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Cláudia Trevisan

25.março.2010 05:02:51

As razões do Google

Desde a Olimpíada de Pequim, em agosto de 2008, o Google enfrentou dificuldades crescentes para atuar na China, em razão do aumento da pressão das autoridades para que o site ampliasse cada vez mais a autocensura do conteúdo buscado por seus usuários no país. A avaliação foi feita por um dos principais executivos da empresa, David Drummond, em entrevista a James Fallows, da revista The Atlantic, veiculada no blog do jornalista.

“Apesar de nós estarmos ampliando nossa fatia de mercado, se tornou cada vez mais difícil para nós operarmos lá [na China]. Particularmente em relação à censura. Nós tínhamos que censurar cada vez mais. A situação ficou sensivelmente pior, não apenas para nós, mas para outras companhias de internet também”, disse Drummond, autor do comunicado postado no blog oficial da companhia que anunciou a decisão de transferir o site chinês para Hong Kong.

O executivo afirmou que a decisão do Google de não mais praticar a autocensura na China está relacionada aos ataques de hackers contra seu sistema mencionados no dia 12 de janeiro, quando a companhia divulgou pela primeira vez a possibilidade de sair do país asiático. Segundo ele, o alvo eram quase exclusivamente contas do Gmail utilizadas por ativistas de direitos humanos dentro e fora da China. “Havia um aspecto político nesses ataques de hackers que era bastante inusual”, observou.

A empresa avaliou que a incoporação das regras da censura a seu mecanismo de buscas a transformava em uma espécie de cúmplice do regime chinês. “Para nós, pareceu que isso tudo era parte de um amplo sistema voltado a suprirmir a [liberdade de] expressão, seja pelo controle das buscas na internet ou pela tentativa de vigiar ativistas. Tudo era parte do mesmo programa repressivo, do nosso ponto de vista. Nós sentimos que estávamos sendo parte disso.”

O governo chinês se esforça para neutralizar o caráter político da decisão do Google. Todos os jornais do país repetiram a posição de que a transferência do google.cn para Hong Kong teve motivações puramente comerciais, ligadas às dificuldades da companhia em ampliar sua fatia no mercado local.

A China é um dos poucos países do mundo em que o Google não é o líder do mercado de buscas. Essa posição é ocupada pelo Baidu, que detém uma fatia de 63% desse segmento e que será o maior beneficiado pela saída do site norte-americano da China.

A entrevista de Drummond a Fallows pode ser lida aqui.

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A decisão do Google de fechar seu site na China e deixar de censurar os resultados de suas buscas não aumentou o acesso dos internautas chineses a informações proibidas pelas autoridades de Pequim. O Google deixou de praticar a censura, mas o governo chinês, não. A diferença é que antes o site tinha a obrigação de incorporar a seu sistema de buscas os filtros impostos pela autoridades locais _ou seja, a censura era “terceirizada” para a empresa.

Agora, o bloqueio é realizado pelo mecanismo oficial que impossibilita a abertura dos milhares de sites que trazem informações “sensíveis”, o que inclui independência do Tibete ou a defesa do pluripartidarismo. A prática da censura foi uma das condições aceitas pela companhia norte-americana para entrar na China, em 2006, e criar o google.cn, específico para o público do país.

Ontem, esse site deixou de existir e seus usuários passaram a ser redirecionados para o google.cm.hk, com sede em Hong Kong. Apesar da nova roupagem, as restrições de acesso às informações continuaram a ser as mesmas, em razão da “grande muralha de fogo” erguida pelos censores chineses em torno da internet. Essas restrições se aplicam a outros sites de busca, como o Yahoo!, que não possui uma versão específica para a China, e o google.com em inglês, que continua a ser acessado no país.

Os limites da censura não são claros e páginas que podem ser abertas em um período deixam de ser acessíveis em outros, especialmente durante encontros importantes do Partido Comunista. Ontem, a muralha parecia estar mais alta que o usual. A pesquisa com o nome o nome da seita “falun gong”, banida pelo governo chinês nos anos 90, trazia como resposta uma página em branco e a mensagem “O Internet Explorer não pode exibir a página da Web”.

