Praia é a primeira imagem que vem à mente quando se pensa em Bali, mas a ilha na Indonésia tem uma personalidade que vai muito além das boas ondas e do mar azul. Na semana passada, conheci um pouquinho desse outro mundo, marcado pela profunda religiosidade dos 3,2 milhões de habitantes da ilha, 93% dos quais professam um hinduísmo com toques budistas. Os hindus são majoritários em Bali, mas minoritários na Indonésia, que é o mais populoso país islâmico do mundo _86% de seus 240 milhões de habitantes são muçulmanos.
O cotidiano dos balineses é impregnado de rituais para agradar os deuses e apaziguar os demônios. Entre eles, o mais comum é a entrega de oferendas nos milhares de templos espalhados pela ilha. Há 20 mil públicos e um número incontável nas casas das pessoas, todas equipadas com seu templo familiar. O hinduísmo tem um panteão de deuses e os balineses tiveram que adaptar sua fé à Constituição da Indonésia, segundo a qual todas as religiões professadas no país devem ser monoteístas. A solução foi declarar que os moradores da ilha acreditam em um único deus, Sanghyang Widi Wasa, que se manifesta nas três principais divindades do hinduísmo: Brahma, Vishnu e Shiva.
Mas os balineses continuam a ver o divino ou o demoníaco nas montanhas, no sol, nos rios, nas árvores, no mar e realizam rituais para se harmonizar com essas forças e evitar que elas manifestem sua fúria. Muitos na ilha acreditam que Bali foi poupada do devastador tsunami de 2004 em razão dos elaborados rituais realizados para purificar a ilha e agradar os demônios que habitam o mar _os deus ficam nas altas montanhas.
Minha primeira parada em Bali foi a cidade de Ubud, que fica a uns 40 minutos da costa e é considerada o centro cultural da ilha. Uma despretensiosa caminhada pode ser interrompida por procissões de balineses que carregam oferendas e tocam música para os deuses. As manifestações artísticas têm um caráter religioso e são executadas como uma forma de ritual: a música, a dança, a pintura e a escultura quase sempre têm a função de reverenciar o divino.
Ao redor e ao norte de Ubud, há inúmeras vilas rurais dedicadas à plantação de arroz, nas quais todas as casas têm templos logo na entrada. Também há vilas dedicadas ao artesanato e divididas de acordo com sua especialidade. Algumas só fazem esculturas em pedra, outras se dedicam ao entalhe de madeira, outras à prata, aos sarongues e assim por diante.
Aí vão algumas fotos que revelam a Bali além-mar:
Procissão nas ruas de Ubud, na qual as mulheres levam oferendas na cabeça, os homens tocam instrumentos e todos cantam
As oferendas são arrumadas em pequenas cestas de folha de bananeira e trazem arroz, frutas, flores e incenso. Elas estão presentes em virtualmente todos os lugares de Bali
Cercada de oferendas, mulher reza em templo no centro de Ubud
Entrega de oferendas e oração no mesmo templo
Campos de arroz e o vulcão Agung, a mais alta e mais sagrada montanha de Bali. Os templos das casas são construídos na direção do vulcão e muitos balineses dormem com suas cabeças voltadas para ele
Vila rural na qual os moradores secam arroz em frente às suas casas
Entrada para o templo familiar de uma casa balinesa; em seguida, o templo construído ao ar livre, como todos os demais
A dança é fundamental na vida dos balineses e todos aprendem a arte quando crianças. Os que possuem mais talento são escolhidos para se dedicarem à atividade na vida adulta. Os movimentos dos olhos, exageradamente abertos, dos dedos das mãos, da cabeça e dos pés dão um caráter único à dança balinesa
Dançarino durante espetáculo em Ubud
Meu próximo post será sobre o mar, visto de uma pequena ilha vizinha de Bali
Ir até a fronteira entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte é ser transportado a um tempo pré-queda do Muro de Berlim, quando o planeta era dividido entre blocos comunista e capitalista e o confronto nuclear pairava sobre nossas cabeças. O pequeno país é comandado de maneira totalitária por Kim Jong-il, que sucedeu seu pai, Kim Il-sung e pretende entregar o poder a seu filho, Kim Jong-un, em um peculiar caso de comunismo dinástico.
A divisão da Coreia foi decidida pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial, que colocaram o norte sob a influência soviética e o sul na órbita norte-americana. Unificado durante séculos, o país foi cindido em duas metades antagônicas, que se distanciariam cada vez mais com o passar do tempo. Os dois lados se enfrentaram em uma guerra sangrenta a partir de 1950, quando Kim Il-sung invadiu o sul em uma tentativa desastrada de reunificação da Coreia sob o comunismo.
O confronto acabou mais ou menos onde começou, com uma trégua assinada em 1953. Não houve um acordo de paz e, tecnicamente, os dois países continuam em guerra, condição que inclui os Estados Unidos, principal aliado de Seul. Ainda hoje, há 28 mil soldados norte-americanos na Coreia do Sul, muitos em uma enorme base localizada na área urbana da capital, ao lado do Memorial da Guerra.
Diante do antagonismo entre sul e norte, o armistício de 1953 decidiu pela criação de uma “zona desmilitarizada” de 4 km de largura, que ocupa os 241 km de extensão da fronteira. Nessa faixa, é proibida qualquer atividade civil, com exceção de duas pequenas vilas rurais próximas de bases militares de cada um dos lados. A fronteira é de longe a mais militarizada de todo o mundo e exibe o recorde global em número de minas terrestres. Isso impede que os refugiados do norte cruzem a zona desmilitarizada em busca de asilo no sul e sejam obrigados e tomar a perigosa rota de fuga pela China, onde correm o risco de serem devolvidos ao regime de Kim Jong-il.
O ponto em que os dois lados mais se aproximam é Panmunjom, onde foi assinado o armistício de 1953. Lá, não há as enormes cercas de arame que marcam o restante da fronteira, e soldados do norte e do sul ficam frente a frente, muitas vezes ao alcance da mão. A linha militar de demarcação é indicada por uma faixa de concreto no chão. Sobre ela, foram construídas pequenas casas, também divididas rigorosamente ao meio. Um delas serve para encontros de cúpula entre as duas Coreias, nos quais os representantes sentam frente a frente, cada um de seu lado da fronteira _os microfones no centro da mesa seguem a linha militar de demarcação que continua depois das paredes.
O local onde a linha demarcatória não possui grades. O prédio do fundo está na Coreia do Norte. Na frente da foto estão soldados sul-coreanos. As casas do centro são divididas ao meio pela linha, que aparece um pouco apagada a partir do meio da última casa da direita.
A sala onde são realizadas negociações militares entre os dois países. A mesa do centro é dividida exatamente ao meio no mesmo ponto onde passa a linha demarcatória. Os turistas do lado de lá estão tenicamente na Coreia do Norte e a porta que aparece atrás do soldado sul-coreano leva diretamente ao país de Kim Jong-il.
A linha demarcatória: o lado direito é a Coreia do Norte, o esquerdo, a Coreia do sul.
A cerca de arama que protege a chegada à zona desmilitarizada e que está presente em uma versão reforçada ao longo de toda a fronteira.
Soldado norte-coreano aparece no alto da escada.
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