A China não deixa de assombrar o mundo. A mais recente façanha do país que abriga 20% da humanidade foi alcançar o primeiro lugar no teste que avalia a capacidade de alunos do segundo grau em provas de leitura, ciência e matemática, deixando para trás 64 nações, incluindo todo o time dos ricos. O Brasil não passou da 53ª posição e, em tese, teria muito que aprender com Xangai, a única cidade da China onde o teste foi realizado.
É claro que há investimento em educação, treinamento e valorização dos professores. Mas parte significativa da performance dos chineses se deve a questões culturais e ao valor absoluto dado à educação pela sociedade e as famílias. Já viajei muito pela China e estive em vilas rurais pobres, que não tinham água encanada nem saneamento básico. Apesar disso, todos os pais que entrevistei mantinham seus filhos na escola. E olha que a educação na China, mesmo básica, não é gratuita. A situação está mudando no campo, com a isenção ou redução drástica das anuidades, mas poupar para garantir o estudo dos filhos é prioridade na vida de todos os pais chineses.
Pode-se argumentar que a realidade de Xangai não reflete a situação de toda a China, que é enorme e extremamente diversa. Com a maior renda per capita do país, a cidade tem um índice de analfabetismo de 3,81%, comparado a uma média nacional de 7,10%.
Mas o valor dado à educação é generalizado. Em parte isso reflete o confucionismo e sua ênfase no estudo permanente e no mérito. Não por acaso, outras sociedades fortemente influenciada pela filosofia obtiveram bons resultados no exame, como Hong Kong, Coreia do Sul, Cingapura e Japão, todas entre os dez primeiros colocados.
As crianças chinesas dedicam quase todo o seu tempo aos estudos e permanecem na escola das 8h às 16h, todos os dias. Quando chegam em casa, se dedicam às tarefas, muitas vezes sob supervisão dos pais. Os de famílias mais abastadas ainda têm aulas particulares de inglês, matemática ou música.
A política de filho único também desempenha um papel importante na performance dos estudantes. Os “pequenos imperadores” sofrem pressão constante dos pais para estudarem e garantirem um futuro promissor. Porém mesmo na zona rural, onde as famílias normalmente têm mais de um filho, a exigência dos pais é grande. A educação também é encarada como responsabilidade de toda a família e é comum ver avôs e avós esperarem os netos na saída de escolas chinesas.
A seguir estão algumas fotos de estudantes na zona rural:
Estudantes voltam em fila para casa em vila rural de Henan
Filhos de camponeses na saída de escola em Henan
Avô busca neto na escola
Saída da escola em vila rural de Hebei
Crianças voltam da escola com pais e avós, em vila de Hebei
O governo chinês proibiu que críticos do regime de Pequim deixem o país, com o temor de que eles participem da cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz de 2010, marcada para o dia 10 de dezembro. O vencedor, anunciado há dois meses, é o dissidente Liu Xiaobo, condenado a 11 anos de prisão sob acusação de subversão.
A mais recente “vítima” da ofensiva oficial foi o artista plástico Ai Wei Wei, impedido ontem de embarcar em um vôo para Seul, capital da Coreia do Sul. No dia anterior, o economista Mo Yushi, de 80 anos, foi barrado no aeroporto quando tentava ir para Cingapura.
“Isso me lembra a Revolução Cultural [1966-1976]. Eu sou impedido de ir ao exterior e eles me dizem que é pela segurança nacional. É a mesma lógica”, escreveu Mo em seu microblog. Cerca de dez ativistas já haviam sido impedidos de deixar o país nas últimas semanas.
A premiação de Liu enfureceu Pequim, que deu início a uma ofensiva global para esvaziar a cerimônia, com ameaças de retaliação aos países que enviarem representantes a Oslo. Rússia, Cuba, Marrocos e Iraque estão entre as nações que recusaram o convite para o evento.
Na quinta-feira, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Jiang Yu, afirmou que Liu é um criminoso, condenado nos termos da legislação do país. Segundo ela, a sua escolha para o Prêmio Nobel da Paz é “uma flagrante provocação e interferência na soberania judicial da China”.
Desde o anúncio da premiação, as autoridades de Pequim aumentaram a vigilância sobre críticos que poderiam participar do evento e colocaram alguns deles em prisão domiciliar.