Nos lugares onde não há censura, esse é o texto que aparece quando há problemas na conexão. Falun gong é um tema sempre sensível, mas há períodos em que pelo menos os resultados da busca aparecem _só que os links exibidos não podem ser abertos. No google.cn, a mensagem que era exibida como resultado de buscas bloqueadas era “de acordo com leis, regulamentos e políticas locais, parte da pesquisa não pode ser mostrada”.

Em 2006, o Google concordou em aceitar a censura porque estava tendo dificuldades em expandir sua presença na China. Muitos usuários acreditavam que o site tinha problemas de conexão quando buscavam algo bloqueado pelo governo. Ao se submeter às regras, a companhia passou a atuar em igualdade de condições com seu principal concorrente, o Baidu, que lidera o mercado, com uma fatia de 63%.

O governo de Pequim tentou ontem amenizar o impacto da decisão do Google de fechar seu site chinês e caracterizou o movimento como algo puramente comercial. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Qin Gang, afirmou que o fato não deve abalar as relações entre a China e os Estados Unidos, a menos que “alguém politize a questão”. Na sexta-feira, quando o fechamento do google.cn parecia iminente, o jornal oficial “China Daily” publicou reportagem segundo a qual os Estados Unidos estão utilizando a decisão da empresa para endurecer sua posição em relação à China. “O caso Google deu aos Estados Unidos a oportunidade de readotar sua posição linha-dura e distanciar-se da diplomacia ‘smart’ que vinha sendo adotada em relação à China”, dizia a abertura do texto, citando termo criado pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton.

Para a China, o fato de uma das maiores empresas do mundo deixar o país sob o argumento de não ter um ambiente propício ao desenvolvimento de seus negócios é um desastre de relações públicas. O dano é ainda maior por tratar-se de uma das companhias mais inovadoras do planeta _qualidade que as autoridades de Pequim querem atrair cada vez mais para o país. O Google enfrentará um período de incerteza em relação a seu futuro na China, onde há quase 400 milhões de internautas, a maior população online do mundo.

“Não se sabe qual será a consistência do serviço que será prestado a partir de Hong Kong e ninguém sabe se o Google será bloqueado ou não na China continental”, afirmou Cao Junbo, analista-chefe da consultoria iResearch. O governo chinês pode simplesmente impedir o acesso a todos os serviços prestados pelo Google a partir do exterior, mas é pouco provável que isso ocorra, pelo menos no curto prazo.

A decisão seria extremamente prejudicial para pesquisadores e professores universitários que buscam informações científicas por meio do site norte-americano. Também afetaria as empresas que utilizam os serviços do Google em seus negócios, incluindo o Gmail. Levantamento realizado pela revista Nature junto a 784 cientistas chineses indicou que 80% deles se valem do Google regularmente para busca de estudos acadêmicos. Divulgada no início do mês, a pesquisa mostrou ainda que 48% acreditam que seus esforços de pesquisa serão “significativamente” prejudicados se eles perderem acesso ao Google, enquanto outros 36% disseram que seriam “parcialmente” afetados.

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22.março.2010 00:07:13

A terra do R$ 1,99

Não foi apenas pela mão de obra barata e o câmbio competitivo que a China ultrapassou a Alemanha neste ano e se transformou no maior exportador do mundo. Nas últimas três décadas de reforma e abertura econômica, Pequim construiu uma máquina de vender, com estradas, portos e aeroportos modernos, que ficam prontos antes mesmo de serem necessários.  Na China, não há gargalo de infraestrutura que limita o crescimento do Brasil. No começo dos anos 80, o país asiático tinha participação inferior a 1% no comércio mundial, semelhante à da brasileira na mesma época. Agora, o percentual gira em torno de 8%, enquanto nós estamos um pouco acima de 1%. Também não existe o gargalo burocrático da demora do processamento das exportações.

