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Cláudia Trevisan

25.fevereiro.2010 10:48:03

O modelo coreano

Na década de 60, a Coreia do Sul era uma das nações mais pobres do mundo, destroçada por uma guerra que destruiu 25% da riqueza nacional e matou 5% da população civil. Hoje, o país tem um PIB per capita quase três vezes superior ao brasileiro (calculado pela paridade do poder de compra) e uma economia impulsionada pela alta tecnologia. Quando estive em Seul, o que mais me impresssionou foi a onipresença de marcas coreanas no quotidiano das pessoas. Nas ruas, a maioria dos carros são Hyundai, Daewoo ou Kia. Os celulares são LG, Samsung, Anycall e Cyon. Nas casas e hoteis, os aparelhos de TV também são Samsung ou LG.

A trajetória coreana atrai a atenção de todos que se debruçam sobre modelos de desenvolvimento bem sucedidos e isso ficou claro nos comentários feitos no post anterior, “O Brasil e o desafio chinês”. Quando citaram algum país além dos Estados Unidos, esse foi a Coreia. E o aspecto mais ressaltado foi o investimento em educação realizado pelo país desde os anos 60. Decidi ler mais sobre o assunto e encontrei um estudo revelador da economista Irma Adelman, da Universidade Berkeley, que analisa o desenvolvimento coreano de 1953 a 1993. No período de 1953 _quando termina a guerra da Coreia_ a 1961, houve pesados investimentos em educação, que reduziram o analfabetismo de 70% para 20%. Entre 1961 e 1966, a quantidade de alunos matriculanos no ensino primário e secundário cresceu 30%, enquanto o número de estudantes universitários dobrou.

De acordo com Adelman, em 1966 a Coreia atingiu a educação primária universal e tinha um índice de pessoas em universidades superior ao da Inglaterra. Conquistada a universalidade na educação primária, o país experimentou na etapa seguinte (1967-1971) o aumento de 28% da quantidade de estudantes no secundário e de 20% nas universidades. A prioridade dada ao ensino primário e secundário teve um efeito igualitário na sociedade coreana, na avaliação de Adelman.

Advinha qual o exemplo contrário que ela cita no estudo? Sim, o Brasil. A estratégia coreana “contrastou com a do Brasil, por exemplo, onde o ensino secundário era restrito à elite e suficiente apenas para alimentar as matrículas nas universidades”. A situação tupiniquim mudou desde que ela escreveu o estudo, mas a educação ainda está muito longe do grau de penetração que tem na sociedade sul-coreana.

O caráter mais igualitário do país asiático também tem origem em condições que antecedem o período de crescimento econômico, entre elas a distribuição equitativa de terras e de ativos logo depois da guerra, ressalta Adelman. Esse é outro aspecto no qual a Coreia se distingue do Brasil, onde a concentração de riqueza é enorme. A estratégia de Seul tem mais um ingrediente de peso, que é o forte papel do Estado no desenho da economia nacional. No período de 1967 a 1971, o crescimento do país passou a ser impulsionado pela exportação, com indústrias intensivas em mão-de-obra e uma desvalorização de 100% da moeda, que deu competitividade aos produtos coreanos no exterior. Em 2009, a Coreia do Sul foi o oitavo maior exportador do mundo, à frente da Inglaterra.

Na etapa seguinte, de 1973 a 981, o Estado definiu seis setores estratégicos, que passaram a receber incentivos para seu desenvolvimento: produção de aço, indústria naval, eletrônicos, máquinas, petroquímico e metais não-ferrosos. A realidade atual da economia sul-coreana reflete em grande parte as escolhas feitas naquela época. O país é o maior fabricante de navios do mundo, o sexto produtor de aço e possui um setor eletrônico que está entre os mais inovadores do planeta.

Antes que me acusem de omissão, é bom lembrar que o “milagre” sul-coreano se deu sob um regime militar autoriátio, instalado por meio de um golpe de Estado em 1961. As eleições diretas só voltaram em 1987 e o primeiro presidente civil foi eleito apenas em 1993. Grande parte das transformações econômicas vividas pelo país nas décadas de 60 e 70 são fruto do caráter nacionalista e desenvolvimentista do general Park Chung-hee (1917-1979), responsável pelo golpe de 1961 e dirigente do país até seu assassinato, em 1979.