A própria mulher de Liu Xiaobo, Liu Xia, está confinada em seu apartamento em Pequim sob constante vigilância policial. Nenhum dos familiares do dissidente deverá comparecer à cerimônia.
Em uma carta abertura colocada na internet, Liu Xia convidou 140 chineses críticos do Partido Comunista a estarem em Oslo no dia 10, mas apenas um confirmou presença até agora: Wan Yanhai. Ativista que defende os direitos dos portadores do vírus HIV, Wan deixou a China em maio e passou a viver nos Estados Unidos, em razão do aumento da repressão oficial à sua atuação.
A ausência de familiares de Liu Xiaobo levou o comitê responsável pelo Nobel da Paz a considerar o adiamento da cerimônia. A ideia foi abandonada, mas é provável que a evento ocorra sem a apresentação do prêmio _uma medalha, um diploma e US$ 1,4 milhão.
O dissidente chinês foi preso em 8 de dezembro de 2008, dois dias antes da divulgação da Carta 08, um manifesto assinado por 303 intelectuais, advogados e ativistas chineses em defesa de reformas políticas no país.
Liu foi um dos idealizadores e signatários do documento, que ganhou a adesão de milhares de pessoas depois que começou a circular na internet. No dia 25 de dezembro de 2009, ele foi condenado a 11 anos de prisão, pena elevada mesmo para os padrões chineses.
O Comitê Norueguês afirmou que Liu foi escolhido para “por sua longa e não-violenta luta em favor dos direitos humanos na China”. A entidade lembrou os avanços econômicos obtidos pelo país nas últimas três décadas e o fato de que milhões de pessoas foram retiradas da pobreza nesse período.
“O novo status da China acarreta crescentes responsabilidades”, disse o presidente do comitê, Thorbjorn Jagland. “A China viola uma série de acordos internacionais dos quais é signatária, bem como suas próprias regras relativas a direitos políticos”, acrescentou, lembrando que o artigo 35 da Constituição do país prevê as liberdades de expressão, de imprensa, de associação, de assembléia e de demonstração, nenhuma das quais é respeitada na prática.
Estados Unidos e Japão deram início hoje ao maior exercício militar conjunto que já realizaram no leste asiático, para o qual a Coreia do Sul enviou observadores pela primeira vez. As atividades reforçam os laços dos norte-americanos com seus dois principais aliados na região, abalada pelo ataque da Coreia do Norte que provocou a morte de quatro sul-coreanos na semana passada.
Maior aliada de Pyongyang, a China criticou os exercícios militares que começaram, dois dias depois de os Estados Unidos terem encerrado quatro dias de treinamento bélico com a Coreia do Sul.
“A exibição de força não pode resolver o problema”, afirmou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Jiang Yu, em briefing com a imprensa. “Alguns estão brincando com facas e revólveres enquanto a China é criticada por propor o diálogo. Isso é justo?”, perguntou Jiang.
No domingo, Pequim propôs que a crise na península coreana fosse discutida em uma reunião de emergência do Grupo dos Seis, que reúne as duas Coreias, China, Estados Unidos, Japão e Rússia.
A proposta foi recusada pelos norte-americanos, japoneses e sul-coreanos, que terão na segunda-feira um encontro em Washington para analisar a situação na região. Iniciadas em 2003 por iniciativa da China, as negociações do Grupo dos Seis não trouxeram avanços em seu principal objetivo, que é o desmantelamento do programa nuclear norte-coreano.
O exercício militar conjunto entre Estados Unidos e Japão já estava previsto antes do ataque da Coreia do Norte à ilha de Yeongpyeong e foi planejado para marcar os 50 anos da “aliança de iguais” entre Washington e Tóquio, segundo o chefe de operações norte-americano, major William Vause.
Mas a crise na península coreana dá outra dimensão ao treinamento e serve como uma demonstração de força e solidariedade dos três países mais hostis à Coreia do Norte na região.
O Japão participará do exercício com 34 mil soldados, 40 navios de guerra e 250 aviões. Os norte-americanos terão o imenso porta-aviões George Washington, 10 mil soldados, 150 jatos e 20 navios.
Além de propor a retomada da negociação do Grupo dos Seis, interrompida desde 2009, a China atua para barrar resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) condenando o ataque da Coreia do Norte à Coreia do Sul, disse à agência de notícias Bloomberg o embaixador do Japão junto à instituição, Tsuneo Nishida. “Os chineses sempre foram resistentes”, observou o diplomata.
