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Cláudia Trevisan

20.julho.2009 11:02:35

Ganbei!

Beber sem limites é parte do ritual dos encontros políticos e de negócios da China e já ouvi vários executivos brasileiros relatarem as dificuldades de encarar banquetes regados a inúmeros brindes de “baijiu” (pronuncia-se “baidiou”), a aguardente local. Os laços de confiança com integrantes do governo e empresários se formam nessas bebedeiras, marcadas pelos gritos de “ganbei”, a versão chinesa de “saúde”, que significa “esvazie o copo”. A bebida deve ser tomada de um só gole e o copo vazio deve ser mostrado aos demais.

O hábito é extremamente arraigado na cultura chinesa e também permeia as relações de amizade. Amigo que é amigo fica bêbado junto, até cair. No caso dos encontros políticos e de negócios, alguém que seja “fraco” para a bebida pode nomear um representante para beber em seu lugar, mas só depois de alguns “ganbeis”. Por isso, muitos executivos selecionam assistentes resistentes à bebida para acompanhá-los nos almoços e jantares de negócios.

Mas beber alguns copos é obrigatório para os homens, que são vistos com certo desprezo se recusam um ganbei, a menos que tenham uma justificativa muito convincente. Às mulheres é permitida a abstinência ou brinde com bebidas mais suaves, como a cerveja.

Apesar de generalizado, o hábito começa a despertar a preocupação do governo, pelo efeito devastador que pode ter sobre a saúde de funcionários públicos. Hoje, a agência de notícias do governo (Xinhua) publicou reportagem sobre um servidor que morreu e outro que entrou em coma depois de bebedeiras homéricas em encontros oficiais.

O diretor do Departamento de Águas da cidade de Wuhan, Jin Guoqing, morreu na semana passada de ataque cardíaco depois de vários ganbeis com um grupo que visitava a cidade. Também na semana passada, Lu Yanpeng, chefe de um distrito da província de Guangdong, entrou em coma depois de beber excessivamente em um jantar com uma autoridade do Partido Comunista.

Os banquetes chineses são elaboradíssimos, com uma sucessão de pratos e inúmeros brindes. De acordo com a Xinhua, o poder público gasta por ano o equivalente a US$ 73 bilhões em banquetes! Qualquer visita oficial ou de negócios de um estrangeiro à mais insignificante cidade chinesa é coroada por um banquete, ao qual comparecerão inúmeros pessoas sem qualquer relação com o tema que motivou o encontro. Para muitos burocratas, essa é a única chance de se esbaldar em uma orgia etílico-gastronômica.

Para os estrangeiros não acostumados a beber tanto, o hábito pode ser um problema. Há poucos dias, o executivo de uma multinacional me contou que saiu carregado depois de um jantar com autoridades de uma província chinesa. Outro me disse ter recebido telefone de um potencial cliente com um desafio: “quanto você pode beber antes de cair?”. Os dois se encontrariam em um jantar no dia seguinte.

Será que é caso para pagamento de um adicional de insalubridade etílico?

Aproveito o espaço do blog para convidar a todos para um “ganbei” no lançamento de meu novo livro, “Os Chineses”. O evento etílico-cultural será no dia 30 de julho, a partir das 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. Aí vai o convite:

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16.julho.2009 00:58:20

A visão dos uigures

Aí vai a reportagem publicada no Estadão na segunda-feira, 13 de julho.

Donos de uma cultura que não tem nenhuma semelhança com a chinesa, muitos uigures se consideram habitantes de uma terra dominada por invasores. A hostilidade teve sua mais irada manifestação no dia 5 de julho, com agressões e choques com a polícia que deixaram 184 mortos, dos quais 137 han, a etnia majoritária da China. As queixas incluem a repressão religiosa, a discriminação econômica e o desprezo por sua identidade cultural. “Eu sou muçulmano, esta é minha terra, mas eu não posso ser livre aqui”, disse ao Estadão um segurança uigur que se identificou como Murat, 68.