Park instaurou a Lei Marcial em 1972 e governou nos anos seguintes de maneira cada vez mais autoritária, com a prisão de centenas de opositores e a repressão a todo o tipo de oposição.

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Foto: Claudia Trevisan/AE

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O Brasil precisa desenvolver uma estratégia de relacionamento com a China, se não quiser se tornar uma neocolonia cujo papel é fornecer as matérias-primas que o país asiático demanda com voracidade crescente. O alerta foi feito em entrevista que realizei com o especialista em China David Shambaugh, da George Washington University, publicada hoje no Estadão.

A China representa de longe o maior desafio para o futuro econômico do Brasil e requer uma estratégia não apenas para a relação bilateral, mas para nossa inserção global. No sábado, o Estadão publicou reportagem do correspondente em Genebra, Jamil Chade, sobre as recomendações de um grupo de economistas liderados por Joseph Stiglitz para os países em desenvolvimento que têm aspiração de um dia se tornarem desenvolvidos. 

O conselho é óbvio: a agricultura e a exploração de recursos naturais não vão provocar essa mudança. É só pensar no tipo de emprego que esses setores oferecem e no perfil de trabalhadores que demandam. A recomendação do grupo é a de que os países em desenvolvimento invistam em tecnologia e busquem espaços nos quais possam competir com a China.

Isso não significa que o Brasil deixará de exportar produtos agrícolas, minério de ferro e petróleo, áreas nas quais é competitivo. Mas o risco é que o sucesso nessas áreas acabe enfraquecendo a indústria nacional e comprometendo esforços no desenvolvimento de outros setores. Afinal, a China foi o principal destino das exportações brasileiras no ano passado. Reclamar por quê? O fato é que 73% dos US$ 20,2 bilhões que o Brasil vendeu aos chineses no ano passado eram representados por três produtos: minério de ferro, soja e petróleo.

O grupo liderado por Stiglitz , prêmio Nobel de Economia, concluiu que o Brasil precisa de mais “Embraers”, empresas nacionais de alta tecnologia capazes de competir globalmente. A questão é como fazer isso. Há uma antiga discussão sobre o tipo de política industrial que o Brasil deveria adotar e que opõe incentivos horizontais, para todos os setores, ou específicos para segmentos escolhidos como prioritários. A crítica à eleição de determinados segmentos é a de que o Estado estará escolhendo os “vencedores” e, no fim, beneficiando determinadas empresas em detrimento de outras.

Apesar das objeções, me parece cada vez mais inescapável a aposta em certos segmentos que o país considera estratégicos. Também é relevante o empenho no desenvolvimento de companhias genuinamente nacionais, que tenham capacidade de competir globalmente.

A China tem uma estratégica clara de inserção global e tem sido extremamente agressiva na defesa das empresas nacionais que o Estado considera “campeãs” _que são as apostas para a projeção econômica global do país. Além disso, Pequim mudou as regras de atração de investimento estrangeiro direto e deixou de conceder incentivos para os destinados à manufatura barata, como roupas, brinquedos e calçados. Desde 2006, o alvo dos incentivos são inventimentos em alta tecnologia. Com isso, a China quer subir na escala de valor agregado.

Na América Latina, um dos poucos países que não exporta commodities para a China é a Costa Rica, que em 1996 conseguiu atrair um investimento de US$ 300 milhões da fabricante de chips Intel _que quase instalou essa fábrica no Brasil. Hoje a Costa Rica vende chips para a China e tem superávit no comércio com o país asiático.

Talvez o Brasil tenha algo a aprender com a própria estratégia chinesa de planejamento de longo prazo, escolhas estratégicas e defesa de seus interesses nacionais.