Pequim teve papel fundamental para impedir que a ONU criticasse Pyongyang pelo ataque que afundou o navio de guerra Cheonan em março, causando a morte de 46 soldados sul-coreanos. A Coreia do Norte nega que tenha disparado o torpedo que atingiu a embarcação.
Autoridades de Seul iniciaram uma ofensiva de informação ontem para tentar mudar a percepção de que a reação de Seul ao ataque foi lenta, insuficiente e ineficaz. O deputado Kwon Yong-se, do partido governista e presidente do Comitê de Inteligência da Assembléia Nacional, disse em entrevista que duas fotos de satélites em poder do serviço de inteligência mostram que a artilharia sul-coreana atingiu alvos militares no país vizinho e pode ter provocado “severas baixas humanas”.
A agência oficial de notícias Yonhap citou fonte não identificada do Exército que dá a mesma declaração. As imagens não foram apresentadas.
A Coreia do Sul demorou 13 minutos para reagir ao bombardeio da ilha Yeongpyeong, tempo considerado excessivo por especialistas militares ouvidos por um dos principais jornais sul-coreanos, o Chosun Ilbo. Segundo eles, os norte-coreanos precisavam de apenas sete minutos para recolher sua artilharia em locais seguros antes de um contra-ataque do sul.
Na excelente entrevista realizada por Patrícia Campos Mello e publicada domingo no Estadão, o chanceler Celso Amorim admitiu não ter construído uma estratégia para o relacionamento com a China nos oito anos em que comandou a diplomacia brasileira. O ministro também afirmou que um país que não tem uma política cambial de mercado não pode ser tratado como economia de mercado. Amorim só não lembrou que ele próprio deu aval à decisão de reconhecer a China como economia de mercado em 2004, a despeito dos fortes protestos do setor privado brasileiro, liderado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.
Se o ministro acredita que a política cambial chinesa atual não respeita as regras de mercado, com muito mais razão deveria ter essa opinião em 2004, quando o governo de que participa desconsiderou esse fato e atendeu à reivindicação de Pequim. Na época, a moeda chinesa estava congelada havia dez anos no patamar de 8,30 yuans por US$ 1,00. Hoje, a cotação ronda os 6,70 por US$ 1,00.
A concessão do status de economia de mercado dificulta a imposição de barreiras às importações chinesas e por isso foi tão criticada pelas empresas nacionais. Mas a promessa brasileira nunca saiu do papel, o que coloca o país como devedor de Pequim. Sempre que há reuniões bilaterais, os representantes chineses cobram os brasileiros e perguntam quando o documento assinado em 2004 será regulamentado. A julgar pelas declarações de Amorim, isso não ocorrerá tão cedo.
Até agora, o argumento de Brasília para justificar o não cumprimento da promessa era o fato de que Pequim não havia ampliado seus investimentos no Brasil, também frustrando compromisso assumido no mesmo documento de 2004. Com o espetacular salto nos anúncios de negócios de estatais chinesas no país desde o início deste ano é cada vez mais difícil sustentar esse argumento.
Os Estados Unidos ignoraram sua responsabilidade de emissor da moeda usada como reserva de valor em todo o mundo ao aprovar uma expansão monetária de US$ 600 bilhões na semana passada, afirmou ontem o vice-ministro de Finanças da China, Zhu Guangyao, para quem a medida vai provocar um “choque” na economia global.
Em entrevista sobre a reunião do G-20 que será realizada em Seul no fim desta semana, Zhu afirmou que a injeção de recursos na economia norte-americana vai provocar “aguda volatilidade” nos países emergentes, que serão inundados por capital especulativo em busca de ganhos de curto prazo, atraídos pelas taxas de juros mais altas do que as praticadas nos Estados Unidos.
Segundo ele, a situação atual da é bastante distinta da existente no início da crise, quando o governo norte-americano injetou US$ 1,75 trilhão para estimular uma economia que precisava desesperadamente de liquidez. “Agora não há falta de capital, há falta de confiança”, ressaltou Zhu.
Suas declarações contrastam com a posição manifestada no fim de semana por outro vice-ministro de Finanças da China, Wang Jun, para quem a decisão do Fed será positiva para o mundo. “A política de expansão monetária quantitativa que tem por objetivo estimular a economia dos Estados Unidos vai ajudar a reavivar tremendamente a economia global”, disse Wang.