A tensão entre os dois grupos se agravou depois do início das reformas econômicas, que ganharam impulso em Xinjiang nos anos 90. A província cresce a taxas superiores a dois dígitos há mais de uma década, mas a prosperidade beneficiou principalmente os chineses han, sustentam os muçulmanos. “Todo o dinheiro está nas mãos dos han. Muitos uigures não têm trabalho, não têm casa, não têm dinheiro”, ressaltou Haire Jul, dona de uma pequena loja de roupas.

Os uigures se ressentem do fato de que a língua dos negócios e dos serviços públicos é o mandarim dos han. Muitos jovens falam uigur, mas não sabem mais escrever ou ler na língua árabe de seus ancestrais. Parizat, estudante de Direito, declarou que se sente discriminada na universidade. “Eles dizem que temos que aprender chinês muito bem, do contrário será difícil encontrarmos trabalho.” Um homem na faixa dos 50 anos observou que os uigures mais velhos não sabem mandarim e, ainda assim, têm que usar a língua dos han quando preenchem formulários ou documentos nas repartições públicas. Segundo outro morador da área muçulmana, antes das reformas econômicas, hans e uigures tinham a “mesma vida” e tudo era “mais justo”. Com a prosperidade, muitos hans enriqueceram e passaram a desprezar os uigures”, relatou.

A reportagem do Estadão era cercada por várias pessoas cada vez que começava a entrevistar alguém no bairro, todos querendo falar do tratamento que consideram discriminatório, da prisão de inocentes depois dos conflitos do dia 5 e do fato de que a imprensa chinesa ignorou os ataques realizados pelos han aos uigures no dia 7 de julho. “A televisão só fala dos feridos han e não menciona os uigures”, afirmou uma mulher que se identificou como Razia.

Xinjiang passou a fazer parte do território chinês durante a última dinastina do império, a Qing (1644-1911), que realizou a maior expansão das fronteiras do país da história. Com o fim do império, em 1911, Xinjiang experimentou uma relativa independência, quando o restante da China mergulhava em um período de desagregação, invasão pelo Japão e guerra civil entre comunistas e nacionalistas. A última dinastia foi fundada por invasores manchus, que dominaram os chineses han e as inúmeras minorias que habitam o país.

Durante os quase três séculos de duração da dinastia Qing, os han sofreram sob o controle dos invasores, em uma submissão que tinha como principal símbolo o uso do corte de cabelo manchu para os homens: a parte da frente da cabeça tinha que ser raspada e a parte de trás do cabelo arrumada em uma longa trança.

A Revolução Republicana foi uma revolta nacionalista dos han contra os invasores e muitos em Xinjiang e no Tibete julgaram que também estariam livres da dominação externa. Mas o Partido Comunista assumiu o poder com a intenção de restabelecer a unidade territorial existente na China até o fim do império e enviou tropas do Exército de Libertação Popular para as duas províncias do extremo oeste, as maiores do país, com 30% do território total.

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O Estado de S.Paulo publicou este texto no domingo, que enviei de Xinjiang. Como nem todos vocês têm a assinatura do jornal, reproduzo a reportagem abaixo. Em seguida, vou colocar a relativa aos uigures, os muçulmanos que representam 45% da população da província e são os tradicionais habitantes da região.

Shi Yan Wen tinha 24 anos em 1957, quando deixou sua vila natal na província de Jiangsu e migrou para Xinjiang, no extremo o oposto da China, em uma viagem de caminhão que na época demorava 15 dias.
Como milhares de chineses han, Wang atendeu a ordem do Partido Comunista de ajudar a “reconstruir” o país depois do fim da guerra civil, em 1949, e se mudou para a região que nos anos 50 era habitada quase exclusivamente por uigures e outros grupos muçulmanos.
Os han construíram estradas, ferrovias, usinas de eletricidade e se consideram os responsáveis pelo desenvolvimento econômico e a integração da antes isolada região ao restante da China.