 Neste mês eu estive em Yiwu, cidade que é a fonte mundial de produtos de consumo baratos que alimentam mercados populares de todo o mundo, incluindo a 25 de Março em São Paulo e as lojas de R$ 1,99 espalhadas pelo Brasil. As compras acontecem em um imenso mercado com 4 milhões de metros quadrados _algo como 30 shoppings Iguatemi_, onde há 62 mil boxes de venda. Diariamente, circulam pelo local 400 mil pessoas _200 mil vendedores e 200 mil compradores.

Yiwu está a 300 quilômetros do mar, mas o governo criou em 2002 um centro logístico para facilitar as exportações, onde as mercadorias são colocadas em contêiners e carregadas em caminhões com destino aos portos de Ningbo ou Xangai. Desde o ano passado, a cidade também tem um posto de alfândega, que faz a liberação das mercadorias que serão destinadas a outros países. Em 2009, o centro logístico de Yiwu despachou 440 mil teu (unidade que equivale a um contêiner de 20 pés), segundo sua diretora Zhu Jiao Li. O volume equivale a 20% dos contêiners movimentados no porto de Santos, o maior da América Latina.

O centro logístico funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, com exceção do período do Ano Novo chinês, quando fecha por uma semana. Todos os fins de tarde chegam ao local as mercadorias que foram negociadas durante o dia, que são colocadas nos contêiners e acomodadas em caminhões.

Depois da inspeção e liberação alfandegária, formam-se filas imensas de caminhões à noite, que congestionam a redondeza quando saem em direção aos portos. O mais utilizado por Yiwu é o de Ningbo, a 300 quilômetros de distância.

Se você quiser saber mais sobre Yiwu, clique aqui para ler reportagem publicada ontem no Estadão.

Aí vão algumas fotos do lugar:

O mercado de Yiwu é tão grande que não é possível capturá-lo em uma só foto. Esta mostra a entrada para o distrito 3 (no total, são quatro):

Entrada da fase 2 - Cláudia Trevisan/AE

Entrada da fase 2 – Cláudia Trevisan/AE

 

Esta é a entrada do distrito 4, o mais novo. Ao fundo, é possível ver os guindastes utilizados em obra para ampliação do  mercado de Yiwu.

Entrada do distrito 4 - Cláudia Trevisan/AE

Entrada do distrito 4 – Cláudia Trevisan/AE

 

Dentro  do mercado:

Compra de bijuterias - Cláudia Trevisan/AE

Compra de bijuterias – Cláudia Trevisan/AE

 

Vendedor faz demonstração de helicóptero com controle remoto - Cláudia Trevisan/AE

Vendedor faz demonstração de helicóptero com controle remoto – Cláudia Trevisan/AE

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O Banco Mundial elevou de 9,0% para 9,5% sua projeção de crescimento da China neste ano, ao mesmo tempo em que e defendeu a valorização do yuan em relação ao dólar e a elevação dos juros para conter expectativas inflacionárias, evitar a formação de bolhas de ativos e rebalancear a economia. Em sua avaliação trimestral sobre a China, a instituição ressaltou que a situação local é distinta à da maioria dos demais países e demanda uma política monetária mais apertada que a do ano passado, quando o volume de novos créditos dobrou em relação ao período anterior, para US$ 1,4 trilhão, o equivalente a 30% do PIB.

“A crise financeira mundial nos ensinou que a política monetária tem um papel central para evitar a criação de bolhas de ativos. A China tem condições de ter uma taxa de juros mais alta e a maior flexibilidade na taxa de câmbio ajudaria a reduzir o temor de aumento do fluxo de capitais para o país”, afirmou Louis Kuijs, economista-sênior do Banco Mundial em Pequim.

