dos principais componentes do que Hu Yiping, do Barclays, chamou de modelo de crescimento subsidiado, que prevaleceu nos últimos 30 anos e beneficiou investidores, produtores e exportadores, em detrimento das famílias e dos consumidores.
Para mudar o sistema financeiro, o governo chinês precisa liberalizar os juros, o que acabaria com o subsídio e permitiria que o capital fosse alocado de maneira mais eficiente. Na opinião de Hu Yiping, esse movimento já começou nas operações de crédito informais que ocorrem fora do sistema bancário, nas quais são cobradas taxas de mercado, e logo se espalhará para o restante do sistema. Mais cético, Chovanec acredita que a reforma não virá rapidamente em razão do volume ainda desconhecido de créditos irrecuperáveis que os bancos acumularam com a explosão de empréstimos fáceis dos últimos três anos. “Os bancos terão de se recuperar antes de haver uma liberalização.”
Desinflar a bolha do mercado imobiliário chinês está se mostrando mais desafiador do que parecia quando o governo decidiu apertar as medidas restritivas ao setor, há pouco mais de um ano. Milhares de pessoas que adquiriram imóveis nos últimos meses estão exigindo compensação de empreendedores que tentam se livrar de unidades encalhadas oferecendo descontos de até 25%.
Desde o dia 22 de outubro, ocorreram pelo menos cinco manifestações nas ruas de Xangai promovidas por compradores que viram o valor das residências que compraram pouco meses antes cair de maneira abrupta com as novas promoções. Em uma delas, cerca de 400 pessoas carregando faixas invadiram e danificaram um dos showrooms da China Overseas Holdings, que oferecia apartamentos por um quarto a menos do que eles haviam pago no ano passado.
O mercado imobiliário é uma opção de investimentos para muitos chineses, que perdem dinheiro se deixarem sua poupança no banco e não têm à disposição aplicações lucrativas e seguras. A taxa de juros sobre os depósitos é de 3,5% ao ano, insuficiente até para repor a inflação, que caiu para 5,5% no mês passado. Em queda desde o ano passado e com uma histórica volatilidade, o mercado acionário é visto com desconfiança por famílias chinesas. Nesse cenário, a compra de um imóvel era considerada uma opção segura e extremamente lucrativa de investimento, especialmente diante da expectativa de que os valores continuariam a subir de maneira indefinida.
A crescente especulação imobiliária levou os preços a patamares irreais, que transformaram o sonho da casa própria em algo inalcançável para grande parte da população. A persistente alta também envolveu o setor em uma bolha cada vez mais inflada, que o governo decidiu conter com medidas restritivas, entre as quais o aumento do valor que deve ser pago à vista na compra de uma residência. Mas a operação é extremamente delicada, já que o setor imobiliário responde por 25% do investimento do país e tem sido um dos mais potentes motores do crescimento chinês. Se a atividade de construção sofrer uma retração abrupta, isso terá consequências negativas sobre a expansão do PIB e aumentará o risco de um pouso forçado da segunda maior economia do mundo.
Para o Brasil, a performance do segmento é fundamental. A construção de residências absorve cerca de 20% da demanda de aço do país, que usa como matéria-prima o minério de ferro, principal item da pauta de exportação brasileira, cujo maior comprador é a China. No período de janeiro a setembro, o país asiático importou do Brasil US$ 14,48 bilhões em minério de ferro, quase metade dos embarques totais do produto, de US$ 30,68 bilhões, e 71,15% acima do que foi vendido nos primeiros nove meses de 2010.
“O problema de compradores insatisfeitos com os descontos nos imóveis é generalizado”, disse ao Estado Liu Weiwei, do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento E-house China, baseado em Xangai. “Com a redução nos preços, os compradores antigos perderam milhares de yuans e muitos se sentem enganados pelos empreendedores.”
No conjunto residencial Longhu Licheng, de Xangai, o preço do metro quadrado estava em 18.500 yuans (R$ 5.180) no começo de 2010, valor que caiu para 14.000 (R$ 3.920) atualmente. Quem comprou um apartamento de 100 metros quadrados naquela época viu o valor da propriedade diminuir 450 mil yuans (R$ 126 mil) em menos de dois anos. A queda de preços só começou em meados de 2011 e se acelerou nas últimas semanas, em razão das dificuldades financeiras enfrentadas por grande parte dos empreendedores imobiliários, sufocados pelas medidas de contenção de crédito adotadas pelo governo para conter a inflação e desinflar a bolha imobiliária.
Chen Shen, do instituto China Index Academy, disse que as vendas em outubro diminuíram 20% em média na China em relação ao mês anterior. Na semana passada, o volume de operações na cidade de Pequim registrou queda de 40% na comparação com a semana anterior. Em Xangai, a retração foi de 26%. No fim de outubro, o primeiro-ministro Wen Jiabao afirmou que o governo manteria as restrições ao setor: “Nosso objetivo é fazer com que os preços voltem a patamar razoáveis”.
