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Cláudia Trevisan

22.setembro.2009 08:54:41

Sem ensino, não há solução

Há algo de errado em um modelo de ensino no qual os que estudam em colégios particulares são os mais bem preparados para ingressar nas universidades públicas gratuitas, enquanto os pobres que frequentam o primário e o secundário em instituições públicas têm mais chance de serem aprovados em universidades particulares, que normalmente são de pior qualidade e nas quais terão que pagar para estudar. Será que o Brasil pode se dar o luxo de ter ensino superior público gratuito ou é o momento de rever esse modelo, com a cobrança de anuidades de quem pode pagar e a concessão de bolsas de estudos para os que não podem?

Os números mostram que o Brasil privilegia de maneira desproporcionar o ensino superior _onde a maioria é de classe média para cima_ em detrimento do primário e secundário, no qual estudam os filhos dos mais pobres. O mesmo estudo da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCED) que citei no post anterior revela que o Brasil é o país no qual existe a maior distância entre o gasto por estudante no primário e nas universidades. De acordo com o documento, o governo investe 1.425 anualmente em cada aluno do ensino primário e 9.994 no superior. Isso significa que cada aluno de universidade pública custa aos cofres públicos valor equivalente a sete vezes o custo de um estudante do primário. É de longe a maior discrepância entre os 36 países analisados pela OCED. Desse universo, o Brasil também é o país com o menor investimento per capita na educação primária.

Os números do estudo estão ajustados de acordo com a Paridade do Poder de Compra de cada país, método que considera os preços relativos e o poder de compra de cada moeda dentro de seu mercado doméstico. As cifras são expressas em “dólares internacionais” e podem ser comparados. O Chile investe 1.936 em cada estudante primário e 6.620 nos universitários, uma distância de 3,4 vezes. Na Itália, os números são 6.835 e 8.026, respectivamente. Em média, os 30 países que integram a OCED registram gasto per capita na universidade que é 1,8 vez o que é investido em cada aluno do primário _o Brasil é membro associado da organização, que reúne principalmente países industrializados.

Enquanto registra o menor gasto per capita no primário, o Brasil destina ao cada estudante universitário valores que superam os registrados na Itália (8.026), na Coreia do Sul (7.606) e Portugal (8.787), para citar alguns exemplos. Dos gastos em educação do país, 74,2% vão para instituições de ensino primário, secundário e profissionalizante, onde estão 86,9% dos estudantes. As universidades têm apenas 2,6% do total de alunos, mas recebem 17,4% dos investimentos.

Quero deixar claro que não defendo a redução do peso do ensino superior no Brasil. Pelo contrário. Os investimentos e as possibilidades de acesso a universidades de qualidade devem ser ampliados, mas isso é impossível sem um ensino público primário e secundário de qualidade.

O que considero inadiável é a discussão dos meios de financiamento das universidades públicas. Elas devem continuar sendo gratuitas para todos? Qualquer um que dê uma volta no campus da USP pode constatar pelos carros estacionados que grande parte dos estudantes teria condições de custear seus estudos. O governo já dá bolsas de estudos para egressos de escolas públicas aprovodos em universidades particulares. Poderia fazer o mesmo nas públicas. Na China comunista, todas as universidades públicas cobram anuidades dos estudantes.

Sem a oferta de ensino primário e secundário de qualidade a toda a população, o Brasil não vai resolver sua escandalosa desigualdade social. O estudo da OCED afirma que há uma clara relação entre renda per capita de um país e os investimentos em educação primária e secundária. Essa mesma relação não é tão evidente no caso do ensino superior, diz a OCED.

O estudo revela que o Brasil aumentou o gasto per capita no ensino primário no período de 2000 e 2005, o que é uma boa notícia. Mas ainda assim, somos o lanterninha nesse ranking. Ao mesmo tempo, o país reduziu o investimento per capita no ensino superior, principalmente em razão do aumento do número de alunos. Essa é mais uma razão para o país buscar fontes alternativas de financiamento do ensino superior.

O paradoxo apontado no primeiro parágrafo deste post foi amenizado com a ampliação do número de aprovados no vestibular da Universidade de São Paulo que são egressos de escolas públicas. Com o programa de inclusão que dá bônus de 3% a esses estudantes na nota do vestibular, o percentual de aprovados que fizeram escola pública atingiu o recorde histórico de 30% no último vestibular. Isso significa que os outros 70% frequentaram escolas particulares. Há ou não há algo de muito errado nisso?

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13.setembro.2009 13:08:10

O Brasil melhorou?

O Brasil se tornou uma das coqueluches dos mercados internacionais e não há seminário no qual o país não receba elogios de economistas encarregados de aconselhar os endinheirados do mundo. Cada vez que escuto essas análises, me pergunto o quanto a vida real dos milhões de brasileiros realmente melhorou. Estive em São Paulo há um mês e a sensação é a de que todos os dramas cotidianos continuavam intactos: a escandalosa desigualdade de renda, a pobreza gritante e a violência que paira sobre todos.

Sei que a renda aumentou e a desigualdade diminuiu, mas a distância que estamos de um patamar minimamente decente é tão grande que o país não poderia se dar ao luxo de não ter um sentido de urgência para enfrentar essas questões.

