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Cláudia Trevisan

A integração de milhões de chineses e indianos à economia global e a ameaça da mudança climática deixam claro que o mundo não cabe mais no sonho americano do consumo desenfreado, dos carrões e do desperdício. A China se transformou no patinho feio da questão ambiental, com o maior volume de emissões de gases que provocam o efeito estufa, mas os Estados Unidos continuam a ser o maior poluidor quando se considera as emissões per capita de seus habitantes. Cada norte-americano polui quatro vezes mais que um chinês e o dobro de um europeu.

O sonho americano funcionava em um mundo de poucos, no qual o 1,3 bilhão de chineses e o 1,1 bilhão de indianos estavam virtualmente ausentes do mercado de consumo global, em razão da pobreza em que viviam. Quando essa massa que representa 40% da humanidade começa a comprar carros, viajar de avião e produzir a enorme quantidade de lixo associada ao modelo industrial ocidental, fica claro que o mundo terá que inventar outro sonho, muito mais frugal que o americano. Se a China tivesse a mesma proporção de carros por habitante existente hoje nos Estados Unidos, o país teria mais carros do que os que circulam hoje em todo o planeta.

E esse novo sonho terá que ser sonhado também pelos norte-americanos, que até agora se recusaram a assumir qualquer compromisso internacional que limite as suas emissões de gases, que representam cerca de 20% do total. Não é moralmente justificável exigir que os emergentes chineses e indianos adiem suas aspirações de consumo para que os americanos possam continuar a comprar enormes SUVs. Claro que a China também tem enorme responsabilidade na questão do aquecimento global, principalmente em razão de sua grande dependência do carvão para produção de energia. Mais poluente entre os combustíveis fósseis, ele reponde por 70% da matriz energética do país. Mas até agora, os líderes chineses mostraram mais disposição para enfrentar o problema do que os norte-americanos.

A Conferência do Clima que começa hoje em Copenhague traz o desafio de países ricos e pobres chegarem a um acordo sobre as responsabilidades de cada um no combate do aquecimento global. O painel das Nações Unidas que estudou o problema concluiu que os países desenvolvidos precisarão reduzir suas emissões entre 25% e 40% até 2020 em relação ao patamar existente em 1990. A proposta dos Estados Unidos prevê um corte de 17% sobre o nível de 2005, o que equivale a uma diminuição de 4,8% na comparação com 1990. Isso representa menos de um quinto do menor patamar de corte considerado necessário pelo painel das Nações Unidas. Para quem não fez nada até agora é muito pouco, não?

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Vinte e dois uigures muçulmanos de Xinjiang conseguiram sair clandestinamente da China e se refugiar no Camboja, onde aguardam a avaliação de seus pedidos de asilo pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Parte do grupo é acusada por Pequim de ter participado dos protestos que deixaram quase 200 pessoas mortas e 1.600 feridas em Urumqi, capital de Xinjiang, há cinco meses.

A China já condenou 20 pessoas à morte em razão dos ataques de uigures a chineses han no dia 5 de julho, em um dos mais graves casos de violência étnica da história do país. Entidades de defesa dos direitos humanos sustentam que os julgamentos não respeitaram regras básicas do Estado de Direito e não deram aos acusados a chance de se defender de maneira apropriada.

Maior província da China, Xinjiang é tradicionalmente habitada por uma maioria muçulmana, mas viu o aumento da migração de chineses han desde a chegada dos comunistas ao poder, em 1949. Atualmente, os uigures representam 45% da população e os han, principal etnia da China, quase 40%. O porta-voz do Congresso Mundial Uigur em Washington, Ilshat Hassan, disse ao Estadão em entrevista telefônica que dois dos refugiados uigures são crianças e que há uma mulher no grupo. Segundo Hassan, nenhum dos adultos participou dos ataques a chineses han. “Eles testemunharam os conflitos e tiraram fotos e é por isso que a China está atrás deles”, afirmou.

O Congresso Mundial Uigur reúne os uigures que vivem no exílio e é liderado pela empresária Rebyia Kadeer, apontada pelo governo de Pequim como a responsável pelos confrontos do mês de julho. A China afirma que a entidade promove atividades separatistas e que o país enfrenta a ameaça de terrorismo na região. Hassan ressaltou que teme pela vida dos refugiados, já que há o risco de eles serem repatriados pelas autoridades do Camboja, que mantêm boas relações com os chineses. Recentemente, a entidade de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch criticou o país por deportar refugiados para o Vietnã. “Se eles forem mandados de volta para a China, eles serão mortos”, disse o porta-voz.

O responsável pelo setor de comunição do escritório do ACNUR no Camboja, Toshi Kawachi, disse ao Estadão que não poderia falar sobre o caso. “Nós temos um princípio geral de nunca fazer comentários ou dar informações sobre pessoas que solicitam refúgio ou asilo”, afirmou em entrevista por telefone. A orientação tem por objetivo evitar que os refugiados sejam colocados em risco ou retaliatos enquanto buscam proteção. Coerente com essa posição, Kawachi não revelou onde os uigures estão abrigados nem mesmo confirmou se eles estão em Phnom Penh, capital do Camboja. Apenas informou que não há ninguém em busca de refúgio no edifício da ACNUR na cidade.

De acordo com o porta-voz do Congresso Mundial Uigur, se os integrantes do grupo obtiverem o status de refugiados eles serão enviados a um terceiro país que os aceite e onde estejam seguros. Os 22 uigures chegaram ao Cambodia depois de atravessar a China e entrar no Vietnã, na fronteira Sul. De lá, cruzaram para o vizinho Cambodia. Hassan disse que os refugiados contaram com a ajuda de chineses e de vietnamitas dos dois lados da fronteira para fazer a travessia. Ainda segundo ele, o grupo tinha inicialmente 28 pessoas, mas duas foram presas no Vietnã e outras quatro perderam contato com as demais durante o trajeto.

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