Depois da reforma do regime cambial em 2005, a China voltou a vincular a cotação de sua moeda ao dólar a partir de meados de 2008. Desde então, o yuan está estabilizado no patamar de 6,83 por US$ 1,00. A paridade com o dólar faz com que Pequim tenha que seguir a política monetária dos Estados Unidos, que está com juros extremamente baixos para enfrentar a queda na atividade econômica.

A China cresceu 10,7% no último trimestre de 2009 e fechou o ano com expansão de 8,7%, de longe o maior índice entre os grandes países. Apesar do aquecimento econômico, a China enfrenta restrições para elevar os juros, porque o movimento pode estimular a entrada de capitais no país, dificultando a manutenção do câmbio fixo. É por isso que o Banco Mundial defende a apreciação da moeda. “O fortalecimento da taxa de câmbio pode ajudar a reduzir as pressões inflacionárias e rebalancear a economia. Com o tempo, a maior flexibilidade cambial pode permitir que a China tenha uma política monetária independente das condições cíclicas dos Estados Unidos, o que é cada vez mais necessário”, observa o relatório trimestral divulgado ontem.

Pequim enfrenta pressão internacional crescente para apreciar sua moeda. Nesta semana, senadores norte-americanos apresentaram proposta de legislação que classifica a China como um país que manipula o câmbio para obter vantagens comerciais, o que abriria caminho para a imposição de sobretaxas na importação de seus produtos. Com isso, eles esperam neutralizar o que consideram como vantagem indevida das vendas chinesas.

Os críticos afirmam que a cotação do yuan é mantida artificialmente entre 20% e 40% abaixo do que seria o patamar correto, caso forças de mercados definissem o seu valor. A moeda depreciada aumenta a competitividade das exportações chinesas, na medida em que reduz os seus preços em dólares. O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, afirmou no domingo que o yuan não está depreciado e disse que seu valor será mantido em um patamar “estável”.

Os economistas do Banco Mundial não se referiram ao impacto do câmbio sobre as exportações e destacaram apenas os efeitos que uma moeda valorizada teria sobre a economia chinesa. “Se há inflação e fluxo de capitais, o fortalecimento da taxa de câmbio faz parte do arsenal para enfrentar esses problemas e também ajuda no objetivo de rebalancear a economia, na medida em que muda os preços relativos e cria incentivos para o consumo doméstico”, destacou Ardo Hansson, economista-chefe do Banco Mundial na China.

A instituição espera crescimento de 8,7% em 2011, mas ressalta que o país enfrenta riscos decorrentes da grande expansão monetária no ano passado. Os mais preocupantes são a alta do preço dos imóveis, que pode indicar uma bolha no setor, e a piora das finanças dos governos locais, em razão do grande volume de empréstimos contraídos em 2009 para construção de obras de infraestrutura.

Além de defender a alta dos juros, Kuijs ressaltou que o governo terá de ser estrito neste ano no cumprimento da meta de expansão do crédito em 7,5 trilhões de yuans (US$ 1 trilhão), para reduzir os riscos relacionados ao aumento da liquidez. O mercado imobiliário está “superaquecido”, na avaliação da instituição, e registrou alta de preços de 10,7% no mês de fevereiro, o mais elevado índice dos últimos dois anos.

Os economistas do Banco Mundial não consideram que a inflação seja um problema, apesar da alta de 2,7% no Índice de Preços ao Consumidor registrada em fevereiro. Segundo Kuijs, há capacidade ociosa no mundo, o que deve conter as remarcações de produtos manufaturados, enquanto as cotações das commodities não deverão ter elevação significativa em 2010 _o Banco Mundial prevê alta média de 5,3%, excluído o petróleo, cujo preço passaria de US$ 61,80 em 2009 para US$ 76,00 neste ano. (Este texto foi publicado na edição de hoje do jornal O Estado de S.Paulo)

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O socialismo com características chinesas continua a produzir bilionários em escala industrial. O número de endinheirados do país com patrimônio superior a US$ 1 bilhão que aparecem na última lista da Forbes mais que dobrou neste ano. Agora, a terra de Mao Tsé-tung tem 64 representantes no ranking, o segundo maior grupo do mundo, atrás apenas dos norte-americanos. Em 2008, havia 28 na lista da Forbes.

