A China condenou nesta semana cinco religiosos protestantes a penas de três a sete anos de prisão, em mais um caso que indica o endurecimento das autoridades de Pequim em relação a dissidentes, ativistas de direitos humanos e críticos do governo. O grupo foi preso em setembro, depois de tentar impedir a demolição de um local de oração construído em uma área rural sem a aprovação do governo.
De acordo com o advogado que os defendeu, Li Fanping, os cinco são líderes de uma igreja que reúne 60 mil seguidores na cidade de Linfen, na província de Shanxi, no norte da China.
As autoridades de Pequim controlam de maneira estrita as atividades religiosas e só permitem a existência de igrejas vinculadas a organizações chamadas de “patrióticas”, que são registradas no Departamento de Assuntos Religiosos do país.
Apesar do controle, surgiram nos últimos anos inúmeros grupos independentes, que promovem reuniões nas casas dos fiéis ou em locais construídos longe dos centros urbanos, como no caso do grupo condenado ontem.
O pastor Wang Xiaoguang e sua mulher, Yang Rongli, receberam a pena mais alta, de sete anos de prisão. Os demais foram condenados a períodos de três a quatro anos e meio. Todos foram julgados sob as acusações de “ocupar terras ilegalmente” e “promover reunião de pessoas para perturbar a ordem pública”.
A sentença é uma das mais severas já aplicadas a religiosos que se recusam a praticar sua fé dentro dos limites definidos pelo Estado e foi adotada pouco mais de uma semana depois de o presidente norte-americano, Barack Obama, defender na China o respeito aos direitos individuais, o Estado de Direito e a liberdade religiosa.
Na segunda-feira, uma corte de Sichuan, no centro do país, condenou a três anos de prisão o ativista Huang Qi, que no ano passado se dispôs a ajudar os pais de crianças que morreram soterradas no desabamento de escolas durante o terremoto que atingiu a região no mês de maio. Ele foi julgado sob a acusação de possuir “segredos de Estado”, uma categoria que dá margem a um processo sem nenhuma transparência e que é frequentemente utilizada contra os críticos do Partido Comunista.
No fim de semana passado, a agência de notícias Associated Press revelou o caso de um geólogo de origem chinesa e nacionalidade norte-americana, Xue Feng, que está detido há dois anos na China sob a acusação de ter roubado segredo de Estado para vendê-los a empresa estrangeira.
O assunto foi levantado por Obama no encontro que teve com autoridades chinesas, mas não há sinais de mudança na situação de Xue Feng, que foi torturado na prisão, de acordo com declarações dadas à Associated Press por pessoas envolvidas no caso.
A situação do geólogo é semelhante a de quatro executivos da mineradora australiana Rio Tinto presos na metade do ano também sob acusação de roubo de segredo de Estado, o que levantou questionamentos sobre a segurança de representantes de empresas estrangeiras na China. A acusação contra os funcionários da Rio Tinto foi modificada para corrupção e eles aguardam julgamento na prisão.
Mao Tsé-tung morreu há 33 anos e deixou uma herança controvertida até aos olhos dos chineses. A avaliação oficial do Partido Comunista da China é a de que 70% de suas ações foram corretas e 30%, equivocadas. A maior parte dos erros, como a Revolução Cultural e o Grande Salto Adiante, ocorreram na parte final de sua vida, diz o partido. Fora da esfera ofical, o veredicto é bem mais severo e vários especialistas sustentam que Mao foi responsável pela morte de 70 milhões de chineses.
Apesar da controvérsia, sobrevive na China uma nostalgia em relação a Mao e ao período revolucionário, incluindo os turbulentos anos da Revolução Cultural (1996-1976), quando os fanáticos Guardas Vermelhos espalharam o terror no país com a perseguição, tortura e assassinato de milhões de pessoas supostamente associadas à “velha ordem”. Muitas das vítimas eram revolucionários comunistas, que participaram da guerra civil e abraçaram o novo regime fundado em 1949.
A nostalgia se mantém viva por meio de canções, estátuas de Mao espalhadas pelo país e peças teatrais. Em Pequim, há pelo menos cinco restaurantes “temáticos” inspirados na revolução. No mais popular deles, “O Oriente é Vermelho”, são apresentados números musicais representados por atores vestidos de Guardas Vermelhos, camponeses e operários. Nas paredes, estão faixas com slogans da Revolução Cultural, entre os quais “Longa vida ao pensamento de Mao Tsé-tung”. O restaurante é enorme e vive lotado. Os clientes recebem bandeiras vermelhas para acompanhar as performances e a maioria sabe cantar as músicas que são apresentadas.
Durante as celebrações do aniversário de 60 anos da Revolução Comunista, no dia 1º de outubro, várias óperas e ballets revolucionários foram exibidos no país, para uma platéia invariavelmente emocionada. O clássico dos clássicos é “O Destacamento Vermelho das Mulheres”, que conta a história de um grupo de mulheres que lutava contra latifundiários e o exército nacionalista nos anos 30, durante a guerra civil.
Com versões para ópera e ballet, “O Destacamento Vermelho das Mulheres” era um das oito obras “modelo” que tinham permissão da temida mulher de Mao, Jiang Qing, para serem montadas nos dez anos da Revolução Cultural. Eu vi a ópera e o ballet. Ambos são peças de propaganda, que promovem a veneração desmedida aos comunistas e a seu líder, Mao Tsé-tung. O momento em que o heroi masculino morre e se transforma em mártir é acompanhado da Internacional Socialista, o hino global do movimento comunista. A seguir, algumas fotos do ballet e do restaurante “O Oriente é Vermelho”.
A performance no restaurante, realizada à frente de quadro com face de Mao Tsé-tung

