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Cláudia Trevisan

Por trás de muitas das reportagens que saem publicadas no Estadão há uma longa jornada em direção à notícia, em uma das quais estou imeresa neste momento. Saí de Pequim no domingo acompanha de minha assistente, Wendy, em direção a Zhejiang, uma das mais prósperas províncias da China, que faz fronteira com Xangai. Nosso vôo deveria decolar às 18h e embarcamos às 17h40. Por causa de uma súbita e inesperada queda de temperatura, permanecemos em solo _e dentro da aeronave_ por quatro horas. A pista do aeroporto congelou e tivemos que esperar que ela fosse limpa. Com o passar das horas, a água que encobria o avião também congelou e vivi pela primeira vez a experiência de escutar o gelo sendo tirado de cima da aeronova por trabalhadores munidos de pás.

Chegamos a Hangzhou, capital de Zhejjiang, por volta da meia noite e ainda tivemos que encarar duas horas de estrada até nosso destino final. Depois de negociar o preço, eu e Wendy embarcamos em um táxi para uma viagem de 150 km, que se revelou o primeiro choque cultural dos últimos dois dias. Todo o trecho foi percorrido em uma autoestrada com asfalto perfeito e bem sinalizada, mas com motoristas que incorporaram a cultura do carro em suas vidas há pouquíssimo tempo. A situação melhorou nos últimos anos, mas o universo motorizado ainda lembra um território sem lei. Muitos caminhões insistem em trafegar pela faixa da esquerda, ainda que não haja nenhum carro à direita. E nosso motorista, como todos os demais, ultrapassava a todos pela direita. Quando um caminhão iniciava a ultrapassagem de outro, ele não tinha dúvida: ia pela direita e fechava o caminhão que estava realizando a ultrapassagem, em uma “costura” que me deixava de cabelo em pé. Em algumas ocasiões, a manobra era abortada no último minuto, diante da ausência de espaço no qual poderíamos entrar.

Para completar, havia o temor de que o motorista dormisse. Afinal, chegamos ao destino apenas às 2h da manhã de segunda. Wendy começou a fazer perguntas, na esperança de deixá-los desperto e recebia como respostas monossilábicos “hum”. Até que ele emitiu um sinal bem mais contundente, um sonoro e explícito bocejo. “Você está com sono?”, perguntou Wenday, recebendo como resposta um inequívoco “sim”.

Depois de muitas ultrapassagens arriscadas e tentativas vãs de comunicação com o motorista, finalmente chegamos ao destino. Hoje (segunda), acordamos cedo para uma jornada de entrevistas e visitas e uma nova queda de temperatura que nos pegou desprevenidas. Exaustas e congelando, não conseguimos encontrar táxis disponíveis para voltar ao hotel no horário do rush _que aqui também é por volta das 18h. Acabamos nos rendendo a um dos milhares de triciclos que existem em toda a China, incluindo em Pequim. O trajeto foi mais demorado e, o preço, mais caro, mas nos divertimos.

Aí vai a foto de Wendy no triciclo:

Cláudia Trevisan/AE

Cláudia Trevisan/AE

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