 O primeiro colocado da China ocupa a 103ª posição entre as 500 pessoas mais ricas do mundo elencadas na revista. Ele é Zong Qinghou, fundador da empresa de bebidas Wahaha, e possui um patrimônio de US$ 7 bilhões. Como quase todos os bilionários chineses, Zong tem um passado de pobreza e uma fortuna construída a partir do zero. O homem mais rico da China recebeu pouca educação formal, trabalhou no campo e começou seu negócio com um empréstimo de US$ 20 mil. Como muitos outros, Zong é filiado ao Partido Comunista e é delegado do Congresso Nacional do Povo desde 2002.

 Os ricos chineses são autênticos novos-ricos, já que não se valeram do dinheiro de suas famílias para construírem seus negócios. A própria existência de bilionários é algo absolutamente recente no país _os primeiros apareceram só em 2004 e eram apenas três. A partir daí, o grupo se expandiu com rapidez superior ao alucinante ritmo de crescimento da economia chinesa.

 O segundo lugar entre os chineses na lista da Forbes é ocupado por Liu Yongxing (154ª posição no ranking global), dono da empresa de alimentos East Hope Group e detentor de um patrimônio de US$ 5 bilhões. A exemplo de quase todos os chineses da lista, Liu é definido pela Forbes como um “self made” bilionário.

Em seguida aparece Zhang Jindong, que aos 47 anos tem uma fortuna de US$ 4,5 bilhões construída com uma rede de lojas para a venda de eletrônicos.  A quarta posição é de Wang Chuangfu, de 44 anos, dono da montadora de carros elétricos BYD. Wang tem um patrimônio de US$ 4,4 bilhões segundo a Forbes e apareceu em primeiro lugar em outro popular ranking de ricos chineses, o Hurun Report, divulgado em outubro de 2009.

 A lista da Forbes pode ser vista  aqui e da Hurun, aqui.

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12.março.2010 07:01:07

Chi le ma?

Comer é uma das coisas mais importantes da cultura chinesa. Até pouco tempo, as pessoas se cumprimentavam com a expressão “chi le ma?”, que significa “você já comeu?”, em vez do atual “ni hao”, algo como “tudo bem?”. Chefes de cozinha são extremamente respeitados e os bons restaurantes vivem lotados. Na semana passada fui com amigos a um enorme, especializado em comida de Sichuan, e tivemos que esperar uns 40 minutos por uma mesa. Isso apesar de chegarmos mais tarde que o horário no qual as pessoas costumam jantar por aqui (a partir das 18h ou 18h30).

Mas os chineses também adoram comer na rua e os mercados de comida estão entre as principais atrações das cidades. Pequim é cheia de minúsculas portas, muitas com uma só mesa na calçada, que vendem comida no local ou para levar. Sei que estou ficando repetitiva, com o terceiro post sobre o tema comida em pouco tempo, mas o assunto é inesgotável…Prometo mudar no próximo post.  

Aí vão algumas imagens da gastronomia de rua da China:

Espetinhos em rua de Pequim

Espetinhos em rua de Pequim – CláudiaTrevisan/AE

 

Banca de comida - Cláudia Trevisan / AE

Banca de comida – Cláudia Trevisan / AE

 

Comida ao ar livre - Cláudia Trevisan/AE

Comida ao ar livre – Cláudia Trevisan/AE

 

"Vitrine" em Suzhou - Cláudia Trevisan/AE

"Vitrine" em Suzhou – Cláudia Trevisan/AE

 

Espetinhos em Pequim - Cláudia Trevisan/AE

Espetinhos em Pequim – Cláudia Trevisan/AE

 

"Janela" de venda de massas em Pequim - Cláudia Trevisan/AE

"Janela" de venda de massas em Pequim – Cláudia Trevisan/AE

 