A inflação chinesa desacelerou em outubro pelo quarto mês consecutivo e atingiu o mais baixo patamar desde maio, mas não há consenso entre os analistas sobre a possibilidade de o governo relaxar a política monetária para amenizar o cenário de escassez de crédito que penaliza o setor imobiliário e as pequenas e médias empresas do país.
O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) fechou o mês em 5,5%, abaixo dos 6,1% registrados em setembro. O indicador atingiu 6,5% em julho, o mais elevado patamar em três anos, e recuou para 6,2% em agosto. Depois de permitir uma explosão de crédito em 2009 e 2010, o Banco do Povo da China começou há um ano a reduzir a quantidade de dinheiro em circulação na economia, na tentativa conter a formação de uma bolha no setor imobiliário e amenizar a pressão do excesso de liquidez sobre os preços.
Essa política secou as fontes de financiamento para vários setores, incluindo braços do próprio governo, que enfrentam problemas para saldar débitos e pagar fornecedores. As vendas no setor imobiliário caíram de maneira acentuada em outubro e os preços de novos imóveis estão em ligeira queda desde setembro. Somadas ao cenário externo hostil, essas dificuldades devem reduzir o ritmo de crescimento da segunda maior economia do mundo para algo entre 7,5% e 8,5% no último trimestre do ano, depois dos 9,1% registrados no trimestre encerrado em setembro.
Mas apesar da desaceleração da inflação, ainda não há espaço no curto prazo para o governo relaxar o aperto monetário, avaliou Zhao Xian Wei, analista-chefe de macroeconomia da China Galaxy Futures. “Os preços estão aumentando menos porque houve redução na quantidade de dinheiro na economia. Se a liquidez aumentar, a inflação voltará a subir”, afirmou Zhao. Zhang Liqun, do Centro de Pesquisas em Desenvolvimento do Conselho de Estado _o gabinete chinês_, ressaltou que o governo deverá ter cautela no ajuste da política monetária. Em entrevista à agência oficial de notícias Xinhua, ele observou que a base monetária está atualmente em 1,8 vez o PIB chinês. Em 2008, o indicador era de 1,54 vez.
“O tamanho da base monetária continua enorme e os responsáveis pela política econômica devem ter cuidado em relação à política monetária e não ignorar seu potencial para elevar os preços”, disse Zhang. O economista-chefe da Minsheng Securities, Teng Tai, acredita que a inflação manterá a tendência de queda nos próximos meses e estará abaixo de 3% em meados de 2012. Em sua avaliação, essa trajetória permitirá que o governo relaxe gradualmente a política monetária, com injeção de liquidez na economia.
Mesmo os que apostam em uma mudança de rumo acreditam em medidas pontuais de apoio a determinados setores e consideram improvável a redução imediata do depósito compulsório dos bancos ou da taxa de juros. Os líderes chineses tentam equilibrar o combate à inflação com a manutenção de um ritmo de crescimento na casa dos 9%, em meio ao agravamento da crise mundial. A Europa é o principal mercado das exportações chinesas e os embarques se reduziram em razão da crise da dívida que afeta o continente.
Garantir a sobrevivência do Protocolo de Kyoto é a prioridade de Brasil, África do Sul, Índia e China para a Conferência do Clima que ocorrerá na cidade sul-africana de Durban a partir de 28 de novembro. Mas o grupo de países conhecido como BASIC sinalizou ontem que não está disposto a fazer concessões que impliquem a adoção de metas obrigatórias de redução de emissões por países em desenvolvimento, o que pode frustrar os negociadores da União Europeia.
Depois de dois dias de reunião em Pequim para afinar as posições para Durban, os representantes do BASIC divulgaram um documento que basicamente reafirma suas posições histórias: os países desenvolvidos devem adotar metas obrigatórias de corte nas emissões na segunda fase de compromissos do Protocolo de Kyoto, prevista para substituir as objetivos atuais a partir do fim de 2012.
O problema é que Japão e Rússia já disseram que não vão aderir a essa nova etapa se os principais poluidores do mundo não fizerem o mesmo. Maior emissor absoluto de gases que provocam o aquecimento global, a China não está sujeita às metas obrigatórias, por ser um país em desenvolvimento. Os Estados Unidos têm a maior emissão per capita do mundo e nunca aderiram ao Protocolo de Kyoto. Os europeus sustentam que gostariam de renovar os compromissos de redução de emissões, mas demandam uma sinalização de que esta seria a última vez em que outras grandes economias ficariam fora do acordo.