“O país precisava de muitos chineses han para construir Xinjiang. Se não fossem os han, Xinjiang não seria tão desenvolvida como hoje. Os uigures não conseguiriam fazer isso sozinhos”, disse Shi Yan Wen ao Estadão na sexta-feira no bairro chamado “Mercado de Cavalos”, onde vivem hans, uigures e huis, que são os hans muçulmanos.

A política de estímulo à migração está na origem do conflito étnico que explodiu com os ataques de uigures aos chineses han no dia 5 de julho. As agressões e os choques com a polícia provocaram a morte de 156 pessoas e deixaram pelo menos 1.000 feridos.
No início dos anos 50, a população de chineses han em Xinjiang era de 6% e a de uigures, 74%. O restante era formado por outros grupos étnicos da região. Em 1964, o percentual de hans havia saltado para 32%, de acordo com o censo chinês, no maior aumento proporcional registrado desde a chegada do Partido Comunista ao poder, em 1949.

A participação de hans na população de Xinjiang chegou ao pico de 41% em 2000 e caiu para 39% em 2007, quando a percentual de uigures era de 46%. De acordo com os “pioneiros”, a relação entre imigrantes han e uigures era amistosa. “Nós visitávamos os uigures no Ramadan e eles nos visitavam no Ano Novo chinês”, lembrou Wang Cao Tao, 78, que migrou da província de Shangdong para Xinjiang em 1957.

As famílias dos dois chineses han já estão na terceira geração em Urumqi, capital da província, e eles se consideram tão locais quanto os uigures que habitavam a região originalmente. Wang Cao Tao tem quatro filhos e três netos, todos vivendo na cidade. A família tem um pequeno mercado ao lado de um restaurante uigur e de um café de propriedade do norte-americano Paul Van Allen, que vive em Urumqi há sete anos.

De acordo com Allen, um dos filhos de Wang Cao Tao evitou que o restaurante uigur fosse atacado na terça-feira por um grupo de chineses han que saiu às ruas para se vingar dos conflitos de domingo. “Quando os agressores chegaram, ele disse que era o dono do lugar”, disse o norte-americano ao Estadão.

O taxista Feng Xin Di, 43, nasceu em Urumqi, filho de imigrantes que se mudaram da província de Shanxi para Xinjiang nos anos 50. Seu pai trabalhava na construção de estradas e sua mãe vendia verduras na rua. “Por que vieram? Esta é uma só nação e viver aqui ou lá não faz diferença”, observou.

Os chineses han se concentram em Urumqi, no norte da província, onde representam 75% dos 2,3 milhões de habitantes. A cidade muçulmana por excelência é Kashgar, a maior de Xinjiang, com 3,5 milhões de moradores, 89% dos quais uigures. Shi Yan Wen refuta as acusações de que os uigures são discriminados e ressalta que eles são beneficiados por políticas de ação afirmativa do governo chinês, entre as quais está a exigência de menor pontuação nos exames de entrada na universidade e não-aplicação da política de filho único imposta aos hans.

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14.julho.2009 01:04:51

A China muçulmana

Os letreiros escritos em mandarim são a única indicação de que o bairro muçulmano de Urumqi é na China. Tudo o mais _os rostos, as roupas, os restaurantes, os vendedores de rua, a língua_ remete a um país islâmico da Ásia Central. Muitas mulheres andam com vestidos longos e a face totalmente coberta, enquanto os homens usam o pequeno chapéu redondo típico dos muçulmanos. Em vez de templos taoístas ou budistas, há mesquitas, e o porco, a carne mais consumida na China, está ausente do cardápio dos restaurantes. A carne por excelência é o carneiro, vendido inteiro em barracas ao ar livre ou assado em espetinhos (kebabs). Outra diferença é que há um número muito maior de crianças nas ruas do que nas áreas habitadas pelos chineses han, já que as minorias étnicas não estão sujeitas à política de filho único.