Restaurante muçulmano em Suzhou - Cláudia Trevisan/AE

Restaurante muçulmano em Suzhou – Cláudia Trevisan/AE

 

Sem palavras - Cláudia Trevisan/AE

Sem palavras – Cláudia Trevisan/AE

 

Cozinheiros descansam no distrito artístico 798

Cozinheiros descansam no distrito artístico 798 – Cláudia Trevisan

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10.março.2010 11:27:38

Cats and dogs

A CNN transmitiu hoje reportagem sobre mercados de venda de carne de carrocho e gato em Guangdong, a província do sul da China que come tudo o que anda, nada e voa. O vídeo também mostra os restaurantes onde pratos com cachorros e gatos são servidos e apresenta as discussões em torno da proposta de proibir o consumo desse tipo de carne. Quem se interessar, pode ver a reportagem  aqui.

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Considerada a maior coreógrafa e dançarina moderna da China, Jin Xing nasceu homem e começou seu treinamento de ballet na trupe do Exército de Libertação Popular, no qual ascendeu até a patente de coronel.

A identidade feminina chegou em 1995, quando a artista realizou a primeira cirurgia de mudança de sexo autorizada pelo governo chinês. Apesar da transformação, Jin Xing manteve o mesmo nome, que significa “Estrela Dourada”.

Com 42 anos, casada e mãe de três filhos adotivos, ela celebra neste ano uma década de sua companhia de dança, a “Shanghai Jin Xing Dance Theatre”, a primeira de caráter privado a ser estabelecida na China comunista. No mês passado, o grupo se apresentou pela primeira vez no Teatro Nacional de Pequim, a imponente construção em forma oval concebida pelo Partido Comunista como o principal centro de apresentação de obras de teatro, ópera, dança e música do país.

Jin Xing tinha 9 anos quando foi selecionado pelo governo para integrar o grupo de dança do Exército de Libertação Popular. Naquela época, já tinha o desejo que definiria sua vida: ser mulher e atuar em um palco. Além de dançarina, coreógrafa e empresária, ela canta, faz filmes e participa de programas de TV.

A cirurgia de mudança de sexo deu a identidade de gênero que ela buscava e ampliou sua liberdade de movimentos como dançarina. “Quando eu era homem e dançava com muita sensibilidade as pessoas pensavam que havia alguma coisa errada. Como mulher, eu posso ter os dois lados. Eu mantenho a força do dançarino masculino e continuo a desenvolver minha sensibilidade como mulher. Essa combinação é que faz Jin Xing única”, disse em entrevista ao Estadão em seu camarim no Teatro Nacional.

O treinamento militar deu disciplina, rigor técnico e capacidade de liderança que ela considera fundamentais para dirigir sua companhia e desenvolver sua carreira. 

“Nós anos 70 nós éramos educados de acordo com os princípios do ballet russo e também recebíamos treinamento em dança chinesa, acrobacia e kung-fu. Esse treinamento físico é o melhor que eu poderia ter. E como eu também era um oficial, recebia ainda treinamento militar”.

O primeiro contato de Jin Xing com a dança moderna ocorreu em 1987, quando ela ainda era “ele” e foi selecionado para estudar em Nova Iorque, dentro de um programa de cooperação cultural entre a China e os Estados Unidos. “Eu não tinha a menor ideia do que era dança moderna e fui a primeira pessoa da China a receber educação em dança contemporânea”, lembra. Depois de quatro anos em Nova Iorque, Jin Xing ficou dois anos na Europa, antes de voltar à China.

Determinada a fazer a cirurgia de mudança de sexo, ela se afastou do Exército em 1994 e começou o trabalho de convencimento das autoridades chinesas para obter autorização. Jin Xing queria ser mulher, dançarina e coreógrafa em seu próprio país.

“Eu poderia ter sido uma ótima artista de minoria étnica na Europa. Isso era fácil. Mas minha identidade cultural é profundamente chinesa e eu queria voltar para desenvolver meu trabalho aqui.”