Os países emergentes sustentam que o aumento no fluxo de capitais gerado pela expansão monetária norte-americana vai pressionar a cotação de suas moedas, que irão se apreciar em relação ao dólar, com impacto negativo sobre a competitividade de suas exportações.
O temor é que as nações embarquem em uma guerra cambial, com desvalorizações competitivas para ampliar suas exportações, em uma corrida que pode ter efeitos devastadores sobre o comércio global. A elevação no movimento de capitais também poderá levar ao surgimento de bolhas nos mercados dos países emergentes, com a alta artificial de preços de ativos, que poderiam cair a qualquer momento com a reversão desse fluxo.
A expansão monetária nos Estados Unidos e o risco de uma guerra cambial estarão no topo da agenda dos líderes do G-20, grupo que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes. A agressiva política de expansão monetária norte-americana acabou colocando em segundo plano o patamar depreciado do yuan chinês e as intervenções de outros países asiáticos para evitar a valorização de suas moedas, questões que estiveram na origem do temor em relação a uma guerra cambial de proporções globais.
O encontro ocorre no momento em que os desequilíbrios que levaram à crise global voltam a se agravar, com o aumento do superávit da China e do déficit dos Estados Unidos nas transações de ambos os países com o restante do mundo. O vice-ministro das Finanças Zhu Guangyao reafirmou a posição de seu país contrária à proposta de fixar um teto de 4% para os desequilíbrios em conta corrente apresentada pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, na reunião preparatória para a cúpula do G-20 realizada no mês passado na Coreia do Sul.
Na avaliação de Zhu, a correção dos desequilíbrios depende de mudanças estruturais, que ainda vão demandar muito tempo para estarem concluídas.
O maior censo do mundo começou oficialmente ontem, com 6 milhões de pesquisadores encarregados de visitar cerca de 400 milhões de famílias para descobrir quantas pessoas habitam a China e em que condições elas vivem. O último levantamento do tipo foi realizado no ano 2000, quando o número de moradores do país mais populoso do planeta era 1,29 bilhão, o equivalente a 20% da humanidade.
Os recenseadores terão de concluir seu trabalho em dez dias e os resultados serão divulgados em abril de 2011. O principal desafio será a contagem da imensa população flutuante do país, formada por um universo estimado em pouco mais de 200 milhões de migrantes rurais, que vagam pelas cidades em busca de emprego. Muitos desses camponeses são considerados imigrantes ilegais dentro de seu próprio país, já que não possuem o registro de residência para viver nas cidades.
Também haverá problemas na identificação de milhares _ou milhões_ de crianças “clandestinas”, que não foram registradas pelos pais porque seu nascimento violou a política de filho único estabelecida no fim dos anos 70. Na tentativa de convencer a população a fornecer dados precisos aos recenseadores, o governo garantiu que todas as informações serão tratadas de maneira confidencial e não terão nenhuma outra utilização a não ser o trabalho estatístico. Ainda não está claro se a promessa será suficiente para aplacar o temor dos que tiveram mais filhos que o permitido por lei.
No mês passado, o governo anunciou que reduziria a multa para as famílias que voluntariamente registrassem filhos clandestinos, mas poucos decidiram se arriscar. Não há um valor nacional para a penalidade, que normalmente equivale a um ano de rendimento dos pais. Se eles ocupam cargos públicos ou trabalham nas empresas estatais, podem ser demitidos ou perder possibilidades de promoção.
O espetacular enriquecimento de parcela da população urbana é outro problema à frente dos recenseadores, que deverão encontrar famílias receosas em divulgar informações sobre suas propriedades e bem-estar material. “É mais difícil obter informações precisas desta vez do que nos cinco censos nacionais realizados anteriormente”, disse ao jornal oficial China Daily Xin Zhihong, que comandou um período de teste de um mês realizado na cidade de Pequim. “Especialmente em comunidades prósperas, nem todos os residentes estão dispostos a revelar informações pessoais”, observou.
O primeiro censo da China foi realizado em 1953 e levantou uma população de 580 milhões de pessoas, 87% das quais viviam no campo. Há dez anos, 64% do 1,29 bilhão de chineses estavam na zona rural. Atualmente, o percentual se aproxima de 50%.
Na tentativa de mudar seu padrão de crescimento, a China anunciou ontem que dará prioridade ao desenvolvimento de novas indústrias estratégicas, que o governo de Pequim acredita que estarão na vanguarda do crescimento global futuro. Também foram anunciadas medidas para ampliar a oferta de serviços públicos, diminuir a desigualdade e estimular o consumo doméstico.
