A China não deixa de assombrar o mundo. A mais recente façanha do país que abriga 20% da humanidade foi alcançar o primeiro lugar no teste que avalia a capacidade de alunos do segundo grau em provas de leitura, ciência e matemática, deixando para trás 64 nações, incluindo todo o time dos ricos. O Brasil não passou da 53ª posição e, em tese, teria muito que aprender com Xangai, a única cidade da China onde o teste foi realizado.
É claro que há investimento em educação, treinamento e valorização dos professores. Mas parte significativa da performance dos chineses se deve a questões culturais e ao valor absoluto dado à educação pela sociedade e as famílias. Já viajei muito pela China e estive em vilas rurais pobres, que não tinham água encanada nem saneamento básico. Apesar disso, todos os pais que entrevistei mantinham seus filhos na escola. E olha que a educação na China, mesmo básica, não é gratuita. A situação está mudando no campo, com a isenção ou redução drástica das anuidades, mas poupar para garantir o estudo dos filhos é prioridade na vida de todos os pais chineses.
Pode-se argumentar que a realidade de Xangai não reflete a situação de toda a China, que é enorme e extremamente diversa. Com a maior renda per capita do país, a cidade tem um índice de analfabetismo de 3,81%, comparado a uma média nacional de 7,10%.
Mas o valor dado à educação é generalizado. Em parte isso reflete o confucionismo e sua ênfase no estudo permanente e no mérito. Não por acaso, outras sociedades fortemente influenciada pela filosofia obtiveram bons resultados no exame, como Hong Kong, Coreia do Sul, Cingapura e Japão, todas entre os dez primeiros colocados.
As crianças chinesas dedicam quase todo o seu tempo aos estudos e permanecem na escola das 8h às 16h, todos os dias. Quando chegam em casa, se dedicam às tarefas, muitas vezes sob supervisão dos pais. Os de famílias mais abastadas ainda têm aulas particulares de inglês, matemática ou música.
A política de filho único também desempenha um papel importante na performance dos estudantes. Os “pequenos imperadores” sofrem pressão constante dos pais para estudarem e garantirem um futuro promissor. Porém mesmo na zona rural, onde as famílias normalmente têm mais de um filho, a exigência dos pais é grande. A educação também é encarada como responsabilidade de toda a família e é comum ver avôs e avós esperarem os netos na saída de escolas chinesas.
A seguir estão algumas fotos de estudantes na zona rural:
Estudantes voltam em fila para casa em vila rural de Henan
Filhos de camponeses na saída de escola em Henan
Avô busca neto na escola
Saída da escola em vila rural de Hebei
Crianças voltam da escola com pais e avós, em vila de Hebei
O governo chinês proibiu que críticos do regime de Pequim deixem o país, com o temor de que eles participem da cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz de 2010, marcada para o dia 10 de dezembro. O vencedor, anunciado há dois meses, é o dissidente Liu Xiaobo, condenado a 11 anos de prisão sob acusação de subversão.
A mais recente “vítima” da ofensiva oficial foi o artista plástico Ai Wei Wei, impedido ontem de embarcar em um vôo para Seul, capital da Coreia do Sul. No dia anterior, o economista Mo Yushi, de 80 anos, foi barrado no aeroporto quando tentava ir para Cingapura.
“Isso me lembra a Revolução Cultural [1966-1976]. Eu sou impedido de ir ao exterior e eles me dizem que é pela segurança nacional. É a mesma lógica”, escreveu Mo em seu microblog. Cerca de dez ativistas já haviam sido impedidos de deixar o país nas últimas semanas.
A premiação de Liu enfureceu Pequim, que deu início a uma ofensiva global para esvaziar a cerimônia, com ameaças de retaliação aos países que enviarem representantes a Oslo. Rússia, Cuba, Marrocos e Iraque estão entre as nações que recusaram o convite para o evento.
Na quinta-feira, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Jiang Yu, afirmou que Liu é um criminoso, condenado nos termos da legislação do país. Segundo ela, a sua escolha para o Prêmio Nobel da Paz é “uma flagrante provocação e interferência na soberania judicial da China”.
Desde o anúncio da premiação, as autoridades de Pequim aumentaram a vigilância sobre críticos que poderiam participar do evento e colocaram alguns deles em prisão domiciliar.
A própria mulher de Liu Xiaobo, Liu Xia, está confinada em seu apartamento em Pequim sob constante vigilância policial. Nenhum dos familiares do dissidente deverá comparecer à cerimônia.
Em uma carta abertura colocada na internet, Liu Xia convidou 140 chineses críticos do Partido Comunista a estarem em Oslo no dia 10, mas apenas um confirmou presença até agora: Wan Yanhai. Ativista que defende os direitos dos portadores do vírus HIV, Wan deixou a China em maio e passou a viver nos Estados Unidos, em razão do aumento da repressão oficial à sua atuação.