Até camelos é possível ver na rua, mas eles são muitos mais comuns em Kashgar, a cidade do sul habitada majoritariamente por uigures, a etnia que representa 45% da população de Xinjiang. Os chineses han migraram em massa para a região a partir da década de 50, depois da chegada dos comunistas ao poder, em 1949, e hoje equivalem a 39% dos habitantes da província, a maior do país. Em Urumqi, os hans são maioria, com participação de 75% na população.

Os conflitos étnicos que explodiram no dia 5 de julho provocaram a morte de 184 pessoas, das quais 137 eram hans, 46 uigures e 1 hui, outra minoria muçulmana. No dia 7, foi a vez dos hans saíram armados às ruas em busca de vingança pelas mortes do dia 5. Os choques provocaram uma fratura exposta na relação entre os dois grupos étnicos, que temem ser agredidos novamente no futuro.

No fim de semana seguinte ao dos ataques, havia uma tensa tranquilidade no bairro muçulmano, com os moradores tentando tocar suas vidas em meios à forte presença policial na região. Aí vão as fotos:

Mulheres com crianças

Uigures em frente a uma das mesquitas de Urumqi

Mercado de rua no bairro muçulmano de Urumqi

Família uigur

Mulheres uigures

Crianças na rua

Vendedores de pão

Camelo

Eu, prestes a devorar um kebab de carneiro, tendo como pano de fundo um açougue muçulmano

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01.julho.2009 01:02:48

Eu quero sossego!

Se em Bali dá para ficar longe da praia, em Gili Trawangan o mar é onipresente e espetacular. Trawangan é a maior de um conjunto de três ilhotas paradisíacas que pertencem a Lombok, outra ilha da Indonésia que é vizinha de Bali. Conhecidas como “Ilhas Gili”, elas têm areia branca, água transparente, muitos corais, exuberante vida marinha e vegetação tropical. Não há carros nem motos e as pessoas se locomovem a pé, de bicicleta ou de charrete.

Também são raros alguns confortos urbanos, como água doce no chuveiro, presente apenas nos hotéis mais caros. Nos demais, incluindo o meu, é utilizada água do mar retirada de poços artesianos. Como toda a Indonésia, com exceção de Bali, Lombok e as Ilhas Gili têm uma população majoritariamente muçulmana e várias vezes por dia é possível escutar as orações realizadas na mesquita da ilha.

Depois de alguns dias em Bali, eu, minha amiga Janaína Silveira e sua irmã Maíra pegamos um barco rápido em direção a Gili Trawangan, onde chegamos em uma hora e meia. O lugar é desses pelos quais se apaixona de maneira instantânea e onde é possível se sentir em casa sem fazer esforço. Os rostos e lugares logo se tornam familiares e há uma rotina malemolente de praia, mergulho, passeios de barco, pôr do sol, jantar à beira mar e cerveja no fim da noite.

A ilha tem 3 km de extensão e 2 km de largura e uma caminhada a seu redor demora cerca de quatro horas. Dá para ir a pé a todos os bares e restaurantes e a praia é super aconchegante. Os restaurantes à beira mar fornecem espreguiçadeiras de graça, em troca de venda de bebidas e, eventualmente, comida. A areia é branca e as árvores dão sombra aos que desistem de se bronzear. Na água, é possível chegar com poucas braçadas a enormes formações de corais e ficar horas com um snorkel contemplando os peixes e, se tiver sorte, tartarugas (eu tive e vi uma, enorme, nadando até a superfície para respirar).

Aí vão algumas fotos de Gili Trawangan:

A praia

Boa vida à beira mar

A água

O táxi local

Pôr do sol com o vulcão de Bali à esquerda e lua crescente no alto

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