O país não quer só surfar na onda das novas indústrias, mas ser um dos líderes de inovação em segmentos que incluem energia limpa, biotecnologia, a nova geração da tecnologia da informação, carros elétricos e conservação ambiental. O objetivo de Pequim é fazer com que a participação desses setores no PIB chegue a 8% em 2015 e 15% em 2020.
As metas foram anunciadas ao fim de quatro dias de reunião do Comitê Central do Partido Comunista, na qual foi discutido o esboço do Plano Quinquenal que dará as linhas do desenvolvimento do país no período de 2011 a 2015, que terá como foco a reestruturação da economia. Os dirigentes chineses acreditam que os próximos cinco anos serão cruciais para a construção dos pilares de um modelo de crescimento sustentável e de criação de uma sociedade “razoavelmente próspera” até a metade do século.
Trinta anos depois do início do processo de reforma e abertura, o Partido Comunista quer mudar o rumo do desenvolvimento do país e estimular indústrias que poluam menos, consumam menos energia e recursos naturais e criem mais e melhores empregos. A inflexão é acompanhada de maior ênfase na construção de uma rede de proteção social, vista como essencial para o aumento do consumo doméstico.
O excesso de poupança na China e de consumo nos Estados Unidos é o principal desequilíbrio da economia global que foi evidenciado pela crise iniciada em 2008. Com a retração do crescimento dos países desenvolvidos, que são seus principais clientes, a China quer reduzir a dependência das exportações e dos investimentos como motores de seu crescimento e ampliar a participação da demanda interna na composição do PIB.
Para isso, é necessário aumentar a renda da população e fornecer serviços públicos essenciais, como saúde, educação e aposentadoria, que podem estimular a redução da enorme poupança do país. Entre as razões para os chineses guardarem dinheiro em vez de utilizá-lo no consumo está a necessidade de poupar para a educação dos filhos, as emergências médicas e a velhice.
O comunicado oficial divulgado no fim da reunião dos 365 integrantes do Comitê Central afirma que a distribuição de renda, o aumento da remuneração e a construção de uma rede de serviços públicos essenciais estarão entre as prioridades do próximo Plano Quinquenal, cuja versão final será aprovada pelo Congresso Nacional do Povo em março de 2011. As informações sobre o encontro não mencionaram metas de crescimento para o período 2011-2015, mas a agência oficial de notícias Xinhua disse que o objetivo do governo é manter expansão estável e relativamente rápida.
“Inclusão”, “sustentabilidade” e “reestruturação industrial” deverão ser algumas das novas palavras de ordem que vão orientar as políticas do governo chinês para os próximos cinco anos, período no qual Pequim deverá buscar mais “qualidade” e menos “quantidade” em seu crescimento econômico.
O Plano Quinquenal para o período 2011- 2015 começou a ser discutido ontem na reunião anual do Comitê Central do Partido Comunista, que termina na segunda-feira. O documento dará as linhas gerais para a atuação do governo nesse período, com estabelecimento de prioridades e definição de metas específicas.
A mudança de tom poderá ser dada pela redução do crescimento projetado para o período, que sempre ficou abaixo do efetivamente alcançado. O plano em vigor prevê expansão anual de 7,5%, mas a partir de 2006 os índices foram de 11,6%, 13%, 9,6% e 9,1% _no primeiro semestre de 2010, ele ficou em 11,1%. A possibilidade de diminuição da meta de crescimento foi mencionada ontem pela agência oficial de notícias Xinhua. A economista-chefe do banco UBS na China, Wang Tao, espera que o documento reduza a estimativa de expansão anual de 7,5% para 7,0%, mas ressalta que o índice funciona mais como um piso do que como índice a ser perseguido pelo governo.
O novo plano repetirá o objetivo de reestruturação da economia chinesa, com o aumento do consumo doméstico e redução da dependência de investimentos e exportações. Apesar de essa questão ser discutida pelo menos desde 2004 e fazer parte do plano para 2006-2010, não houve avanços no padrão de crescimento chinês. Pelo contrário. A contribuição do consumo na formação do PIB diminuiu ano a ano a partir de 2000, enquanto a dos investimentos aumentou.
