Há pouco mais de 40 anos, a China embarcou no delírio coletivo da Revolução Cultural (1966-1976), que levou ao fechamento das universidades e ao envio de milhões de jovens à zona rural para serem “reeducados” pelos camponeses. O ensino superior só foi retomado de maneira regular depois da morte de Mao Tsé-tung, em 1976, e o primeiro exame de seleção de alunos ocorreu em 1977.
Hoje, a China tem seis universidades na lista das 200 melhores do mundo preparada pela Times Higher Education, com sede na Inglaterra. O Brasil não tem nenhuma. A Universidade de São Paulo estava na lista no ano passado, na 196ª posição, mas foi excluída do ranking de 2009.
Dos quatro países que compõem o BRIC, o Brasil é o único que não está representado no levantamento deste ano da Times Higher Education. A Índia aparece com duas instituições, mesmo número da Rússia.
A China adotou nos últimos anos uma política agressiva de criação de um grupo de elite de universidades, com a atração de intelectuais chineses que trabalhavam em outros países e a contratação de professores estrangeiros. Em 2004, o país já tinha cinco universidades entre as 200 melhores do mundo e emplacou seis no ano seguinte. Outros países e regiões da Ásia avançaram ainda mais em anos recentes. A ex-colônica britânica de Hong Kong, que voltou ao domínio chinês em 1997, emplacou cinco instituições no ranking deste ano, uma a mais que em 2008. O Japão ampliou seu número de 10 para 11 instituições, seis das quais estão entre as 100 melhores do mundo.
A ascenção da Ásia tem relação direta com o recuo dos Estados Unidos, que passou de 58 para 54 instituições no ranking entre 2008 e 2009. Sob o impacto da crise econômica mundial, a posição do país deverá enfrentaquecer ainda mais nos próximos anos, na medida em que tenha de conter gastos públicos para amenizar o enorme e crescente déficit fiscal. Com sobra de caixa muito maior, a China deverá continuar sua ascenção e é bastante provável que amplie o número de instituições no ranking, do qual já fazem parte as seguintes universidades: Tshinghua, Pequim, Fudan, Shanghai Jiaotong, Ciência e Tecnologia e Nanjing. A única representante da América Latina é a Universidade Autônoma do México.
O ranking pode ser consultado no site:
http://www.timeshighereducation.co.uk/Ra…
A China governada pelos camaradas comunistas tem hoje o segundo maior número de bilionários do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e é o mercado de mais rápido crescimento para as grifes de luxo internacional, como Louis Vuitton, Rolex e BMW. Os ricos chineses estão cada vez mais ricos, apesar do terremoto financeiro no qual o mundo está imerso desde setembro de 2008, quando a quebra do banco Lehman Brothers deu origem à maior crise financeira global desde a Grande Depressão de 1929.
Nos últimos 12 meses, a fortuna combinada das 1.000 pessoas mais ricas do país aumentou em 30%, para US$ 571 bilhões, e a China tem hoje o segundo maior número de bilionários de todo o mundo, depois dos Estados Unidos. Quase todos que aparecem no ranking do Relatório Hurun, divulgado esta semana, são novos ricos, que construíram suas fortunas a partir do zero. Dos 1.000 integrantes da lista, menos de 1% herdou sua foturna. Para entrar no ranking era necessário ter um patrimônio pessoal de pelo menos US$ 150 milhões, US$ 50 milhões a mais que em 2008.
Fora desse universo, há milhares de outros abastados no país. O responsável pelo Relatório Hurun, Rupert Hoogewerf, estima que existem 825 mil pessoas na China com riqueza superior a US$ 1,5 milhão.
Como bons novos ricos, os ricos chineses fazem questão de mostrar que são ricos. Para isso, nada melhor que ostentar aquisições que trazem estampadas algumas das inúmeras grifes de luxo internacional que se engalfinham por uma fatia do crescente mercado chinês. A China já é o segundo maior mercado para grifes de luxo do mundo, atrás apenas do Japão, e deverá assumir a liderança no ranking até 2015.
Marcas de carros como Ferrari, BMW e Mercedes encontraram nos ricos chineses um oásis de compradores em meio à seca que assola o mundo. A BMW viu suas vendas globais caírem 19% nos primeiros sete meses do ano. Na China, elas aumentaram 26%. A Mercedes vendeu 44,3 mil carros no país desde o início do ano, 52% a mais que em igual período de 2008. Em breve, a China será o maior mercado para a Porsche, que vendeu 7.615 unidades no país em 2008, um salto de 145% em relação a 2007. Os chineses também compram quantidades crescentes de jóias e acessórios, como bolsas e relógios. A marca preferida dos novos ricos é Louis Vuitton, seguida de BMW, Mercedes-Benz, Rolls-Royce, Rolex, Ferrari, Cartier, Chanel, Bentley e Porsche. Todas têm forte presença na China, onde os shoppings concentram uma quantidade inacreditável de grifes de luxo.
