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Cláudia Trevisan

A “Casa dos Sonhos” é uma pequena construção encravada no complexo de um templo taoísta de 700 anos e que se propõe a ser uma espécie de museu dos sonhos célebres da literatura e da mitologia chinesa. Perdido em um vilarejo de 50 mil habitantes a 440 km de Pequim, o museu traz pinturas que reproduzem sonhos de personagens das obras clássicas, de imperadores, de filósofos e de poetas. As pinturas não têm nada de especial, mas a “Casa dos Sonhos” me pareceu uma forma genial de perpetuação e disseminação de ícones literários. Além disso, é uma miniatura dos mecanismos que fazem com que os chineses sejam chineses há tanto tempo.

A longevidade da cultura e da identidade nacionais são um dos aspectos marcantes desse país. A escrita foi simplificada depois da revolução de 1949, mas não mudou muito em relação ao sistema utilizado há mais de 2.000 anos. Atacado de maneira feroz na Revolução Cultural (1966-1976), o confucionismo sobreviveu e experimenta um renascimento na “sociedade harmônica” do presidente Hu Jintao. Os clássicos da literatura e as obras-primas da ópera também resistiram e continuam a ser lidos por milhões de pessoas.

Entre os sonhos retratados no museu está o de Zhuang Zi (369 – 289 a.C.), o filósofo taoísta que sonhou que era uma borboleta e, quando acordou, não sabia se era ele sonhando que era uma borboleta ou se ele era uma borboleta sonhando que era ele. Também aparece Li Bai (701 -762), o grande poeta da dinastia Tang (618 – 907) e um dos maiores da China, que celebrava a natureza, a Lua e a bebida. Claro que há um quadro para Confúcio (551 – 479 a.C.), o filósofo que como nenhum outro marcou a identidade chinesa.

Algumas das pinturas retratam as próprias obras literárias, como “O Sonho do Quarto Vermelho”, um raio-x da sociedade imperial escrito por Cao Xueqin em meados do século 18 e considerado um dos mais importantes romances da literatura mundial. Mas o maior quadro é dedicado a “O Pavilhão das Peônias”, a obra-prima da dramaturgia chinesa frequentemente comparada a “Romeu e Julieta”. Escrita por Tan Xianzu (1550 – 1616), ela conta a história de amor entre a heroína Liniang e o aspirante a mandarim Liu Mengmei, com quem ela se encontra e por quem se apaixona durante um sonho. A diferença com Shakespeare é o final feliz.

A “Casa dos Sonhos” fica na cidadezinha de Huang Liang Meng, onde ocorre um dos episódios do conto “O Mundo dentro de um Travesseiro”, escrito por Shen Jiji (740 – 800). Foi em Huang Liang Meng que o personagem principal, Lu Sheng, adormeceu sobre um travesseiro emprestado por Lu Dongbin, um dos oito imortais do taoísmo. Lu Sheng sonhou que se casava com uma mulher rica, era aprovado nos exames para ser funcionário do império, tinha cinco filhos e morria aos 80 anos _todas as aspirações dos homens da época imperial. Quando acordou, viu que se encontrava no mesmo lugar e que nem mesmo a comida que estava sendo preparada quando adormeceu estava pronta.

Aí vão algumas fotos da “Casa dos Sonhos”.

A entrada da “Casa dos Sonhos”

A borboleta e o filósofo Zhuang Zi

Li Bai, a Lua e a bebida

O corredor dos sonhos de filósofos e poetas

“O Pavilhão das Peônias”, o Romeu e Julieta da China

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Ante de encerrar sua rápida visita à China, o presidente Lula criticou o pequeno número de diplomatas da Embaixada do Brasil em Pequim, como se a decisão de aumentá-lo não dependesse de seu próprio governo. Segundo ele, a diminuta representação nacional na terceira maior economia do mundo e agora principal destino das exportações do Brasil decorre da tradição do país de “pensar pequeno” e da ausência de uma estratégia de inserção no mundo.

Lula assumiu a presidência em 2003 e, desde 2005, a China está entre os três principais parceiros comerciais do Brasil. Apesar disso, o Brasil tem uma lotação de apenas 12 diplomatas em Pequim, incluindo o embaixador, número idêntico ao de Moscou, capital de um país que ocupa o décimo lugar entre os destinos das exportações nacionais. Dessas 12 vagas, apenas nove estão ocupadas. A cifra equivale a pouco mais da metade da lotação de Paris e é inferior à da Itália, países que ocupam o 13º e o 9º lugares, respectivamente, no ranking das vendas nacionais.
Além disso, essas duas cidades européias contam com consulados gerais, que cuidam dos processos de emissão de vistos e da assistência a brasileiros. Em Pequim, esse trabalho é feito pela embaixada. O consulado de Paris tem quatro diplomatas e de Roma, três.

A lotação da embaixada em Pequim é de 12 pessoas, mas foram poucos os períodos em que todas as vagas estiveram preenchidas. O número de diplomatas deve subir para 11 nas próximas semanas, o que deixará a embaixada do Brasil em Pequim com um tamanho comparável à da representação da Venezuela, cujo PIB equivale a um quinto do PIB brasileiro.

Mesmo com o aumento, o número está longe de atender a demanda de um país que ganhou o peso que a China tem para o Brasil e o mundo. Com a sobrecarga de trabalho, não é possível destacar um diplomata para cuidar exclusivamente de promoção comercial, por exemplo, uma área fundamental para o setor privado.

A China caminha para se tornar a maior potência comercial do globo e teve no ano passado um volume de importações de US$ 1,1 trilhão, mais de cinco vezes o total das exportações brasileiras. Todos os países com pretensões de aumentar suas vendas ao país mantêm na China equipes encarregadas de buscar mercados e abrir o país a seus produtos.