Para mudar esse modelo, o governo deverá adotar uma política mais agressiva de aumento da renda das famílias, que começou a ser colocada em prática nesse ano com a elevação do salário mínimo e da remuneração de trabalhadores em inúmeras fábricas ao redor do país. O aumento da renda deverá ser acompanhado de medidas para sua melhor distribuição e de programas de construção de casas populares, fortalecimento da precária rede de proteção social e desenvolvimento das regiões centro e oeste, que são as mais pobres do país.
“O crescimento econômico nas últimas três décadas foi obtido ao custo de consumo excessivo de energia e distribuição desigual de renda”, disse o cientista político da Academia Chinesa de Ciências Sociais Liu Shangying, em entrevista sobre o novo plano ao jornal oficial China Daily. “Se não for resolvido, o problema da disparidade de renda levará à desordem social”, ressaltou.
Wang Tao espera que o documento repita a meta de redução de 20% no consumo da energia necessária para produção de cada dólar do PIB, conceito chamado de “intensidade energética”. O princípio foi adotado pela primeira vez no plano de 2006-2010, mas parece pouco provável que o percentual de 20% será alcançado, apesar de a meta estar entre as que são “obrigatórias”. Até o fim de 2009, a China havia conseguido reduzir sua intensidade energética em 15,6%. Mas no primeiro semestre de 2010, o consumo por unidade do PIB aumentou 0,9% em vez de diminuir, o que levou o governo a determinar o fechamento de 2.000 fábricas em agosto, em uma tentativa de cumprir a meta energética.
Wang espera que a promoção de “novas indústrias” esteja no centro da estratégia econômica do novo plano, o que é coerente com o objetivo mais amplo de Pequim de reestruturar a economia e aumentar a “qualidade” do crescimento. Sem citar a fonte da informação, o jornal de Hong Kong South China Morning Post disse que o documento vai destinar 4 trilhões de yuans a investimentos nas regiões centro e oeste e no desenvolvimento de novos setores. O valor equivale hoje a US$ 600 bilhões e é idêntico ao pacote de estímulo adotado por Pequim em 2008 para combater os efeitos da crise econômica mundial.
A maior parte das indústrias que serão beneficiadas já foi definida pelo Conselho de Estado em setembro: conservação de energia e tecnologias ambientais, nova geração de tecnologia da informação, máquinas e equipamentos avançados, novas energias, novos materiais e carros elétricos.
A imprensa oficial chinesa afirmou ontem que a entrega do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo faz parte de um “complô” para evitar a emergência da China e reflete o preconceito do Ocidente contra o crescente poderio do país.
“A premiação de Liu é uma provocação contra a China”, disse o China Daily, jornal em inglês editado pelo Conselho de Estado, subordinado ao primeiro-ministro Wen Jiabao. A mesma publicação descartou a possibilidade de que a escolha de Liu leve Pequim a realizar transformações políticas. “Alguns têm a expectativa de que o prêmio vai produzir mudanças na China na direção que eles desejam. Mas ele pode fazer pouco, além de expor, e em alguns casos realçar, o profundo e extenso abismo ideológico entre este país e o Ocidente.”
O governo chinês reagiu com fúria à premiação de Liu, condenado em dezembro de 2009 a 11 anos de prisão sob a acusação de subversão em razão de seu papel na elaboração da Carta 08, documento que pede o fim do regime de partido único e a adoção de um regime democrático e republicano.
Classificando Liu de “criminoso”, as autoridades de Pequim afirmaram que sua premiação é uma “profanação” do espírito do Nobel, que seria destinado a homenagear pessoas que colaboram para a “paz entre as nações”.
O China Daily ressaltou que é a segunda vez na história em que o prêmio é dado a uma pessoa “identificada como não-pacífica” por Pequim. Na primeira, em 1989, o homenageado foi o líder espiritual tibetano dalai lama, considerado um “separatista” pelas autoridades do país.
A ideia de uma conspiração ocidental contra a China foi reforçada pelo Global Times, ligado ao Partido Comunista. “Parece que em vez de paz e unidade na China, o Comitê Nobel gostaria de ver o país se dividir ideologicamente ou, melhor ainda, colapsar como a União Soviética”. O jornal observou que por trás da premiação está “o extraordinário terror da emergência da China e do modelo chinês”.
As publicações rechaçaram o que consideram uma interferência indevida em assuntos internos da China e fizeram um paralelo com o período em que o país foi colonizado por potências estrangeiras, no fim do século 19 e começo do 20.