Obras de arte também estão em alta e, segundo a revista The Economist, existem em torno de 100 colecionadores chineses que gastam no mínimo US$ 1 milhão por ano na compra de objetos de arte. Leilão realizado pela Sotheby´s em Hong Kong no dia 8 de outubro bateu recordes de preços na venda de peças antigas, que evocam a grandiosidade do período imperial chinês. Trono que pertenceu ao imperador Qianlong, da dinastia Qing (1644-1911) foi arrematado por US$ 11 milhões, quase três vezes o preço inicial de US$ 4 milhões. Com elaborados entalhes, o trono de madeira traz cinco figuras de dragão, cuja imagem era associada ao imperador chinês. É difícil imaginar uma peça que melhor atenda ao insaciável deseja de status dos novos ricos chineses.
Aí vão algumas imagens do luxo chinês:
Lojas da Prada e da Gucci em shopping de Pequim
Exibição de Porsches em shopping de Pequim, em frente a loja da Versace
Ferrari estacionada em Xangai
Se alguém havia esquecido, o desfile de celebração dos 60 anos de fundação da República Popular da China no dia 1º de outubro se encarregou de lembrar que o país continua a ser governado por um Partido Comunista orgulhoso de sua herança marxista-leninista-maoísta. “Só o socialismo pode salvar a China”, afirmou em seu discurso o presidente Hu Jintao, usando o mesmo modelo de terno chinês celebrizado por Mao Tsé-tung.
A parada militar também deixou claro que não faz parte dos planos dos comunistas qualquer projeto de reforma política que reduza o seu poder. Na China, o cada vez mais poderoso exército é subordinado ao Partido Comunista e não ao Estado, o que dá à organização uma posição única na defesa de seus interesses. Em declarações divulgadas antes das celebrações, o ministro da Defesa, Liang Guanlie, ressaltou os benefícios da coesão ideológica do Exército de Libertação Popular. “A maior diferença entre as nossas Forças Armadas e as ocidentais é a de que nós temos a vantagem da orientação do Partido e o trabalho ideológico e político.”
O desfile civil que se seguiu ao militar ressuscitou o slogan “Longa vida a Mao Tsé-tung”, que marcou o conturbado período da Revolução Cultural (1966-1976). O enorme retrato do líder revolucionário abria a apresentação de estudantes e voluntários, seguido das imagens de Deng Xiaoping, Jiang Zemin e Hu Jintao.
Muita coisa mudou na China nesses 60 anos, mas permaneceu inalterada a posição do Partido Comunista como único detentor do poder no país. E a julgar pelas celebrações de 1º de outubro, isso não deverá mudar.
A crise global não abalou a máquina chinesa de produzir novos ricos e o número de bilionários do país subiu de 101 no ano passado para 130 em 2009. O topo agora é ocupado por Wang Chuanfu, 43, que viu sua fortuna saltar de US$ 880 milhões para US$ 5,1 bilhões depois que o investidor norte-americano Warren Buffett comprou 10% de sua fábrica de baterias e carros elétricos, a BYD.
Chuanfu integra o time de empresários chineses que estão enriquecendo graças a investimentos em tecnologias “verdes”, no momento em que o governo de Pequim busca reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa e amenizar o impacto ambiental do crescimento econômico.
A BYD é a primeira montadora do mundo a fabricar em massa um carro híbrido que pode ser recarregado na tomada de uma casa. A companhia foi fundada por Wang em 1995 e nos primeiros anos fabricava baterias para telefones celulares. A transição para o mundo dos carros elétricos só ocorreu em 2003.
Apesar de ser uma novata no setor, a empresa tem como objetivo se tornar a maior fabricante de veículos do mundo em 2025 _lugar ocupado atualmente pela japonesa Toyota. “É irônico que a pessoa mais rica da China seja alguém da indústria automobilística, especialmente se considerarmos a crise que o setor enfrenta ao redor do mundo”, disse Rupert Hoogewerf, responsável pela Hurun Rich List, que traz a relação das 1.000 pessoas mais ricas da China.
O segundo lugar de 2009 é ocupado pela dona de outra empresa com apelo ambiental, Zhang Yin, da Nine Dragons Paper, que fabrica embalagens a partir da reciclagem de aparas de papel importadas dos Estados Unidos. Em 2006, Zhang foi a primeira mulher a liderar o ranking da Hurun, com uma fortuna estimada na época em US$ 3,4 bilhões, valor em 2009 saltou para US$ 4,9 bilhões.