Apesar da decisão, a bailarina acredita ser mais reconhecida no exterior do que em seu país. “Lá for a eu sou a rainha da dança chinesa. Aqui, eu sou a filha adotiva que não é a predileta dos pais”, diz. Ainda assim, Jin Xing ressalta que não está nos seus planos deixar a China novamente. “Talvez que não concorde totalmente com o sistema e o governo, mas eu amo este país e sua cultura.”

Hoje ela acredita que sua influência vai muito além dos palcos. “A existência de Jin Xing e sua companhia na China significam muito para as pessoas jovens, sobre como você se identifica como indivíduo e como persegue sua visão artística, seus sonhos e crenças”, afirma.

Algumas das criações de Jin Xing são bastante experimentais e outras embaralham os limites de dança, teatro e música. Para a apresentação em Pequim, a dançarina escolheu a peça solo “Sob a pele – perto e longe”, na qual despeja reflexões desconexas sobre a vida moderna enquanto dança sobre um tabuleiro de luzes que acendem e apagam.

Há quatro anos, Jin Xing adicionou mais uma persona à sua múltipla existência artística, ao organizar o primeiro festival de dança moderna independente do país, em Xangai, que teve participação da companhia brasileira Qasar na edição de 2006.

“Na China esses eventos normalmente são organizados pelo governo e os responsáveis por eles não têm formação cultural e não sabem identificar uma boa obra. Eles só dizem ‘ok, vamos comprar’. Mas não se organiza um festival de arte dessa maneira.”

Jin Xing é extremamente feminina e gesticula com delicadeza enquanto fala. A artista observa que a cirurgia para mudança de sexo permitiu que finalmente ela tivesse uma identidade na qual se reconhece. O novo papel lhe caiu tão bem que Jin Xing hoje dá conselhos às mulheres chinesas nas entrevistas que concede a revistas de moda e comportamento. “Eu sempre digo que se uma mulher não está preparada para ser mãe, amante e esposa, ela não deve se casar com um homem. Homens são meninos grandes. Você tem que ser sua esposa e, ao mesmo tempo, ser sua mãe e amante. Se você não faz isso, o casamento se torna muito difícil.”

(Este texto  saiu publicado no Carderno 2 do Estadão no dia 24 de fevereiro)

Aí vão duas fotos dela:

Jin Xing em seu camarim, no Teatro  Nacional - Cláudia Trevisan/AE

Jin Xing em seu camarim, no Teatro Nacional – Cláudia Trevisan/AE

Jin Xing no palco - Foto de divulgação

Jin Xing no palco – Foto de divulgação

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07.março.2010 04:17:36

Visão noturna – 2

A nova China adora luzes e todas as grandes cidades são marcadas por neons e alguns prédios que possuem toda a fachada iluminada, como o que vejo da minha janela. Suas luzes mudam de cor, piscam e fazem desenhos. Até as chaminés ganham iluminação colorida. Há uma em frente ao meu condomínio, de uma termelétrica.

Aí vão as fotos:

Prédio com a fachada iluminada de vermelho - Cláudia Trevisan/AE

Prédio com a fachada iluminada de vermelho – Cláudia Trevisan/AE

 

 

Com luzes azuis - Cláudia Trevisan/AE

Com luzes azuis – Cláudia Trevisan/AE

 

 

Agora, em roxo. Embaixo à esquerda está o telão da fachado do shopping, que muda de cores e desenhos constantemente - Cláudia Trevisan/AE

Agora, em roxo. Embaixo à esquerda está o telão da fachado do shopping, que muda de cores e desenhos constantemente – Cláudia Trevisan/AE

 

 