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19.fevereiro.2010 02:43:50

Tarantino, Stone e a China

Ontem eu assisti a dois filmes que me fizeram refletir sobre os estritos limites da criação artística na China: “W.” e “Inglourious Basterds”. Nenhuma obra cinematográfica semelhante a essas seria possível no país asiático, e não apenas pela proibição de críticas ao Partido Comunista. A iconoclastia de Quentin Tarantino é impensável em um país que olha sua própria história com um misto de reverência e tabu. Há cinco anos, uma propaganda da Nike para a TV teve que ser retirada do ar porque mostrava um jogador de basquete derrotando um dragão em um jogo de viodegame. Os chineses viram no comercial uma ofensa a suas tradições de 5.000 anos, nas quais o dragão é uma das principais figuras mitológicas.   

Em 2008, a atriz Tang Wei foi banida da indústria cinematográfica do país depois de interpretar uma integrante da resistência que se apaixona por um colaboracionista durante a ocupação da China pelo Japão, nos anos 30, no filme “Lust Caution”, de Ang Lee. As cenas de sexo realizadas pela atriz tiveram peso, mas foi o caráter político da “traição” de seu personagem que levou a seu “desaparecimento” das telas de cinema do país e dos comerciais de TV e revistas que realizava. O banimento incluiu a proibição de qualquer referência à atriz na imprensa chinesa, totalmente controlada pelo Estado. Impossibilitada de trabalhar na China continental, Tang Wei se mudou para Hong Kong no fim de 2008.

A reverência com que os líderes chineses são tratados e a censura às críticas contra o Partido Comunista fazem de um filme como “W.” algo impossível na China. Quando aparecem em filmes, os dirigentes comunistas são herois que não cometem erros. Ponto. A imagem de Mao Tsé-tung no patriótico “A Grande Fundação da Nação”, de 2009, é algo que beira o angelical. Os conflitos, as dúvidas, o fundamentalismo e os equívocos do George W. Bush retratado por Oliver Stone não cabem na muralha levantada pela censura chinesa.

Por fim, existem os tabus históricos posteriores à vitória comunista em 1949, que incluem o Grande Salto Adiante, que matou 30 milhões de pessoas de fome entre 1958 e 1962, e a Revolução Cultural, na qual milhões de pessoas padeceram vítimas de torturas e assassinatos cometidos pelos guardas vermelhos _sem falar dos milhões de jovens enviados à zona rural para serem “reeducados”.

Outro tema ainda mais delicado em razão de sua proximidade temporal é o massacre de estudantes na praça da Paz Celestial em 1989, tratado de maneira enigmática nos livros de história. A versão oficial ensinada nas escolas fala em “incidente” e não faz menção à repressão pelo Exército e às mortes dos manifestantes, que podem ter chegado a 1.000.

Alguns de vocês devem estar se perguntando por que só agora estou falando de dois filmes que estrearam no Brasil há algum tempo. Bem, nenhum deles foi exibido na China, onde a cada ano chegam aos cinemas apenas 20 filmes estrangeiros. Quase todos os que não chegam podem ser comprados por menos de R$ 3,00 nas inúmeras lojas de DVDs piratas de Pequim, logo depois da estréia no exterior. Mas eu não sou uma grande fã do hábito de assistir a filmes na TV e acabei vendo “W.” e “Inglourious Barterds” apenas ontem, aproveitando a calmaria do Ano Novo Chinês. Recomendo ambos. Fortemente.

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15.fevereiro.2010 05:30:07

Avatar na China

Visto como uma grande diversão pela maioria dos mortais, o filme “Avatar” ganhou surpreendentes contornos políticos na China, onde os navis que habitam o planeta Pandora se transformaram em heróis das pessoas que resistem às ordens de descocupar suas casas para dar lugar a empreendimentos imobiliários ou industriais. Esses grupos são chamados de “dingzihu”, o que pode ser traduzido como “famílias-prego”, em razão de sua recusa em sair de onde estão. Em tese, elas só seriam obrigadas a fazer isso contra sua vontade para abrir espaço a projetos de caráter público, como pontes e estradas. Mas na realidade, muitas são forçadas a abandonar suas propriedades para permitir a construção de empreendimentos privados. Os que se recusam, vêem sua vida transformada em um inferno. Quase sempre os empreendedores têm apoio das autoridades locais, que cortam o fornecimento de água e luz dos “dingzihu”. Os navis chineses também enfrentam agressões de grupos armados contratados pelos responsáveis pelas obras.