A Hurun List é o retrato da rápida emergência dos novos ricos chineses. Quando ela foi criada, em 1999, era necessária uma fortuna de US$ 6 milhões para integrá-la. Em 2009, o valor já era de US$ 150 milhões, 50% a mais que os US$ 100 milhões de 2009.
A pessoa mais rica da China no ano passado era Huang Guangyu, dono da rede de varejo de eletrodomésticos Gome, que tinha uma fortura de US$ 6,3 bilhões. Huang liderou o ranking em 2004 e 2005 e estava no grupo dos primeiros empresários da China comunista a terem uma fortuna superior a US$ 1 bilhão. Sua sorte virou em novembro do ano passado, quando foi preso sob a acusação de obter ganhos com a manipulação do mercado acionário. Só os dois primeiros colocados da Hurun Rich List foram anunciados na semana passada. O ranking completo será divulgado no fim de outubro.
Muita coisa mudou na China desde que Mao Tsé-tung e seus camaradas venceram a guerra civil contra os nacionalistas e anunciaram a fundação da República Popular da China para uma multidão reunida na Praça Tiananmen. A começar do próprio significado da palavra “camarada”, usada hoje como uma gíria para se referir aos gays.
Na área econômica, as transformações foram tantas que é difícil olhar para os 60 anos como um período único. É mais adequado dividi-los em duas metades de 30 anos, que em vários aspectos são totalmente antagônicas.
A primeira delas foi dominada pela figura de Mao Tsé-tung (1893-1976) e sua radical utopia igualitarista, que levou o país a experimentos como o Grande Salto Adiante (1958-1961) e a Revolução Cultural (1966-1976), durante os quais milhões de chineses morreram.
Os 30 anos seguintes tiveram a marca do pragmatismo de Deng Xiaoping (1904-1997), traduzido em sua frase “não importa se o gato é branco ou preto, contanto que pegue o rato”. Perseguido durante a Revolução Cultural, Deng conseguiu isolar o sucessor indicado por Mao, Hua Guofeng, e ser aclamado como novo líder supremo da China em 1978.
A partir daí, deu início ao movimento de abertura do país ao exterior e sua gradual incorporação à economia mundial e à globalização. A China de 1978 ainda tinha as marcas da violência da Revolução Cultural, quando universidades foram fechadas e milhões de jovens enviados à zona rural para serem “reeducados” pelos camponeses.
As mudanças adotadas desde então implicaram a reversão de muitas das medidas do período maoísta. A coletivização da terra foi abandonada e os camponeses ganharam o direito de cultivar individualmente seus lotes e vender a produção a preços de mercado. No ano passado, Pequim se distanciou ainda mais do ideal maoísta ao anunciar que os camponeses poderão arrendar seus lotes a terceiros, o que abriu caminho para o surgimento de grandes fazendas, em uma espécie de reforma agrária ao contrário _exatamete o oposto do realizado há 60 anos.
O confisco de terras dos antigos proprietários e sua distribuição aos trabalhadores rurais foi uma das principais medidas do Partido Comunista depois de chegar ao poder. A reforma agrária já havia sido adotada nas regiões do país que estavam sob controle dos revolucionários antes de 1949 e foi um dos fatores decisivos para a popularidade de Mao e seus seguidores.
Os camponeses representavam 88% da população da China naquela época e formavam a principal base de apoio dos comunistas chineses, o que contrariava a tese marxista de que a revolução seria realizada pelos operários urbanos.
O país viveu um processo vertiginoso de urbanização desde o início das reformas econômicas. Em 1980, os moradores da zona rural ainda representavam 76% da população do país. Mesmo com a mudança de milhões de pessoas para as cidades no embalo do crescimento econômico, a China comunista chega aos 60 anos como um país majoritariamente agrário, com 55% de seus habitantes na zona rural.
A propriedade privada que havia sido abolida retornou com as reformas econômicas e hoje é protegida pela Constituição. Acima de tudo, os chineses seguiram à risca o conselho de Deng Xiaoping, de que era necessário deixar alguns ficarem ricos antes dos demais _o país tem hoje o maior número de milionários do mundo.
A igualdade desejada por Mao foi substituída por um dos mais rápidos índices de crescimento de desigualdade, que divide ricos e pobres, moradores da cidade e do campo e das regiões leste e oeste do país. Mas o crescimento trouxe aumento da renda de todos os chineses e permitiu que 500 milhões de pessoas deixassem de viver abaixo da linha da pobreza nos últimos 30 anos, segundo estimativa do Banco Mundial.
O que não mudou nos últimos 60 anos foi a supremacia dos comunistas e o sistema de partido único. E essa é uma reforma que não está nos planos de Pequim.
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