A chaminé da termelétrica que fica do outro lado da rua - Cláudia Trevisan/AE

A chaminé da termelétrica do outro lado da rua – Cláudia Trevisan/AE

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“Ai, eles ainda estão vivos…” Quando minha assistente Wendy deu o alerta, já era tarde. Os camarões haviam sido deixados em nossa mesa, atravessados por palitos de madeira ao longo de todo o corpo. Ainda mexiam as pernas e a cabeça, o que fazia com que alguns literalmente pulassem no prato. O pior é que não podíamos abreviar sua agonia imediatamente. A água onde deveríamos colocá-los ainda não havia começado a ferver. Ficamos alguns minutos assim, tentando não olhar para os camarões, enquanto os garçons deixavam na mesa cogumelos, verduras, tiras de carne, tofu e wanton, a versão local do cappelletti. Era o início de nosso “hot pot”, uma espécie de fondue chinês, no qual ingredientes escolhidos entre uma infinita variedade são jogados em uma panela com água fervente temperada.

Logo que sentamos, o maitre nos informou que os camarões eram oferta da casa. Só não avisou de que a tarefa de matá-los seria terceirizada do cozinheiro para nós. Os chineses gostam de peixes e frutos do mar realmente frescos e muitos restaurantes têm tanques nos quais os animais são mantidos vivos até o momento em que devem ser preparados. Alguns peixes são cozidos tão rapidamente que chegam à mesa ainda abrindo e fechando a boca. Como o “hot pot” é feito pelos clientes, servir os camarões vivos é a melhor maneira de mostrar que eles acabaram de ser retirados do tanque. Depois de uma breve discussão comigo mesma sobre se deveria ou não comê-los, decidi que sim e os coloquei na água assim que ela começou a ferver.

O sabor era ótimo, mas confesso que a experiência foi perturbadora, o que reafirmou minha convicção de que não posso experimentar outro prato célebre chinês: “camarões bêbados”, no qual os animais não são apenas servidos vivos _eles são comidos vivos. Os camarões chegam à mesa mergulhados em uma travessa cheia de “baijiu”, a aguardente chinesa. Os comensais devem pescá-los com seus palitos, arrancar a cabeça do camarão e colocá-los na boca, com as pernas ainda em movimento. Os mais destemidos mastigam o camarão inteiro, com a cabeça e as antenas.

Pela curta narrativa acima já deu para perceber que os chineses têm uma relação totalmente diferente com animais que os ocidentais. Já pensei muito sobre as razões e uma das hipóteses é a onipresença que a vida rural ainda tem na China. Metade da população ainda vive no campo e os que estão na cidade iniciaram sua vida urbana há pouco tempo. Um exemplo: acabei de pegar um vôo para Pequim em Hangzhou, uma das mais ricas cidades da China. Enquanto esperava, os alto-falantes anunciaram que alguém havia esquecido um saco de laranjas na entrada para os portões de embarque e que poderia retirá-lo na segurança. Quem no Brasil viaja de avião com um saco de laranjas? Na China, muita gente. E alguns descascam as laranjas durante o vôo.

Em 1978, quando teve início o processo de abertura, 82% da população vivia em vilas rurais, onde geladeiras ainda eram objeto de luxo. Por fim, os chineses passaram ao longo de sua história por vários períodos de fomes devastadoras, que provocaram a morte de milhões de pessoas. A mais recente delas foi durante o Grande Salto Adiante (1958-1962), a desastrada tentativa de Mao Tsé-tung de industrializar o país em velocidade recorde. A brutal queda na produção agrícola fez com que cerca de 30 milhões de chineses morressem de fome.

Aí vão as fotos dos camarões e do “hot pot”:

Camarões vivos em espetos - Cláudia Trevisan/AE

Camarões vivos em espetos – Cláudia Trevisan/AE

 

Ingredientes do "hot pot" - Cláudia Trevisan/AE

Ingredientes do "hot pot" – Cláudia Trevisan/AE

 

Os camarões cozidos - Cláudia Trevisan/AE

Os camarões cozidos – Cláudia Trevisan/AE

Tanques de peixes e frutos do mar - Cláudia Trevisan/AE

Tanques de peixes e frutos do mar – Cláudia Trevisan/AE

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