A ausência de familiares de Liu Xiaobo levou o comitê responsável pelo Nobel da Paz a considerar o adiamento da cerimônia. A ideia foi abandonada, mas é provável que a evento ocorra sem a apresentação do prêmio _uma medalha, um diploma e US$ 1,4 milhão.
O dissidente chinês foi preso em 8 de dezembro de 2008, dois dias antes da divulgação da Carta 08, um manifesto assinado por 303 intelectuais, advogados e ativistas chineses em defesa de reformas políticas no país.
Liu foi um dos idealizadores e signatários do documento, que ganhou a adesão de milhares de pessoas depois que começou a circular na internet. No dia 25 de dezembro de 2009, ele foi condenado a 11 anos de prisão, pena elevada mesmo para os padrões chineses.
O Comitê Norueguês afirmou que Liu foi escolhido para “por sua longa e não-violenta luta em favor dos direitos humanos na China”. A entidade lembrou os avanços econômicos obtidos pelo país nas últimas três décadas e o fato de que milhões de pessoas foram retiradas da pobreza nesse período.
“O novo status da China acarreta crescentes responsabilidades”, disse o presidente do comitê, Thorbjorn Jagland. “A China viola uma série de acordos internacionais dos quais é signatária, bem como suas próprias regras relativas a direitos políticos”, acrescentou, lembrando que o artigo 35 da Constituição do país prevê as liberdades de expressão, de imprensa, de associação, de assembléia e de demonstração, nenhuma das quais é respeitada na prática.
Estados Unidos e Japão deram início hoje ao maior exercício militar conjunto que já realizaram no leste asiático, para o qual a Coreia do Sul enviou observadores pela primeira vez. As atividades reforçam os laços dos norte-americanos com seus dois principais aliados na região, abalada pelo ataque da Coreia do Norte que provocou a morte de quatro sul-coreanos na semana passada.
Maior aliada de Pyongyang, a China criticou os exercícios militares que começaram, dois dias depois de os Estados Unidos terem encerrado quatro dias de treinamento bélico com a Coreia do Sul.
“A exibição de força não pode resolver o problema”, afirmou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Jiang Yu, em briefing com a imprensa. “Alguns estão brincando com facas e revólveres enquanto a China é criticada por propor o diálogo. Isso é justo?”, perguntou Jiang.
No domingo, Pequim propôs que a crise na península coreana fosse discutida em uma reunião de emergência do Grupo dos Seis, que reúne as duas Coreias, China, Estados Unidos, Japão e Rússia.
A proposta foi recusada pelos norte-americanos, japoneses e sul-coreanos, que terão na segunda-feira um encontro em Washington para analisar a situação na região. Iniciadas em 2003 por iniciativa da China, as negociações do Grupo dos Seis não trouxeram avanços em seu principal objetivo, que é o desmantelamento do programa nuclear norte-coreano.
O exercício militar conjunto entre Estados Unidos e Japão já estava previsto antes do ataque da Coreia do Norte à ilha de Yeongpyeong e foi planejado para marcar os 50 anos da “aliança de iguais” entre Washington e Tóquio, segundo o chefe de operações norte-americano, major William Vause.
Mas a crise na península coreana dá outra dimensão ao treinamento e serve como uma demonstração de força e solidariedade dos três países mais hostis à Coreia do Norte na região.
O Japão participará do exercício com 34 mil soldados, 40 navios de guerra e 250 aviões. Os norte-americanos terão o imenso porta-aviões George Washington, 10 mil soldados, 150 jatos e 20 navios.
Além de propor a retomada da negociação do Grupo dos Seis, interrompida desde 2009, a China atua para barrar resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) condenando o ataque da Coreia do Norte à Coreia do Sul, disse à agência de notícias Bloomberg o embaixador do Japão junto à instituição, Tsuneo Nishida. “Os chineses sempre foram resistentes”, observou o diplomata.
Pequim teve papel fundamental para impedir que a ONU criticasse Pyongyang pelo ataque que afundou o navio de guerra Cheonan em março, causando a morte de 46 soldados sul-coreanos. A Coreia do Norte nega que tenha disparado o torpedo que atingiu a embarcação.
Autoridades de Seul iniciaram uma ofensiva de informação ontem para tentar mudar a percepção de que a reação de Seul ao ataque foi lenta, insuficiente e ineficaz. O deputado Kwon Yong-se, do partido governista e presidente do Comitê de Inteligência da Assembléia Nacional, disse em entrevista que duas fotos de satélites em poder do serviço de inteligência mostram que a artilharia sul-coreana atingiu alvos militares no país vizinho e pode ter provocado “severas baixas humanas”.
A agência oficial de notícias Yonhap citou fonte não identificada do Exército que dá a mesma declaração. As imagens não foram apresentadas.
A Coreia do Sul demorou 13 minutos para reagir ao bombardeio da ilha Yeongpyeong, tempo considerado excessivo por especialistas militares ouvidos por um dos principais jornais sul-coreanos, o Chosun Ilbo. Segundo eles, os norte-coreanos precisavam de apenas sete minutos para recolher sua artilharia em locais seguros antes de um contra-ataque do sul.
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