O público do restaurante
O slogan “Longa vida ao pensamento de Mao Tsé-tung”

O momento em que a heroína abraça a bandeira comunista _literal e figurativamente
Os soldados armados

Os revolucionários no fim dos espetáculo

Em um sinal do grau de sensibilidade que marca a relação entre Estados Unidos e China, até a versão em chinês do nome do presidente norte-americano pode dar margem para controvérsia. A versão “Ao Ba Ma” é consagrada por Pequim e utilizada pela imprensa do país. Mas na véspera da visita do democrata à China, a Embaixada dos Estados Unidos começou a utilizar “Ou Ba Ma”, com o argumento de que a transliteração é mais próxima da pronúncia original do nome.
O problema é que “Ou Ba Ma” é a mesma versão adotada em Taiwan, a ilha que os chineses tratam como uma província rebelde e que tem nos Estados Unidos seu maior aliado. Ignorando a opção dos norte-americanos, Pequim e os 350 milhões de usuários da internet na China continuam a usar os caracteres que são lidos como “Ao Ba Ma”.
Por mais que o ministro Guido Mantega queira, a adoção do câmbio flutuante não faz parte dos planos de médio prazo da China, o que na noção de tempo do antigo Império do Meio pode significar muitos anos. O país é pressionado desde o início desta década por norte-americanos e europeus a valorizar sua moeda e adotar uma política cambial mais flexível e resiste bravamente.
A estabilidade do yuan e seu baixo valor em relação ao dólar são um dos principais ingredientes da receita de sucesso do modelo de desenvolvimento da China, que em 30 anos conseguiu sair de uma posição irrelevante no comércio internacional para o posto de segundo maior exportador do mundo _a liderança deverá ser obtida até 2010.
Como disse o Nobel de Economia Michel Spence em entrevista concedida a Fernando Dantas e publicada hoje no Estadão, “todos os países em desenvolvimento que tiveram alto crescimento, sustentado por um longo período, administraram suas moedas em alguma medida”. E nenhum deles seguiu a receita de maneira mais estrita que a China. Oficialmente, Pequim possui um câmbio “flutuante administrado”, mas na prática o modelo é muito mais “administrado” do que “flutuante” e está totalmente sujeito aos interesses econômicos do país.
Desde que a crise mundial começou a se insinuar, em meados do ano passado, a cotação da moeda chinesa se mantém inalterada em relação à norte-americana, na casa dos 6,80 yuans por US$ 1,00. Como o dólar se desvalorizou no mercado internacional, isso significa que o yuan também perdeu valor em termos reais em relação às demais moedas, incluindo o real brasileiro, o que ampliou ainda mais a competividade das exportações chinesas.
A maioria dos analistas acredita que o Banco do Povo da China deverá retomar a política de apreciação do yuan em algum momento do próximo ano, depois que as exportações se recuperarem um pouco em relação à profunda queda de 2009. Mas como tudo que diz respeito à moeda, o movimento será extremamente gradual e estará longe de qualquer coisa que lembre o câmbio flutuante. O banco UBS, por exemplo, prevê que no fim de 2010 a relação entre yuan/dólar está entre 6,50 e 6,40.
Depois de 11 anos de câmbio fixo, nos quais o yuan foi cotado em torno de 8,30 por US$ 1,00, a China anunciou no dia 21 de julho de 2005 a reforma de seu sistema cambial. A mudança previa a flutuação administrada do yuan em relação a uma cesta de moedas, dentro de uma banda fixada diariamente pelo Banco do Povo da China (o banco central local).
Desde o início, as autoridades de Pequim deixaram claro que o gradualismo daria o tom de sua reforma cambial. Em mais de quatro anos de reforma, o yuan ganhou cerca de 20% em relação ao dólar. Diante da persistente apreciação do real em relação ao dólar, o ministro Mantega defendeu que todos os países do G20 adotem o câmbio flutuante. Mas nada indica que os chineses tenham intenção de mudar sua estratégia agora.
O calendário diz que ainda estamos no outono, mas Pequim amanheceu hoje coberta de neve. A temperatura caiu abaixo de zero e os moradores tiraram seus pesados casacos do armário antes do tempo. Todos estranharam a quantidade de neve que caiu durante a manhã, muito maior do que a registrada no auge do inverno, mas o mistério foi esclarecido à tarde: o Escritório de Modificação do Tempo de Pequim informou que havia utilizado produtos químicos para intensificiar a tempestado, com o objetivo de amenizar a seca que atinge a região norte do país.
Sim, Pequim tem um departamento governamental responsável pela modificação do tempo, o mesmo que garantiu um impecável dia azul no dia 1º de outubro para as celebrações dos 60 anos da Revolução Comunista e um dia sem chuva na abertura da Olimpíada de 2008. Segundo Zhang Qiang, responsável pelo escritório, disse à imprensa oficial chinesa que as nuvens foram bombardeadas com 186 doses de iodeto de prata a partir das 8h da manhã de sábado. “Nós não vamos perder nenhuma oportunidade para provocar precipitações artificiais, já que Pequim está sofrendo com uma persistente seca”, afirmou. Pelos seus cálculos, pelo menos 16 milhões de tonadas de neve caíram sobre a cidade como resultado do bombardeamento das nuvens.
Artifical ou não, a neve tem um encanto irresistível, que arrasta crianças para guerra de gelo e leva adultos buscarem o melhor ângulo para suas fotos de “inverno”. Para quem nasceu em um país tropical como eu, é uma forte lembrança de que esta não é a minha casa.
Aí vão as fotos:
A vista da janela do meu apartamento

A entrada do meu condomínio

Vista de prédios e telhados com neve no fim da tarde, quando o sol apareceu

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