Ao derrotar os humanos invasores de Pandora, os navis passaram a ser vistos como fonte de inspiração para essas pessoas. “Avatar é um exemplo de sucesso de ‘dingzihu’ que lutam contra a violenta destruição de suas casas”, escreveu um internauta em um fórum de discussão sobre o assunto que recebeu milhares de comentários.

O fenômeno das famílias obrigadas a dar lugar a construções é comum em toda a China, país que se transformou em um verdadeiro canteiro de obras nos últimos 30 anos. A indenização paga pelo imóvel é quase sempre baixa e insuficiente para a compra de outro que seja equivalente. No caso de projetos de infraestrutura é mais difícil resistir à determinação do Estado, já que se trata de obras de interesse público. A hidrelétrica de Três Gargantas, por exemplo, obrigou a remoção de 1,5 milhão de moradores da área onde a represa da usina foi construída. E nem sempre a resistência dos “dingzihu” é motivada apenas por questões econômicas. Várioas moradores dos antigos hugonts de Pequim também se recusam a deixar o lugar onde gerações de suas famílias viveram.

Outro aspecto político menos óbvio de “Avatar” é o fato de o filme ter se tornado o campeão de bilheteria da história do país (como em todo o mundo), no momentoem que o Partido Comunista se empenha em ter campeões nacionais de bilheteria. No ano passado, o governo chinês celebrou o fato de o patriótico “A Grande Fundação da Nação” ter superado “Titanic” e assumido o posto de filme mais visto na história da China. O feito contou com uma enorme ajuda da propaganda oficial, que lançou o filme para marcar a celebração dos 60 anos da Revolução Comunista. “A Grande Fundação da Nação” retrada o período de 1945 a 1949, quando houve a guerra civil entre nacionalistas e comunistas, e apresenta um retrato quase angelical de Mao Tsé-tung. Além de não contar com a propaganda oficial, “Avatar” teve que ser retirado das salas de exibição em 2D para dar lugar a outra obra promovida pelo Partido Comunista, “Confúcio”, que foi um fracasso de público e crítica. O patriotismo dos chineses não resistiu ao apelo de Pandora.

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03.fevereiro.2010 05:37:35

Dia de domingo

O inverno implacável de Pequim subiu a temperaturas mais amenas no fim de semana e eu decidi caminhar com alguns amigos no Hou Hai, um dos antigos bairros de Pequim que se espalha ao redor de um conjunto de três lagos. Como acontece todos os anos, a água congelou e se transformou em uma enorme pista de patinação, para a qual centenas de pessoas se dirigem nos fins de semana.

A temperatura no domingo estava bem superior aos cerca de 15ºC negativos registrados em dezembro e grande parte de janeiro, mas não passava muito do 0ºC. Era como um dia bem frio do inverno paulistano. Nesse clima, foi mais que justificiado o meu espanto ao ver um chinês atravessar a rua à minha frente de calção de banho, chinelo, touca e óculos de natação. Parecia o personagem de um filme de verão entrando no set de filmagens errado, já que todo o cenário ao redor pedia casacos, luvas, cachecóis e botas.

Eu o segui com o olhar e vi que havia um grupo de nadadores que desafiava o frio e se atirava em um pequeno trecho do lago onde o gelo havia derretido. Como várias coisas na China, a prática é adotada em razão da convicção de que faz bem à saúde. Os chineses acreditam que o nadar na água gelada em uma temperatura próxima de zero estimula a circulação _o que é verdade, mas o benefício pode vir acompanhado de efeitos colaterais indesejados. No lago ao lado, os moradores da capital preferiam patinar ou deslizar sobre o gelo em cadeiras, com a ajuda de varetas de ferro e devidamente agasalhados.

Aí vão aos fotos do inverno pequinês:

Chineses se preparam para entrar na água


A “piscina” no lago congelado

Bicicletas com roupas e sapatos dos nadadores

A pista de patinação

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