“Se isso tem ou não relação com nossas memórias coletivas dos abusos ocidentais, essa nação não vai permitir que seus próprios assuntos domésticos sejam decididos pelo Ocidente”, ressaltou o China Daily.
Os comentários nos dois jornais oficiais foram algumas das únicas exceções à censura que vigora no país em relação à premiação de Liu Xiaobo. Isso significa que poucos chineses sabem que um de seus compatriotas ganhou o Nobel da Paz.
A mulher de Liu Xiaobo, Liu Xia, continuava ontem em prisão domiciliar, depois de ter se reunido durante uma hora com ele na prisão no domingo. Em mensagem colocada em sua página no Twitter, Liu Xia disse que estava impossibilitada de fazer ou receber chamadas. Ligações para seu celular eram respondidas com a mensagem de que o número não estava em operação.
Apesar de redes sociais como Twitter e Facebook serem bloqueadas no país, milhares de chineses usam mecanismos que permitem contornar a censura. O mais comum deles é a VPN (Virtual Private Network), que dá aos usuários uma identificação online fora da China e permite que a “Grande Muralha de Fogo” da internet seja ultrapassada.
Em outro comentário no Twitter, Liu Xia disse que o marido foi informado por funcionários da prisão na noite de sábado sobre sua escolha para o Prêmio Nobel da Paz. Segundo ela, quando ambos se encontraram ontem, ele chorou e ofereceu a homenagem aos mortos nas manifestações de pró-democracia na praça Tiananmen, em 1989, das quais ele participou.
A maioria dos comentários deixados pelos leitores em posts sobre a China tem caráter extremo e professa o amor ou o ódio incondicional ao país. Mas a realidade chinesa é multifacetada e merece uma abordagem muito mais ponderada.
A transformação que o país viveu nos últimos 30 anos não tem paralelo na história da humanidade por sua rapidez e abrangência. O país empobrecido e isolado do mundo se integrou à globalização e desenhou uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, o que garantiu um invejável crescimento médio anual de 9,6%. Graças a ele, 500 milhões de pessoas deixaram de viver abaixo da linha da pobreza e a China se tornou a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
O espaço da liberdade individual também se ampliou, com a redução da interferência do Estado na vida privada dos cidadãos. Há menos de 20 anos, os chineses tinham que ter autorização da empresa estatal onde trabalhavam para viajar, casar ou se divorciar. Hoje, podem viajar sem restrição, dentro e fora do país, e gerenciar sua vida amorosa da maneira que considerarem mais adequada. A tolerância ao debate de ideias e opiniões também se ampliou.
Mas o país avançou muito pouco do ponto de vista de instituições que garantam liberdades civis aos chineses. O Partido Comunista continua a estar acima da lei e não existem canais pelos quais os cidadãos possam defender o que vêem como seus direitos. Há uma brutal desconfiança da população em relação aos ocupantes de cargos públicos nas províncias e nos municípios, vistos como corruptos e mancomunados com o poder econômico. Não por acaso, há inúmeros casos de ataques de fúria da população contra edifícios e funcionários do Estado ou do Partido. Diante da inexistência de canais institucionais para a solução de conflitos e proteção de direitos individuais, a violência é vista como a única opção disponível.
O mais preocupante é que a repressão e o autoritarismo do Partido se acentuaram nos últimos três anos e a condenação do dissidente Liu Xiaobo a 11 anos de prisão em 2009 é um dos reflexos desse movimento. Vencedor do Prêmio Nobel da Paz anunciado na sexta-feira, Liu pedia justamente a criação de um Estado de Direito, no qual nenhuma instituição esteja acima da lei.
Liu está longe de ser o único crítico do regime a estar na prisão. Há centenas de outros, condenados por “juízes” sujeitos ao Partido em julgamentos que não obedecem aos requisitos mínimos do devido processo legal.
A maioria esmagadora da China não conhece os nomes desses ativistas, incluindo o de Liu Xiaobo, porque a censura barra a menção a eles na imprensa do país. E nos últimos anos, o controle sobre a informação se acentuou em vez de arrefecer.
Essa realidade não pode ser ignorada, mesmo pelos que admiram a transformação experimentada pelo país nas últimas três décadas. E jogar luz sobre esses problemas não faz parte de nenhuma conspiração internacional mirabolante em favor do imperialismo ianque.
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