Na semana passada estive em Dalian, cidade do nordeste da China, para cobrir o encontro de verão do Fórum Econômico Mundial _que realiza sua reunião mais célebre em Davos, na Suíça, durante o inverno europeu. O Brasil foi um dos destaques positivos do relatório sobre competividiade da instituição, que basicamente mede a capacidade dos países de crescerem de maneira sustentável e eficiente e, assim, melhorarem a renda e a qualidade de vida de seus habitantes.

O Brasil subiu impressionantes oito posições e foi apontado como uma das nações que devem sofrer menos com a crise atual, ao lado de China e Índia, que tiveram melhoras mais modestas no ranking, de apenas uma posição. Mesmo com o salto, o Brasil está em 56º lugar em um universo de 133 países pesquisados, atrás da China (29º) e da Índia (49º). Entre os BRICs, só a Rússa aparece em pior posição, 63ª.

Mas o que chama atenção na performance brasileira são os setores onde o país NÃO melhorou ou avançou muito pouco: educação primária, saúde e segurança, essenciais para mudar a maneira como a população experimenta sua vida cotidiana. Todas são áreas básicas, sem as quais o Brasil não poderá ir muito longe, por mais sofisticado que seja seu sistema financeiro e seu mercado de capitais.

No quesito saúde e educação primária, o Brasil permaneceu na mesma posição em que estava no ano passado, a 79ª em um universo de 133, atrás de países como México (65), Malásia (34), Tailândia (61) e Colômbia (72). Entre os BRICs, o Brasil está atrás da China (45) e da Rússia (51), ganhando apenas da Índia (101). O país aparece em 93º lugar no item segurança, dentro do qual o “crime organizado” nos coloca em 111º.

Como disse a economista Jennifer Blanke, uma das autoras do trabalho, o Brasil melhorou em áreas mais sofisticadas e avançou pouco ou nada nas mais elementares. O país ficou em 91º nos chamados “requisitos básicos”, que englobam instituições, infraestrutura, estabilidade macroeconômica e saúde e educação primária. É a pior posição entre os integrantes dos BRICs _a China aparece 36º lugar, a Rússia em 64º e a Índia em 79º.

“É difícil avançar no resto sem melhorar a qualidade da educação primária”, disse Blanke. O país também não avançou no quesito “educação superior”, ainda que registre posição mais alta, 58ª, a mesma que ocupava no ano passado.

No item “ética e corrupção” amargamos a 125º posição, o que deixa apenas sete países em situação pior. A ineficiência do poder público é outro flanco aberto, no qual estamos na 120º posição.

Os terrenos onde o Brasil avançou são importantes, mas estão a anos luz de distância dos moradores da favela de Heliópolis, em São Paulo, ou da Rocinha, no Rio. No item “mercados financeiros”, o país escalou 13 posições, para o 51º lugar, enquanto o uso de tecnologia subiu 10 pontos, para a 46ª posição.

Outra área em que o Brasil saltou 13 posições foi a “estabilidade macroecômica”, que inclui o tamanho da dívida pública em relação ao PIB, déficit público e inflação. Mas mesmo com a melhoria, nós estamos na 109ª posição, com apenas 24 países em situação pior.

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Ainda não se sabe o que mudará no país do sol nascente com a avassaladora vitória do Partido Democrático do Japão nas eleições parlamentares do dia 30 de agosto, mas já está claro que a futura primeira-dama, Miyuki Hatoyama, não se parecerá com nenhuma outra que o mundo conheceu até hoje.

Miyuko nasceu em Xangai, na China, durante a ocupação japonesa do país, está no segundo casamento e foi atriz. Se isso não bastasse para distanciá-la dos tradicionais padrões nipônicos, ela diz já ter sido abduzida por extraterrestres, ter feito uma viagem a Vênus e conhecido Tom Cruise em outra encarnação, quando ele era japonês _na vida atual, o mais próximo que o ator esteve dessa condição foi em “O Último Samurai”.

“Eu acredito que ele entenderá se eu disser ‘há quanto tempo’, quando nos encontrarmos”, disse a futura primeira-dama em uma recente entrevista, na qual também declarou que gostaria de realizar um filme com Cruise.

Além de ser estilista e desenhar algumas de suas roupas, Miyuko escreveu vários livros de culinária, entre os quais um sobre a cozinha macrobiótica hawaiana. Ela também é autora de “Coisas bem estranhas que encontrei”, no qual relata ter sido levada a uma viagem a Vênus há mais de 20 anos. “Enquanto meu corpo dormia, eu acho que minha alma entrou em uma nave espacial triangular e foi para Vênus”, escreveu Miyuko, que retratou o planeta como “muito bonito” e “muito verde”.

O homem com quem estava casada na época recebeu o relato de sua aventura com ceticismo e disse que ela havia sonhado. “Meu marido atual tem uma maneira diferente de pensar. Ele certamente diria ‘Oh, isso é sensacional’”, disse Miyuko em referência a Hatoyama, que deverá assumir o cargo de primeiro-ministro do Japão em meados deste mês.

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