O esforço de promoção comercial vai ganhar algum fôlego com a abertura em Pequim do escritório da Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex), que terá um diretor, César Yu, e mais quatro funcionários. Mas o número é minúsculo quando comparado ao escritório de promoção comercial que a China possui no Brasil, o China Trade Center, que tem cem funcionários atuando nos dois países.

Desde que assumiu o cargo, em outubro, o embaixador Hugueney acelerou o preenchimento dos postos vagos e solucionou o problema dos atrasos na concessão de vistos, que começavam a atrapalhar os investimentos e o comércio bilateral. Muitos empresários estavam desistindo de viajar ao Brasil em razão da demora na obtenção do visto, que podia chegar a um mês. A situação deverá melhorar também com a abertura do consulado do Brasil em Cantão, no sul da China, na província que concentra grande parte das empresas exportadoras e onde está a maior comunidade de brasileiros no país asiático. Mas o tamanho absolutamente inadequado da embaixada parece estar longe de uma solução.

Abaixo está uma lista de alguns postos no exterior que têm lotação superior aos 12 de Pequim:

Assunção (Paraguai) – 17, sem contar 3 do consulado geral
Berlim (Alemanha) – 15
Bogotá (Colômbia) – 13
Londres (Inglaterra) – 14, mais 4 do consulado geral

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06.maio.2009 05:29:18

A vila do futuro

A Revolução Comunista, a Revolução Cultural e décadas de materialismo histórico não acabaram com a profunda superstição dos chineses, e uma das prósperas profissões que reemergiram depois da abertura econômica iniciada em 1978 é a de videntes. Hoje estive na zona rural realizando entrevistas e, por acaso, acabei em uma pequena cidade de camponeses célebre em todo o país por seus videntes.

Assim que o carro em que eu estava entrou na primeira rua do lugar, uma mulher já perguntou ao motorista se nós queríamos saber nossa sorte. Pouco depois, passamos por um homem que agitava um instrumento musical de madeira com a mão para anunciar sua habilidade de prever o futuro. Já que estava lá, decidi consultar um vidente e pedi para o motorista perguntar qual era o mais respeitado da vila.

Seguindo as indicações, chegamos a uma loja em que enormes caracteres chineses colocados na porta de vidro anunciavam as habilidades do profissional: escolha ou mudança de nomes (acredita-se que o nome influencia a sorte de quem o carrega), respostas a todas as questões relativas ao futuro e conselhos em geral. Quando entramos, havia cinco pessoas aguardando por sua vez, todas na mesma sala em que o vidente lia a sorte de um sexto cliente. Como quase tudo na China, as consultas sobre o futuro são desprovidas de privacidade e todos escutam as angústias que afligem quem estava à sua frente na fila.

Diante da grande demanda, o vidente nos aconselhou a consultar seu concorrente, que tem uma sala logo ao lado da sua, na porta da qual estava anunciada uma habilidade adicional: a de definir a compatibilidade da astrologia entre pessoas que vão se casar. Extremamente comum no passado, a prática continua a ser adotada por vários pais na China de hoje.

A procura pelos serviços do Sr. Miao era menor e fui atendida logo que cheguei. A consulta durou mais tempo porque foi medida por duas pessoas. Eu falava em inglês com minha intérprete, que falava em mandarim com o motorista e, este, por sua vez, fazia a tradução para o dialeto local. Outra dificuldade foi o calendário. Dei minha data de nascimento pelo calendário solar, mas os videntes chineses trabalham com o calendário lunar.

O Sr. Miao consultou um caderninho que parecia ter sobrevivido ao fim do império, guardado em uma incongruente capa de plástico nova, que trazia estampado um desenho do Snoopy. Feitos os cálculos, ele concluiu que eu nasci no dia 13 de setembro e não em 6 de novembro. Também disse que entre os cinco elementos que regem o universo (fogo, madeira, água, metal e terra), o meu é fogo.

A partir daí, a consulta seguiu com a vaga descrição do meu passado e algumas previsões sobre o futuro. No fim, eu poderia perguntar qualquer coisa e aparentemente obter uma resposta exata _na placa ao lado de sua porta, o Sr. Miao dizia que poderia prever até em que data uma pessoa seria promovida. Acabei frustrando meu vidente pela ausência de curiosidade em relação aos detalhes do que me aguarda e a consulta foi encerrada.

Além dos profissionais do futuro, a cidadezinha de Huang Liang Meng é famosa por ser o local de uma das inúmeras lendas literárias chinesas, que cerca um intelectual pobre da dinastia Tang (618-907) chamado Lu Sheng. Como todos os homens educados de seu tempo, ele sonhava em ser um funcionário da corte imperial, mas foi reprovado nos exames. Desapontado, ele se hospedou em uma taberna de Huang Liang Meng onde encontrou um velho homem, que na verdade era um dos oito imortais do taoísmo. Depois de reclamar da má-sorte e da falta de reconhecimento de seu talento, Lu Sheng recebeu do imortal, Lu Dongbin, um travesseiro e o conselho para que dormisse um pouco.

Lu Sheng sonhou que havia sido aprovado nos exames, se casado com uma mulher rica, tido cinco filhos e vivido até os 80 anos _tudo o que um chinês do império mais desejava. Ao despertar, percebeu que continuava no mesmo lugar, com as mesmas roupas, e que o sorgo que impacientemente esperava comer antes de dormir ainda estava no fogo.

O primeiro vidente e alguns de seus clientes

O segundo vidente, sr. Miao

As portas de entrada das salas dos dois videntes; a do sr. Miao é a da direita

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