“Nossa maior preocupação é o segundo compromisso do Protocolo de Kyoto. Estamos os quatro unidos nesse propósito”, disse Francisco Gaetani, secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, que representou o Brasil nas discussões. “Alguns países, como a Rússia e o Japão, estão sinalizando posições complicadas.”
Participante do encontro de Pequim na condição de observador, o deputado federal Alfredo Sirkis (PV-RJ) considerou “absolutamente inócuo” o documento aprovado pelo BASIC. “[O texto] não cumpriu propósito político de lançar nem que fosse uma pinguela de aproximação com a Europa para evitar que ela saia do Protocolo de Kyoto.” Segundo ele, a “velocidade da tropa” foi determinada pelo mais lento, no caso a Índia, que foi intransigente na posição contrária a qualquer concessão.
O que os europeus argumentam é que o mundo atual é bastante distinto do existente há 20 anos, quando as bases do Protocolo de Kyoto foram negociadas. A China hoje tem uma economia maior que a de qualquer país europeu e menor apenas que a dos Estados Unidos e ocupa desde 2009 o posto de principal emissor de gases-estufa _enquanto a Europa responde por 16% das emissões.
Na entrevista coletiva realizada depois do encontro, o representante da China, Xie Zhenhua, disse que o país está “pronto” para fazer concessões, mas ressaltou que elas devem seguir o princípio de responsabilidades diferenciadas entre países ricos e emergentes. Gaetani observou que é difícil discutir metas obrigatórias para as nações em desenvolvimento quando o país “mais desenvolvido do mundo” não é nem sequer signatário do Protocolo de Kyoto.
Sirkis ressaltou que a posição do BASIC de que apenas os países com maior emissão per capita devem ter metas obrigatórias é insustentável quando se considera o fato de que as nações em desenvolvimento respondem por 70% das emissões atuais. “É um diálogo de surdos. Isso não aponta para a solução, aponta para o impasse”, afirmou.
Uma monja tibetana morreu na segunda-feira depois de atear fogo ao próprio corpo em defesa da independência do Tibete e da volta do dalai lama à região, no nono caso semelhante registrado desde março, segundo entidade ligada aos tibetanos no exílio. De acordo com o mesmo grupo, no domingo a polícia feriu a tiros dois homens que participavam de manifestação contra a política chinesa em relação aos tibetanos. Todos os casos ocorreram na província de Sichuan, fora da área delimitada como Região Autônoma do Tibete pelas autoridades de Pequim. O centro do descontentamento é a cidade de Aba, onde está localizado o mosteiro Kirti, de onde saiu a maioria dos monges ou ex-monges que atearam fogo a seus corpos desde março. Dos nove, cinco morreram.
Tenzin Wangmo, 20, foi a primeira mulher tibetana a imolar-se, prática que começou a ser utilizada pelo grupo na China em 2009, quando um caso foi registrado. Em 2011, o primeiro episódio foi protagonizado pelo monge Phuntsog, 21, que morreu em consequência das queimaduras.
O gesto levou o governo de Pequim a prender e enviar a sessões de “reeducação patriótica” 300 religiosos do mosteiro de Kirti, muitos dos quais não retornaram, segundo a entidade de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch.
“Os protestos no Tibete estão aumentando e se espalhando”, escreveu em nota divulgada na segunda-feira Stephanie Brigden, diretora do grupo Free Tibet, com sede em Londres. “Os atos de imolação não estão ocorrendo de maneira isolada, protestos foram registrados em regiões vizinhas e convocações para protestos mais amplos estão aumentando”, acrescentou.
Em briefing regular com a imprensa ontem, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Liu Weimin, disse não ter informações sobre os casos recentes, mas ressaltou considerar “imoral” a “promoção e encorajamento” de danos à vida. A presença militar no Tibete e o controle governamental em áreas tibetanas na província vizinha de Sichuan aumentaram desde os protestos contra a China que chacoalharam a região em março de 2008 e provocaram a morte de 18 pessoas, além de deixar dezenas feridas.
Líder espiritual dos tibetanos, o dalai lama fugiu da região em 1959, depois de um levante fracassado contra o domínio chinês. Desde então, está proibido de voltar ao país. As autoridades de Pequim o classificam de separatista e reprimem qualquer manifestação pública de veneração a sua imagem, o que agrava o ressentimento dos tibetanos contra os chineses.
De acordo com o novo líder político dos tibetanos no exílio, Lbsang Sangay, os incidentes indicam o grau de desespero em relação à atual situação do Tibete. A Human Rights Watch sustenta que a cidade de Aba tem sido alvo de ações de segurança “brutais”, com prisão arbitrária de monges, presença policial constante dentro dos mosteiros e monitoramento das atividades religiosas, o que estaria exacerbando a tensão na região.
2012
2011
2010
2009
2008